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Cela como escritório

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O Departamento de Inteligência Policial (Dipol), da Polícia Civil de São Paulo, desenhou o novo organograma do Primeiro Comando da Capital (PCC). A facção criminosa, como mostrou recente reportagem do Estadão, está estruturada em 12 “sintonias”: são uma espécie de diretorias responsáveis por um ramo, ou uma determinada “missão”, no linguajar da bandidagem. Não é de hoje que as autoridades públicas têm conhecimento de que o PCC se organiza de forma vertical, hierarquizada e autoritária. Mas ainda causa espanto o fato de que as ordens transmitidas a toda essa cadeia de comando partam de dentro de presídios.

 

As sintonias do PCC, no dia a dia, cuidam da administração do crime e da gestão de pessoas – ou melhor, de bandidos –, no Brasil e no mundo. Essas estruturas são comandadas hoje por 15 detentos da alta cúpula da facção, que ocupam, digamos assim, o posto de diretor. Nada menos do que 14 deles estão presos, e um está foragido. E Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola – que, vale lembrar, está preso numa unidade do sistema prisional federal e, em tese, incomunicável –, ainda figura como o líder máximo do PCC.

 

E esses líderes ainda contam com auxiliares diretos. São cerca de 100 “gerentes”, dos quais 61 também são detentos. Isso significa que, de dentro de uma cela – muito provavelmente de segurança máxima –, esses criminosos traçam as diretrizes de gestão de negócios ilícitos e lícitos do PCC, que movimentam, conforme estimativas do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), nada menos do que US$ 2 bilhões, ou R$ 10 bilhões, por ano em ao menos 28 países das Américas, da Europa e até da Ásia.

 

Para manter a disciplina numa organização criminosa que já ganha contornos de máfia, os líderes do PCC dividiram os interesses do bando nas “sintonias”, como a do Sistema, que cuida dos assuntos internos das prisões; a do Progresso, que gerencia o tráfico de drogas nas ruas, sobretudo de São Paulo; a da Padaria, que responde pelas finanças do grupo; e a dos Gravatas, que é formada por advogados a serviço dos criminosos e, não raro, a serviço do crime. E agora há uma novidade: o Dipol descobriu a existência da Sintonia da Internet e das Redes Sociais.

 

Trata-se de uma estrutura criada pelo PCC para afinar a comunicação online entre os faccionados por meio de aplicativos de mensagens, redes sociais e e-mails criptografados. Segundo o relatório do Dipol, a missão da sintonia é garantir “segurança e discrição”, além de oferecer “suporte digital e de informação”, evitando qualquer risco de exposição da facção. E, com tantos líderes do PCC presos, cabe à Sintonia da Internet e das Redes Sociais assegurar a coesão da organização criminosa. De acordo com os investigadores, essa é a sintonia responsável por difundir o ideário do bando paulista, “mantendo a unidade ideológica e simbólica da facção, mesmo entre integrantes distantes”.

 

Os líderes do PCC também se preocupam com o controle sobre seus integrantes, nos presídios e nas ruas. Prova disso é que os investigadores do Dipol trouxeram a público o funcionamento do Setor do Raio X, que, embora esteja vinculado à alta cúpula da facção, não pode ser chamado de uma sintonia. Com atribuições específicas, ocupa-se de fiscalizar e auditar as contas de cada uma das áreas da facção. Esse departamento foi criado, segundo o relatório do Dipol, para “inspecionar, investigar e avaliar o comportamento dos integrantes da organização” – ou seja, é uma corregedoria do crime.

 

Todas essas revelações não são nada triviais. Ao atualizar o organograma do PCC, a ideia da Polícia Civil de São Paulo é enfraquecer a facção criminosa, expor seus principais e mais perigosos líderes e abrir caminhos para a implementação de estratégias que possam asfixiá-la financeiramente, tanto no Estado como no exterior. O eficiente trabalho de inteligência do Dipol mostra que é constrangedor para o poder público o fato de o sistema prisional funcionar como a sede do crime, de onde o PCC emite suas ordens às filiais, numa demonstração de audácia do crime organizado e de fracasso do Estado em combatê-lo.

Inquérito sem fim, poder sem limite

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Em ofício à presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) solicitou o encerramento do chamado “Inquérito das Fake News”. Gesto bem-vindo, ainda que tardio. Há sete anos, consolidou-se no coração do Judiciário um modelo processual apresentado como resposta emergencial a ameaças à integridade dos ministros, mas que rapidamente foi subvertido em instrumento permanente de intimidação, blindagem corporativa e intervenção na arena política.

 

Desde a origem, esse expediente operou sob interpretação elástica de competências e com fronteiras convenientemente imprecisas. Instaurado sem a provocação do Ministério Público, sob sigilo e sem delimitação de fatos ou prazos, passou a acumular funções típicas de investigação, acusação e julgamento sob a mesma autoridade do ministro Alexandre de Moraes.

 

Ao longo dos anos, consolidou-se a percepção de que, em nome da “defesa da democracia”, tudo vale e tudo cabe nesses inquéritos: violações do sistema acusatório (acúmulo de funções, restrições ao contraditório, prazos indefinidos); ampliação de competências (alcance de cidadãos sem foro privilegiado, decisões monocráticas com impacto sistêmico); medidas cautelares (como quebras de sigilos, apreensões ou bloqueios patrimoniais) indiscriminadas, desproporcionais e com efeito punitivo; restrições à liberdade de expressão (censuras prévias, bloqueios de perfis, criminalização de opiniões políticas). Tudo recorrentemente amparado por relatórios não oficiais, sob fundamentos vagos, sigilo ubíquo e às margens do colegiado.

 

Não se trata de negar ameaças reais às instituições. Mas duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: a República pode ter enfrentado riscos autoritários e a Corte pode ter reagido com instrumentos igualmente – e até mais – autoritários. Todo Estado dispõe de mecanismos penais e civis para enfrentar ilícitos. Mas o que distingue o Estado de Direito não é a sua força, mas sim seus limites. É fácil respeitar garantias em tempos calmos. O teste real vem na turbulência. A própria OAB tropeçou ao insinuar que um ambiente de “grave tensão” teria justificado atalhos institucionais – como se o problema não fossem esses atalhos em si, mas só a sua perpetuação.

 

Quando, contudo, o Poder encarregado de proteger a Constituição se autoconfere uma espécie de competência universal para “salvar a democracia”, o resultado é um paradoxo intolerável: um Estado policial “bem intencionado”. A elasticidade institucional foi acompanhada de elasticidade semântica: “desinformação”, “milícias digitais”, “discursos de ódio”, “democracia militante” – categorias maleáveis, estranhas à tipificação penal, aptas a abarcar qualquer conduta incômoda e justificar qualquer medida de exceção. Conceitos imprecisos municiam poderes arbitrários.

 

O Brasil já conheceu, no século passado, a tentação de uma corporação não eleita que se julgava comissionada a tutelar a política em nome de valores superiores. Hoje, não por “atos institucionais”, mas por decisões judiciais, ressurge a ideia de que a democracia precisa ser corrigida por seus guardiões – sai a farda positivista, entra a toga iluminista, mas a lógica é perturbadoramente familiar. Pior: essa ideia justifica o uso do aparato persecutório do Estado para blindar autoridades – como se suas pessoas encarnassem as próprias instituições que alegam estar sob “ataque”. Sintomaticamente, uma das primeiras medidas tomadas no inquérito foi censurar uma reportagem que mencionava um ministro. Cidadãos são intimados simplesmente por críticas públicas. A fronteira entre defesa institucional e interesse pessoal foi borrada.

 

As democracias contemporâneas raramente sucumbem por rupturas espetaculares. Elas são corrompidas pela concentração gradual de poder sob justificativas virtuosas. Encerrar os inquéritos permanentes é passo indispensável, mas é só o primeiro na reconstrução do princípio elementar de que nenhuma autoridade pode operar sob a lógica da exceção. A Constituição não conferiu ao Supremo a tarefa de administrar emergências indefinidas, mas só de assegurar que todos os Poderes – a começar por ele próprio – atuem dentro da lei.

Caso Master mostra por que é melhor privatizar BRB

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

A liquidação do Banco Master expôs os problemas enfrentados pelo BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal. No ano passado, a Câmara Legislativa do DF deu sinal verde para o BRB adquirir parte do Master. O negócio foi vetado pelo Banco Central (BC), que já via como irreversível a derrocada do banco de Daniel Vorcaro. Mas o BRB acabou comprando uma carteira fraudulenta de títulos do Master avaliada em R$ 12,2 bilhões. Uma auditoria do BC constatou que os papéis não existiam ou estavam supervalorizados, e a Polícia Federal abriu inquérito para investigar fraudes.

 

Como resultado dessa operação temerária, o BC avisou recentemente que o BRB precisará provisionar pelo menos R$ 5 bilhões em ativos reais no seu balanço, cifra superior a todo o patrimônio líquido declarado no segundo trimestre de 2025 — R$ 4 bilhões. O próprio BRB estima necessitar de um aporte de R$ 6,6 bilhões para equilibrar suas contas. Ninguém tem ideia de onde virá tanto dinheiro.

 

O BRB sugeriu o envolvimento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e de outras instituições financeiras. Ora, o FGC é uma entidade privada, mantida por contribuições do sistema bancário, cuja missão é funcionar como seguro para correntistas e investidores — não para bancos em apuros em razão de operações suspeitas. Devido à falência do grupo Master (incluindo Will Bank e Pleno), o FGC já comprometeu cerca de R$ 52 bilhões de sua liquidez, estimada em perto de R$ 122 bilhões no início do ano. Não teria o menor nexo envolvê-lo em mais uma operação de salvação do BRB.

 

Outras soluções propostas envolvem o uso de imóveis e outros ativos como lastro para constituição de fundos de investimento imobiliário ou patrimonial. Essa engenharia, tecnicamente conhecida como securitização, teria como objetivo fazer o governo do DF captar, a partir dessas garantias, os recursos de que necessita para sanear o BRB. Mas tudo depende da qualidade dos ativos, e nesses momentos o mercado tende a subavaliá-los. Outro fator relevante é a transparência dos fundos, recurso desde o início escasso em todo o imbróglio do Master. Por fim, essas operações costumam ser demoradas, e há uma corrida contra o tempo para evitar uma crise de liquidez no banco.

 

O governo brasiliense decerto recorrerá à Câmara Legislativa em busca de mais recursos. Mas é incerto que desta vez conte com o apoio necessário para aprovar uma operação de salvação do BRB. O melhor seria a classe política aprender com a crise e aproveitar para privatizá-lo. A existência do BRB como banco estatal é um anacronismo de um tempo em que os entes federativos dispunham de sistemas bancários próprios para emitir dívida sem controle nem transparência, e a conta invariavelmente sobrava para o contribuinte na forma de mais impostos ou para o cidadão na forma de mais inflação. Não há prova mais eloquente da necessidade da privatização do que, mais uma vez, o governo do DF estar às voltas com um rombo para cobrir.

Master: PF faz triagem em celular de Vorcaro antes de enviar material à CPI do INSS

CLUNA MALI GASPAR / Por Rafael Moraes Moura — Brasília / O GLOBO

 

A CPMI do INSS ainda não recebeu o conteúdo da quebra do sigilo bancário, telemático e fiscal do executivo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Isso porque a Polícia Federal está fazendo uma triagem no material, separando apenas o que diz respeito a operações de crédito consignado, que são objeto de apuração do colegiado. De acordo com o presidente da comissão, Carlos Viana (Podemos-MG), a medida foi determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STFAndré Mendonça, que autorizou o compartilhamento de provas no último dia 20.

 

Agora, a previsão é a de que os parlamentares tenham acesso às provas coletadas pela PF dentro de uma semana. O banqueiro é peça-chave de um esquema bilionário de fraude e a revelação do conteúdo do seu celular é acompanhada com apreensão tanto por integrantes do próprio STF quanto entre parlamentares que temem ser arrastados para o centro do escândalo.

“Tô mantendo contato com ele [Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal] direto. Cobrei, ele me disse ‘Olha, senador, é só terminar a separação do que é realmente de empréstimo consignado’, que aí vêm pra nós os arquivos. Por determinação do ministro André, ficou limitado à questão do consignado”, disse Viana.

 

A menos de oito meses das próximas eleições, a CPMI se tornou um dos principais focos de embate no Congresso entre o governo Lula e a oposição. Na última quinta-feira (26), o Palácio do Planalto sofreu um revés ao ser confrontado com a aprovação de uma lista de de 87 requerimentos, entre eles a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula. A quebra já havia sido decretada no mês passado pelo próprio Mendonça a pedido da PF, conforme revelou o Poder360.

“O [material do sigilo] do Vorcaro eu vou deixar tudo liberado. Eu ia deixar numa sala cofre, minha preocupação era o uso das informações particulares dele. Mas como virão somente as informações dos consignados, vou deixar liberado [o acesso] para os parlamentares”, acrescentou o presidente da CPMI.

 

Em uma guinada nas investigações do caso Master, André Mendonça autorizou na semana passada o compartilhamento das provas obtidas pela PF com a CPMI – algo que havia sido barrado pelo ministro Dias Toffoli, que chegou a determinar que o material fosse armazenado no gabinete do presidente do Senado FederalDavi Alcolumbre (União Brasil-AP), que não integra a comissão.

 

“O modelo constitucional brasileiro estrutura-se sobre a cooperação entre instituições estatais na persecução de ilícitos e na proteção do interesse público”, observou Mendonça, ao autorizar o compartilhamento das provas, em decisão assinada no último dia 20.

 

“Nesse cenário, a atuação das Comissões Parlamentares de Inquérito insere-se no sistema mais amplo de investigação estatal, que compreende também órgãos de persecução penal e entidades responsáveis pela investigação criminal, dentre os quais se destaca a Polícia Federal.”

No último dia 12, Toffoli deixou a relatoria das investigações após a Polícia Federal enviar para o presidente do STF, Edson Fachin, um relatório de 200 páginas listando indícios de conexões entre Vorcaro e Toffoli que poderiam levar à sua suspeição – como o pagamento de R$ 35 milhões do banco de Vorcaro por uma fatia do resort Tayaya, do qual o ministro admitiu ser sócio.

 

Conforme informou o blog, desde que assumiu a relatoria do caso Master, Mendonça tomou uma série de medidas para fortalecer a atuação dos parlamentares e de técnicos da Polícia Federal, além de abrir caminho para o afastamento das investigações de homens de confiança de Toffoli.

Irritação

O conteúdo do celular de Vorcaro é alvo de grande preocupação nos meios políticos e jurídicos de Brasília. Nele estava armazenado, por exemplo, o contrato do Master com o escritório da mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes. O documento, revelado em primeira mão pelo blog, previa um pagamento de cerca de R$ 130 milhões em três anos para o escritório defender os interesses do banco de Vorcaro perante o Banco Central, a Receita Federal e o Congresso Nacional. A demora no envio do material tem irritado integrantes da CPMI, especialmente a tropa de choque bolsonarista, que aposta nas conexões políticas de Vorcaro para desgastar a imagem do STF.

 

“A culpa é da decisão anterior que atrapalhou tudo [do ministro Toffoli, que derrubou o compartilhamento de provas]. Agora a demora está sendo mais técnica pois estão separando do sigilo só o que tem a ver com o INSS e esta separação técnica creio que demora mesmo. Mas isto nos irrita muito”, critica a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). “Podíamos ter [acesso ao material] ter nos debruçado com calma na análise dos documentos no mês de janeiro, durante o recesso, sem sessões. Estamos lutando contra o tempo.”

Os caros amigos do Master

EDITORIAL DA FOLHA DE SP

O saldo do calote do conglomerado Master é desconhecido. É possível que existam haveres recuperáveis, mas o total de passivos ainda está sendo apurado. Sabe-se, por exemplo, que, apenas no banco, o Fundo Garantidor de Crédito cobrirá perdas de R$ 40,6 bilhões.

O FGC restitui a clientes depósitos a prazo (CDBs), depósitos a vista e títulos no valor de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Muitas perdas não serão cobertas pelo fundo, que em última instância é financiado pela sociedade via custos bancários maiores. O dano certamente irá muito além de meia centena de bilhão de reais.

Para onde escorreu esse dinheiro? Quem se beneficiou das operações do banco ou de pagamentos fora da contabilidade?

Daniel Vorcaro e sócios contam com apoios de peso na política e no Judiciário. Quais são seus os interesses? Por que tentam barrar uma CPI, negociam empecilhos ou atrapalham a investigação, como o fizeram o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), e parte do Tribunal de Contas da União (TCU)?

Em tese, um banco utiliza recursos que capta dos clientes, com depósitos ou vendas de títulos, a fim de comprar ativos. Isto é, conceder empréstimos ou adquirir outros haveres rentáveis.

O Master comprava precatórios de difícil recuperação, investia em fundos de propriedade secreta e ativos desconhecidos, emprestava a empresas de fachada e negociava participações cruzadas com outros empresários.

Por vezes, inventava que teria empréstimos a receber, como créditos que vendeu ao BRB, o banco estatal do Distrito Federal —fraude denunciada pelo Banco Central. Captava ainda investimentos de paus mandados de governos estaduais ou políticos em geral, caso do comando de fundos de previdência de servidores do Rio de Janeiro e do Amapá.

Com ativos fictícios ou superavaliados, não teria como honrar passivos quando a ciranda terminasse. A música parou. Vorcaro tentou vender o Master ao BRB.

Quem autorizou a compra pelo BRB? Quem deu ordem aos fundos de previdência? O que ganhavam parlamentares que propunham no Congresso leis de salvação ou proteção do Master?

A CPI contra o Crime Organizado convocou personagens graúdas envolvidas nessa história ou que podem explicá-la. Quebrou sigilos de empresas e do banco.

Remedia em parte a omissão suspeita dos presidentes do SenadoDavi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara dos DeputadosHugo Motta (Republicanos-PB), apoiada por parte da cúpula das casas. André Mendonça, que substituiu Dias Toffoli na relatoria do inquérito no STF, parece ter limpado o entulho de restrições à investigação da PF.

A apuração dessa fraude gigantesca mal começou. Sabe-se mais sobre o que se faz para encobri-la do que a respeito de quem fugiu com o dinheiro dos clientes e investidores e dos ganhos dos "amigos nos Poderes", que Vorcaro diz ter. Caros amigos ou amigos caros, todos devem ser expostos.

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Cerco a Lulinha e quebra de sigilo pela PF pressionam governo às vésperas de campanha eleitoral

Catia SeabraMariana BrasilCaio Spechoto / FOLHA DE SP

 

O avanço de investigações conduzidas pela Polícia Federal e o cerco político no Congresso Nacional colocaram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho de Lula (PT), no centro das preocupações de auxiliares do presidente nesta quinta-feira (26). Embora Lulinha tenha negado ao pai qualquer irregularidade e o presidente venha repetindo que quem errou tem que pagar, o receio é que as investigações respinguem na campanha à reeleição.

 

A pedido da Polícia Federal, o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha. O pedido da PF foi feito há cerca de um mês. Mas só chegou ao conhecimento do governo nesta quinta, pela imprensa.

A CPI do INSS também decidiu quebrar o sigilo de Lulinha, em uma sessão conturbada nesta quinta-feira e que está sendo questionada pelos governistas. Fábio Luís foi citado em investigações que envolvem Antonio Carlos Camilo Antunes. Conhecido como Careca do INSS, o empresário se tornou uma das figuras mais emblemáticas do escândalo de descontos em benefícios previdenciários, sob a acusação de supostamente ter facilitado a fraude nas aposentadorias.

 

A PF apura as citações atribuídas a Lulinha nas investigações da Operação Sem Desconto. A informação de que ele estava sendo investigado foi enviada a Mendonça, relator do inquérito sobre o tema. Menções indiretas a Lulinha por alvos da investigação já tinham sido divulgadas em dezembro do ano passado. À época, segundo pessoas com conhecimento das apurações, essas citações já estavam sendo investigadas. Em suas conversas, Lula tem dito que as investigações devem prosseguir. Além dessa orientação expressa ao governo, o presidente repete o que já disse em entrevista: "Quem errou tem que pagar".

O próprio Lula contou, durante entrevista ao portal UOL, que chamou seu filho a Brasília para cobrar explicações. O presidente relatou ter dito a Lulinha que ele pagará o preço caso tenha cometido algum delito. Segundo relatos, essa conversa aconteceu em dezembro. Lulinha disse ao pai que está 100% tranquilo e ironizou rumores que circulam na internet dando conta de sua evolução patrimonial, questionando onde estariam então sua Ferrari de ouro e sua fazenda. Nessa conversa dura, Lula recomendou, então, que o filho se defendesse.

 

Aliados do presidente vêm insistindo na tese de que, embora as fraudes tenham ocorrido nas gestões passadas, as investigações só aconteceram no governo Lula, ainda que os descontos nas aposentadorias tenham disparado. Mesmo com esses argumentos, os colaboradores do presidente temem o uso do caso pela oposição. Por isso, a blindagem de familiares de Lula era considerada estratégica para os governistas na CPI do INSS.

 

O caso também afeta as relações dentro do governo. Apesar de os inquéritos correrem sob sigilo, há quem lance dúvidas sobre a lealdade do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, uma vez que se dizem surpreendidos com a quebra um mês depois do pedido.

Em defesa de Andrei, outra ala do governo alega que o próprio presidente recomendou que levasse adiante as investigações. Também sobram queixas à articulação do governo no Congresso por não ter impedido a confusa votação que culminou na quebra de sigilo de Lulinha na CPI. Governistas questionam a votação no colegiado e afirmam que a quebra de sigilo foi um golpe do presidente da comissão, o senador Carlos Viana (Podemos-MG). A bancada governista protocolou petição solicitando a anulação.

 

Antes, na quarta-feira (25), a CPI do Crime Organizado já havia aprovado a quebra de sigilo de uma empresa do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli, além do convite para que o próprio ministro, Alexandre de Moraes e a mulher, Viviane Barci, compareçam para dar explicações sobre o escândalo financeiro do Banco Master. Dois irmãos de Toffoli foram convocados a depor. As convocações e quebras de sigilo desagradaram ao governo. Os convites para ministros do Supremo e o excesso de temas incluídos na investigação são os aspectos mais criticados por aliados de Lula.

 

A CPI do Crime Organizado foi criada com uma delimitação vaga para o objeto de investigação. Por isso, tem sido possível para o colegiado entrar, por exemplo, no caso do Banco Master.

O plano da CPI, a princípio, era convocar os ministros do STF –ou seja, obrigá-los a depor. No entanto, o governo articulou para que o requerimento fosse alterado para convite, modalidade em que a presença é facultativa.  Após as deliberações da CPI, na quarta-feira (25), a SRI (Secretaria de Relações Institucionais) reuniu no Palácio do Planalto líderes do governo no Congresso e aliados que fazem parte da comissão para discutir como o governo agirá daqui em diante.

 

Segundo pessoas presentes, também foi discutido quem serão os parlamentares que acompanharão o tema na CPI de acordo com a experiência no assunto e a disponibilidade. A ministra Gleisi Hoffmann, chefe da SRI, não participou do encontro. Mas, segundo relatos colhidos pela Folha, ela teria procurado o presidente da Comissão, Fabiano Contarato (PT-ES), antes da deliberação para tentar adiar a votação. Em resposta, o senador teria alegado sofrer pressões para incluir o tema na pauta da comissão, após a repercussão do caso Master.

 

Na reunião do Planalto estiveram os senadores Randolfe Rodrigues (PT-AP), Humberto Costa (PT-PE), Soraya Thronicke (Podemos-MS) e Jaques Wagner (PT-BA). Como mostrou a Folha, os senadores têm tomado iniciativas próprias para apurar o caso Master mesmo contra a vontade de Davi Alcolumbre. O presidente do Senado já havia sinalizado que não abriria uma CPI específica sobre o escândalo.

 

Antes de a CPI do Crime Organizado incluir a fraude financeira em suas discussões, o assunto já vinha sendo tratado em duas outras comissões: a CPI do INSS, presidida pelo senador de oposição Carlos Viana (Podemos-MG), e a CAE (Comissão de Assuntos Econômicos), presidida pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL). Governistas esperam contar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para reorganizar e diminuir a tensão na Casa. Ele foi um dos principais aliados de Lula ao longo do atual mandato, mas se afastou do petista no fim do ano passado depois de o advogado-geral da União, Jorge Messiaster sido indicado pelo chefe de governo a uma vaga no STF. Alcolumbre queria que o escolhido fosse o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), seu aliado próximo.

 

Messias precisa ser aprovado pelo Senado para assumir a cadeira na Suprema Corte. Um acordo entre Lula e Alcolumbre é visto no mundo político como indispensável para que o indicado chegue ao STFLula e Alcolumbre se reuniram ainda no fim do ano passado. Apesar da reconciliação, ainda há abalos na relação, segundo aliados do senador.

 

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