A esquerda que teme o PT
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Após semanas de embates públicos entre alas favoráveis a se abraçar ao PT e correntes que, temerosas de serem engolidas pelos petistas, rejeitavam a ideia, o PSOL decidiu não aderir a uma federação com o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grupo liderado pelo hoje ministro Guilherme Boulos (PSOL-SP) defendia a união sob o argumento de fortalecer o campo progressista e ampliar a bancada de esquerda no Congresso. Do outro lado, dirigentes e militantes advertiam para o risco de perda de autonomia e de diluição do partido na estrutura petista. Ao final, prevaleceu com folga a posição contrária à federação. O episódio encerra formalmente a disputa, mas deixa o PSOL visivelmente fissurado – e expõe algo maior que suas próprias divisões. Há fraturas que hoje atravessam a esquerda brasileira.
A controvérsia revelou um debate que há muito percorre, ainda que em voz baixa, os partidos do chamado campo progressista: o receio de ser absorvido pelo peso político do PT. Está longe de ser uma suspeita repentina. Trata-se do reconhecimento – tardio, sublinhe-se – de uma dinâmica conhecida da política brasileira. Afinal, o PT nunca escondeu sua vocação hegemônica. Desde sua origem, organizou-se como força destinada não apenas a participar da esquerda, mas a liderá-la. Essa característica foi central para seu crescimento e permanência como principal partido do campo progressista, mas também produziu um efeito colateral evidente: a dificuldade de convivência equilibrada com aliados, entre os quais se inclui o próprio PSOL, que, convém lembrar, nasceu de uma costela do PT para encarnar a extrema esquerda que o partido de Lula se recusava a ser.
O PT não sabe dividir o poder. Esse apetite hegemônico não é propriamente novidade. Partidos organizados sob estruturas fortemente centralizadas tendem a operar com lógica de predominância. A cooperação com aliados existe, mas quase sempre subordinada a um projeto mais amplo de liderança política. Em tais circunstâncias, a convivência raramente se dá em pé de igualdade. Com o tempo, legendas menores passam a gravitar em torno da força dominante, muitas vezes perdendo visibilidade, quadros e identidade própria.
A experiência recente da esquerda oferece exemplos eloquentes. Na federação formada por PT, PV e PCdoB, os parceiros menores acabaram progressivamente ofuscados. O PV praticamente desapareceu do debate nacional. O PCdoB mantém presença institucional, mas perdeu o pouco que tinha de sua esquálida densidade política e viu parte de suas lideranças se dispersar. Mesmo partidos maiores convivem com tensões recorrentes na relação com o petismo. O PSB, por exemplo, oscila entre a cooperação governista e o esforço para preservar algum espaço político próprio, tensão visível tanto nas disputas regionais quanto nas negociações em torno do papel de suas lideranças no governo.
Foi à luz desse histórico que boa parte do PSOL recebeu a proposta de federação com compreensível desconfiança. Enquanto o PT enfrenta sinais de desgaste em sua base tradicional, o PSOL reúne quadros jovens e ativistas mobilizados. Entrar numa federação significaria compartilhar recursos, estratégia eleitoral e atuação parlamentar por quatro anos. Em termos práticos, seria uma convivência política permanente sob a sombra do maior partido da esquerda.
A decisão de rejeitar a federação pode ser interpretada, portanto, como uma tentativa de preservar autonomia. Mas isso não significa que o problema tenha desaparecido. O processo deixou cicatrizes evidentes dentro do PSOL. É plausível imaginar que parte de suas lideranças busque outro caminho político. Guilherme Boulos, cuja proximidade com Lula e com o próprio PT é cada vez mais explícita, poderá acabar formalizando uma migração que hoje já parece, em muitos aspectos, apenas uma questão de tempo.
No fundo, a questão ultrapassa o destino do PSOL. Diz respeito ao próprio funcionamento da esquerda brasileira nas últimas décadas. Enquanto o PT permanecer como força dominante, com vocação para dirigir todo esse campo político, alianças à esquerda tendem a oscilar entre dois riscos conhecidos: a fragmentação ou a absorção. O PSOL decidiu evitar a segunda hipótese. Resta saber se conseguirá escapar da primeira. E se a esquerda brasileira aprenderá, algum dia, a viver sem a inevitável batuta do PT.
STF O Supremo precisa se ajudar
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Não há democracia no mundo que possa prescindir de um árbitro confiável reconhecido por todos. No arranjo institucional brasileiro, esse papel cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF). A um só tempo, o STF é a instância final de resolução de conflitos entre os Poderes, a última linha de defesa de direitos e garantias fundamentais e a fonte de estabilidade do sistema político. E para dar conta de cada uma dessas atribuições constitucionais, o Supremo depende fundamentalmente da confiança dos cidadãos na sua imparcialidade. Vale dizer, quando a autoridade moral do árbitro é colocada em dúvida, não se está mais diante de um problema circunscrito à instituição nem muito menos a seus membros, mas sim de uma falha do próprio regime democrático.
Esse é o quadro inquietante revelado por um recorte da pesquisa Meio/Ideia divulgado ontem. Entre os entrevistados que afirmam estar informados sobre o caso Master, nada menos que 70% avaliam que o STF perdeu credibilidade. Para 35%, a Corte é a instituição mais associada ao escândalo envolvendo o banco do sr. Daniel Vorcaro, ora preso na Penitenciária Federal de Brasília. O índice supera, com folga, os porcentuais que vinculam o caso ao governo federal (21,3%) ou ao Congresso (17,9%).
A pesquisa expõe de forma incontrastável que as críticas ao Supremo não se restringem mais ao bolsonarismo, que sempre buscou deslegitimar a Corte como o anteparo institucional aos desígnios liberticidas de Jair Bolsonaro. O mal-estar em relação ao STF “furou a bolha”, como se diz, e alcançou parcelas bem mais amplas da sociedade. Não é difícil entender a razão.
Pululam evidências de que os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli se aproximaram de maneira imprópria, para dizer o mínimo, dos negócios do Banco Master e de Vorcaro em pessoa. Como se essa proximidade não fosse por si só perturbadora por envolver juízes da mais alta Corte do País, o problema torna-se ainda mais grave pela recalcitrância de ambos os ministros em oferecer à sociedade explicações convincentes sobre a natureza de suas relações com o banqueiro.
Em qualquer tribunal que se preze, o afastamento voluntário de julgamentos potencialmente contaminados por conflitos de interesses seria uma providência elementar. No STF, contudo, essa conduta republicana passa ao largo das considerações de Moraes e Toffoli. Os dois têm resistido em reconhecer a gravidade do problema, o que só amplia a percepção de que certos membros do Supremo parecem crer piamente estar acima das leis e de qualquer escrutínio público.
Basta dizer que o presidente do STF, ministro Edson Fachin, viu-se compelido a recorrer a um truísmo para tentar sensibilizar seus colegas. Durante um encontro com representantes de todos os tribunais do País, no dia 10 passado, Fachin fez um pedido nada sutil a Moraes e Toffoli, ainda que sem citá-los, ao exortar os magistrados a manter um “saudável distanciamento das partes”. O fato de uma obviedade como essa ter sido verbalizada pela mais alta autoridade judiciária brasileira indica o grau de degradação institucional do Supremo hoje. E a democracia só tem a perder com isso.
Todo tribunal vive da confiança pública, um dos pilares de sua autoridade, ao lado da lei. Sem ela, mesmo julgamentos tecnicamente impecáveis podem ser percebidos como suspeitos, razão pela qual o STF precisa recobrar o prumo, e preferencialmente por iniciativa própria. O primeiro passo para isso é elementar: Moraes e Toffoli devem se afastar de qualquer deliberação relacionada ao Banco Master e a Vorcaro. Caso contrário, o que hoje é um desgaste pode se tornar algo mais grave.
O debate sobre o eventual impeachment de ministros do STF, outrora um tabu, já ganhou as ruas. Em entrevista recente a este jornal, o economista Eduardo Giannetti, cujas convicções democráticas são indiscutíveis, classificou como “da maior gravidade” as suspeitas envolvendo Moraes e Toffoli e considerou “pertinente” discutir a hipótese de seus afastamentos do Supremo.
Malgrado estar previsto na Constituição e, portanto, ser plenamente legítimo, o impeachment de um ministro do STF seria inevitavelmente traumático para o País. Por isso é desejável que a própria Corte se emende. Ou o Senado terá de fazê-lo em seu lugar.
Master: Avanço das investigações coloca STF e Congresso no modo 'cada um por si'
Por Malu Gaspar / o globo
Desde que a bomba do caso do Banco Master voltou a estourar no colo do Supremo Tribunal Federal (STF), com a descoberta de que Daniel Vorcaro enviou mensagens a Alexandre de Moraes no dia da prisão perguntando se ele “conseguiu bloquear”, os ministros parecem perdidos, sem saber o que fazer. Pelos relatos de quem frequenta os corredores e gabinetes, quem não está perplexo está furioso. Estão tão acostumados a pairar acima de tudo e todos no ecossistema de Brasília que se mostram sem repertório para lidar com uma premissa básica da democracia: têm obrigação de prestar contas à sociedade.
A crise se agravou tanto que o Código de Ética defendido pelo presidente da Corte, Edson Fachin, hoje teria o efeito de um band-aid cobrindo uma fratura exposta. E, ainda assim, a proposta não andou um milímetro desde que a ministra Cármen Lúcia foi designada relatora.
A única reação ensaiada até agora veio da ala furiosa da Corte, que passou a cobrar do governo Lula uma grande operação abafa a partir da interferência na Polícia Federal (PF). O núcleo que orbita em torno de Moraes e de Dias Toffoli se julga abandonado pelo Palácio do Planalto. Afinal, o Supremo Futebol Clube vem matando no peito todas as bolas tortas que o governo não consegue defender no Congresso. Por esse argumento, o mínimo que Lula poderia fazer é anular a PF em nome dessa aliança.
É uma visão ao mesmo tempo alienada e ingênua. Alienada, porque faz questão de ignorar a dimensão que o caso ganhou e quanto o Supremo está machucado pela crise. Na falta de sensibilidade política, já começam a surgir indicadores como a pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira mostrando que 35% dos que tomaram conhecimento do escândalo o associam ao STF, e 70% desse universo considera que a imagem do Supremo está abalada.
O mesmo levantamento aponta que 44% dizem que a chance de votar num candidato a senador nas próximas eleições aumentará caso ele apoie o impeachment de ministros. Os pesquiseiros do Planalto e do bolsonarismo já perceberam essa tendência, daí por que não faz sentido para Lula se afundar com o Supremo.
Nesse contexto, é de uma suprema ingenuidade imaginar que o presidente, que já largou pelo caminho aliados de uma vida, vá se sacrificar agora por causa das lambanças de Toffoli e Moraes. Também surpreende a suposição de que a troca do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues — que, apesar do relatório sobre Toffoli, sempre se portou como aliado de Moraes —, vá anular o trabalho de dezenas de delegados e agentes. Taí algo que nem Jair Bolsonaro conseguiu, mesmo tentando muito. Além disso, a esta altura da investigação seria inútil.
Embora ainda falte muita coisa para vir à tona, o número de versões do celular de Vorcaro nas mãos de investigadores já é grande o suficiente para que não se possa mais eliminá-las completamente.
Ao substituir Toffoli na relatoria do caso, o ministro André Mendonça ainda estabeleceu contato direto com os delegados e os proibiu de passar informações a superiores hierárquicos. Pelo jeito, já andava de pé atrás com os uísques caros que Andrei tomou em Londres em abril de 2024 com Moraes, Paulo Gonet e Ricardo Lewandowski, entre dezenas de outros figurões — tudo bancado por Vorcaro.
Isolado no Supremo desde que assumiu o cargo, Mendonça foi o único a votar pela suspeição de Moraes para julgar a trama golpista. É cedo para dizer se abrirá alguma investigação contra o colega de Corte, mas não para constatar que, se em algum momento houve alguma chance de enterrar a apuração, ela já ficou no passado.
Para completar o quadro, os documentos com os sigilos fiscais do Master, da Reag e de Vorcaro que vêm desembarcando nas CPIs do INSS e do Crime Organizado já começam a vir à tona, colocando em xeque as lideranças do Centrão. O primeiro a ser alvejado foi ACM Neto (União Brasil), que os repórteres do GLOBO descobriram ter recebido R$ 3,6 milhões do Master e da Reag via empresa de consultoria.
Ninguém tem dúvida de que vem muito mais por aí. Não foi por outra razão que os presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados adotaram nesta semana o regime de sessões semipresenciais, evitando debates no plenário e driblando a pressão para decidir sobre os pedidos de CPI sobre a mesa.
Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB) querem mais é ser esquecidos, enquanto tentam achar uma forma de não ser tragados pelo escândalo. É o máximo que podem fazer no momento pelo STF.
Diante da situação, é impossível não se lembrar do diálogo com a namorada em que Vorcaro diz ser “a anarquia do sistema”. A partir de agora, é cada um por si. Quem não entender isso se afundará ainda mais rápido.
Atenção ao metano
Já é consenso no campo científico que a temperatura atmosférica do planeta está em alta desde o período pré-industrial. Mas pela primeira vez, segundo especialistas, uma pesquisa consegue atestar com alto grau de precisão que o aquecimento global passou a avançar de forma mais acelerada.
Segundo o estudo realizado pelo alemão Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, publicado na última sexta (6), o ritmo de elevação da temperatura da Terra, que desde 1970 se mantinha estável em cerca de 0,2ºC por década, saltou para 0,35º a partir de 2014.
Nessa toada, a meta do Acordo de Paris —manter a alta da temperatura média global abaixo de 2°C até 2100, preferencialmente abaixo de 1,5ºC, em relação ao período pré-industrial— será descumprida até 2030.
Os alemães aumentaram a precisão ao remover fatores de alteração de curto prazo, como o fenômeno El Niño, erupções vulcânicas e variações solares.
Ao excluir essas flutuações, a taxa de aceleração verificada na pesquisa (0,35°C) não se deve a picos nos termômetros em alguns anos, mas a uma tendência disparada na década passada.
Entre as causas, especialistas apontam para regras mais rígidas contra a poluição do ar. As partículas de poluição, prejudiciais à saúde, funcionam como barreiras que refletem a luz solar, o que ajuda a resfriar o planeta.
O outro fator amplamente conhecido são os gases de efeito estufa. Muito se fala sobre o dióxido de carbono, que de fato representa 75% desses gases. Mas é preciso dar maior atenção à contenção das emissões de metano.
Isso porque este gás é 80% mais potente do que o CO2 e se mantém por cerca de 20 anos na atmosfera, enquanto o dióxido de carbono permanece por séculos.
Na COP26, em 2021, 103 países assinaram o Pacto Global de Metano, que prevê a o corte de 30% nas emissões do gás até 2030.
Mas os números só crescem. A Agência Internacional de Energia estima 580 milhões de toneladas (Mt) de metano liberadas em 2020 e 610 Mt em 2024, sendo que 60% vêm de atividade humana. No Brasil, um dos signatários, as emissões de metano entre 2020 e 2023 subiram 6%, chegando a 21,1 Mt, com o agronegócio responsável por 75% do total, segundo a rede nacional de pesquisa Observatório do Clima.
Governos precisam direcionar esforços para ações estratégicas de combate de curto prazo, que mirem a velocidade dos termômetros —sem, por óbvio, esquecer de medidas mais duradouras, como a redução de CO2.
Igualar crime organizado a terrorismo é ideia perigosa
Na quinta-feira passada (5), o governo de Donald Trump lançou uma proposta de trabalho conjunto com países da América Latina para combater cartéis de narcotráfico.
Até aí, a causa é nobre: cerca de metade dos homicídios na região decorre da atividade dos criminosos, que se imiscuem na estrutura econômica e política dos países —como indicam intersecções de investigações sobre o PCC e o escândalo do Banco Master no Brasil.
Coube ao falastrão secretário Pete Hegseth (Defesa) explicar seus termos. "Os Estados Unidos estão prontos para lidar com essas ameaças e ir à ofensiva sozinhos se for necessário. Mas é nossa preferência que façamos tudo em conjunto com vocês", disse.
Ele se dirigia a representantes de 16 países latino-americanos, com a notável exceção dos 3 mais afetados pelo problema: México, Brasil e Colômbia. Dois dias depois, ele e Trump apresentaram o programa Escudo das Américas.
Ato contínuo, reemergiu em reportagem do UOL a informação de que os EUA pretendem classificar como terroristas as principais organizações criminosas brasileiras, o supracitado Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.
O Departamento de Estado afirma não descartar a hipótese, preferindo chamar os entes de ameaça à segurança regional —o que são, por evidente.
Com falhas naturais, o regramento internacional busca critérios para chamar um grupo de terrorista. A principal é estabelecer um objetivo político ou ideológico, como a tomada de território ou de governos.
O PCC e o CV provocam terror e controlam áreas onde o Estado é ausente, mas ao menos por ora não pretendem ocupar o Palácio do Planalto. São facções do crime organizado e, para tal, há mecanismos internacionais de combate disponíveis.
Os meios poderiam ser ampliados caso os EUA os declarassem terroristas, com bloqueio expressos de bens e deportações. A concessão de vistos, como já se viu sob Trump, poderia sofrer restrições arbitrárias.
Mais grave, porém, é o risco para a soberania nacional, em especial à luz da aplicação do expediente já demonstrada pela administração do republicano.
De volta ao poder em 2025, Trump designou cartéis como terroristas em países como México e Venezuela. Neste último, a livre interpretação do americano é conhecida: o regime de Nicolás Maduro caiu na classificação, foi montado um portentoso cerco militar e o ditador hoje está preso com sua mulher em Nova York.
Quanto ao Brasil, ainda que qualquer ideia de intervenção militar soe delirante mesmo sob Trump, há um contexto político a considerar neste ano eleitoral.
A direita bolsonarista, que já embarcou no tarifaço contra o país, vê na segurança transnacional uma nova pauta par fustigar Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não prima por uma política consistente sobre o tema.
Saneamento em favela representa avanço, mas desafios persistem
Por Editorial / O GLOBO
Merece ser comemorada a chegada do saneamento básico ao Complexo da Maré, no Rio. Suas 16 favelas lançam esgoto em córregos, rios e canais que deságuam na Baía de Guanabara, poluindo praias e oceano, além de contaminar manguezais essenciais à preservação da vida marinha. A obra beneficiará 200 mil pessoas ao custo de R$ 120 milhões, valor relativamente baixo diante do salto na qualidade de vida. É preciso, porém, ir além do saneamento. A Maré continua sob o jugo de traficantes e milicianos que mantêm disputa renhida pelo território. O Estado precisa entrar lá para ficar.
É crucial estancar o crescimento da ocupação desordenada do espaço urbano, que resulta em bairros informais onde a população vive sob risco constante. Décadas de permissividade e falta de planejamento criaram um enorme passivo na forma de imóveis pendurados em morros ou atolados em áreas alagadiças. Levar a infraestrutura urbana a tais áreas é fundamental, mas nem sempre é possível. E, quando é, resta o desafio de impedir que passe a funcionar a serviço do crime organizado financiando suas atividades, como acontece com serviços de internet, luz, gás ou coleta de lixo.
Tome-se o exemplo da Rocinha, onde 72.021 moradores estavam distribuídos em 30.371 domicílios, segundo o Censo 2022. Da superfície ocupada pela favela, 59% são terrenos com inclinação superior a 30%, segundo o Projeto MapBiomas. São, portanto, áreas de risco, acima do limite legalmente permitido para construções. Nesse caso, nenhuma infraestrutura urbana será capaz de resolver o problema dos moradores. Eles precisam ser realocados para regiões seguras.
Regiões planas como a Maré também podem ser perigosas quando nelas existem rios e córregos, característica de extensas áreas no Grande Rio. Um exemplo é Vila Urussaí, no município vizinho de Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Desde a forte chuva em 9 de fevereiro, o drama vivido por uma família retratada em reportagem do GLOBO demonstra os riscos: a água começou a invadir a casa vindo de baixo do piso da cozinha até formar uma espécie de chafariz. Os moradores foram para um abrigo e, na volta, encontraram diversas rachaduras nas paredes. O imóvel corre risco de desabamento, e a Prefeitura deu à família 45 dias para fazer obras estruturais.
A Vila Urussaí tem 30 anos, é cortada pelo Rio Saracuruna e vive sob o domínio do tráfico. A ocupação desordenada e ilegal do solo, sob os olhos de autoridades, costuma vir acompanhada do crime organizado. “Empresários e milicianos, os piores deles, com políticos, desconsideram a legislação e se atrevem a construir ou lotear áreas que deveriam ser protegidas — e não são fiscalizados”, afirma a geógrafa Carla Maciel Salgado, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
É evidente que o poder público deve fazer o possível para levar o saneamento às áreas que podem ser urbanizadas. Mas não pode esquecer os demais desafios da população que vive em áreas de risco, à mercê do crime organizado.

