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Escola falha no debate ambiental

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Desde que ganhou contornos mais evidentes e dramáticos, a crise climática deixou de ser um tema periférico para se infiltrar no vocabulário nacional. Ondas de calor, secas prolongadas, enchentes devastadoras e recordes sucessivos de temperatura passaram a ocupar o noticiário, impulsionados pelo avanço da ciência e por uma cobertura jornalística mais atenta à dimensão estrutural do problema. Essa incorporação, no entanto, é desigual e incompleta. O fato de o tema ter ganhado centralidade no debate público não significa que tenha sido assimilado de forma homogênea pela sociedade – muito menos pelas novas gerações, grupo essencial, já que não há futuro possível se não for também construído, compreendido e valorizado por quem vai habitá-lo.

 

É esse descompasso que um estudo recém-divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e o Itaú Social, ajuda a evidenciar. Ao ouvir cerca de 2,3 milhões de estudantes do ensino fundamental em todas as regiões do País, a pesquisa revela que temas ambientais e de sustentabilidade figuram entre os menos valorizados pelos próprios alunos quando questionados sobre o que consideram importante aprender na escola. Apenas um em cada dez estudantes menciona questões ambientais como relevantes para sua formação. Em outras palavras, nove em cada dez adolescentes passam pela escola sem perceber sentido, prioridade ou urgência no debate ambiental.

 

O dado causa estranheza. Em um país cada vez mais exposto a eventos climáticos extremos – da crise hídrica às enchentes, das queimadas ao colapso de ecossistemas –, seria razoável supor que a escola refletisse essa realidade. O estudo sugere, contudo, que a distância não está apenas entre os alunos e o tema, mas entre o currículo escolar e o mundo concreto. A sustentabilidade aparece, quando aparece, de forma abstrata ou episódica, dissociada da experiência cotidiana dos estudantes e das escolhas que moldam suas vidas.

 

Essa constatação ganha ainda mais força quando cotejada com outro dado recente, também do MEC, sobre as expectativas dos alunos em relação ao ensino. Segundo esse levantamento, os estudantes manifestam de forma clara o desejo por aulas que consigam articular teoria e prática, conectando conteúdos escolares a problemas reais e aplicações visíveis. Não se trata de rejeição ao conhecimento, mas de recusa a um aprendizado sem sentido. Os alunos querem compreender por que aprendem o que aprendem – e para quê.

 

A combinação dos dados desmonta uma interpretação conveniente, mas equivocada: a de que os jovens seriam indiferentes às questões ambientais. O problema não é falta de interesse, mas de mediação pedagógica eficaz. A escola falha ao não transformar a emergência climática em objeto de aprendizado significativo e transversal. Ao não relacionar clima, meio ambiente, economia, território e qualidade de vida, o ensino empurra a sustentabilidade para um lugar marginal, incapaz de disputar atenção com outros conteúdos.

 

O paradoxo é evidente. Nunca se discutiu tanto o clima no debate público e nas políticas públicas. Ainda assim, essa discussão chega às salas de aula de forma fragmentada e pouco inteligível para os estudantes. O resultado é uma geração que vive os efeitos da crise climática, mas não os reconhece como parte estruturante de sua formação escolar. A responsabilidade por esse descolamento não pode ser atribuída apenas aos professores. Ela recai sobre políticas curriculares excessivamente formais, sobre a fragilidade da formação docente continuada e sobre uma concepção de ensino que ainda separa o conhecimento escolar dos dilemas do mundo real.

 

Se a escola pretende formar cidadãos capazes de enfrentar os desafios do século 21, não pode tratar a emergência climática como nota de rodapé. Integrar sustentabilidade ao currículo não significa acrescentar mais um conteúdo, mas repensar métodos, linguagens e prioridades. Ignorar esse desafio é condenar a educação a falar cada vez menos com o tempo em que existe – e com o futuro que deveria ajudar a construir.

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