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Os riscos da obesidade infantil

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O Atlas Mundial da Obesidade de 2026 apresentou um cenário preocupante da saúde de crianças e adolescentes. Segundo o relatório lançado pela Federação Mundial de Obesidade, com dados do ano passado, uma em cada cinco crianças e jovens, com idade entre 5 e 19 anos, vive com sobrepeso ou obesidade no mundo. No Brasil, esse índice dobra: são dois em cada cinco. Ou seja, nada menos do que quase 17 milhões de habitantes nessa faixa etária, ou cerca de 40% dessa população, estão com sobrepeso ou obesidade.

 

Não se trata de uma questão pessoal ou de estética, mas de um problema coletivo e de saúde. Por isso, a divulgação do relatório no Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, busca conscientizar as famílias, as sociedades e os Estados dos riscos do sobrepeso e da obesidade. Fora do peso ideal, cada vez mais crianças e adolescentes são diagnosticados com doenças de adultos, como hipertensão, doença cardiovascular, colesterol alto, hiperglicemia (altas taxas de açúcar) e doença hepática esteatótica (gordura no fígado).

 

Os números sobre o Brasil indicam a gravidade local: são 6,6 milhões de crianças e 9,9 milhões de adolescentes acima do peso. Eram meio milhão de crianças e jovens com hiperglicemia, o que pode levar a diabetes, uma doença crônica; 1,4 milhão com hipertensão; 1,8 milhão com triglicerídeos elevados; e 4 milhões com gordura no fígado. E, para piorar, a expectativa é de que todas essas doenças avancem ainda mais até 2040.

 

Fatores sociais, econômicos e culturais ajudam a explicar esse fenômeno. Num país de famílias de renda baixa e média, as mães e os pais, por falta de dinheiro e de tempo, não conseguem comprar alimentos saudáveis ou cozinham cada vez menos em casa. Fazem escolhas erradas, pondo à mesa os ultraprocessados ou itens de baixo ou nenhum valor nutritivo. Não à toa, segundo a Embrapa, o consumo do arroz e do feijão, que são ricos em vitaminas, minerais e proteínas de origem vegetal, vem caindo no Brasil desde os anos 1960.

 

Diante de tantos desafios impostos às famílias, o poder público não tem o direito de ficar indiferente. As prefeituras, os Estados e o governo federal devem combater o sobrepeso e a obesidade infantojuvenil com seriedade, o que exige a elaboração e a implementação de políticas públicas bem desenhadas, focadas e eficientes.

 

E sobram exemplos de ações a serem adotadas a fim de mitigar esse problema. Os governos podem restringir a propaganda de alimentos nocivos direcionada às crianças, investir na prevenção e nos cuidados de crianças e adolescentes na atenção primária e estimular as atividades físicas nas escolas, indo muito além das atividades lúdicas ou recreativas.

 

O Brasil não pode condenar uma geração a padecer de doenças evitáveis. O custo dessa negligência será alto para as famílias, que terão de cuidar de seus enfermos, e para o Estado, que verá aumentar a demanda pelos serviços no Sistema Único de Saúde (SUS).

Um debate que não é sério

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Ainda não se sabe se as discussões sobre a redução da jornada de trabalho são realmente para valer ou se são apenas um tema a pautar as eleições presidenciais. Na dúvida, o setor produtivo começou a fazer as contas sobre quanto a mudança custará à sociedade, e já está claro que as empresas não pretendem absorver esses gastos sem repassá-los ao consumidor ou exigir compensações do governo, como mostram reportagens do Estadão.

 

Pudera. Se as empresas optarem por contratar novos empregados para manter o número de horas trabalhadas, o custo será de R$ 178,2 bilhões, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), um aumento de 4,7% nos desembolsos com empregados formais dos setores de agropecuária, indústria, comércio e serviços. Mas se a ideia for pagar horas extras aos funcionários, o adicional será de R$ 267,2 bilhões, alta de 7%.

 

A depender do setor, o impacto pode ser ainda maior. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), quase dois terços dos trabalhadores brasileiros cumprem uma escala de 6x1. No comércio, no entanto, essa é a jornada da ampla maioria dos empregados. Nos segmentos varejista e atacadista, o regime é cumprido por 93% e 92% da força de trabalho, e nos serviços, por mais de 90% da mão de obra.

 

Cautela costuma ser um atributo em falta no mundo político, sobretudo em um ano eleitoral, que tende a privilegiar debates apressados e soluções simplórias para problemas complexos. É uma pena, pois o tema da redução da jornada de trabalho seria um bom gancho para o País enfrentar vários de seus problemas crônicos, como a elevada informalidade, a baixa qualificação da mão de obra, a reduzida competitividade dos produtos brasileiros no exterior e o claudicante crescimento econômico.

Compreende-se a demanda dos trabalhadores por mais tempo para lazer, mas há que questionar se os mesmos trabalhadores estão dispostos a pagar mais caro pelos produtos que consomem. Países que reduzem a jornada de trabalho sem impacto elevado na inflação o fazem quando há aumento de produtividade.

No Brasil, no entanto, a produtividade está praticamente estagnada há décadas, o que explica, também, por que o crescimento econômico brasileiro tem sido tão baixo no mesmo período. O agronegócio é a exceção que confirma a regra. Sua produtividade cresce consistentemente há anos, reflexo de investimentos em tecnologia, o que permite que a safra cresça mesmo sem expandir a área cultivada, dando competitividade à produção e permitindo que ela seja exportada a diversos países no mundo. Produzir mais com menos requer, também, investimentos na qualificação dos trabalhadores e na educação das crianças. Nisso o Brasil patina há anos. A despeito de manter gastos elevados em educação na proporção do Produto Interno Bruto (PIB), o desembolso é desigual e privilegia o ensino superior em detrimento da educação básica.

 

Para completar, os custos associados à folha de pagamento são altos, razão pela qual a informalidade no País é tão elevada. O desemprego está em níveis historicamente baixos, mas arranjos como a pejotização e o microempreendedor individual prosperam mais que o emprego formal.

 

É um problema para o trabalhador, mas sobretudo para o Estado, que não arrecada o suficiente para sustentar a rede de proteção social que se propõe a manter. Como gasta mais do que deveria, o País precisa manter uma taxa de juros muito elevada, que inibe investimentos necessários para ampliar a produtividade da economia. Reduzir a jornada seria o último dos problemas a ser resolvido nessa lista de distorções que afetam a atividade econômica. Por certo há alguns setores com condições de fazê-lo, e o governo, se tivesse juízo, deveria incentivar negociações coletivas em vez de tentar impor o tema por lei.

 

Se o setor produtivo for esperto, usará esse flanco aberto pelo próprio governo para arrancar subsídios e benefícios tributários do Congresso. Não resolverá nenhum dos problemas da economia brasileira, inclusive tende a agravá-los, mas é assim que a banda toca nas administrações lulopetistas.

Lulinha, o problemão de Lula

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A política tem o curioso hábito de criar personagens dos quais depois não consegue se livrar. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tornou-se um desses casos. Há quase duas décadas, o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reaparece no noticiário com incômoda frequência, quase sempre nos momentos menos convenientes para o pai e o partido que governam o País. Agora, às vésperas de mais uma disputa presidencial, Lulinha – dono de uma magnífica história que o fez saltar de monitor do Zoológico de São Paulo para empresário envolvido em negócios milionários – volta ao centro de histórias mal explicadas. Lembra, assim, que certos problemas políticos podem desaparecer por algum tempo, mas, quando são problemas de fato, raramente desaparecem de vez. Viram assombração.

 

Desde o primeiro mandato de Lula, o nome de Lulinha simboliza uma dificuldade recorrente do lulopetismo: convencer a opinião pública de que relações entre poder político e negócios privados em torno da família presidencial são apenas coincidências. Foi então que o discreto biólogo deu um salto empresarial tão rápido quanto surpreendente, ao tornar-se sócio de uma empresa financiada por uma gigante das telecomunicações. Em circunstâncias normais, uma biografia empresarial assim despertaria curiosidade, quando não espanto. No singular universo lulopetista, porém, tentou-se apresentá-la como exemplo de meritório espírito empreendedor.

 

Foi assim que nasceu a Gamecorp, agraciada com investimento milionário da Telemar, na época controladora da operadora Oi. O caso reuniu cabeludos indícios de trambiques e jamais foi plenamente explicado, mas parece claro que o sobrenome Lula revelou-se especialmente valioso, capaz de gerar oportunidades que dificilmente surgiriam para qualquer empreendedor comum. Na cosmologia de Brasília, todo acesso tem seu preço.

 

Ao longo dos anos seguintes, o roteiro repetiu-se. O nome de Lulinha surgia em negócios variados e relações com personagens que orbitavam o poder político e econômico. Nada disso resultou em condenações judiciais. Tampouco veio acompanhado de explicações claras. Na política, essa combinação costuma bastar para manter suspeitas persistentes.

 

E eis que surge o episódio das fraudes bilionárias no INSS. A investigação menciona mensagens em que investigados discutem pagamentos destinados ao “filho do rapaz”, expressão que a polícia tenta confirmar se seria referência ao filho do presidente. Há também suspeitas de relações empresariais entre Lulinha e personagens ligados ao esquema. A defesa do empresário nega irregularidades, mas o fato político permanece: mais uma vez o nome do filho do presidente aparece nas franjas de um escândalo.

 

O detalhe mais revelador envolve o convite para uma viagem de negócios a Portugal, feito pelo lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Segundo reportagem do Estadão, os dois teriam visitado instalações ligadas à produção de cannabis medicinal, ramo em que Antunes pretendia investir. Pode parecer trivial, mas em política raramente é. Passagens internacionais em primeira classe e agendas empresariais além-mar dificilmente são oferecidas por simples gentileza. Em geral representam investimento em acesso – no caso de Lulinha, acesso direto ao sobrenome mais poderoso da República. Ou um mimo para retribuir façanhas.

 

Caberá à Justiça esclarecer as suspeitas. Politicamente, porém, o problema já está posto. Lula construiu sua trajetória afirmando representar o oposto das elites que confundem interesses privados e funções públicas. A história mostrou que o discurso não passou de engodo. É por isso que o chamado “fator Lulinha” seguirá como um problema político permanente para o presidente. O enredo volta ao palco, e o personagem muda de papel – ora empresário promissor, ora investigado circunstancial –, mas o roteiro segue o mesmo.

 

Talvez seja injusto com o pai. Talvez seja apenas o destino de políticos poderosos. Mas há algo que parece incontornável. Lula sempre foi um assombro da política, para o bem e para o mal. E o fantasma que insiste em persegui-lo atende pelo apelido de sempre: Lulinha.

Crescimento das favelas reflete erros do Minha Casa, Minha Vida

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

A julgar pelas declarações do governo, 2025 foi um ano histórico na política habitacional. O Minha Casa, Minha Vida (MCMV) despontou como programa social preferido dos brasileiros em pesquisas de opinião, e o ritmo de entrega de moradias aumentou. Será sem dúvida um dos temas mais explorados na campanha eleitoral. Mas a contradição na propaganda oficial fica evidente analisando os últimos dados do projeto MapBiomas. As favelas no Brasil não apenas continuam em expansão, mas crescem mais rápido que a ocupação formal.

 

Entre 1985 e 2024, o território das favelas quase triplicou — de 53,7 mil hectares para 146 mil hectares. Em tempos de aquecimento global e eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, as áreas ocupadas com alta declividade cresceram 150% e as próximas a drenagens 200%. Como pode o MCMV, um dos maiores programas habitacionais do mundo, com orçamento anual de quase R$ 180 bilhões, não ser eficaz para deter a favelização?

 

A resposta tem a ver com objetivos políticos e interesses do setor de construção. Ao não se concentrar em quem está na base da pirâmide social, o MCMV reproduz o erro do Banco Nacional de Habitação (BNH), programa habitacional criado na ditadura militar. Em 22 anos, o BNH financiou 4,5 milhões de unidades habitacionais, apenas 33,5% destinadas a setores populares. Na primeira década do MCMV, a faixa de renda mais baixa recebeu apenas 36,8% das moradias.

 

A explicação para esse desvio é eleitoral. A meta do governo é agradar à classe média. Um dia antes da publicação da pesquisa do MapBiomas, foi apresentada uma proposta para reajustar as faixas de renda do MCMV, de modo a financiar famílias com rendimento de até R$ 13 mil (que as coloca na fatia dos 10% com maior renda no país). Se as mudanças forem confirmadas, o governo terá um trunfo em ano eleitoral, e o setor de construção, dependente do MCMV, mais clientes.

 

Embora haja famílias com diferentes níveis salariais em busca de ajuda para comprar a casa própria, é um desatino deixar de priorizar quem mais precisa. Moradores de favelas correm mais riscos de contrair doenças por falta de saneamento e estão mais suscetíveis a deslizamentos e enchentes. Da população com condições precárias de habitação em 2023, 75,7% tinham renda até dois salários mínimos, segundo a última estimativa da Fundação João Pinheiro. Esses deveriam ser a prioridade. Para atendê-los, em vez de financiar a construção de novas moradias em regiões distantes, seria melhor revitalizar áreas degradadas nas regiões centrais, como já começa a acontecer em algumas cidades, caso do Rio de Janeiro.

 

A ênfase nas faixas de renda menores criaria desafios de gestão. Mas a meta de um programa habitacional deve ser ajudar quem está em situação de moradia mais precária. O compromisso deveria ser reduzir a parcela da população vivendo em favelas. Em 2010, eram 6% dos brasileiros. No último Censo, já somavam 8%. Sem mudança de rumo nas políticas habitacionais, a tendência é a situação piorar.

 

rocinha no rio

PEC da Segurança trará avanços contra o crime

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

Superando impasses que pareciam incontornáveis, a Câmara enfim aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, enviada há quase um ano ao Congresso. O texto aumenta a participação do governo federal no combate à violência, amplia o financiamento ao setor, promove maior integração entre os entes federativos, restringe benefícios a presos acusados por crimes graves, dá segurança jurídica para a Polícia Federal (PF) combater organizações criminosas, aumenta atribuições da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e autoriza a criação de polícias municipais de natureza civil para policiamento ostensivo e comunitário. Não há dúvida de que a PEC representa um avanço em relação às lacunas atuais.

 

A costura pelo consenso foi árdua. A proposta de redução da maioridade penal, ponto central do substitutivo do deputado Mendonça Filho (União-PE), foi retirada do texto depois de negociações. Da mesma forma, a intenção do governo federal de coordenar as ações de segurança ficou de fora. O texto estabelece que o Sistema Único de Segurança Pública será descentralizado. O temor de interferência de Brasília nas políticas dos estados sempre foi empecilho ao acordo. A PEC não avançaria se os extremos não cedessem.

 

O texto preservou avanços indiscutíveis. O maior deles é atribuir responsabilidades ao governo federal. A omissão vergonhosa ao longo de décadas é um dos motivos para a crise de segurança. O país está tomado por facções e milícias que sequestram espaços públicos e subjugam a população, enquanto o Planalto assiste a tudo como se nada tivesse a ver com isso. É verdade que a segurança é tarefa constitucional dos estados, mas, sozinhos, eles são incapazes de enfrentar organizações criminosas transnacionais que controlam rotas do narcotráfico e incendeiam o país. O trabalho conjunto entre governo federal e estados é fundamental.

 

É positiva também a decisão de ampliar o financiamento para o setor. A segurança receberá uma fatia maior do total arrecadado com as empresas de apostas. Até 2028, os 13,6% destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e ao Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) subirão gradativamente para 30%. Com a mudança, é possível que a seguridade social e os ministérios do Esporte e do Turismo recebam menos.

 

Pelo texto aprovado, a PRF ganhará novas atribuições. Além de patrulhar as estradas, passará a vigiar também hidrovias e ferrovias. Ficou estabelecido que o governo federal poderá autorizar o emprego da corporação na proteção de bens, serviços ou instalações federais. A PRF também poderá prestar auxílio aos estados mediante solicitação dos governadores.

 

Espera-se que o Senado mantenha a espinha dorsal da PEC. Ela é essencial para o país. A segurança está no topo das preocupações dos brasileiros, e o Legislativo precisa dar resposta a essa angústia. Na semana passada, foi aprovada no Congresso a Lei Antifacção, que aumenta penas para integrantes de organizações criminosas. Mas apenas endurecer a legislação não basta. A PEC traz uma resposta mais abrangente, pois incentiva a integração entre todas as forças e aumenta os recursos para o setor.

 

Com os dois projetos, governo federal e estados passarão a dispor de instrumentos mais eficazes para combater os grupos criminosos. Mas a batalha não se encerra aí. É apenas um bom começo.

Vorcaro falou a Alexandre de Moraes sobre salvar Master no dia em que foi preso em 2025

Por Malu GasparJohanns Eller e Rafael Moraes Moura — Rio e Brasília / O GLOBO

 

 

Uma intensa troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes se estendeu por todo o dia da prisão do dono do Banco Master pela Polícia Federal (PF), em 17 de novembro de 2025. Dados obtidos a partir do celular do executivo, apreendido com ele no momento da prisão, mostram que Vorcaro prestava contas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o avanço das negociações para a venda do Master e sugerem que ele também falou sobre o inquérito sigiloso que tramitava na Justiça Federal de Brasília e acabou levando à sua prisão.

 

Nessas mensagens, Vorcaro relata que antecipou o negócio e que conseguiu salvá-lo, embora não fosse do jeito que ele queria. Também menciona um vazamento que “será péssimo, mas pode ser um gancho para entrar no circuito do processo”. Duas vezes, durante o dia, ele pergunta a Moraes se tinha alguma novidade, e ainda questiona: “Conseguiu bloquear?”

 

O blog teve acesso com exclusividade aos prints de nove mensagens trocadas entre os dois via WhatsApp entre as 7h19m e as 20h48m daquele dia. Esse último contato com o ministro do Supremo se deu pouco mais de uma hora antes da abordagem policial no Aeroporto Internacional de Guarulhos, que ocorreu por volta das 22h.

 

Tanto o dono do Master como Moraes escreviam o texto nos blocos de notas de seus aparelhos, tiravam prints e depois enviavam como imagens de visualização única. Por isso, as mensagens do ministro não estão disponíveis. Já as de Vorcaro continuaram acessíveis no próprio celular. Os horários de cada nota do banqueiro obtida pela reportagem coincidem com os das mensagens, em geral enviadas um minuto depois de serem salvas. Apenas uma foge do padrão e tem um intervalo de seis minutos entre o horário em que a nota foi fotografada e seu envio.

 

Procurado, o ministro Alexandre de Moraes preferiu não se manifestar. Em nota enviada na tarde de quinta-feira, quando foi publicada a primeira reportagem sobre os diálogos, o magistrado afirma que “não recebeu as mensagens referidas na matéria” e que “trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”.

 

Consultada, a defesa de Vorcaro afirmou que não comentaria.

Conforme publicamos na quinta-feira, inicialmente a informação obtida pela equipe da coluna era de que Vorcaro havia entrado em contato com Moraes uma única vez, no início da manhã do dia 17. Só após a publicação da primeira matéria obtivemos a íntegra da comunicação entre os dois.

 

‘Um gancho para entrar no circuito do processo’

A conversa começou às 7h19m da manhã. Em uma referência ao negócio com o grupo Fictor, que seria anunciado naquela tarde, Vorcaro relata a Moraes a tentativa de “antecipar os investidores” e diz que há possibilidade de “assinar e anunciar ainda hoje uma parte”, o que, caso se concretizasse, o levaria a “ir pra lá tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros”. Em seguida, muda de assunto: “De um lado, acho que o tema de que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes (sic). Mas a turma do BRB me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá.”

 

O trecho que vem a seguir é vago, mas parece fazer referência ao inquérito sigiloso que corria contra o banqueiro na Justiça Federal: “Se vazar antes será péssimo, mas pode ser um gancho para entrar no circuito do processo”. Ele então finaliza pedindo: “Se tiver alguma novidade vamos falar”. Conforme mostram os registros do celular, Moraes responde às 8h16m, com uma mensagem de visualização única.

 

Se o trecho a respeito dos investidores é uma referência clara à compra do Master pelo grupo Fictor, que seria anunciada na tarde daquela terça-feira para a surpresa do mercado financeiro, a parte em que ele fala em “entrar no circuito do processo” é menos explícita, mas guarda conexão com a cronologia dos fatos sob investigação.

 

De acordo com a PF, àquela altura o banqueiro já estava preocupado com os desdobramentos do processo que o levaria para a cadeia. Três horas depois da resposta de Moraes, às 11h08m, o site O Bastidor publica a informação de que havia um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília sobre uma fraude bilionária envolvendo a compra do Master pelo BRB, sem mencionar risco de prisão.

 

Segundo a apuração da PF, o banqueiro obteve a informação a respeito do inquérito sigiloso a partir de um acesso ilegal aos sistemas da própria corporação. Depois, usou o site para torná-la pública, “esquentando” a informação, para então poder apresentar uma petição diretamente ao juiz da Vara, Ricardo Leite. Nesse documento, ele busca impedir “medidas cautelares eventualmente requeridas” e barrar o risco de uma prisão, que havia sido determinada pelo juiz apenas 18 minutos antes, às 15h29m. A petição da defesa foi enviada às 15h47m.

 

‘Conseguiu bloquear?’

A próxima comunicação entre Vorcaro e Moraes se dá às 17h22m, quando o negócio da Fictor estava prestes a ser noticiado pela imprensa. O dono do Master escreveu novamente para o magistrado: “Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação”. Moraes não responde de imediato. Quatro minutos depois, Vorcaro emenda, então, com a mensagem revelada ontem pela equipe do blog: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.

 

O ministro do Supremo responde às 17h31m, sempre por meio de prints do bloco de notas que só podem ser visualizados uma vez pelo interlocutor. O CEO do Master volta a pedir por atualizações de Moraes às 20h04m com uma nota salva às 19h58m, sempre com o cuidado de não mencionar o assunto que o preocupava: “Alguma novidade?”. O magistrado responde com duas mensagens em sequência às 20h21m e 20h23m. Vorcaro escreve novamente para Moraes às 20h48m, no que, segundo o material apreendido e periciado pela PF, seria a última mensagem compartilhada com o ministro antes da prisão.

 

‘Acho que pode inibir’

Pelo conteúdo, depreende-se que ele responde a uma pergunta sobre o negócio com a Fictor: “Foi. Seria melhor na sexta junto com os gringos mas foi o que deu pra fazer dentro da situação”. E emenda: “Acho que pode inibir”, sem dizer exatamente o que poderia ser inibido. Encerrando a conversa, Vorcaro comunica ao ministro: “Amanhã começam as batidas do [André] Esteves [dono do BTG Pactual]. Tô indo assinar com os investidores de fora e estou online”. Dessa vez, segundo os registros do celular do banqueiro, Moraes não respondeu com outra mensagem de visualização única. Reagiu apenas com o emoji de polegar levantado em sinal de aprovação.

 

Vorcaro jamais decolaria rumo a Malta e o Master seria liquidado menos de 12 horas depois pelo Banco CentralO CEO do Master só seria solto 11 dias depois por determinação da desembargadora Solange Salgado, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). A magistrada, porém, impôs a Vorcaro o monitoramento por tornozeleira eletrônica e o recolhimento do seu passaporte, cautelares mantidas até sua nova prisão na última quarta-feira (4) por determinação do relator do caso no STF, ministro André Mendonça.

 

Há ainda outro registro de diálogo entre o ministro e Vorcaro, em 1º de outubro de 2025, mas novamente sem conteúdo, porque o banqueiro e Moraes apagavam as mensagens ou enviavam com visualização única. De acordo com investigadores, há também telefonemas entre eles.

 

Contrato

Conforme revelou o blog, o Banco Master contratou em janeiro de 2024 para representá-lo judicialmente o escritório Barci de Moraes, onde trabalham a mulher e dois filhos de Alexandre de Moraes, com a previsão de uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões ao longo de três anos. O contrato do Master com a mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, previa que o escritório da família trabalhasse na defesa dos interesses da instituição e de Daniel Vorcaro junto ao Banco Central, à Receita Federal, ao Cade, à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e ao Congresso Nacional – mas a atuação de Viviane é desconhecida em todos esses órgãos e instituições.

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