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A várzea do setor elétrico

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O setor elétrico muitas vezes parece incompreensível. É difícil entender por que um país que é dono de uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo subsidia usinas a carvão. É difícil entender como corremos o risco de sofrer apagões tanto por falta quanto por excesso de energia ao longo de um mesmo dia. É difícil entender por que a abundância de recursos naturais para produzir eletricidade não se reverte numa conta de luz barata. Há argumentos técnicos para explicar cada uma dessas questões. Mas, em maior ou menor grau, todas elas se devem a falhas de planejamento que se acumulam há anos, com o custo invariavelmente repassado aos consumidores.

 

No domingo, 7 de junho, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou um plano emergencial para impedir um blecaute por sobrecarga na rede. Além de ter determinado que usinas eólicas e solares centralizadas sob sua gestão cortassem em 30% sua geração, o ONS mandou 12 distribuidoras em todo o País cortarem a produção de pequenas usinas conectadas a elas.

 

Há, portanto, uma sobra de eletricidade no sistema, ao menos durante alguns momentos do dia, sobretudo em razão da profusão de painéis solares instalados em telhados e condomínios. De certa forma, seria um alento para um País que há 25 anos pagou um custo alto ao se submeter a um racionamento de energia motivado pela combinação entre falta de chuvas, baixos investimentos em geração e transmissão e alta demanda de energia.

 

Como explicar então que, a despeito dessa fartura, esse mesmo país acaba de realizar um leilão para contratar usinas para ficarem à disposição do sistema, ou seja, para gerar energia apenas quando for realmente necessário, pela bagatela de até R$ 800 bilhões? Se a física não consegue esclarecer, a política tem a resposta na ponta da língua: isso se deve à escolha política deliberada de atender a lobbies setoriais em detrimento da tarefa de arrumar a bagunça do setor elétrico.

 

Há décadas o País mantém usinas antigas e de custo elevado em funcionamento sob a justificativa de não prejudicar municípios e empresários que dependem delas para se sustentar. Novas tecnologias têm sido incorporadas ao sistema dentro dessa mesma lógica, composta por subsídios eternizados, baixa transparência sobre os reais custos e benefícios e margens elevadas para investidores.

 

Parece claro que o modelo de negócios do setor tem alocado custos e riscos excessivos ao consumidor, sem garantir segurança ao abastecimento de energia. O problema não começou com o atual ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, mas certamente se agravou sob sua gestão.

 

Afinal, em vez de enfrentar esses problemas, o ministro preferiu compactuar com eles. O resultado foi o leilão de reserva de capacidade realizado em março, no qual se contratou mais empreendimentos que o necessário, preços-teto foram elevados às vésperas da disputa e houve baixíssima concorrência e, evidentemente, deságios pífios. A peso de ouro, termoelétricas vão cobrir o buraco que se abre no sistema quando o sol se põe e os ventos cessam.

 

Associações que representam fontes renováveis se sentiram desprestigiadas. Queriam ter participado da disputa com baterias. Qual foi a solução apresentada pelo ministro? Dobrar a aposta: haverá mais um leilão para contemplá-las no final deste ano. No setor privado, seria caso de demissão, mas isso só fortalece a inabalável posição de Silveira no governo Lula e no setor elétrico.

 

O Congresso replica esse modus operandi. Todo projeto de lei que chega ou sai do Legislativo visa a prorrogar subsídios que já deveriam ter acabado e assegurar essas mesmas vantagens a segmentos nascentes, caso das usinas a hidrogênio e das eólicas em alto-mar.

 

Cada privilégio concedido amplia distorções e custos, que, por óbvio, não desaparecem – apenas ficam disfarçados nos indecifráveis encargos embutidos nas contas de luz. O consumidor provavelmente não sabe, mas ele paga bem mais do que deveria por energia de todo tipo: limpa ou suja, nova ou velha, em todo o Brasil e – pasmem – até mesmo no Paraguai. Essa farra promovida pelo governo, pelo Congresso e pelos lobbies precisa acabar.

 

Brasília enlouqueceu

Por Notas & Informações / o ESTADÃO DE SP

 

É sempre positivo quando autoridades se preocupam com a saúde das contas públicas. Nesta semana, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, procurou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para alertar sobre os riscos fiscais de propostas em tramitação no Congresso. O gesto, que acabou sendo em vão, seria louvável, se não partisse de um governo que há meses acumula iniciativas que caminham na direção oposta. A preocupação pode até ser sincera, mas as escolhas recentes do próprio governo tornam esse discurso difícil de levar inteiramente a sério.

 

Segundo estimativas da equipe econômica, o custo potencial das propostas que preocupam a Fazenda é de R$ 111 bilhões. O alerta faz sentido. E os acontecimentos desta semana apenas o reforçam. O Senado aprovou a renegociação de dívidas rurais com impacto potencial de até R$ 140 bilhões, enquanto comissões da Casa avançaram com propostas que ampliam benefícios previdenciários e criam pisos salariais. Soma-se a isso a ampliação da imunidade tributária para igrejas aprovada pela Câmara em maio. Como se vê, o Congresso não quer deixar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sozinho na distribuição irresponsável de dinheiro e benefícios para seduzir eleitores. O Ministério da Fazenda não tem moral para demandar responsabilidade fiscal do Congresso quando o chefe do Executivo é um orgulhoso perdulário.

 

Estimativa do pesquisador do Insper Marcos Mendes identificou 33 medidas adotadas ou patrocinadas pelo Executivo que ampliaram despesas ou reduziram receitas, com impacto estimado em R$ 215 bilhões. O número ajuda a colocar a discussão em perspectiva. A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda transformou-se na principal bandeira econômica do presidente Lula para 2026. Benefícios foram expandidos, programas sociais ganharam reforço e o debate sobre reformas capazes de conter o crescimento estrutural das despesas não existiu. Sempre que surge um conflito entre responsabilidade fiscal e conveniência política, a segunda parece prevalecer.

 

Enquanto isso, no Congresso, a proliferação de pisos salariais nacionais para categorias específicas transformou-se numa espécie de populismo legislativo. Deputados e senadores distribuem promessas generosas sem explicar quem pagará a conta. À medida que as eleições se aproximam, Brasília parece mergulhar numa competição para ver quem anuncia o benefício mais atraente sem se preocupar com as consequências fiscais.

 

O mais impressionante é que boa parte dessas propostas avança sem estimativas consistentes de impacto ou indicação clara das fontes de financiamento. Não por acaso, o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, voltou a lembrar algo que deveria ser elementar: a Constituição e a Lei de Responsabilidade Fiscal exigem que novos gastos sejam acompanhados de estimativas de custo e indicação de custeio. Não se trata de preciosismo burocrático, mas da regra destinada a impedir que governantes distribuam benefícios hoje e transfiram a conta para os contribuintes amanhã.

 

O Congresso certamente tem sua parcela de responsabilidade nessa sucessão de pautas-bomba. Mas a responsabilidade do Executivo é maior. Cabe ao governo liderar a defesa do equilíbrio das contas públicas. Quem transforma benefícios tributários, ampliação de despesas e flexibilizações fiscais em estratégia eleitoral permanente dificilmente consegue convencer que se tornou, de repente, guardião da austeridade.

 

Diante desse cenário, cresce a possibilidade de que o Supremo Tribunal Federal seja novamente chamado a fazer aquilo que Executivo e Congresso se recusam a fazer: impor os limites da Constituição e da Lei de Responsabilidade Fiscal. Gilmar Mendes já sinalizou a fragilidade jurídica de propostas aprovadas sem estimativas de impacto ou indicação de custeio.

 

O STF não depende de votos na próxima eleição e, justamente por isso, talvez seja a única instituição em condições de dizer o óbvio sem receio de desagradar corporações organizadas. A Lei de Responsabilidade Fiscal pode ser frequentemente ignorada em Brasília, mas continua valendo. Assim como a lei da gravidade, ela não foi revogada.

Após dois meses travado, Código de Ética da Alece é aprovado com acordo por emendas da oposição

Escrito por Marcos Moreira / DIARIONORDESSTE
 

Os deputados estaduais aprovaram, nesta quarta-feira (10), o novo Código de Ética da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece). O regramento estava travado na Casa desde o final de março, por falta de consenso, mas foi validado por unanimidade diante de um acordo entre a base e oposição pela aceitação de emendas.

Por meio do projeto de Resolução 05/26, a Mesa Diretora da Alece busca “modernizar” o atual normativo da Casa sobre conduta e decoro parlamentar, aprovado em dezembro de 2006. Contudo, o código enfrentou resistência

Como mostrou o PontoPoder, os deputados discordavam do texto original em temas considerados polêmicos, como regras para redes sociais e discurso de ódio. A falta de consenso fez o regramento ser retirado de pauta e ficar parado na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR).

Para o código avançar, foi preciso um acordo entre o líder do Governo na Assembleia, o deputado Guilherme Sampaio (PT), e a ala opositora, por meio do deputado Queiroz Filho (PSDB). Além disso, houve uma cobrança explícita do presidente da Alece, Romeu Aldigueri (PSB).

Ao todo, o texto recebeu a proposta de 29 emendas. Destas, 10 foram acatadas pelo relator, sendo oito do grupo opositor. Em geral, as propostas buscam aperfeiçoar a redação final e evitar possíveis dubiedades nos pontos tidos como controversos.

> Confira o novo Código de Ética e Decoro Parlamentar da Alece na íntegra

Logo após aprovação do código, em entrevista coletiva, Romeu Aldigueri destacou o trabalho da base e da oposição para construir o consenso em torno do projeto. O parlamentar classificou, ainda, o regramento como o “mais moderno da nação”, ao trazer normas para redes sociais e IA, por exemplo.  

“Existia uma vontade da mesa diretora, do presidente dessa casa, eu acho que era uma necessidade tendo em vista os novos tempos com o uso da inteligência artificial e também uma cobrança da própria sociedade. Nós temos em tempos muito revoltos em relação a ataques, e ofensas nas redes sociais, virou um pouco de terra sem lei, e nós enquanto parlamentares, representantes diretos eleitos legitimamente pela população de forma livre, secreta e soberana, temos que dar o bom exemplo no exercício parlamentar”
Romeu Aldigueri
Presidente da Alece

ACORDO ENTRE BASE E OPOSIÇÃO

Relator do código na CCJR, Guilherme Sampaio citou o uso de robôs nas redes sociais como um dos casos de aperfeiçoamento no texto, principalmente para disseminação de notícias falsas.  

“No entanto, o texto original deixava uma dúvida, se aquilo abrangia, por exemplo, mecanismos que são legítimos e permitidos pela lei eleitoral, como é o caso do impulsionamento”, pontuou. 

Sampaio defendeu, ainda, o debate em torno das regras para as redes sociais previstas no regramento. “As redes sociais de um parlamentar têm uma dimensão pública, mas elas também têm uma dimensão privada. Então, aquilo que é público deve ser passível de punição. Aquilo que é privado deve ser preservado no âmbito das minhas liberdades”, salientou. 

“A maioria das emendas apresentadas, inclusive, eu quero agradecer aos deputados e deputadas que apresentaram, elas tinham o propósito não de contrariar o espírito da proposta original, mas de deixar mais explícita ou explícito o objetivo da proposta original”
Guilherme Sampaio
Líder do Governo na Alece

Por sua vez, o deputado Queiroz Filho ressaltou que a oposição buscou, por meio das emendas, atualizar pontos considerados potencialmente inconstitucionais ou que restringem indevidamente o exercício do mandato.

Entre os ajustes solicitados pela ala opositora, o deputado destacou os pontos de aperfeiçoamentos para deixar mais claro o que seria discurso de ódio e manipulação por Inteligência Artificial (IA)

“O que a gente pode limitar é o que os deputados e as deputadas no exercício do mandato podem ou não fazer desde que seja respeitado a sua manifestação política, o seu direito de posicionamento, a sua inviabilidade de opinião e que respeitasse todos os direitos, que os deputados foram investidos dessa figura, possam efetivamente trabalhar e não limitar”
Queiroz Filho
Deputado pelo PSDB

REGRAS PARA O AMBIENTE DIGITAL

Como destaca o próprio documento, as principais novidades passam pelas regras voltadas à conduta dos deputados em redes sociais e no uso de inteligência artificial, além da tipificação da violência política de gênero e da promoção de discursos de ódio ou discriminação como infrações. 

Em uma das seções, o novo código lista uma série de condutas que podem ser avaliadas como infrações e render penalidades, como suspensão temporária e até perda definitiva do mandato.

Entre transgressões, o texto original cita a utilização das redes sociais vinculadas ao exercício do mandato para:

  • Promover discurso de ódio ou incitação à violência;
  • Remover sistematicamente manifestações legítimas de usuários;
  • Bloquear usuários sem motivação fundamentada.

Esses pontos estavam, justamente, entre as divergências que fizeram o regramento ficar parado na Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Alece. Contudo, a redação final dos artigos passou por ajustes por meio das emendas aprovadas. 

PUNIÇÕES PREVISTAS

O novo Código de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia prevê, conforme a gravidade da infração, as seguintes medidas disciplinares para os deputados:

  • Censura escrita, aplicada pelo Conselho de Ética Parlamentar;
  • Suspensão temporária do exercício do mandato, aplicada pelo Conselho de Ética Parlamentar;
  • Perda do mandato, seja declarada pela Mesa Diretora ou decidida pelo Plenário da Assembleia Legislativa.

Ainda segundo o regramento, a punição com perda de mandato será voltada para o deputado que:

  1. Infringir qualquer das proibições estabelecidas no art. 54 da Constituição Federal, aplicáveis aos deputados estaduais;
  2. Tiver o procedimento declarado incompatível com o decoro parlamentar, nos termos deste Código;
  3. Deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Assembleia Legislativa, salvo licença ou missão oficialmente autorizada;
  4. Perder ou tiver suspensos os direitos políticos;
  5. Tiver o mandato cassado pela Justiça Eleitoral, nos casos e condições previstos na Constituição e na legislação eleitoral;
  6. Sofrer condenação criminal, com sentença transitada em julgado. 

Nos casos dos itens 1, 2 e 6, a decisão caberá ao Plenário da Assembleia, por maioria absoluta. Já nas situações citadas em 3, 4 e 5, a perda do mandato será declarada pela Mesa Diretora da Alece.

HOJE Copa agigantada testa o jogo e a geopolítica

A Copa do Mundo que começa nesta quinta-feira (11) se espalhará de forma inédita por três países —Estados Unidos, México e Canadá, que compõem um subcontinente inteiro— e terá um recorde de 48 seleções envolvidas. Esse agigantamento testará a combinação de espetáculo, negócio e política que faz do futebol o esporte mais popular do planeta.

 

Do primeiro Mundial, realizado em 1930, no Uruguai, participaram equipes de não mais de 13 países; o número não passou de 16 ao longo de mais de quatro décadas, entre 1934 e 1978. O expansionismo teve início em 1982, com 24 competidoras, e não tardou a prosseguir, em 1998, com 32.

 

A dúvida mais imediata quanto ao novo formato diz respeito à qualidade e ao apelo das partidas, em especial as 72 da fase inicial. Ao longo dessa maratona de mais de duas semanas, num certame com duração total de 39 dias, não se esperam maiores desafios para as seleções tidas como reais candidatas ao título, que, mesmo em contas generosas, mal chegam a uma dezena.

É fato que a ampliação da Copa revelou mais nações capazes de criar dificuldades para as tradicionais potências europeias e sul-americanas. O Marrocos, primeiro adversário do Brasil nesta edição, obteve o quarto lugar em 2022; outros africanos, como Gana e Senegal, tornaram-se presenças frequentes, bem como os asiáticos Japão e Coreia do Sul.

 

Entre os anfitriões, o México já tem longo histórico no torneio, os EUA ganharam força nas últimas décadas e mesmo o Canadá ensaia um avanço no esporte.

Ainda assim, o processo de consolidação de boas equipes nacionais é bem mais gradual e acidentado do que tem sido o aumento da quantidade de representantes na Copa —mais explicável pelos interesses políticos e financeiros da organizadora Fifa.

 

 

O novo salto da cifra, ademais, coincide com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o que amplifica tensões de outra ordem em torno do evento —sobretudo com a participação do Irã, em guerra com os Estados Unidos.

As atuais políticas anti-imigração de Washington se refletem em restrições e constrangimentos variados para torcedores estrangeiros e membros de delegações. Um árbitro da Somália foi impedido de entrar no país.

 

Esses não são, de todo modo, os primeiros senões geopolíticos a afetar a competição, já sediada por ditaduras e interrompida por causa da Segunda Guerra. A emoção das partidas decisivas e o contraste entre as muitas escolas do futebol, ao longo da história, têm assegurado seu prestígio.

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Copa agigantada testa o jogo e a geopolítica

A Copa do Mundo que começa nesta quinta-feira (11) se espalhará de forma inédita por três países —Estados Unidos, México e Canadá, que compõem um subcontinente inteiro— e terá um recorde de 48 seleções envolvidas. Esse agigantamento testará a combinação de espetáculo, negócio e política que faz do futebol o esporte mais popular do planeta.

Do primeiro Mundial, realizado em 1930, no Uruguai, participaram equipes de não mais de 13 países; o número não passou de 16 ao longo de mais de quatro décadas, entre 1934 e 1978. O expansionismo teve início em 1982, com 24 competidoras, e não tardou a prosseguir, em 1998, com 32.

A dúvida mais imediata quanto ao novo formato diz respeito à qualidade e ao apelo das partidas, em especial as 72 da fase inicial. Ao longo dessa maratona de mais de duas semanas, num certame com duração total de 39 dias, não se esperam maiores desafios para as seleções tidas como reais candidatas ao título, que, mesmo em contas generosas, mal chegam a uma dezena.

É fato que a ampliação da Copa revelou mais nações capazes de criar dificuldades para as tradicionais potências europeias e sul-americanas. O Marrocos, primeiro adversário do Brasil nesta edição, obteve o quarto lugar em 2022; outros africanos, como Gana e Senegal, tornaram-se presenças frequentes, bem como os asiáticos Japão e Coreia do Sul.

Entre os anfitriões, o México já tem longo histórico no torneio, os EUA ganharam força nas últimas décadas e mesmo o Canadá ensaia um avanço no esporte.

Ainda assim, o processo de consolidação de boas equipes nacionais é bem mais gradual e acidentado do que tem sido o aumento da quantidade de representantes na Copa —mais explicável pelos interesses políticos e financeiros da organizadora Fifa.

O novo salto da cifra, ademais, coincide com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o que amplifica tensões de outra ordem em torno do evento —sobretudo com a participação do Irã, em guerra com os Estados Unidos.

As atuais políticas anti-imigração de Washington se refletem em restrições e constrangimentos variados para torcedores estrangeiros e membros de delegações. Um árbitro da Somália foi impedido de entrar no país.

Esses não são, de todo modo, os primeiros senões geopolíticos a afetar a competição, já sediada por ditaduras e interrompida por causa da Segunda Guerra. A emoção das partidas decisivas e o contraste entre as muitas escolas do futebol, ao longo da história, têm assegurado seu prestígio.

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GRAMADO DO ASTECKA MEXICO PRA COPA 2026

 

Delação de Vorcaro precisa ser completa

A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República sinalizam que podem vir a rejeitar a segunda tentativa de delação premiada de Daniel Vorcaro. Se a proposta do pivô do escândalo do Banco Master não trouxer novidades significativas, a recusa é mais que correta.

A introdução do instituto da delação premiada na legislação brasileira —nos anos 1990, com consolidação nos anos 2010— deu ao Estado uma ferramenta valiosa de combate ao crime.

A possibilidade de delinquentes confessos negociarem benefícios jurídicos em troca de cooperação nas investigações quebra a espinha da omertà, como é chamado o código de silêncio de organizações criminosas.

O auxílio de integrantes da quadrilha é fundamental para que a Justiça alcance seus líderes e agentes do Estado que os tenham auxiliado, além de reunir provas que levem a condenações.

O Brasil precisa aprender com os erros cometidos nos quase 40 anos de vigência do instituto. Uma das lições é assegurar que as colaborações, notadamente as de acusados posicionados no topo da hierarquia criminosa, sejam substancialmente efetivas, gerando resultados que não seriam obtidos por outros meios.

Quando a delação se torna apenas uma liquidação de punição para o criminoso, sem ganho real para a sociedade, é a própria função dissuasória do direito penal que sai desmoralizada.

Nesse contexto, Vorcaro e seus advogados já começam em desvantagem. Os celulares do ex-banqueiro apreendidos pela PF trazem material tão farto para as investigações e para a instrução processual que não sobra muito espaço para negociações.

Outro ponto diz respeito ao ressarcimento. Vorcaro queria um prazo de dez anos para devolver parte do dinheiro roubado, mas isso deveria ser inaceitável.

No Brasil, mesmo casos de corrupção que parecem solidamente comprovados costumam ser anulados pela Justiça depois —como se viu na Operação Lava Jato. Um prazo muito dilatado acaba sendo, portanto, uma estratégia para não pagar. No mais, Vorcaro não exerce nenhuma atividade lícita conhecida que lhe possa gerar grandes volumes de caixa nos próximos anos.

Se delações já envolvem muito cálculo da parte dos acusados e seus assessores legais, há aqui um complicador adicional. Valores milionários da rede ligada ao Master foram recebidos por dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ou seus familiares.

Seus advogados devem revelar detalhes dessas operações na proposta de delação? Do ponto de vista do interesse público, é óbvio que sim, mas Vorcaro e seus defensores não são ingênuos.

Considerando o notório corporativismo do STF, onde tramita o inquérito, uma proposta que realmente avance na elucidação de todos os malfeitos, incluindo os laços com figuras de poder da República, é capaz de comprometer a própria viabilidade da delação.

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