Inaceitável perda de água
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A perda de água entrou na mira da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Desde a desestatização da empresa, em 2024, cerca de R$ 1 bilhão já foi destinado à execução de obras de tubulação, inovações tecnológicas, reparos em vazamentos, ao combate a fraudes e à regularização de ligações. Mas ainda há muito a ser feito, razão pela qual vem em boa hora o anúncio da Sabesp de que investirá R$ 9,7 bilhões até 2029 para tentar reduzir os desperdícios na produção, na distribuição e no consumo de água e também inibir os furtos – mais conhecidos como “gatos”.
Trata-se de um investimento inadiável: o estresse hídrico que afeta a Grande São Paulo hoje evidencia a urgência da implementação de medidas efetivas e concretas. O sistema integrado de abastecimento da maior região metropolitana do País está em cerca de 40% de sua capacidade de armazenamento, bem abaixo dos mais de 60% registrados há um ano. Isso porque, em 2025, São Paulo registrou uma das piores estiagens em dez anos, com precipitação entre 40% e 70% abaixo da média – ou seja, choveu pouco. E, para piorar, o problema não é apenas climático: é estrutural. A disponibilidade hídrica na região metropolitana é de cerca de 140 metros cúbicos por segundo por habitante ao ano, um índice extremamente baixo em relação aos mais de 1 mil metros cúbicos considerados ideais.
Logo, erra quem ainda acredita que a água doce é um bem inesgotável no Brasil: esse mito já não se sustenta mais. Por isso, é intolerável imaginar que o País ainda perca mais de 40% da água que coleta, trata e distribui. E o fato de a Sabesp, uma empresa referência nacional no saneamento básico, desperdiçar quase 30% de sua produção preocupa ainda mais. De acordo com informações da própria companhia, 19% são de perdas em tubulação danificada ou obsoleta. E outros 10% não se perdem: são roubados, por exemplo, por criminosos que fazem ligações clandestinas no Estado.
O comportamento imprudente de consumidores que ignoram a crise e desperdiçam água no dia a dia, lavando a calçada com mangueira, tomando banhos longos ou deixando a torneira aberta em atividades triviais, como lavar louça ou escovar os dentes, também precisa mudar. Não à toa, em países onde a falta de água é severa, combatem-se as perdas na rede subterrânea e também o desperdício nos pontos de consumo, com fiscalização e multas pesadas.
São muito bem-vindas, portanto, as iniciativas da Sabesp de atacar um problema invisível, mas de dimensão colossal na Grande São Paulo. Não pode a companhia se dar ao luxo de perder um volume tão grande de sua produção de água se já não se pode contar mais com a boa vontade dos céus para recarregar seus reservatórios ao mesmo tempo que a demanda dos paulistas aumenta. Detectar e consertar vazamentos na rede, atualizar as tubulações, adotar ferramentas tecnológicas para coibir as perdas e combater o crime são medidas urgentes para aumentar a segurança hídrica de São Paulo.
A proposta de Haddad sobre renda básica
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, acredita que o País esteja pronto para fazer um redesenho dos programas sociais. Ao participar de um evento do BTG Pactual, Haddad propôs unificar os vários tipos de benefícios que já existem e substituí-los por um programa de renda básica. Seria, segundo ele, uma alternativa “mais racional”. Algo assim, dito por um ministro petista em um ambiente formado por profissionais do mercado financeiro a meses da disputa presidencial, tem enorme significado, já que Haddad não esconde de ninguém a ambição de colaborar com a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Há que reconhecer que a ideia é boa. O Bolsa Família, lançado por Lula em seu primeiro mandato, nasceu da agregação de programas sociais que já existiam antes de sua eleição, como o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás, entre outros. O sucesso da política pública fez com que ela fosse mantida por todos os presidentes que sucederam ao petista no cargo, um feito e tanto, levando-se em consideração que o programa somente se tornou uma política de Estado permanente em 2023.
É verdade que a distância entre a concepção e a execução de uma política pública é oceânica – basta lembrar que o Fome Zero e o Bolsa Família tinham o mesmo objetivo, mas o primeiro fracassou e o segundo se tornou referência internacional, enquanto o Renda Básica de Cidadania, proposta do ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP), virou lei em 2004 sem nunca sair do papel.
Uma proposta racional, palavra escolhida a dedo por Haddad, não necessariamente resulta em economia imediata, mas pode trazer melhorias no futuro ainda que os desembolsos inicialmente permaneçam estáveis. Talvez isso explique o silêncio da tropa de choque petista, que costuma matar no ninho qualquer iniciativa que resvale na possibilidade de corte de despesas.
O debate sobre a renda básica é antigo, mas ganhou popularidade com o economista liberal Milton Friedman, na década de 1960. Expoente da Escola de Chicago, ele propôs um modelo de imposto de renda negativo, por meio do qual os mais ricos pagariam mais para financiar um benefício pago aos mais pobres de maneira incondicional. A ideia vai e volta de tempos em tempos, mas ganhou força em diversos países do mundo na pandemia de covid-19. No Brasil, em particular, o governo de Jair Bolsonaro instituiu o auxílio emergencial, eliminando critérios de elegibilidade e contrapartidas impostas pelo Bolsa Família. Faltou, no entanto, implementar o financiamento dessa política, sem a qual sua manutenção seria inviável.
Fato é que os gastos com políticas sociais e assistenciais explodiram desde a pandemia. Em 2019, o País gastou cerca de R$ 30 bilhões com o Bolsa Família, despesa que subiu para R$ 158 bilhões no ano passado. O futuro não permite otimismo. Sobre outro programa de natureza assistencial, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), destinado a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência, o próprio Ministério da Fazenda estima que os gastos anuais saltarão de R$ 127 bilhões anuais em 2025 para R$ 222 bilhões em 2035, ultrapassando o orçamento do Bolsa Família já em 2028.
Defender mais racionalidade nesse tipo de despesa, como disse Haddad, é como música aos ouvidos do mercado financeiro. Mas é bom lembrar que a ideia de corrigir ou até eliminar programas cujo foco e eficiência sabidamente estão longe do ideal, como o seguro-defeso e o abono salarial, tampouco é inédita. De Joaquim Levy a Fernando Haddad, passando por Paulo Guedes, praticamente todos os ministros da área econômica propuseram mudanças nesses programas nos últimos dez anos, mas encontraram barreiras no Congresso e, às vezes, no próprio Palácio do Planalto.
Dito isso, é de questionar por que o governo Lula não aproveitou a legitimidade que as urnas lhe deram em 2022 e a autoridade que seus mandatos anteriores lhe conferiram na área social para propor um programa de renda básica nos moldes em que Haddad se referiu antes. É o que autoriza este jornal a colocar em dúvida a disposição de Lula de fazer algo tão corajoso caso seja reeleito.
Negacionismo climático como política oficial
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Fiel à sua visão de que as mudanças climáticas não passam de uma “farsa” promovida por cientistas e organismos internacionais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a revogação da chamada endangerment finding, a conclusão técnica adotada pela Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) em 2009 que reconhecia os gases de efeito estufa como ameaça à saúde humana e ao meio ambiente.
Essa determinação era o pilar jurídico da regulação federal de emissões sob a Lei do Ar Limpo. Ao eliminá-la, o governo desmonta a base legal que permitia limitar a poluição de veículos, usinas termoelétricas e setores industriais intensivos em carbono. Trata-se da supressão deliberada do fundamento científico que amparava, havia mais de uma década, a política climática federal americana.
Apresentada pela Casa Branca como gesto de desregulamentação pró-crescimento, a medida tem consequências sérias. Sem o reconhecimento formal de que dióxido de carbono, metano e outros gases aquecem o planeta e oferecem riscos concretos, a autoridade da EPA para impor limites às emissões fica severamente enfraquecida. Abre-se espaço para uma reversão em cadeia de normas ambientais, com impacto direto sobre padrões veiculares, controle de poluentes industriais e metas de descarbonização.
Como este jornal já sustentou, a crise climática não depende exclusivamente de Trump. A economia global segue ancorada em combustíveis fósseis, que ainda respondem pela maior parte da matriz energética. A transição impõe custos, enfrenta resistências políticas e não ocorrerá por voluntarismo ou retórica. O problema é estrutural, atravessa fronteiras e envolve escolhas difíceis.
Feita essa ressalva, não há como minimizar o peso da decisão americana. Os Estados Unidos figuram entre os maiores emissores históricos e atuais de gases de efeito estufa. Quando a maior economia do mundo decide negar, por ato administrativo, a base científica que sustenta sua própria regulação climática, informa ao planeta que a ciência pode ser descartada se contrariar conveniências ideológicas ou interesses de curto prazo.
O movimento não chega a surpreender. Afinal, logo nos primeiros dias de governo, Trump retirou novamente os Estados Unidos do Acordo de Paris, repetindo o gesto de seu mandato anterior. Desde então, o discurso oficial exalta combustíveis fósseis, estimula a expansão da exploração de petróleo e gás e trata políticas de transição energética como entraves ao crescimento. A revogação da endangerment finding consolida juridicamente uma escolha política feita desde o início.
Há algo de particularmente perturbador nesse passo. A decisão de 2009 resultou de décadas de pesquisa científica e teve o respaldo da Suprema Corte americana. Ao suprimi-la, o governo redefine, por decreto, a relação entre Estado e conhecimento técnico. É o negacionismo como política de Estado, e não como mera peça retórica política e eleitoral, como é mais comum.
Os defensores da medida falam em redução de custos regulatórios e estímulo ao investimento. Não é um argumento trivial. Entretanto, o raciocínio ignora que os custos da inação climática são empurrados para o futuro, sob a forma de eventos extremos mais frequentes, crises hídricas, insegurança alimentar e pressões migratórias. A conta, cedo ou tarde, será paga – e dificilmente pelos que hoje celebram a desregulamentação.
No plano internacional, o gesto também enfraquece um multilateralismo já tensionado. Se a principal potência econômica relativiza o consenso científico, países hesitantes ganham pretexto para adiar compromissos e governos autoritários encontram justificativa para flexibilizar metas. A cooperação climática, que já avançava aos tropeços, fica ainda mais incerta.
O planeta não começou a aquecer com Trump nem deixará de aquecer apenas por causa dele. Mas decisões dessa magnitude produzem efeitos concretos e simbólicos. Ainda que a crise climática seja maior que um presidente, quando a principal potência do planeta escolhe caminhar na direção oposta ao conhecimento científico acumulado, o impacto ultrapassa suas fronteiras e aprofunda um cenário já sombrio. E isso ocorre justamente num momento em que os sinais físicos do aquecimento se mostram cada vez mais evidentes.
Mendonça tem impacto positivo no caso Master
Por Editorial / O GLOBO
O novo relator do caso do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça, foi feliz nas primeiras decisões que tomou no processo. Mesmo mantendo o caso sob sigilo, autorizou que a custódia, a extração e a análise das provas colhidas pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero seguissem o fluxo normal de todas as operações policiais e determinou que qualquer perito habilitado poderá ser designado para o trabalho. Mendonça também permitiu que a PF voltasse a compartilhar com a CPMI do INSS os dados sigilosos sobre o caso cujo acesso estava restrito à presidência do Senado.
Todo o material recolhido pela PF — incluindo cem dispositivos eletrônicos — deixará de ficar sob a guarda da Procuradoria-Geral da República (PGR), e o acesso às provas não estará mais limitado aos peritos escolhidos pelo relator. A responsabilidade pela integridade e pela qualidade das provas caberá à PF, como em qualquer investigação. Os técnicos habilitados a extrair informações de celulares e computadores serão, como de costume, obrigados a zelar pelo sigilo. A PF também foi autorizada por Mendonça a seguir a rotina- padrão de colher depoimentos de investigados ou testemunhas que não requeiram novas autorizações judiciais.
As decisões de Mendonça refletem o bom senso. Não havia motivo para manter tantas restrições. Ao adotar as regras usuais, ele permite que o trabalho da PF e da PGR flua sem obstáculos, para que as informações deem embasamento a acusações e denúncias bem fundamentadas. Ao permitir acesso à CPMI do INSS, ele dá ao Parlamento a capacidade de promover uma investigação mais robusta. Com o tempo, poderá decidir se é necessário manter todo o processo tramitando no Supremo ou se vale a pena devolver à primeira instância os trechos relativos a suspeitos que não detêm prerrogativa de foro. Também avaliará se é preciso conservar o nível de sigilo tão alto sobre todas as informações.
A liquidação do Master, apesar do impacto reduzido no sistema financeiro, envolve somas bilionárias e gerou um custo enorme para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mantido pelos próprios bancos como seguro para investidores (até determinado limite de aplicação). No primeiro semestre do ano passado, o FGC tinha em caixa cerca de R$ 150 bilhões. Pelas últimas estimativas, a quebra do grupo Master, incluindo Will Bank e Pleno, custará quase R$ 52 bilhões ao fundo. O FGC já anunciou a necessidade de o sistema bancário repor esses recursos — e tal custo deverá ser repassado aos clientes. Além disso, entre os ativos do Master não cobertos pelo FGC, parte relevante está em poder de fundos previdenciários de estados e municípios — e essa conta recairá sobre o contribuinte. Será preciso também elucidar as conexões políticas que favoreceram esse tipo de investimento temerário.
Por envolver tantos interessados, é essencial que qualquer investigação seja conduzida de forma profunda, detalhada e, sobretudo, transparente. Isso é necessário não apenas para definir responsabilidades e punir criminosos, mas também para aperfeiçoar a supervisão e a vigilância do setor financeiro. Mendonça tem plena condição de avançar, com ajuda da PF, de forma serena no esclarecimento de todas as ramificações do caso. O êxito nessa empreitada será vital para preservar a confiabilidade do sistema financeiro.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/7/L/knUvgHR3Cjs8lKaS7uvg/54921668386-82135f63dd-c.jpg)
As dores da política
Por Merval Pereira / O GLOBO
Fui assistir à ópera “Um baile de máscaras” na Bastille, e não consegui deixar de pensar no Brasil. A obra de Verdi destaca temas como “destino inevitável”, “traição”, “perdão”, “sacrifício”, terminando com uma mensagem humanista: o perdão e a honra podem prevalecer mesmo diante da morte. Fiquei pensando, porém, na situação atual do Supremo Tribunal Federal (STF), que um ministro me definiu como de “insegurança”. A reunião, que se queria secreta, que definiu a saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, foi gravada, provavelmente pelo próprio, o que deixou seus defensores abismados e temerosos. Que outras conversas teriam sido gravadas?
Dias depois, o ministro Alexandre de Moraes, valendo-se dos poderes infinitos que lhe concedeu a omissão de seus companheiros de toga, mandou quebrar o sigilo bancário de cerca de cem pessoas ligadas por parentesco até o terceiro grau aos mesmos ministros. Aparentemente, sem consultar seus pares, Moraes quer descobrir se funcionários da Receita Federal obtiveram os dados de sua mulher, a advogada que fez um contrato milionário com o Banco Master, e do ministro Toffoli. Alguns de seus colegas, porém, temem que Moraes tenha informações excessivas sobre eles e suas famílias. Ambiente inseguro, traição, Um Baile de Máscaras, de Giuseppe Verdi, como vemos, continua surpreendentemente atual quando observada à luz da política brasileira contemporânea.
Embora ambientada em outro tempo e contexto, a obra levanta questões de poder, desconfiança e conspiração que dialogam com tensões presentes no Brasil de hoje. No centro da ópera está um governante carismático que, mesmo cercado de lealdades aparentes, vive sob a sombra da traição. Esse elemento ecoa a realidade política brasileira, quando se armam as negociações para as eleições deste ano, especialmente a presidencial, marcada por alianças instáveis, disputas internas e frequentes crises de confiança entre líderes e seus próprios aliados.
As traições e a insegurança fazem parte do roteiro dos Bolsonaro, onde o pai não confia nos aliados, mas somente na família que, no entanto, também se desentende nos bastidores. A atuação do ex-deputado Eduardo a favor das taxações de Trump no Brasil gerou discussões ácidas vazadas. E a desavença entre a madrasta Michelle e os enteados, causada por ambições políticas, é uma tragédia operística. O caso do Master é exemplar desse ambiente ambíguo também no petismo. O ministro Toffoli, uma cria de Lula e do PT, já havia traído Lula quando este esteve na prisão, proibindo-o de ir ao enterro do irmão.
Presidente do STF, convocou um general do Exército para assessorá-lo e passou a chamar o golpe de 64 de “movimento”. No caso Master, colocou o governo em situação delicada quando revelou-se a intimidade que tinha com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Tal como o duque Ricardo da peça, governam num ambiente em que amizades políticas podem rapidamente transformar-se em rivalidades. No baile final da ópera, quando caem as máscaras, as identidades ocultas simbolizam a dificuldade de distinguir intenções verdadeiras.
A metáfora do baile sugere um cenário em que a aparência pública nem sempre corresponde às articulações reais de poder. A obra de Verdi também enfatiza o peso do destino e da inevitabilidade. A profecia que anuncia a morte de Ricardo cria uma atmosfera de fatalismo que lembra certos momentos da política brasileira, quando crises parecem caminhar para desfechos previsíveis apesar das tentativas de evitá-los. Como o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que levou à desclassificação da escola e a acusações de abuso do poder econômico e político a serem analisadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Um Baile de Máscaras permanece atual porque revela que, por trás das mudanças históricas, a política continua sendo um palco de ambições, lealdades frágeis, encenação pública e decisões humanas sob pressão — um verdadeiro baile em que nem todos mostram os rostos.
Master: Primeiras medidas de Mendonça reforçam PF e colocam Congresso em alerta
Por Rafael Moraes Moura — Brasília / COLUNA DA MALU / O GLOBO
As primeiras decisões do ministro André Mendonça no âmbito do caso Banco Master representam uma guinada do Supremo Tribunal Federal (STF) na direção de reforçar o trabalho da Polícia Federal e dar fôlego à CPI do INSS, um dos principais focos de desgaste do governo Lula e de vulnerabilidade do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
A interlocutores, o ministro tem dito que quer uma atuação “séria e discreta” dos investigadores, sem que haja qualquer tipo de interferência, de qualquer lugar.
Para o Congresso, tal postura equivale a uma ameaça velada, uma vez que, enquanto o caso esteve sob a relatoria de Dias Toffoli, ele não só impediu o acesso da CPI ao sigilo fiscal e telemático do dono do Master, Daniel Vorcaro, como também auxiliou nas negociações para que os questionamentos da CPI ao banqueiro ficassem circunscritas ao crédito consignado.
Com Toffoli, as lideranças do Centrão avaliavam que o risco representado pelo avanço das apurações era “controlado”. Agora, a sensação de relativo conforto evaporou.
Um dos mais evidentes sinais de mudança nos rumos da investigação foi a decisão de Mendonça da sexta-feira (20) que reverteu o bloqueio imposto por Toffoli ao acesso da CPI do INSS aos dados de Vorcaro.
Toffoli havia determinado que apenas Alcolumbre poderia acessar as informações, mesmo ele não sendo membro da CPI. Agora, por decisão de Mendonça, a presidência do Senado será obrigada a entregar o material à Polícia Federal, que deve compartilhar as provas obtidas com os parlamentares da comissão.
“Determino à Presidência do Congresso Nacional que proceda à imediata entrega às autoridades da Polícia Federal que estão investigando diretamente os fatos relacionados à ‘Operação Sem Desconto’ de todos os elementos informativos oriundos das quebras de sigilo mencionadas nesta decisão, estejam eles em meio físico ou digital, não devendo permanecer com qualquer cópia do citado material”, diz a decisão.
Para Mendonça, a entrega dos elementos à Polícia Federal e à CPI “mostram-se adequadas, necessárias e proporcionais para assegurar a continuidade das investigações e a plena realização da finalidade constitucional das CPIs”.
‘Vingança’
Nas palavras de um aliado de Alcolumbre ouvido reservadamente pelo blog, a determinação “foi uma vingança do Mendonça” contra o presidente do Senado. O comentário é uma referência à barreira imposta por Alcolumbre à indicação de Mendonça ao STF em 2021.
Na época, Alcolumbre, então presidente da Comissão de Constituição e Justiça, travou por quatro meses a sabatina na esperança de emplacar o então procurador-geral da República, Augusto Aras, para a vaga. Mendonça também foi alvo de lideranças do Centrão, que viam na inércia de Aras à frente da PGR uma opção mais segura e palatável aos interesses da classe política.
Agora, os “algozes” de Mendonça estão apreensivos com os riscos de serem implicados nas investigações do Master.
Relação com a PF
Em outra guinada, Mendonça autorizou a Polícia Federal a seguir com o “fluxo ordinário” do trabalho de perícia do material recolhido nas buscas e apreensões, assim como o agendamento de depoimentos de “investigados e testemunhas nas dependências da Polícia Federal”. Antes, Toffoli havia determinado que o material apreendido fosse lacrado e guardado na Procuradoria-Geral da República (PGR).
Toffoli também havia determinado que os depoimentos de Vorcaro, do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, e do diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, fossem realizados no próprio STF. O ministro chegou a convocar uma acareação, antes mesmo que fossem colhidos depoimentos para confrontar versões.
A relação de Toffoli com a PF, a quem acusou de “inércia”, foi marcada por desgaste e embates públicos, que culminaram com a entrega do documento de 200 páginas pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ao presidente do STF, Edson Fachin, com evidências de conexões entre Toffoli e Vorcaro – como por exemplo o pagamento de R$ 35 milhões por uma fatia do resort de Toffoli no interior do Paraná.
Mendonça, no entanto, determinou que os agentes policiais envolvidos nas investigações do caso Master devem manter “o dever de sigilo profissional”, sem compartilhar as informações com “superiores hierárquicos” – o que foi interpretado nos bastidores como uma forma de afastar Rodrigues do caso.
Na reunião secreta em que o STF acertou a saída de Toffoli da relatoria do caso Master, Mendonça foi um dos mais críticos à postura do diretor-geral da PF de entregar um relatório sobre as conexões de Toffoli com Vorcaro.
“Aparentemente Mendonça coloca o caso na trilha da normalidade”, diz um investigador que acompanha de perto os desdobramentos do caso.
“Mas em algum momento ele terá que se manifestar sobre a manutenção do foro [no STF].”
Contrato
Ao acionar o Supremo em novembro do ano passado, a defesa de Vorcaro argumentou que a Justiça Federal não seria o foro competente para cuidar das investigações do Master, e sim o Supremo, em função de um contrato imobiliário apreendido pelos investigadores que menciona o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA).
A tese foi acatada por Toffoli – e endossada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, “até, pelo menos, que, eventualmente, fique afastada a repercussão da investigação sobre detentor de foro privilegiado”.
Mas se por um lado Mendonça tem demonstrado uma maior postura cooperativa com a PF e com a CPI do INSS, por outro manteve o grau de sigilo reforçado do caso, aplicando o sigilo padrão nível 3, o mesmo que havia imposto por Toffoli à ação de Vorcaro.

