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El Niño confirmado

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Em comunicado nesta quinta (11), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa) confirmou que o El Niño começou a se formar.

Segundo a agência federal dos Estados Unidos, há risco de que o fenômeno seja muito forte (maior categoria da escala) entre novembro e janeiro, o que pode fazer com que este seja o El Niño mais intenso desde o início da série histórica, em 1950.

Ademais, considerando o aquecimento global, a Noaa projeta que 2026 pode superar 2024 como o ano mais quente já registrado desde meados do século 19.

 

Resta claro, portanto, que autoridades das regiões do planeta que costumam ser afetadas precisam instituir planos de prevenção e contenção. O Brasil é uma dessas regiões e, no último El Niño (2023-24), sofreu com estiagem e incêndios na amazônia e no pantanal e com as enchentes letais no Rio Grande do Sul.

Trata-se de um fenômeno natural que ocorre a cada dois a sete anos e se caracteriza pelo aquecimento das águas da zona equatorial do oceano Pacífico. Ele é considerado muito forte quando a temperatura das águas supera 2ºC em relação à média histórica.

Desde 1950, isso só ocorreu quatro vezes: 1982-83, 1997-98, 2015-16 e 2023-24. Segundo a Noaa, a probabilidade de que 2026-27 integre tal lista é de 63%.

Os efeitos climáticos variam de acordo com a região. No Sudeste Asiático e na Índia, as chuvas diminuem; no leste da África e no sul dos EUA, aumentam. O Brasil apresenta as duas condições, com secas no Norte-Nordeste e chuvas intensas no Sul-Sudeste.

O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) informa que começou a agir. Criada em 2024, a Sala de Situação sobre Incêndios Florestais foi reinstalada. A estrutura articula ministérios e órgãos para planejar recursos e preparar Forças Armadas, Polícia Federal e Ibama, além de articular ações diretas com estados e municípios.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, mais de R$ 500 milhões foram direcionados aos corpos de bombeiros dos estados onde há mais incêndios.

O governo de Santa Catarina decretou alerta climático para agilizar a contratação de serviços e obras e a compra de insumos; o de São Paulo lançou programa que fortalece o monitoramento por meio de câmeras, inteligência artificial, drones e satélite.

 

O SUS também precisa de atenção, já que secas, chuvas e altas temperaturas afetam a saúde com problemas respiratórios, insolação e surto de dengue.

A ciência já fez o alerta. Agora, cabe ao Estado amenizar os efeitos nefastos do El Niño.

BOMBEIRO NO COMBATE A INCENDIOS

Congresso entra com gosto na farra fiscal e eleitoral

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Vez e outra, alguma liderança do Congresso diz que o governo é um irresponsável fiscal. Chefes de partidos de oposição e pré-candidatos a impedir a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fazem discursos semelhantes. Não é mentira, mas não é toda a verdade.

Um descaramento cínico fica evidente quando parlamentares, na maioria oposicionistas, depredam as contas públicas —como nesta semana de proliferação das chamadas pautas-bomba.

Acelera-se a deterioração do Orçamento federal. A administração petista se opõe a iniciativas tresloucadas mais recentes, mas contribuiu para o ambiente de farra com sua ofensiva eleitoreira —além de ser um fracasso de articulação política e não controlar nem a própria bancada.

As metas fiscais oficiais, além de já afrouxadas, são em grande parte fictícias, pois excluem despesas da contabilidade. Artimanhas permitem dispêndios extraorçamentários e aumentos de dívida por meio de gastos financeiros e subsídios de crédito.

O Congresso, com desfaçatez, sente-se ainda mais à vontade para avançar sobre o dinheiro do contribuinte. Deputados e senadores ocupam-se de aprovar emendas, engordar fundos político-eleitorais e evitar riscos para as próprias reeleições, agravando a crise de endividamento público e arrocho de juros.

Pesa nessa conta também a picuinha inconsequente de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado, com Lula.

A Casa legislativa aprovou, na quarta-feira (10), uma renegociação à matroca de dívidas de produtores rurais. Referendou, ainda, aumento do piso salarial de profissionais de saúde, o que eleva despesas públicas. Os dois projetos serão apreciados por uma Câmara da qual tampouco se pode esperar zelo pelo erário.

Além disso, uma comissão senatorial incentivou mais um retrocesso nas reformas previdenciárias que vêm sendo aprovadas desde o início do século, dando condições especiais de aposentadoria para agentes de saúde.

A conta anual do despautério, sem previsão de fundos para financiá-la, é da casa da dezena ou de dezenas de bilhões de reais. Parlamentares ou mesmo o governo não sabem o custo exato das medidas, outra prova de incúria e incompetência. Há mais bombas em tramitação.

Alarmado pela gastança considerada irresponsável até por seu próprio governo, Lula ameaça vetar o que puder da torrente de despesas ou levar os casos ao Supremo Tribunal Federal, outra prova da desordem institucional.

Juros e encargos financeiros do governo estão nos maiores níveis em 20 anos ou nos picos deste século. As taxas ficarão altas a perder de vista, dadas as pressões inflacionárias domésticas e externas, além da degradação fiscal.

Na melhor hipótese, o próximo governo fará um ajuste duro e politicamente conflitivo. Na pior, o país correrá mais risco de um desastre social similar ao produzido sob Dilma Rousseff (PT).

Não faz sentido gravar no texto da Constituição que BC deve operar Pix

Por Editorial / O GLOBO

 

É descabido colocar o Pix na Constituição, como estabelece o texto de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. É fundamental fazer a distinção: a PEC relatada pelo senador Plínio Valério (PSDB-AM) é bem-vinda e necessária, por assegurar ao Banco Central (BC) autonomia financeira e administrativa para gerir os próprios recursos e ampliar seu poder de fiscalização, cujas carências ficaram expostas pelo escândalo do Banco Master — mas isso nada tem a ver com o Pix.

 

É certo que se trata de uma tecnologia de compensação bancária que está entre as mais avançadas do planeta e deve orgulhar o Brasil. A custo zero para o usuário, o Pix faz transferências instantâneas entre quaisquer contas bancárias, além de poder ser usado em pagamentos. São mais de 200 milhões de transações diárias num sistema usado por mais de 170 milhões de brasileiros, que funciona como incentivo à inclusão bancária e à formalização da economia. Também é verdade que não têm cabimento os ataques recentes dos Estados Unidos ao Pix, motivados por bandeiras de cartão de crédito que veem nele uma ameaça. Tais ataques devem ser repudiados com veemência.

 

Mas nada disso significa que uma tecnologia deva ser gravada em lei como monopólio estatal ou que a Constituição deva se meter a regular um serviço dessa natureza. Tecnologias evoluem, e ninguém sabe como se dará a evolução do Pix. Nada é mais nocivo para o progresso tecnológico do que leis estabelecendo monopólios sem estudos técnicos que lhes deem sustentação. Muito menos monopólios estatais, como demonstram a história da telefonia, do saneamento básico ou do setor elétrico.

 

Para assegurar que o Brasil continue na vanguarda do desenvolvimento de sistemas e infraestrutura para pagamento, o melhor que a legislação pode fazer é manter o BC como autoridade reguladora, com liberdade para decidir o que fazer a respeito. Na prática, isso basta para assegurar que o Pix continue gratuito e acessível. Por características intrínsecas ao sistema financeiro brasileiro, foi o BC que assumiu o protagonismo em seu desenvolvimento. Mas isso não significa que não possa no futuro decidir, diante do avanço da tecnologia, por um arranjo mais vantajoso com participação de atores privados na operação.

 

A PEC relatada por Valério está correta ao criar um novo regime jurídico para o BC, ao definir seu papel como regulador financeiro, com autonomia para estabelecer sua política de recursos humanos e controlar o próprio orçamento.

 

A expansão de fintechs e a dificuldade de manter quadros suficientes com qualificação para fiscalizar um sistema ameaçado por fraudes e infiltração do crime organizado são justificativas mais que suficientes para que a essência da PEC seja aprovada. Quanto ao Pix e a qualquer outra tecnologia financeira que venha a surgir no futuro, deve caber ao BC o papel de regulador. Não há por que gravar na Constituição que a autoridade monetária tenha de operá-lo.

 

O edifício do Banco Central, em BrasíliaO edifício do Banco Central, em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

 

 

Pautas-bomba são irresponsabilidade do Congresso

Por Editorial / O GLOBO

 

Não só o Executivo tem se esmerado em abrir a torneira dos gastos para distribuir “bondades” eleitoreiras. O Legislativo não fica atrás. Os senadores têm se empenhado em agradar a públicos específicos com distribuição farta de recursos do Orçamento. Três projetos que avançaram nesta semana terão impacto estimado em R$ 217 bilhões nas contas públicas e, por bom motivo, foram chamados de pautas-bomba. Se aprovados, dois desfechos são possíveis: ou drenarão dinheiro de áreas prioritárias; ou o governo aumentará o gasto e a dívida pública — ou uma combinação de ambos. Não faz sentido apoiá-los, pois explodirão no colo de todos.

 

A maior “bondade” foi a aprovação, no plenário do Senado, de Projeto de Lei permitindo o uso de receitas do pré-sal para financiar descontos de dívidas do setor rural. A linha de crédito com prazo de 13 anos poderá ser usada para quitar dívidas contratadas até 31 de dezembro de 2025. Não haverá multa, juros de mora ou outros encargos por inadimplência no recálculo dos débitos. As taxas de juro foram escalonadas por tamanho de propriedade, mas são todas camaradas. Setor mais pujante da economia brasileira, o agronegócio deve sempre estar no radar das autoridades para garantir aos produtores locais as mesmas condições dos concorrentes internacionais. Mas não há lacuna no sistema de crédito rural brasileiro. A matéria, com impacto estimado em R$ 140 bilhões ao longo de dez anos, seguirá para avaliação da Câmara. Deveria ser rejeitada.

 

A Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou outro projeto aumentando o piso salarial de médicos e dentistas de R$ 3.636 a R$ 13.662, para jornada de 20 horas semanais. O texto também eleva de 20% a 50% o adicional por trabalho noturno e as horas extras. Para agradar a governadores e prefeitos, de cujo apoio os senadores dependem em suas campanhas, o texto exime estados e municípios de custear o aumento. Se aprovado pela Câmara, será financiado pelo Fundo Nacional de Saúde, a custo anual de R$ 47 bilhões pela estimativa do governo. Serviços públicos precisam atrair médicos e dentistas, principalmente em regiões remotas. O debate no Parlamento, porém, deveria ter sido pautado por estudos sobre a atração de mão de obra e a capacidade de pagamento do Estado. Nada justifica um aumento descabido de 275%.

 

Na mesma toada de gastança, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou Proposta de Emenda à Constituição (PEC) prevendo aposentadoria especial para agentes de saúde e combate a endemias. Tal privilégio deveria ser recurso excepcional, destinado a profissionais expostos a condições prejudiciais à saúde. Agentes de saúde não se enquadram na definição que permite aposentadoria antecipada. A PEC, com impacto estimado em R$ 30 bilhões nas contas da Previdência, vai a plenário. Não faz sentido aprová-la.

 

Em meio à profusão de pautas-bomba do Senado, é positiva a disposição do Executivo de recorrer à Justiça para tentar barrá-las. É preciso, contudo, notar a ironia dessa atitude, já que o próprio Executivo tem sido pródigo em “bondades” eleitoreiras, cujo impacto orçamentário passa de R$ 200 bilhões. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, fez bem ao lembrar na quarta-feira que o Congresso não pode criar despesas sem indicar a fonte de custeio. É preciso preservar a sensatez ante a febre eleitoreira.

 

O Congresso Nacional, em BrasíliaO Congresso Nacional, em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/12-05-2023

‘Bondades’ de Lula chegam a R$ 215 bi no ano eleitoral: 96% ficam fora do arcabouço fiscal

Por Vinicius Neder — Rio de Janeiro / O GLOBO

 

As medidas lançadas pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva para estimular a economia este ano já somam R$ 215 bilhões (1,6% do PIB, o total de produtos e serviços gerados na economia), acima das receitas adicionais, de R$ 109 bilhões (0,8% do PIB). Apesar do rombo, a equipe econômica poderá chegar ao fim do ano e anunciar o cumprimento da meta de resultado das contas, porque só R$ 9 bilhões, ou 4% da expansão, entram no chamado “arcabouço fiscal”, segundo o economista Marcos Mendes, pesquisador do Insper, que foi do Ministério da Fazenda no governo Michel Temer.

 

— O governo colocou uma regra e ele mesmo foi procurar meios de contornar essa regra — afirmou Mendes, referindo-se ao arcabouço. O conjunto de regras para a gestão das contas públicas foi criado pelo atual governo no primeiro ano de mandato, em 2023.

 

— Quando o governo faz uma série de políticas de financiamento subsidiado, financiamento a caminhoneiro, financiamento a taxistas e motoristas de aplicativo, amplia o (programa de financiamento para a habitação popular) Minha Casa Minha Vida, ele está tirando dinheiro do Orçamento pela chamada via financeira — completou Mendes.

 

Gastos 'financeiros' e 'extraorçamentários'

No total da expansão fiscal (soma dos gastos com a renúncia de receita), R$ 97 bilhões, ou 45%, são em despesas “financeiras”, que não entram na contabilidade do gasto “primário”, efetivamente desembolsado pelo Tesouro, segundo as contas do especialista, reunidas em relatório da XP Investimentos, divulgado no início do mês.

 

São classificados nessa rubrica os recursos que o Tesouro disponibiliza para as linhas de crédito subsidiado para a aquisição de caminhões, ônibus e carros para taxistas e motoristas de aplicativo, todas operadas pelo BNDES.

Ainda no total da expansão, R$ 35 bilhões, ou 16%, foram classificadas por Mendes como “extraorçamentárias”, pois lançam mão de fundos públicos, fora do Orçamento.

 

São os casos da linha do BNDES para inovação tecnológica, que usa uma pequena parte do FAT com juros abaixo das taxas de mercado, e do Fundo Clima, turbinado por “títulos verdes” emitidos pelo Tesouro e usado pelo BNDES para ampliar sua capacidade de emprestar.

E o primário?

Com isso, as despesas ou desonerações primárias respondem por R$ 83 bilhões, ou 39% da expansão. E mesmo nessas rubricas há exceções, que não entram na conta do teto de gastos do arcabouço, lembrou Mendes.

— A meta de resultado primário deste ano é de R$ 34,3 bilhões (de superávit), que o governo se propôs a atingir. E aí o governo está prevendo um déficit de R$ 60,3 bilhões e está dizendo que vai cumprir a regra — disse Mendes, explicando que há R$ 64,4 bilhões em exceções.

 

O economista ponderou que decisões do Judiciário e do Congresso Nacional também criaram exceções ao arcabouço fiscal. — O Congresso criou uma parte, o Judiciário criou outra, mas com o consentimento e o apoio do governo — afirmou Mendes.

 

O economista lembrou que algumas das “bombas fiscais” votadas pelo Senado nesta quarta-feira lançam mão de recursos extraorçamentários:

— O Congresso está aprendendo com as manobras do Executivo. A bancada do agro apresentou a proposta de usar recursos do Fundo Social para refinanciar dívidas agrícolas.

 

E a dívida só cresce

Apesar dos dribles, manobras ou contornos ao arcabouço, Mendes ressaltou que o efeito econômico da expansão fiscal é o mesmo, e incontornável. Como as contas não fecham, a dívida pública cresce.

 

— A moral da história é que, de todas essas medidas, 100% delas têm impacto direto ou indireto na dívida pública, mesmo que só 4% afetem o teto de gasto do arcabouço fiscal — disse Mendes.

O economista discordou da posição de integrantes do governo sobre o uso dos recursos extraorçamentários. Em defesa da estratégia, o argumento é que os recursos de alguns dos fundos utilizados ficavam parados.

 

— Temos que olhar quais seriam as alternativas para esse dinheiro. Uma delas seria resgatar a dívida pública, fazer o endividamento crescer menos — afirmou Mendes.

O economista também discordou de outra argumentação da equipe econômica, a de que o uso da via “financeira” do Orçamento seria destinada apenas para medidas temporárias, com data para terminar, voltadas para mitigar problemas pontuais, como o impacto das enchentes do Rio Grande do Sul ou o tarifaço de Donald Trump, e com menos subsídios.

 

— Não dá para comprar esse argumento. Ou fazemos direito ou não fazemos. O argumento é “estou fazendo errado, mas é pouquinho?” Não me convence — criticou Mendes.

 

Gatilho para juros altos

No mercado financeiro, o crescimento acelerado da dívida pública serve de gatilho para que investidores exijam juros mais elevados nos títulos do Tesouro. Como resultado, as taxas em geral da economia sobem.

 

Nesse quadro, sem um ajuste no próximo governo, a inflação poderá acelerar, a política de juros do Banco Central (BC) poderá começar a perder efeito e a economia estagnar ou até entrar em recessão, disse Mendes.

Para o economista, com o arcabouço desmoralizado pelas medidas do governo, o mais importante é fazer um ajuste nas contas. Nem adianta mais o próximo governo propor uma nova regra.

 

— A sociedade brasileira já provou que é incapaz de cumprir regras. Vamos ficar desenhando e propondo uma regra fiscal nova, vamos gastar meses da agenda do Congresso e, no dia seguinte, já vão encontrar um jeito de driblar de novo. É muito mais importante ter no comando do Ministério da Fazenda e do Planejamento pessoas dispostas a fazer um ajuste de fato e que, portanto, não vão lançar mão dessas manobras — disse Mendes.

 

 

Um expurgo necessário

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Uma recente operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), revelou um audacioso plano do Primeiro Comando da Capital (PCC): executar um promotor de Justiça de Campinas. Não surpreende, mas ainda estarrece, a ousadia da facção criminosa ao afrontar as autoridades públicas. E causa ainda mais estupefação a adoção pelo PCC de táticas cada vez mais arrojadas para desestabilizar o Estado brasileiro, como a progressiva infiltração nos aparelhos estatais para subverter as instituições e corromper os agentes públicos, cooptando-os para o mundo do crime.

 

Como bem mostrou a Operação Infiltrados, deflagrada em parceria com a Polícia Militar e as Corregedorias das Polícias Civil e Penal, o PCC tem ido longe demais. Segundo as investigações, dois empresários que eram testas-de-ferro de Sérgio Luiz de Freitas, um líder do PCC que há 20 anos vive na Bolívia, haviam recebido a missão de assassinar o promotor Amauri Silveira Filho. A dupla, ao que parece, contava com o apoio de Maurício Aparecido de Oliveira, investigador-chefe da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Campinas até fevereiro passado. Gravado conversando com um dos comparsas do PCC, ele é suspeito de ter repassado informações “privilegiadas e sensíveis” sobre a rotina do promotor.

 

O desfecho do trabalho de investigação evidencia que o Gaeco está atento ao problema. E mostra, sobretudo, que o Estado brasileiro não está inerte diante das investidas do PCC e de outras facções criminosas. Em que pese a decepção de constatar que há agentes públicos que, em vez de proteger, ameaçam a sociedade, a capacidade de resposta das instituições paulistas contra a desfaçatez do PCC é digna de elogio. Trata-se de um trabalho bem planejado e bem executado, que mobilizou os setores de inteligência e reforçou a importância da cooperação entre os promotores de Justiça e os agentes das forças de segurança no combate ao crime organizado.

 

O MP-SP e as polícias, acertadamente, juntaram esforços para, nas palavras dos integrantes do Gaeco, combater “novos focos de atuação das organizações criminosas, incluindo a corrupção de agentes públicos, a prática de extorsões, a violação de sigilo funcional, bem como a possível infiltração de membros da organização criminosa no próprio MP”, haja vista que um ex-estagiário também foi preso por extorquir integrantes do PCC. E quem sucumbe à corrupção, à extorsão e à violação do sigilo funcional é indigno de integrar os quadros do serviço público.

 

É fato que os criminosos, com suas artimanhas, tendem sempre a estar um passo à frente das autoridades policiais. Mas é um alento saber que há agentes públicos probos dispostos a combater tanto os bandidos do PCC como aqueles que não honram e nunca honrarão os distintivos de policiais que carregam. Expurgar os maus elementos das corporações é um bom começo, que pode ajudar a recobrar a credibilidade das forças de segurança e fortalecer a luta contra o crime organizado.

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