Busque abaixo o que você precisa!

Tensão no IBGE

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Após uma ligeira trégua, 2026 começou bastante agitado no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 19 de janeiro, o instituto confirmou a exoneração da pesquisadora Rebeca Palis, até então à frente da Coordenação de Contas Nacionais, área que responde pelo cálculo do Produto Interno Bruto (PIB). Em solidariedade, pelos menos outros três gerentes da área que era coordenada por Rebeca pediram exoneração, mas seguirão nos postos até a divulgação do PIB, no dia 3 de março. Além disso, na quarta-feira passada, outra servidora, a gerente Ana Raquel Gomes da Silva, foi exonerada da Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais (GECOI).

 

Com isso, reacende-se um clima de tensão entre o presidente do instituto, Marcio Pochmann, e os servidores. Para o sindicato da categoria, Pochmann dá continuidade a uma caça às bruxas “contra servidores que se posicionam na defesa técnica, institucional e histórica do IBGE”. Antes da exoneração de Ana Raquel, Pochmann já havia rebatido as acusações de autoritarismo e afirmou que sua gestão serve para “tomar decisões”. Ele também propôs que seus críticos estudassem o que foi o instituto nos anos 1960 e 1970, sob a ditadura militar, e indagou “quantos colegas de IBGE foram presos, demitidos, perseguidos” naquela época.

 

Além disso, nas redes sociais, Pochmann afirma que sob sua administração o IBGE está passando por um salto organizacional e produtivo. Já entre os servidores há relatos de deterioração do clima no ambiente de trabalho. Os desentendimentos entre Pochmann e os técnicos do IBGE não são de hoje. Pochmann tentou emplacar uma fundação batizada de IBGE+, que prestaria serviços para organizações privadas. Já os servidores apelidaram o projeto de “IBGE paralelo”, por entenderem que ele representava “risco institucional”. Após muita celeuma, o projeto foi suspenso.

 

Fato é que o clima beligerante no principal provedor de estatísticas do País em nada contribui para a solidez institucional do Brasil. Muito pelo contrário. Credibilidade, como se sabe, se constrói lentamente, mas desvanece em um estalar de dedos. Tudo o que o Brasil não precisa é de que a população, os agentes econômicos e os investidores coloquem sob suspeição o trabalho de uma instituição de serviços tão fundamentais quanto o IBGE. Nos EUA, por exemplo, o presidente Donald Trump demitiu, em agosto de 2025, a chefe do BLS, o órgão estatal que compila estatísticas de emprego, porque discordou dos dados divulgados. Pior: acusou o órgão de fraudar números para favorecer seus adversários, sem apresentar provas. Não é possível dimensionar o estrago que isso causa na confiança sobre o trabalho do BLS.

 

Por aqui, espera-se que a beligerância no IBGE seja apaziguada o quanto antes, e que o instituto possa continuar realizando seu importante trabalho com o rigor técnico necessário, cumprindo o calendário de divulgações determinado. 

 

É preciso reconhecer, porém, que, em meio a uma onda de exonerações e troca de acusações, a execução a contento desse trabalho torna-se mais difícil.

Como nos tempos de Dilma

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva formalmente cumpriu a meta fiscal de 2025, isto é, as contas públicas fecharam o ano com déficit de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), dentro da margem de até 0,25%. No mundo real, porém, o déficit foi de R$ 61,7 bilhões (0,48% do PIB), quase o dobro do limite fiscal tolerado e 32% acima do rombo verificado em 2024.

 

Para “cumprir” a meta, o governo petista esmerou-se em excluir da contabilidade diversos itens, como as despesas com sentenças judiciais (precatórios), o ressarcimento a aposentados do INSS lesados em seus benefícios e os gastos extras com defesa, saúde e educação, entre outras saídas de caixa não contabilizadas. Tirando tudo isso, o saldo negativo entre receitas e despesas caiu para R$ 13 bilhões. Parece mágica, mas pode ser chamado de manobra, artifício ou solução alternativa, e não é novidade, pois foi usado também em 2024.

 

Durante o desastroso governo de Dilma Rousseff, expediente semelhante ficou conhecido como “contabilidade criativa” e foi um dos fatores que levaram à abertura do processo de impeachment contra a petista. Reconheça-se que há uma diferença importante: na era Dilma, escondia-se o déficit sob pesada maquiagem; na gestão Lula, a manobra para chegar à meta foi feita às claras.

 

A sem-cerimônia do governo Lula não muda o fato de que a inventividade que faz caber no Orçamento a expansão desmedida das despesas não consolida a política fiscal. Ao contrário, apenas evidencia o enfraquecimento das regras fiscais que o governo Lula faz questão de desconsiderar. O ano de 2025 registrou o recorde de R$ 2,366 trilhões em receitas federais, alta real de 2,8% em relação a 2024, mas os gastos chegaram a astronômicos R$ 2,427 trilhões. E muito pouco disso é investimento, algo em torno de R$ 84,255 bilhões, o que representa uma queda real de 7,6% em relação a 2024. O grosso mesmo é gasto obrigatório.

 

No primeiro Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) deste ano, a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado chama a atenção para o risco que representa para o exercício de 2026 a exclusão de gastos que somam, pelos cálculos da instituição, R$ 230,7 bilhões, ou 8,2% das despesas primárias. No projeto original da lei orçamentária encaminhado pelo Executivo ao Congresso, essas exceções correspondiam a 6,7%, ou R$ 174,4 bilhões. A principal razão para o aumento foi a retirada dos precatórios, antes incorporados ao limite de despesas.

 

A IFI chama a atenção para o risco de que essa “folga”, que é meramente contábil, seja usada para aumentar gastos reais. Trata-se de preocupação óbvia diante do fato de que o Orçamento certamente será ainda mais desvirtuado, porque estamos em ano eleitoral, período no qual a criatividade na invenção de recursos para objetivos eleitoreiros fica particularmente fértil.

E não se pode perder de vista que estamos falando de déficit como “meta” para as contas públicas, um absurdo em si mesmo. Desde 2014, quando o governo Dilma já arruinava o País, o governo vive no vermelho, sinalizando reiteradamente que não tem recursos para abater os juros da dívida. Resultado: a dívida galopa.

 

Neste terceiro mandato de Lula, a dívida pública em relação ao PIB saltou de 71,7% quando ele assumiu para 78,7% no final do ano passado. A previsão do Tesouro é de que chegue a 83,6% em 2026. Ou seja, uma alta de quase 12 pontos porcentuais num único mandato, que nos remete ao pesadelo do governo Dilma, que entre 2011 e 2015 fez a dívida saltar de 51% para 65% do PIB. Um fenômeno que Lula parece empenhado em superar.

 

Interromper essa escalada não é um capricho. Com as contas em evidente descontrole, a inflação persiste e os juros não baixam, o que reduz o crescimento e afeta emprego e renda, fazendo com que seja mais vantajoso investir em papelório no mercado financeiro do que em produção.

 

Mas Lula já prometeu que não pretende cortar gastos, nem agora nem nunca. Ao fazê-lo, o petista pode até ganhar a eleição, mas arruinará o País.

Documento mostra que Master recebeu ultimato de BC de Campos Neto um ano antes de ser liquidado

Por Alvaro Gribel / O ESTADÃO DE SP

 

BRASÍLIA - Uma comunicação enviada pelo Banco Master ao Banco Central  de novembro de 2024 revela que o banqueiro Daniel Vorcaro se comprometeu a adotar uma série de medidas para melhorar a governança corporativa do Master e a recompor a saúde financeira do banco em um prazo de seis meses, até maio de 2025.

 

O ofício, ao qual o Estadão teve acesso, é uma resposta do Master a um termo de compromisso enviado pelo BC. O documento mostra que o Master recebeu uma espécie de ultimato da autoridade monetária sob a gestão do ex-presidente Roberto Campos Neto, um ano antes de ser liquidado pelo atual presidente Gabriel Galípolo, em novembro de 2025.

 

Procurada, a defesa de Vorcaro afirmou que o banco vinha cumprindo as medidas estabelecidas junto ao Banco Central. “A defesa de Daniel Vorcaro esclarece que os compromissos assumidos pelo Banco Master junto ao Banco Central em novembro de 2024 estavam sendo cumpridos, conforme demonstrado no próprio acompanhamento realizado ao longo de 2025″, diz a nota (veja íntegra abaixo).

 

O documento enviado ao Banco Central, assinado por Daniel Vorcaro, enfraquece a tese do banqueiro de que ele foi pego de surpresa com a liquidação do Master. A ideia de que o BC “se precipitou” é também objeto de análise por parte do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU).

 

Em depoimento à PF, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, revelou que, no dia em que foi liquidado, o Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa e mais de R$ 127 milhões a pagar na mesma semana, como mostrou o Estadão/Broadcast — o que mostra que o banco não tinha mais dinheiro para honrar suas dívidas, que só estavam, há meses, sendo pagas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O banco também já não recolhia mais de R$ 2 bilhões exigidos em depósitos compulsórios ao Banco Central.

 

Em relatório enviado ao TCU, o BC informa que a partir de novembro de 2024 houve “diversos episódios de recolhimento insuficiente dos depósitos compulsórios por parte do conglomerado” do Master.

 

O compromisso firmado pelo Master com o Banco Central aconteceu após uma série de troca de ofícios com o órgão ao longo de 2024, com questionamentos sobre a situação do banco. Esses documentos estão sob sigilo imposto pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli.

 

Como mostrou o Estadão, Campos Neto sabia dos problemas do Master e evitou intervir no banco, mas deu um prazo para a instituição melhorar seus indicadores, práticas de governança e gestão de risco. A medida foi adotada na reta final de sua gestão, que terminou em 31 de dezembro de 2024.

 

Coube ao BC sob Gabriel Galípolo acompanhar o cumprimento desse termo de compromisso e aguardar até o fim do prazo, maio de 2025, antes que pudesse tomar qualquer iniciativa mais contundente contra o Master. Ainda assim, a liquidação só aconteceu seis meses depois, em novembro de 2025.

 

Entre as medidas exigidas pelo BC estavam que o banco passasse a ter ativos líquidos em caixa para poder cobrir os vencimentos das dívidas de curto prazo. Isso mostra que o banco em 2024 já estava com baixa liquidez para honrar os CDBs que emitiu pagando altas taxas de juros.

 

Enquanto não cumprisse os termos, o Master ficava proibido de fazer operações de longo prazo com crédito corporativo. Os investigadores suspeitam que esse esquema envolvia empréstimos para empresas que depois foram aplicados em fundos ligados à Reag Investimentos — investigada nas operações Carbo

 

Com essa porta fechada pelo BC, Vorcaro teria colocado em prática um outro esquema fraudulento, segundo a Polícia Federal, para injetar liquidez no banco. O Master acelera a venda de crédito consignado para o Banco de Brasília (BRB), a partir de janeiro de 2025, mas desta vez fazendo uma triangulação com uma empresa recém-criada chamada Tirreno.

 

Pela versão da PF, a Tirreno foi uma empresa de fachada criada pelo próprio Master para fabricar carteiras de crédito e revendê-las ao BRB. De janeiro a junho de 2025, o BRB pagou ao Master R$ 12,2 bilhões, sendo R$ 6,7 bilhões pelas carteiras falsas e mais R$ 5,5 bilhões de prêmio. Em paralelo, o Master fechou acordo para ser comprado pelo BRB, no dia 28 de março, com a formação de uma nova instituição que teria Vorcaro no seu conselho de administração.

 

Henrique Costa alega que o BRB não sabia que as carteiras de crédito eram originadas pela Tirreno, e que isso foi omitido por Vorcaro. Foi essa suposta fraude que levou Vorcaro à prisão. O contrato, segundo Costa, era para a compra de carteiras próprias do banco, que já vinham acontecendo desde junho de 2024, e por isso o banco estatal teria sido enganado.

 

“Contratualmente, a obrigação do Master era que as carteiras fossem originadas por eles”, disse Costa. Durante a acareação entre os dois, Vorcaro afirmou que o BRB sabia que as carteiras eram de terceiros, sendo esse um dos pontos controversos entre as duas defesasO documento do Master enviado ao Banco Central tinha como destinatários o chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC Belline Santana e o chefe adjunto Paulo Sérgio Neves de Souza. Ambos foram afastados do cargo após a abertura de sindicância interna do Banco Central com a liquidação do Master.

 

O que o Master se comprometeu a fazer em seis meses

O ofício, assinado pelo banqueiro Daniel Vorcaro e o seu sócio Angelo Antonio Ribeiro da Silva, informa que o Master, “no intuito de reforçar seu compromisso de manter uma governança corporativa efetiva e gestão de riscos proativa, vai adotar as seguintes medidas internas, a serem cumpridas em até 180 dias a partir desta data”. Uma das medidas se referia à manutenção do indicador de cobertura de liquidez de curto prazo. Essa determinação significa que o banco teria de manter ativos com alta qualidade e que pudessem ser vendidos rapidamente para honrar a suas dívidas de curtíssimo prazo. Para cara R$ 1 de dívida a vencer, teria de ter em caixa R$ 1 desses ativos.

 

Um dos problemas do Master era manter ativos de baixa liquidez, como precatórios e direitos creditórios eu seu balanço, que só seriam vendido rapidamente com descontos elevados, que abririam um buraco no balanço do banco. Outras medidas exigidas pelo BC eram o fortalecimento da governança corporativa do Master e a manutenção do patrimônio de referência a uma taxa mínima de 12,5% em relação aos seus ativos ponderados pela taxa de risco. “Fortalecimento da governança corporativa do seu conglomerado com a institucionalização de sua Diretoria Executiva, com decisões de nível colegiado, e o estabelecimento de comitês e fóruns efetivos, a exemplo de riscos e do comitê de investimentos”, diz o documento.

 

O que diz a defesa de Vorcaro

“A defesa de Daniel Vorcaro esclarece que os compromissos assumidos pelo Banco Master junto ao Banco Central em novembro de 2024 estavam sendo cumpridos, conforme demonstrado no próprio acompanhamento realizado ao longo de 2025. “Como consta no depoimento prestado por Daniel Vorcaro, o banco vinha adotando as medidas pactuadas, incluindo reforço de governança e de capital, ajustes operacionais, venda de ativos e busca ativa de soluções de mercado. A negociação com o BRB fez parte desse rol de medidas.

 

“Essas providências foram comunicadas às autoridades regulatórias e implementadas dentro dos parâmetros técnicos exigidos. Até o momento da liquidação, o Banco Master permanecia solvente, com ativos superiores aos passivos, conforme demonstrações financeiras auditadas e monitoradas pelo Banco Central. “Daniel Vorcaro segue colaborando com as autoridades competentes e confia que a apuração técnica completa dos fatos permitirá esclarecer adequadamente o contexto das decisões administrativas tomadas.”

O NOVO xadrez de Kassab

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O PSD anunciou a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, num movimento que redesenha o tabuleiro eleitoral de 2026, reforça a ambição do partido de ocupar papel central na sucessão presidencial e abre uma janela de oportunidade para a constituição de uma candidatura de centro-direita. Pelo que fez, e pela forma como fez, o presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, parece conceber uma alternativa simultânea ao bolsonarismo, que dificilmente abrirá mão da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL), e ao petismo, com o qual o PSD mantém laços institucionais, já que ocupa espaços no atual governo.

 

Aproveitando-se das divisões em outros partidos da centro-direita, como União Brasil e PSDB, Kassab levou para o PSD três governadores com projeção nacional: Caiado, Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Nenhum deles exibe, individualmente, a força eleitoral do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas Tarcísio tem deixado claro, até aqui, que não baterá de frente com o bolsonarismo e deve concorrer à reeleição estadual. Com sua provável saída do jogo nacional, o campo da direita e da centro-direita passou por uma reorganização relevante, abrindo espaço para novas articulações e reposicionamentos.

 

Ao receber Caiado, Kassab afirmou que o PSD pretende lançar candidatura própria ao Palácio do Planalto e que não atuará como linha auxiliar nem do governo Lula nem do bolsonarismo. Os governadores, por sua vez, falaram em protagonismo, na necessidade de apresentar ao eleitorado uma alternativa viável e na disposição de disputar o espaço hoje ocupado por uma polarização que dá sinais evidentes de esgotamento.

 

Esses movimentos não ocorrem no vácuo. Com eles, aumentam as chances de uma candidatura de centro-direita que entre na disputa sem se confundir com o bolsonarismo – ou, ao menos, que se coloque à parte dele. Também se fortalece a hipótese de uma candidatura com identidade mais claramente centrista, amparada por um partido com estrutura nacional, capilaridade nos Estados e consistência político-partidária. Nesse desenho, o PSD desponta como o principal instrumento dessa tentativa de reorganização do campo político.

 

Isso não significa, contudo, que o bolsonarismo esteja fora do jogo. Ao contrário. Hoje, dificilmente Flávio Bolsonaro desistirá da disputa presidencial. O senador herda parcela expressiva dos votos do pai, dialoga diretamente com a base bolsonarista raiz e tem aparecido de forma competitiva nas pesquisas. Trata-se de um ativo eleitoral concreto, que confere ao bolsonarismo resiliência mesmo sem Jair Bolsonaro no páreo.

 

A diferença é que cresce agora a possibilidade de a direita chegar ao primeiro turno dividida. De um lado, uma candidatura identificada com o bolsonarismo; de outro, ao menos uma candidatura de centro-direita, menos ideológica e mais pragmática. A entrada de novos protagonistas tende a intensificar a competição por espaço, visibilidade e estratégia política rumo às eleições.

 

É nesse contexto que o papel de Gilberto Kassab se torna ainda mais estratégico. Ao anunciar seus movimentos com cautela e evitar compromissos antecipados, o dirigente se descola tanto do bolsonarismo quanto do lulopetismo, o que lhe garante margem de manobra para montar palanques fortes nos Estados, negociar alianças regionais conforme as circunstâncias locais e preservar a flexibilidade necessária para o segundo turno. Em um sistema político marcado pela fragmentação e pela volatilidade, essa independência é um ativo raro.

 

Ainda é cedo para selar caminhos definitivos. Mas já é possível afirmar que o PSD deixou de ser apenas um partido pragmático à espera de oportunidades. Sob a condução de Kassab, tornou-se um dos principais organizadores do campo político fora da polarização. Se essa centralidade se converterá em protagonismo eleitoral é uma incógnita. Que ela será decisiva para compreender a eleição de 2026, disso já não parece haver dúvida.

O xadrez de Kassab

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O PSD anunciou a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, num movimento que redesenha o tabuleiro eleitoral de 2026, reforça a ambição do partido de ocupar papel central na sucessão presidencial e abre uma janela de oportunidade para a constituição de uma candidatura de centro-direita. Pelo que fez, e pela forma como fez, o presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, parece conceber uma alternativa simultânea ao bolsonarismo, que dificilmente abrirá mão da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL), e ao petismo, com o qual o PSD mantém laços institucionais, já que ocupa espaços no atual governo.

 

Aproveitando-se das divisões em outros partidos da centro-direita, como União Brasil e PSDB, Kassab levou para o PSD três governadores com projeção nacional: Caiado, Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Nenhum deles exibe, individualmente, a força eleitoral do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas Tarcísio tem deixado claro, até aqui, que não baterá de frente com o bolsonarismo e deve concorrer à reeleição estadual. Com sua provável saída do jogo nacional, o campo da direita e da centro-direita passou por uma reorganização relevante, abrindo espaço para novas articulações e reposicionamentos.

 

Ao receber Caiado, Kassab afirmou que o PSD pretende lançar candidatura própria ao Palácio do Planalto e que não atuará como linha auxiliar nem do governo Lula nem do bolsonarismo. Os governadores, por sua vez, falaram em protagonismo, na necessidade de apresentar ao eleitorado uma alternativa viável e na disposição de disputar o espaço hoje ocupado por uma polarização que dá sinais evidentes de esgotamento.

 

Esses movimentos não ocorrem no vácuo. Com eles, aumentam as chances de uma candidatura de centro-direita que entre na disputa sem se confundir com o bolsonarismo – ou, ao menos, que se coloque à parte dele. Também se fortalece a hipótese de uma candidatura com identidade mais claramente centrista, amparada por um partido com estrutura nacional, capilaridade nos Estados e consistência político-partidária. Nesse desenho, o PSD desponta como o principal instrumento dessa tentativa de reorganização do campo político.

 

Isso não significa, contudo, que o bolsonarismo esteja fora do jogo. Ao contrário. Hoje, dificilmente Flávio Bolsonaro desistirá da disputa presidencial. O senador herda parcela expressiva dos votos do pai, dialoga diretamente com a base bolsonarista raiz e tem aparecido de forma competitiva nas pesquisas. Trata-se de um ativo eleitoral concreto, que confere ao bolsonarismo resiliência mesmo sem Jair Bolsonaro no páreo.

A diferença é que cresce agora a possibilidade de a direita chegar ao primeiro turno dividida. De um lado, uma candidatura identificada com o bolsonarismo; de outro, ao menos uma candidatura de centro-direita, menos ideológica e mais pragmática. A entrada de novos protagonistas tende a intensificar a competição por espaço, visibilidade e estratégia política rumo às eleições.

 

É nesse contexto que o papel de Gilberto Kassab se torna ainda mais estratégico. Ao anunciar seus movimentos com cautela e evitar compromissos antecipados, o dirigente se descola tanto do bolsonarismo quanto do lulopetismo, o que lhe garante margem de manobra para montar palanques fortes nos Estados, negociar alianças regionais conforme as circunstâncias locais e preservar a flexibilidade necessária para o segundo turno. Em um sistema político marcado pela fragmentação e pela volatilidade, essa independência é um ativo raro.

 

Ainda é cedo para selar caminhos definitivos. Mas já é possível afirmar que o PSD deixou de ser apenas um partido pragmático à espera de oportunidades. Sob a condução de Kassab, tornou-se um dos principais organizadores do campo político fora da polarização.

 

Se essa centralidade se converterá em protagonismo eleitoral é uma incógnita. Que ela será decisiva para compreender a eleição de 2026, disso já não parece haver dúvida.

Compartilhar Conteúdo

444