Com as barbas de molho
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP 3
Não se sabe quanto tempo vai durar a guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã nem quais serão as consequências regionais e mundiais, mas os efeitos imediatos sobre a economia já se fazem sentir. A disparada instantânea da cotação do petróleo foi a consequência lógica do conflito na principal região petrolífera do mundo. O petróleo tipo Brent (referência adotada pela Petrobras) encerrou a semana passada em US$ 73 o barril, maior preço em sete meses, já por causa da tensão no Oriente Médio. No primeiro dia útil após o ataque, subiu para US$ 78, e as projeções estão entre US$ 80 e US$ 100 para breve, a depender do prolongamento da ofensiva militar. Tudo isso certamente terá impacto no Brasil, justamente no momento em que o País já se preparava para dar início ao ciclo de redução dos juros, em razão do bom comportamento da inflação. O cenário mudou – e requer pôr barbas de molho.
Ainda que pareça cedo para estimativas, a experiência recente mostra como é direto o impacto. Em fevereiro de 2022, quando o autocrata russo Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia, a Rússia, que produz cerca de 10% do petróleo mundial, sofreu sanções comerciais e o preço do Brent ultrapassou a marca de US$ 130 por barril já em março. Somente em julho daquele ano, sob a ameaça de recessão global, a desaceleração da demanda e a alta dos juros nos EUA puxaram o preço para menos de US$ 100, mas o ano ainda terminou com o barril entre US$ 80 e US$ 85. Analistas situam o período que se seguiu à invasão da Ucrânia como o de maior escassez de oferta desde o choque do petróleo da década de 1970, que mudou a geopolítica mundial.
Uma eventual disparada do petróleo tende a acelerar a inflação global, e essa nova conjuntura internacional impõe desafios ao Banco Central brasileiro. Previa-se que o ciclo da queda dos juros fosse começar na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês. O secretário do Tesouro, Rogério Ceron, disse que, se o conflito fizer o preço do barril variar entre US$ 75 e US$ 85, não haveria motivos para mudanças nos planos de redução dos juros, mas isso parece mais um desejo do governo do que uma avaliação técnica. Ceron admitiu que uma cotação acima de US$ 100 pressiona a inflação e pode ter outras repercussões.
Pelo Estreito de Ormuz, cujo lado norte é controlado pelo Irã, passa mais de 20% do comércio de petróleo do mundo. O Irã anunciou o bloqueio do canal, ainda que dados de satélite não identifiquem o fechamento total. Mas há notícias de que navios foram atingidos, e a insegurança afeta o tráfego dos petroleiros.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), o mercado global está bem abastecido, mas considerando que, de cada cinco barris de petróleo transportados no mundo, ao menos um passa pelo Estreito de Ormuz, não é difícil imaginar as consequências do fechamento do canal.
Quando se reunirem, em duas semanas, os integrantes do Copom terão mais elementos para avaliar a situação, e é imprescindível manter o critério de política monetária adotado até aqui. Ou seja, uma avaliação estritamente técnica, apartada de quaisquer pressões políticas e eleitorais, irá traçar o caminho mais adequado para o País.

