Último Datafolha foi bom para Lula e Flavio
Por Merval Pereira / O GLOBO
O resultado da pesquisa Datafolha divulgada no último sábado mostra estabilidade dos candidatos à presidência, que é um bom sinal para as duas candidaturas. Lula se mantém em 41%, que é o máximo que conseguiu no primeiro turno até agora, e Flavio Bolsonaro caiu para 31% - uma diferença grande. Mas no segundo turno, a diferença fica em 4 pontos a favor de Lula. Significa que é possível imaginar que, se os outros candidatos da direita continuarem performando da maneira fraca como estão, o eleitor já avance para o voto útil na direita já no primeiro turno, dando uma força maior ao Flavio. Mas tem também a possibilidade de, se Flavio não tiver contido a queda após o caso de Vorcaro, a situação se inverta e Lula vença no primeiro turno. Se a direita ficar muito enfraquecida, o grupo de independentes e indecisos pode ir para o vencedor. É difícil, porque a soma dos candidatos de direita supera os votos de Lula. É mais fácil imaginar que os eleitores de Zema e Caiado votem em Flavio e não no Lula.
Presidente americano Donald Trump em encontros com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro — Foto: Ricardo Stuckert / PR — Divulgação
Promessa de paz no Bruno Covas
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Pedalar, correr ou andar a pé no Parque Linear Bruno Covas, localizado entre o Rio Pinheiros e a pista sentido zona sul da Marginal, é um ato de coragem. Não é de hoje que ciclistas e pedestres relatam episódios de violência, com casos de roubo, que ilustram bem o alto risco que correm ao ousar transitar por ali. Desde que essa extensa área verde foi inaugurada, em 2021, os frequentadores vêm reivindicando mais infraestrutura, guaritas e câmeras. O pleito por mais segurança, enfim, parece que será atendido.
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) e a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) juntaram esforços para dar uma boa notícia aos paulistanos: o governo paulista e o parceiro privado vão investir R$ 24 milhões para a melhoria da segurança no parque, com a instalação de 22 câmeras inteligentes, em 19 pontos, ao longo de 12 quilômetros.
As câmeras serão integradas ao bem-sucedido Programa Muralha Paulista, o projeto do governo estadual que conecta milhares de câmeras, sensores e sistemas de inteligência artificial, na capital e no interior. A ideia do governo Tarcísio de Freitas é ainda mais ambiciosa: integrar todos os parques estaduais urbanos ao Muralha Paulista.
No projeto pioneiro no Bruno Covas, os equipamentos terão recursos avançados de monitoramento e de análise de imagens, compartilhando com a polícia imagens, alertas e informações de interesse da segurança pública, como fluxos de circulação de frequentadores e as áreas consideradas mais sensíveis. É a tecnologia a serviço da segurança pública.
Conforme afirmou ao Estadão o diretor-presidente da Emae, Rafael Strauch, “o foco é aumentar a segurança daquela área, no sentido amplo”, permitindo que os usuários do Bruno Covas ocupem o parque durante o dia e à noite, sem que sintam medo, para correr ou andar de bicicleta. Por isso, acertadamente, parte dos recursos financeiros será aplicada na instalação de cabines de policiamento e monitoramento, postes de iluminação, sinalização de pistas, gradis para separar a ciclovia do Rio e da Marginal Pinheiros, pavimentação e plantio de árvores.
Não menos importante, a intervenção no Parque Linear Bruno Covas integra uma ação ainda maior: o Programa IntegraTietê, iniciado em 2023 pelo governo estadual para revitalizar os rios paulistas. A ideia é acelerar a despoluição do Rio Pinheiros com a universalização da coleta de esgoto até 2029. E, para mudar esse cenário, nada melhor do que estimular a presença dos paulistanos na margem do rio, com sua revitalização e mais investimentos em infraestrutura e preservação ambiental.
O Parque Linear Bruno Covas pode ajudar a resgatar o Rio Pinheiros, mas, para isso, precisará antes resgatar a confiança de seus frequentadores, ciclistas e pedestres. Os investimentos em infraestrutura e segurança são um bom começo no árduo trabalho para tornar o parque mais agradável. Se cumprida a promessa, em poucos meses, ciclistas e pedestres se sentirão mais tranquilos para ocupar um espaço acolhedor, e não hostil, na metrópole.
Justiça Eleitoral e a tentação de vigiar
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A Justiça Eleitoral existe para organizar eleições, garantir sua integridade e julgar conflitos relacionados ao processo eleitoral. Não existe para vigiar permanentemente o debate público. A distinção parece óbvia, mas volta a merecer reflexão diante da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de contratar uma empresa especializada em inteligência cibernética e monitoramento digital para acompanhamento do tribunal.
Reportagem do Estadão revelou que a Corte prepara uma licitação para contratar uma empresa capaz de monitorar redes sociais, produzir relatórios de inteligência, acompanhar atores políticos e subsidiar ações de combate à desinformação. Segundo o tribunal, o objetivo é prevenir ameaças cibernéticas, proteger autoridades e enfrentar campanhas de desinformação.
Os documentos que embasam a contratação ajudam a dimensionar o alcance da iniciativa. O TSE afirma que a empresa deverá monitorar continuamente conteúdos considerados desinformativos, acompanhar mídias sociais de atores políticos e influenciadores relevantes e fornecer relatórios a diferentes áreas da corte.
Mais do que isso, a contratada poderá interagir com os chamados “atores maliciosos” para coletar informações sobre ameaças em curso, vazamentos e vulnerabilidades. O próprio documento menciona a possibilidade de remoção de conteúdos falsos relacionados ao tribunal. Trata-se, portanto, de uma estrutura que vai além da proteção de sistemas computacionais e passa a atuar diretamente sobre o ambiente digital em que ocorre o debate político.
O estudo elaborado pelo próprio TSE reconhece alguns riscos. Entre as desvantagens apontadas está o fato de que a empresa responsável terá conhecimento dos temas monitorados e dos resultados produzidos por esse acompanhamento. O tribunal sustenta que o problema é mitigado porque as informações coletadas são públicas. A justificativa, contudo, não elimina as preocupações.
Especialistas lembram que ferramentas de inteligência baseadas em fontes abertas não apenas coletam informações disponíveis na internet. Elas produzem inferências, identificam padrões e estabelecem conexões entre pessoas e grupos. O risco não está apenas nos dados coletados, mas também nas conclusões extraídas a partir deles.
A preocupação se torna ainda mais relevante porque a nova estrutura deverá abastecer a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação, órgão que ganhou protagonismo durante a gestão do ministro Alexandre de Moraes no TSE. Nas eleições de 2022, a corte ampliou significativamente sua atuação no ambiente digital, determinando remoções de conteúdos e perfis sob o argumento de combater campanhas de desinformação.
Não se trata de ignorar as ameaças reais representadas pela disseminação de notícias falsas nem de questionar a necessidade de fortalecer a segurança cibernética da Justiça Eleitoral. Proteger urnas eletrônicas, bancos de dados e sistemas estratégicos é uma obrigação elementar do Estado.
O problema surge quando a fronteira entre proteger a infraestrutura eleitoral e monitorar o espaço público digital começa a se tornar difusa. Combater a desinformação pode ser uma missão legítima. Transformar órgãos estatais em observadores permanentes da atividade política dos cidadãos é outra coisa.
Há ainda uma questão institucional particularmente sensível. O enfrentamento da desinformação não pode servir de justificativa para que a Justiça Eleitoral acumule funções cada vez mais amplas de supervisão do debate público. Democracias maduras sabem que boas intenções não bastam para justificar a expansão contínua dos mecanismos de vigilância. Toda estrutura criada para enfrentar ameaças reais tende, com o tempo, a reivindicar novas atribuições, novos instrumentos e novos alvos.
O TSE foi criado para organizar eleições, não para patrulhar o debate público. Se a democracia exige vigilância contra abusos, exige também vigilância contra o crescimento excessivo do poder daqueles encarregados de combatê-los. Afinal, uma pergunta continua tão atual quanto necessária: quem vigiará os vigilantes?
Um dique para o populismo fiscal
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O ministro Gilmar Mendes enviou ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, uma proposta de súmula vinculante para barrar medidas que criem despesas ou benefícios fiscais sem apresentar fontes de receita para custeá-las. A regra consolidaria uma jurisprudência para todo e qualquer projeto que venha a ser aprovado sem a devida compensação financeira e valeria para União, Estados e municípios. Não há dúvida de que a aprovação da súmula pelo plenário do STF seria extremamente positiva para o País.
Há alguns dias, o Senado avalizou uma série de pautas-bomba sem a menor preocupação com as contas públicas. A Comissão de Assuntos Sociais (CAS) aprovou o aumento do piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas para R$ 13.662, válido para as redes pública e privada. Não se discute o fato de que tais categorias mereçam reconhecimento, mas sim o impacto financeiro da medida, estimado pela equipe econômica em nada menos que R$ 8,4 bilhões por ano.
Com a desculpa de não onerar Estados e municípios, o Senado definiu que caberia à União complementar os recursos por meio do Fundo Nacional de Saúde (FNS). Ora, o fundo é custeado por impostos e tampouco tem dinheiro sobrando. Se a súmula proposta pelo ministro Gilmar Mendes já estivesse em vigor, os senadores, se realmente quisessem que o piso entrasse em vigor, teriam de propor alguma maneira de arranjar R$ 8,4 bilhões, seja por meio da elevação ou criação de tributos, seja por meio do corte de gastos.
No mesmo dia, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde, como salário integral e idade mínima menor para obtenção do benefício. A estimativa é de que a benesse consuma R$ 30 bilhões em dez anos. Novamente, não se questiona a importância do serviço prestado por esses profissionais, mas tais condições foram extintas há mais de 20 anos no serviço público e jamais existiram no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), cujo déficit, no ano passado, foi de R$ 321 bilhões.
Não é de hoje que o Congresso tem feito cortesia com chapéu alheio. É fácil aprovar bondades; o difícil é dizer claramente como elas serão financiadas. Dado que o Orçamento registra um déficit estrutural entre receitas e despesas há mais de dez anos, simplesmente repassar o gasto para a União não é uma solução. Afinal, isso aumenta a dívida pública e, consequentemente, a Selic, o que impede que o País possa ter uma taxa básica de juros em níveis civilizados.
Eis a relevância da súmula proposta pelo ministro Gilmar Mendes. Se a súmula for aprovada pelos ministros do STF, propostas como essas não terão mais respaldo. Parlamentares estão incomodados, mas não se pode dizer que o STF queira interferir nas prerrogativas de outros Poderes.
Em primeiro lugar, porque o Legislativo tem ignorado dispositivos estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) há 26 anos e pela Constituição há uma década. E em segundo lugar, porque a Suprema Corte com frequência é chamada a resolver essas controvérsias.
Foi o que ocorreu com o piso da enfermagem. Aprovado pelo Congresso em 2022 como uma maneira de reconhecer o trabalho da categoria durante a pandemia de covid-19, a proposta foi questionada no STF por meio de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI). À época, o plenário decidiu que o pagamento do valor mínimo para a categoria não poderia ser exigido dos Estados e municípios se não houvesse apoio financeiro do governo federal.
Nada disso seria necessário se o Congresso assumisse sua responsabilidade e cumprisse seu dever. Propostas como essa jamais, por mais bem-intencionadas que fossem, teriam ido tão longe se comissões permanentes como a CCJ e a Comissão de Finanças e Tributação fizessem seu trabalho e averiguassem se seus dispositivos violam a Constituição e a LRF.
Fachin deu andamento à proposta de Gilmar Mendes e pediu que os interessados se manifestem sobre o tema. Se o País precisa de uma súmula vinculante para reafirmar o óbvio e barrar pautas-bomba, que assim seja. Não seria uma vitória do governo Lula, mas da sociedade brasileira.
Risco da IA gera apreensão entre líderes globais
Em fevereiro, a Anthropic — cujos modelos de IA têm se revelado os mais sofisticados para uso por empresas e governos — foi banida pelo Pentágono de fazer qualquer negócio com o governo americano, por se recusar a aceitar que seus sistemas pudessem ser usados em vigilância ou armas autônomas. Amodei se transformou numa espécie de profeta dos riscos da IA. Sua pregação dentro e fora da empresa defende a regulação e a imposição de limites ao avanço da tecnologia. No almoço em Évian, ele exortou os presentes a trabalhar em conjunto e a “resistir à tentação de se dividir”. Foi, ao menos no discurso, secundado por Altman e Hassabis.
Empresas americanas estão na vanguarda do desenvolvimento da IA, já mais eficaz que humanos na confecção de trabalhos jurídicos ou na programação de computadores. Descobertas científicas impressionantes têm sido registradas em áreas como química ou matemática. É crível uma sucessão de novas conquistas, com cura para doenças hoje intratáveis, alternativas nunca pensadas para problemas como aquecimento global ou combate ao crime. A melhora exponencial dos modelos permite supor que um dia ultrapassem a capacidade intelectual humana. Tudo isso também traz riscos.
Em abril, a Anthropic anunciou um modelo capaz de encontrar vulnerabilidades em softwares, o Mythos — nas mãos erradas, ele permitiria a criminosos invadir sistemas de bancos ou empresas. Para encontrar fragilidades, abriu-o a testes restritos antes de oferecê-lo ao mercado. Em 9 de junho, lançou uma versão batizada Fable. Três dias depois, a Casa Branca, alegando risco à segurança nacional, proibiu que fosse usada por estrangeiros, mesmo morando nos Estados Unidos. A Anthropic então tirou o Fable do ar.
A maior preocupação do governo americano não parece estar no uso desses modelos, militar ou civil, mas em sua captura por potências estrangeiras, sobretudo pela China. Os chineses conduzem as únicas iniciativas capazes de alcançar o desempenho das americanas. Mas adotaram outra estratégia. Acreditando que no futuro modelos estarão facilmente disponível, apostam em versões mais baratas para aplicações específicas, com menor consumo de energia. É difícil saber qual estratégia será bem-sucedida, mas é fácil imaginar o poder do primeiro país que obtiver uma IA com recursos militares ou de vigilância robustos.
Na declaração final, os países do G7 afirmaram “trabalhar em conjunto com empresas líderes para acelerar a implantação segura e benéfica” da nova tecnologia. Avança a ideia de criar, para a IA, um organismo nos moldes da Agência Internacional de Energia Atômica. Não deveria ser necessário a IA demonstrar que tem poder de destruição equivalente ao das armas nucleares para isso acontecer.
Em abril, a Anthropic anunciou um modelo capaz de encontrar vulnerabilidades em softwares, o Mythos — Foto: Gabby Jones/BloombergRealidade mostra que conservar florestas não prejudica agronegócio
Por Editorial / O GLOBO
Entre agosto de 2025 e maio passado, a área sob alerta de desmatamento na Amazônia diminuiu 37,5% ante o mesmo período de 2024 para 2025. Foram derrubados 2.189km², a menor área da série histórica da estatística, iniciada em 2016. No Cerrado, bioma que sofre pressão maior da fronteira agrícola, a redução foi de 8,2%, com a supressão da vegetação nativa alcançando 4.208km². Se a referência for apenas o mês de maio, as quedas são, respectivamente, de 61,4% e 12,2%. Ao mesmo tempo, a safra de grãos de 2024-2025 foi de aproximadamente 352 milhões de toneladas, e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na sua previsão mais recente para a colheita de 2025-2026, estima o recorde de 359 milhões de toneladas. No período em que há grande redução no desmatamento, a produção agrícola continua a crescer.
Tal fato demonstra que é perfeitamente possível aumentar a produção sem agredir o meio ambiente. Basta investir em ganhos de produtividade, por meio de aperfeiçoamentos no plantio. Não é necessária nenhuma nova revolução para o Brasil conciliar aumento da produção e conservação. A principal deu-se a partir dos anos 1970 com a criação da Embrapa, centro de pesquisa responsável por adaptar diversas culturas ao solo brasileiro.
A tecnologia tem permitido índices de produtividade capazes de garantir o aumento de safra sem crescimento da área plantada ou ocupada por rebanhos. A evolução da produção de grãos atesta tal capacidade. Desde a safra 1976-77, a colheita anual cresceu 680%, e a área plantada aumentou apenas 125,6%. Se o país mantivesse a produtividade dos anos 1970, precisaria de 205 milhões de hectares a mais para colher a mesma safra, ou 24% do território nacional.
O aumento de produtividade foi alcançado não apenas na adaptação de culturas ao clima e ao solo brasileiros. A terra também passou a ser mais bem aproveitada, com mais de uma safra por ano. O melhor exemplo é o milho, até os anos 1980 plantado apenas para a safra de verão. Semeado de setembro a dezembro, era colhido de janeiro a maio. O avanço da soja, colhida em janeiro e fevereiro, permitiu o uso da mesma área para uma segunda safra de milho, a “safrinha” de inverno que, apesar do nome, representa mais de 75% da produção de 128 milhões de toneladas do grão. Na entressafra, o solo pode ser usado no cultivo de capim, que ajuda a regenerá-lo e serve de pastagem ao gado. Fecha-se, assim, o calendário agrícola, com aumento da lucratividade do produtor, sem que seja necessário avançar sobre áreas protegidas.
A ciência e a tecnologia têm permitido a convivência do agronegócio com políticas ambientais. A conservação das florestas é essencial para proteger o campo das mudanças no regime de chuvas e no clima. E também para blindar o produto nacional das acusações de grupos protecionistas que acusam o Brasil de desmatar florestas para expandir a agropecuária. Não há contradição entre proteção ambiental e avanço agrícola. Só ignorantes ou defensores do atraso insistem no contrário.
Colheita de soja no estado de Goiás — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg/21/02/2025

