A longa marcha do controle digital
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governo publicou o Decreto n.º 12.975/26, apresentando-o como mera regulamentação da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet. A descrição é confortável, mas enganosa. O STF já havia desmontado parte da arquitetura jurídica que transformara o Marco Civil numa referência equilibrada entre liberdade de expressão, responsabilização e segurança jurídica. Mas o decreto transforma essa ruptura em aparato administrativo permanente de supervisão do ambiente digital.
A decisão do Supremo já havia criado incentivos para remoções preventivas de conteúdo ao enfraquecer a lógica da ordem judicial prévia. O decreto organiza esses incentivos numa engrenagem burocrática contínua: as plataformas devem agora monitorar “riscos sistêmicos”, manter estruturas permanentes de controle, encaminhar informações ao poder público e operar sob supervisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
A ANPD não foi criada para arbitrar o debate público. Sua função original é proteger dados pessoais. Agora passa a fiscalizar deveres de moderação, gerenciamento de riscos e circulação de conteúdos. Isso ocorreu por decreto, não por lei aprovada pelo Congresso. Liberdade de expressão e responsabilidade de intermediários não deveriam ser redefinidas por combinação de ativismo judicial e expansão regulamentar do Executivo.
A Advocacia-Geral da União (AGU) recebeu papel igualmente temerário. O artigo 16-N permite notificações relacionadas a publicidade “enganosa”, “abusiva” ou “fraudulenta” ligada a políticas públicas. O problema não está em combater ilicitudes flagrantes, mas na elasticidade desses conceitos quando transportados para disputas políticas. Críticas duras a programas governamentais ou campanhas impulsionadas contra medidas do Executivo circularão sob sombra regulatória permanente.
As plataformas passam a operar num ambiente em que manter determinado conteúdo pode gerar sério risco punitivo, enquanto removê-lo quase nunca produz consequência equivalente. O resultado previsível é remoção defensiva em larga escala.
Essa dinâmica já é problemática em temas objetivamente ilícitos. Torna-se muito mais quando aplicada a categorias políticas e interpretativas. O decreto evita expressões como “desinformação” ou “ataques à democracia”, mas remete a tipos penais ligados ao Estado Democrático de Direito, discriminação e discurso de ódio. Essas categorias exigem contexto e interpretação judicial cuidadosa. O que constitui “grave ameaça”? Onde termina a crítica contundente e começa a “incitação”? O que os tribunais levam anos para sentenciar, entre erros e revisões, as plataformas terão de decidir em questão de horas.
Empresas privadas não atuarão como defensoras heroicas da liberdade de expressão contra burocracias estatais. Agirão como qualquer agente racional sob pressão regulatória: removendo primeiro e discutindo depois. Sobretudo as menores, com menos capacidade de resistir a disputas regulatórias.
Nos últimos anos, o governo tentou emplacar o Projeto de Lei (PL) das Fake News, pressionou o STF a ampliar a responsabilização das plataformas, acionou a AGU contra conteúdos críticos a projetos de lei, ensaiou restrições ao impulsionamento de críticas políticas. É o velho sonho do “controle social da mídia” traduzido para a era digital.
Sociedades liberais maduras tratam a retórica da defesa da democracia e de minorias com cautela porque conhecem sua lógica. O poder de definir preventivamente quais discursos representam risco social ou político raramente permanece limitado aos casos extremos que originalmente o justificaram.
Graças ao STF, o Brasil já acumulou problemas suficientes de insegurança jurídica. O decreto acrescenta outro: a incerteza crescente sobre os limites do discurso legítimo sob supervisão administrativa difusa. Liberdade de expressão não depende apenas da ausência de censura explícita, mas de regras claras, competências delimitadas e baixa discricionariedade estatal. O regime fabricado pelo consórcio formado pelo STF e o governo, à margem do Congresso, caminha na direção oposta.
Esquema de influenciadora com PCC revela sofisticação do crime
Por Editorial / O GLOBO
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A prisão em São Paulo da advogada Deolane Bezerra é mais uma evidência da infiltração do crime organizado na economia formal e da sofisticação dos esquemas de lavagem de dinheiro. Deolane, influenciadora digital com 21,7 milhões de seguidores que ficou conhecida pelo relacionamento com o funkeiro MC Kevin e costuma postar fotos ao lado de carros de luxo e de suas viagens pelo mundo, é acusada de ser uma espécie de “caixa” do crime organizado, atuando a serviço do PCC para lavar recursos ilícitos. A investigação, conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo, também expôs a incapacidade do sistema penitenciário de impedir que lideranças encarceradas continuem a comandar ações nas ruas.
Deolane já tinha prontuário policial. Em 2024, a Polícia Federal a manteve presa no Recife, sob a acusação de integrar um esquema de lavagem de dinheiro de apostas digitais ilegais. Segundo a Polícia Civil pernambucana, ela investiu R$ 65 milhões em 12 imóveis de luxo em três anos. Foi solta e responde ao processo em liberdade. Agora, foi flagrada num esquema de fracionamento de depósitos milionários em parcelas inferiores a R$ 10 mil para que passassem despercebidos pelos controles. Valores gerados por atividades criminosas transitavam, segundo a polícia, por contas de Deolane para depois retornar ao PCC. Na operação, foram bloqueados 39 veículos avaliados em R$ 8 milhões e ficaram congelados R$ 357,5 milhões — R$ 27 milhões dos quais em nome da própria Deolane.
A polícia diz ter encontrado vínculos dela com a cúpula do PCC, em particular com o líder da facção, Marcos Herbas Camacho, o Marcola, preso há 27 anos. A investigação chegou a Deolane depois da apreensão de bilhetes manuscritos com dois presos no complexo penitenciário de Presidente Venceslau (SP). Um dos inquéritos abertos a partir disso investiga lavagem de dinheiro por meio de uma empresa de transportes vinculada a Marcola, seu irmão Alejandro e outros parentes. No celular de um dos investigados, acusado de comprar caminhões e de movimentar recursos obedecendo a ordens de Marcola e seu irmão, havia imagens de recibos de depósitos bancários, alguns deles em contas de Deolane.
As empresas de transporte são apenas um dos elos com a economia formal na extensa teia de negócios criminosos do PCC. A Operação Carbono Oculto mapeou no ano passado uma rede de mil postos de combustível em diversos estados, para vender álcool adulterado, mobilizando empresas de logística, usinas de açúcar e destilarias no interior paulista. Reportagem recente do Wall Street Journal apresenta o PCC como a organização criminosa que mais cresce no planeta, com braços na América Latina, nos Estados Unidos e nos maiores portos europeus.
Para enfrentar organizações assim, não há alternativa: é urgente integrar as forças de segurança, sob coordenação federal. Embora o Congresso tenha avançado ao aprovar a lei das facções criminosas, só isso não basta. É preciso um plano nacional, executado com afinco por todas as esferas de governo.Lula não encontra limite em sua gastança eleitoreira
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A obsessão do governo em distribuir “bondades” para melhorar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até as eleições começou no ano passado e não parece ter fim. Basta acompanhar a sucessão de programas ou medidas de objetivo nitidamente eleitoreiro anunciadas em ritmo a cada dia mais frenético. Todos os governos costumam ampliar gastos às vésperas das eleições. Mas Lula parece não encontrar limites.
Em novembro, o governo sancionou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Em 12 março, voltou à carga eliminando impostos federais sobre importação e venda de diesel, usando a guerra no Oriente Médio como pretexto. Menos de duas semanas depois, retomou o Plano Brasil Soberano, com crédito barato do BNDES a empresas exportadoras. Mostrando estar disposto a agradar diferentes perfis de eleitor, em abril lançou novo pacote com isenção de combustíveis e ampliou em R$ 20 bilhões os recursos do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, estendendo o foco à classe média. Também em abril, o Conselho Monetário Nacional (CMN) criou linha de financiamento a empresas do setor aéreo. O vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou R$ 10 bilhões em crédito para máquinas e implementos agrícolas, e Lula ampliou o programa para compra de ônibus e caminhões.
Maio ainda não terminou, e o Planalto já bateu o recorde na intensidade das “bondades”. Na primeira quinzena, anunciou uma a cada dois dias úteis. Na primeira segunda-feira do mês, promoveu o Desenrola 2, programa de renegociação de dívidas organizado em quatro frentes para ampliar o impacto entre os eleitores: famílias, estudantes com débitos no Fies, agricultores, micro e pequenas empresas. No dia seguinte, o CMN diminuiu a taxa de juros do crédito para reformas habitacionais. Exatamente uma semana depois, num mesmo dia, o governo anunciou o fim da “taxa das blusinhas”, imposto de importação sobre compras internacionais até US$ 50, e lançou um pacote de investimento e crédito para a área de segurança pública. No dia seguinte, anunciou subvenções à gasolina. E, antes que aquela semana acabasse, o Ministério do Trabalho instituiu regras mais generosas para quem deseja sacar recursos do FGTS.
E não ficou por aí. A semana passada começou com a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovando até R$ 5,5 bilhões para reduzir a conta de luz. Depois uma Medida Provisória destinou R$ 30 bilhões para financiar com juros camaradas a compra de carros novos por taxistas e motoristas de aplicativo.
Numa conta preliminar conservadora, a XP Investimentos avaliou o custo das “bondades” em quase R$ 190 bilhões, como mostrou reportagem do GLOBO. Até agora. Sabe-se lá o que mais virá pela frente. Fala-se em corte de juros para quem está em dia com prestações e em novos estímulos a setores específicos.
As medidas anunciadas podem ser classificadas em dois grupos. No primeiro, políticas públicas destinadas a perdurar, como a isenção do IR e a extinção da taxa das blusinhas. Pode-se até debater se são corretas, mas dois fatos são indiscutíveis: foram tomadas com interesse eleitoral e resultam em perda de arrecadação em momento de gastança e desequilíbrio fiscal.
O segundo grupo de medidas é formado pelas linhas de crédito. Por não entrarem nos cálculos das metas fiscais do governo, são chamadas de parafiscais. No total, o esforço de agradar o eleitorado em todo o ano de 2026 é estimado em cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Um quarto disso são medidas parafiscais que, embora não entrem no cômputo das metas, contribuem para aumentar a dívida pública. Outro quarto são gastos de entes subnacionais, já que os governadores também decidiram acelerar o gasto.
Os efeitos negativos são inexoráveis. Parte dos recursos aplicados nas linhas de financiamento poderia ser usada para abater a dívida pública. Em vez disso, servirá para aumentar o crédito. Mais empréstimos significam mais estímulo ao consumo, economia mais aquecida e mais inflação. O resultado são juros mais altos por mais tempo, único recurso à disposição do Banco Central (BC) para segurar preços.
O Planalto costuma se defender com um argumento falacioso. Lembra que, no primeiro ano do atual mandato de Lula, o déficit primário das contas públicas, sem contar gastos com os juros da dívida, foi da ordem de 2,4% do PIB e que a previsão para este ano está em 0,4%. As declarações oficiais só esquecem que esse avanço é inócuo. Levando em conta o pagamento de juros, o déficit nominal fechará o ano em 9% do PIB, exatamente o mesmo patamar de 2023. Como a dívida não para de crescer, a conta de juros brasileira é assombrosa.
O rendimento exigido pelos investidores para aceitar emprestar dinheiro ao governo está há meses em torno de insustentáveis 7% acima da inflação. O índice que calcula quanto o Tesouro tem de reserva para pagar a dívida sem precisar emitir dívida nova continua a cair, enquanto a dívida bruta já ultrapassa 80% do PIB, tendo crescido quase 10 pontos percentuais no atual mandato de Lula.
O Brasil tem setor privado pujante, produtores agrícolas na liderança global, produção de petróleo em alta e avanços noutros segmentos na economia. Nada disso, porém, tem condição de resistir incólume ao gasto público desenfreado. A despesa do governo federal, descontada a inflação, terá crescido 20% nos quatro anos do terceiro mandato do presidente Lula, ou mais de R$ 430 bilhões, quase o quádruplo do aumento acumulado no governo anterior. É um desatino que nada tem de “bondade” e deixará uma conta altíssima ao governo que assumir em janeiro, seja qual for.
Das malas de dinheiro aos fundos e operações: depois de Mensalão e Lava-Jato, caso Master expõe ‘sofisticação’ da corrupção
Por Bernardo Mello / O GLOBO
Elemento central em grandes esquemas de corrupção no passado recente, como a Lava-Jato e o Mensalão, as movimentações de dinheiro em espécie vêm ocupando papel secundário nas investigações do caso Master — que exibem o protagonismo, por outro lado, de contratos de consultoria, patrocínio e transferência de participação societária entre empresas de políticos e firmas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro. Juristas e ex-integrantes do Ministério Público consultados pelo GLOBO avaliam que o Master representa uma “sofisticação” das antigas tramas para desvio de recursos, em que malas lotadas de cédulas dão lugar a instrumentos do mercado financeiro, cujo monitoramento traz novos desafios para as investigações.
Entre os especialistas, há divergências sobre o quanto esses novos mecanismos, por serem documentados e rastreáveis, facilitam ou não as investigações.
Para o ex-deputado e ex-procurador-geral de Justiça do Rio Antonio Carlos Biscaia, que presidiu em 2006 no Congresso a CPI dos Sanguessugas — sobre um esquema de desvio de recursos, em espécie, através de compra de ambulâncias —, o “avanço tecnológico” dos esquemas de corrupção também melhorou a possibilidade de as autoridades garimparem provas.
— Sem a imagem da mala com cédulas, o público até pode ter mais dificuldade de identificar algo como ilícito, mas por outro lado você tem mais mecanismos para rastrear e desvendar todo o caminho da corrupção — avalia Biscaia.
Projeto sob medida
Já o advogado Rodrigo Falk Fragoso, doutor em Direito Penal na USP — cuja tese trata de “gestão temerária de instituição financeira”, categoria em que se enquadra o caso Master — , considera que mudanças na regulação de instituições financeiras nos últimos 20 anos aumentaram o controle sobre o dinheiro em cédulas, o que pode ter levado a uma adaptação de operadores de desvios.
— Os fundos de investimento são estruturas lícitas, mas só são mais rastreáveis até a página dois. O uso deles para ocultação de recursos de origem ilícita, que me parece uma novidade do caso Master comparado a outros casos, dificulta a identificação do beneficiário final. Já o dinheiro em espécie, além de uma forma mais rudimentar, hoje também é mais arriscado, por ser monitorado de perto pelo Coaf desde o momento em que é gerado — afirma Fragoso.
No caso Master, operações da Polícia Federal encontraram registros de que uma empresa dirigida por familiares do senador Ciro Nogueira (PP-PI) adquiriu, em abril de 2024, por R$ 1 milhão, participação em outra firma, sob responsabilidade de um primo de Vorcaro. Segundo a PF, houve uma “subvalorização” na venda desses papéis, o que permitiria à empresa da família de Ciro lucrar com os dividendos da firma ligada a Vorcaro.
Quatro meses depois da transação, em agosto de 2024, o senador apresentou emenda a um projeto de lei para aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) a investimentos bancários, o que beneficiaria diretamente o modelo de negócios do Master.
Outras interações entre o Master e políticos reveladas nos últimos meses incluem o patrocínio de R$ 61 milhões de Vorcaro ao filme “Dark horse”, negociado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ); e contratos de consultoria firmados com nomes como o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União), e uma nora do senador Jaques Wagner (PT-BA). Todos negam irregularidades e alegam que essas transações foram lícitas, envolvendo serviços efetivamente prestados conforme o previsto nos contratos.
Os juristas observam que o uso de contratos para mascarar pagamentos ilícitos, se comprovado, não é uma novidade do caso Master. Na Lava-Jato, sentenças proferidas na 13ª Vara Federal de Curitiba apontaram que o doleiro Alberto Youssef usava contratos fictícios de consultoria para fazer repasses de propina. No Mensalão, um dos braços do esquema envolvia contratos de publicidade firmados por empresas de Marcos Valério, operador do esquema, com bancos e órgãos públicos.
— A questão é mostrar se a origem foi ilícita. Isso ficou claro no caso do Mensalão, por exemplo, já que os contratos do Marcos Valério envolviam desvio em órgãos públicos. No caso hipotético de patrocínio a um filme, se esse dinheiro veio de uma gestão fraudulenta do Master, isso já caracteriza um crime contra o sistema financeiro — aponta o advogado criminalista Theodoro Balducci, especialista em Direito Penal Econômico pela FGV.
Democrata prevê R$ 25 milhões para expandir produção no Ceará e abrir mil vagas de emprego
Escrito por Paloma Vargas /DIARIONORDESTE

A fabricante de calçados Democrata prevê investir R$ 25 milhões na próxima fase de expansão no Ceará, que se estende até o primeiro semestre de 2028. Somado aos R$ 37 milhões aplicados entre 2024 e 2025, o aporte total da empresa no Estado chega a R$ 62 milhões. O crescimento deve gerar mil vagas de emprego, a maioria na unidade de Santa Quitéria. O objetivo é ampliar a capacidade produtiva de 20 mil para 30 mil pares por dia.
Para isso, a empresa concluiu entre 2024 e 2025 uma ampliação física de 20 mil metros quadrados em suas instalações no Ceará, onde concentra toda a produção masculina da marca. Em entrevista ao Diário do Nordeste durante a BFShow, feira calçadista que ocorreu em São Paulo, o diretor industrial da Democrata, Samuel Fernandes Pimenta, informou que o processo seletivo para as novas contratações já está em andamento.
"É bem audacioso, mas o projeto é bem grande e estamos animados", afirmou Pimenta. Os R$ 25 milhões da nova fase serão destinados à ampliação da unidade de Santa Quitéria e à contratação dos novos trabalhadores. As vagas previstas são voltadas, principalmente, para a área de pesponto (costura), etapa com maior dependência de mão de obra manual.
Ceará lidera produção e exportações nacionais de calçados
A expansão da Democrata ocorre em um cenário de protagonismo absoluto do Ceará no setor. Em 2025, o Estado consolidou-se como o maior produtor de calçados do Brasil, respondendo por 24,4% da produção nacional, com cerca de 206,8 milhões de pares fabricados. O polo de Sobral, onde a Democrata mantém uma unidade de componentes, é hoje o maior centro produtor do país, concentrando sozinho quase 60% da fabricação estadual.
Além da liderança produtiva, o Ceará retomou o posto de principal exportador brasileiro em volume, concentrando 31,4% das vendas externas do setor, também no ano passado.
Foco em Santa Quitéria e inovação térmica
O coração da nova fase de crescimento da fábrica de calçados que nasceu em Franca, São Paulo, mas hoje concentra toda a sua produção masculina em solo cearense, será a unidade de Santa Quitéria, que receberá a maior parte da ampliação da linha de montagem. Além do ganho de escala, a marca afirma estar se tornando uma referência tecnológica na região.
"Estamos climatizando toda a planta da Democrata de Santa Quitéria. É a primeira indústria de calçados climatizada [da região]", explicou o diretor, ressaltando que o projeto visa mitigar o calor local e otimizar o conforto dos colaboradores.
Diversificação do mix de produtos
Embora a Democrata seja reconhecida pela linha masculina, hoje 100% verticalizada no Ceará, a diversificação de produtos tem impulsionado os números. Atualmente, a linha de tênis é o "carro-chefe", representando 58,8% da produção masculina, com cerca de 10 mil pares fabricados diariamente. Outra aposta recente é a produção de sandálias masculinas, iniciada em abril deste ano, que já atinge 2 mil pares por dia, com meta de chegar a 4 mil. As sandálias eram a grande novidade da estande da marca na BFShow na área masculina.
"Essa fábrica de sandália já está funcionando desde abril. É um projeto novo, uma vitrine que é a novidade deste ano e que já nasce 100% verticalizada em solo cearense", explicou Samuel Pimenta, destacando que o item faz parte da estratégia de diversificar o portfólio para além dos tradicionais sapatos sociais e tênis.
Já a Linha Ela (feminina), lançada em 2023, também apresenta resultados positivos, saltando de uma meta inicial de cerca de mil pares para quase 5 mil pares por dia atualmente.
"Os números representam uma crescente exponencial. Hoje temos quase 300 itens no feminino, superando os 249 SKUs (modelos) do masculino", concluiu Samuel Pimenta. Porém, a linha feminina é terceirizada em fábricas parceiras no Rio Grande do Sul e em Jaú (interior de SP).
Questionado sobre a possibilidade desta linha feminina também vir a ser fabricada no Ceará, o diretor industrial afirma que é algo para ser estudado "mais para frente", mas não descarta a verticalização de sapatos fechados, como tênis e mocassins. Pondera, entretanto, que itens mais específicos como sandálias e saltos femininos devem continuar sendo terceirizados.
Como é a atuação da Democrata no Ceará:
- Capacidade atual instalada: 17.000 pares por dia (referente apenas à linha masculina).
- Expansão programada para o segundo semestre de 2026: 3 mil pares, alcançando o total de 20.000 pares por dia.
- Meta de produção para até o primeiro semestre de 2028: 30.000 pares por dia.
- Linha de Tênis: aproximadamente 10.000 pares por dia, o que representa 58,8% da produção masculina atual.
- Estimativa de crescimento na linha de tênis: aumento de 1.000 a 1.500 pares por dia.
- Linha de Sandálias Masculinas (projeto novo): atualmente produz 2.000 pares por dia, com meta de atingir 4.000 pares por dia.
- Verticalização: 100% da linha masculina é produzida internamente pela empresa no Ceará.
No RS e SP
- Linha Ela (Feminina): Atualmente produz cerca de 5.000 pares por dia (o projeto iniciou com uma meta de 600 a 1.000 pares).
*A repórter viajou a convite da Abicalçados
Dinheiro em troca de votos
O ESTADÃO DE SP / NOTAS E INFORMAÇÕES Exclusivo para assinantes
O governo Lula perdeu o pudor que ainda restava ao lançar, nesta semana, o Programa Move Brasil Táxi e Aplicativos, para facilitar a compra de automóveis por taxistas e motoristas de aplicativo. A cinco meses da eleição, o Executivo anunciou condições mais que generosas para um público sabidamente avesso ao petista adquirir veículos de até R$ 150 mil, com juros subsidiados, prazo de até seis anos e carência de inacreditáveis seis meses – ou seja, o pagamento do financiamento, convenientemente, só começa no ano que vem.
As taxas de juros, supostamente, seriam definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), mas o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, antecipou-se ao anunciar que elas serão de 12,6% para homens e de 11,5% para mulheres. Entre 1,2 milhão e 1,4 milhão de motoristas podem ser alcançados.
O pretexto da iniciativa, segundo a exposição de motivos que acompanha a medida provisória, é “mitigar os impactos econômicos causados pela continuidade dos conflitos no Oriente Médio” e “promover a renovação de frota com o uso de fonte de energia mais sustentável”. Balela. É apenas a demonstração de força da máquina pública atuando em favor de um presidente que tem pouco tempo para reverter o mau humor do eleitorado.
No mês passado, o governo já havia lançado iniciativa semelhante para o financiamento de caminhões, ônibus e implementos rodoviários, com orçamento de R$ 21,2 bilhões. Se depender de Lula, também haverá dinheiro barato para financiar motos novas. Por enquanto, os motociclistas já se livraram de ter de fazer um curso teórico para se tornarem entregadores e da idade mínima de 21 anos para exercer a atividade.
Os bancos não reclamaram, pois as linhas contam com garantia do Programa Emergencial de Acesso a Crédito do Fundo Garantidor para Investimentos (Peac-FGI) em caso de calote. As montadoras comemoraram e só ficariam mais satisfeitas se o governo tivesse acatado o pleito de proibição de compra de veículos importados, cuja participação no mercado interno é cada vez maior.
Só quem deve estar preocupado é o Banco Central (BC), que tem sido pressionado a acelerar o ciclo de redução da taxa básica de juros, hoje em 14,5% ao ano. Há meses o Comitê de Política Monetária (Copom) alerta, em ata, que o aumento do crédito direcionado e as incertezas em relação à estabilização da dívida pública dificultam a desaceleração da inflação e reduzem a potência da taxa básica de juros.
O governo, no entanto, prefere ignorar a mensagem e os custos de sua perigosa estratégia eleitoral. Como o dinheiro do Move Brasil é despesa financeira, ou seja, repasse a um banco público, ele não impacta o arcabouço fiscal nem a meta de resultado primário, mas representa uma intervenção clara na economia. Ora, o motivo pelo qual os juros estão elevados há tanto tempo, encarecendo o financiamento de veículos, não é a guerra no Oriente Médio, que começou no fim de fevereiro, mas as despesas do governo, que gasta mais do que arrecada e precisa financiar sua dívida. Essa conta não tardará a chegar.

