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É preocupante a retirada de policiais cedidos a tribunais

Por Editorial / O GLOBO

 

Investigações contra corrupção no Brasil esbarram com frequência em obstáculos que contribuem para transmitir a sensação de impunidade. O exemplo mais citado costuma ser a Operação Lava-Jato, desmontada depois que vieram à tona erros processuais, em especial a ação coordenada entre magistratura e procuradoria — que levou à anulação da vasta maioria das condenações, mesmo de réus confessos, diante de provas irrefutáveis.

 

O escândalo do Banco Master, pelas figuras já atingidas em todo o espectro partidário e pelo alcance das relações políticas de seu protagonista, o banqueiro Daniel Vorcaro, demonstra potencial de revelar esquemas de dimensões comparáveis. Têm sido, em tal contexto, louváveis a moderação e a cautela do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), ao conduzir os processos, atitudes essenciais para evitar sua contaminação. Nada pode ser tão prejudicial à Justiça quanto o fervor ou o espírito justiceiro.

 

Há, contudo, outras formas de minar o trabalho das instituições na aplicação da justiça além dos vícios processuais. A procuradoria pode pecar pelo açodamento policialesco, mas também por omissão, ao não levar adiante denúncias diante de provas eloquentes. E os próprios braços do Estado atingidos pelas investigações podem tentar agir de forma defensiva, podando o trabalho policial necessário para elucidar os fatos. É, por isso, preocupante a medida do Ministério da Justiça que determinou o retorno de mais de cem agentes policiais cedidos a diversos setores da administração pública.

 

Em ofício a mais de 50 órgãos do governo, o ministério pediu a devolução de profissionais da Polícia Federal (PF), da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e de policiais penais federais. Entre as áreas afetadas, estão tribunais federais, estaduais e até o Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde havia quatro delegados da PF em funções de assessoramento. A medida havia preservado, até a última sexta-feira, delegados da PF que atuam como auxiliares em vários gabinetes do STF — essenciais para a condução de processos sob relatoria de ministros como Mendonça ou Alexandre de Moraes.

 

O argumento usado pelo Executivo para justificar a convocação é suprir as carências de pessoal no combate ao crime, trazendo de volta aqueles policiais que não estejam exercendo atividades relacionadas à segurança pública. A confecção da medida, segundo envolvidos ouvidos pelo GLOBO, começou em abril e realizou levantamento em diferentes esferas a respeito das funções efetivamente exercidas pelos profissionais.

 

Trata-se, evidentemente, de medida insuficiente para fazer alguma diferença na luta contra as organizações criminosas. Felizmente, até o momento o Supremo foi poupado, já que ele próprio exerce papel decisivo nesse combate — e conta com a contribuição dos policiais lá alocados para isso.

 

Além disso, retirar neste momento os delegados que atuam no gabinete de Mendonça configuraria interferência indevida do Executivo numa investigação que começa a atingir seus interesses.

 

O Superior Tribunal de JustiçaO Superior Tribunal de Justiça — Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo

Eleição na Colômbia reflete avanço da ultradireita na América Latina

Por Editorial/ O GLOBO

 

O resultado das eleições presidenciais colombianas no domingo, vencidas pelo oposicionista Abelardo de la Espriella, reflete o avanço da ultradireita populista na América Latina, inspirada e apoiada por Donald Trump. Como Jair Bolsonaro em 2018, Espriella fez uma campanha digital agressiva e usou a camisa da seleção de futebol para explorar o nacionalismo. Como Nayib Bukele em El Salvador em 2019, prometeu o encarceramento em massa para derrotar o “narcoterrorismo”. E, como Javier Milei na Argentina em 2023, apresentou-se como candidato antissistema.

 

Advogado sem experiência política com dupla cidadania colombiana e americana, Espriella se une a outros líderes da direita latino-americana que prometem fortalecer os laços com os Estados Unidos de Trump, caso do equatoriano Daniel Noboa, do chileno José Antonio Kast, do boliviano Rodrigo Paz e mesmo da peruana Keiko Fujimori, que lidera a contagem de votos no pleito recente. De acordo com os resultados preliminares, Espriella obteve 49,7% dos votos, ante 48,7% do rival Iván Cepeda — apoiado por Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da Colômbia. “Governarei para todos os colombianos”, afirmou ao vencer. “Não haverá terceiro turno nas ruas.”

 

Sem grande estrutura partidária, Espriella tentou acalmar investidores escolhendo como vice José Manuel Restrepo, um ex-ministro da Fazenda de orientação liberal. Na economia, os desafios são semelhantes aos brasileiros: déficit público crônico e o maior nível de endividamento em duas décadas. O sistema de saúde precisa de reforma urgente, e a estratégia de Petro de negociar com todos os grandes grupos criminosos permitiu que guerrilhas, narcotraficantes e paramilitares expandissem seu domínio sobre o território. Para enfrentar as duas chagas, Espriella promete uma mistura das ideias do argentino Milei às do salvadorenho Bukele.

 

 

Uma vez no poder, porém, tais promessas costumam se frustrar diante da realidade. O clima de polarização em que os populistas são eleitos se revela um empecilho a qualquer governo que precise de apoio na sociedade para avançar suas propostas. A retórica divisiva pode funcionar para conquistar o poder, mas é péssima para exercê-lo.

 

Sinal dos efeitos nefastos da polarização é a ameaça latente que ela representa à democracia. Petro não aceitou o resultado do primeiro turno realizado em maio, desfavorável a Cepeda. No domingo, sem apresentar provas de fraudes, Cepeda anunciou que seu partido pedirá a impugnação de 33 mil mesas eleitorais, quantidade suficiente para mudar uma eleição decidida por 250 mil votos. Ao ensaiarem não aceitar a derrota, Petro e Cepeda seguem um roteiro já testado por Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro no Brasil. Prestam um desserviço ao próprio país. Deveriam lembrar exemplos como o chileno Gabriel Boric, um esquerdista que recebeu seu adversário Kast para discutir a transição de governo assim que ficou clara a derrota. Saber perder é a essência de qualquer regime democrático.

 

Forma e conteúdo

Por Merval Pereira / O GLOBO

 

Os petistas agora fazem uma conta estranha: quantos bolsonaristas estão envolvidos no escândalo do Banco Master, e quantos petistas estão na mesma situação? Como se quem tenha menos indiciados ou investigados por corrupção leve vantagem sobre o outro grupo. Não se fala mais em fim da corrupção como projeto de governo. É como se dissessem: como todos são ladrões, quem rouba menos tem vantagem. Parece briga de crianças: “Foi ele quem começou”.

 

Perdeu-se o pudor, justifica-se tudo como se fosse normal ter coleção de relógios de luxo, símbolo internacional de ostentação dos novos-ricos, ou aceitar carona em jatinhos e pagamentos de diárias em hotéis. Guardar dinheiro vivo, de preferência em moedas valorizadas — dólar ou euro —, é normal. O ex-deputado Geddel Vieira Lima, que tinha malas de dinheiro num apartamento em que ninguém morava, perdeu a chance de usar a patética desculpa de diárias de viagens internacionais.

 

É preciso recuperar a noção de ética para os servidores públicos, sejam deputados, senadores ou ministros dos tribunais superiores. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, lidera esse movimento pelo Código de Ética, preparado pela relatora, ministra Cármen Lúcia. A reação de alguns ministros contra a medida dá bem a ideia de onde estamos. Se as exigências legais já estão na legislação da magistratura, como alegam seus opositores, por que ministros aceitam pegar carona em jatinhos particulares para ver jogos de futebol em camarotes especiais e posam para fotografias sorridentes? Não sabem que é proibido?

 

Podem participar de empreendimentos, mas por que não revelam seus ganhos? Por que, quando surgem informações de negócios nebulosos, não contrapõem às críticas documentos que mostram a legalidade? É o caso do financiamento do filme sobre Bolsonaro, teoricamente financiado por Daniel Vorcaro. Cadê o contrato? Cadê os comprovantes de gastos? Por que são contrários à Lei Rouanet e favoráveis a financiamento privado sem documentos que provem que ele realmente existiu? A triste conclusão é que nossa organização institucional está entranhada pelos vícios da corrupção, e seus representantes não se preocupam com isso.

 

Um político importante, presidente de partido, acusado de diversos desvios de conduta, aparecer despudoradamente no dolce far niente de Ibiza, na costa mediterrânea da Espanha, é sinal de perda de noção do que seja um servidor público. Os acordos por debaixo dos panos são comuns aos partidos políticos. Na Bahia, o escândalo do ex-governador Jaques Wagner parece não existir, pois seu principal adversário, o ex- prefeito de Salvador, candidato ao governo do estado, também tem lá suas ligações com o Banco Master. Fica-se, então, nessa disputa de quem “rouba menos”. Antigamente era o “rouba, mas faz”. Nada mudou no horizonte, só que, hoje, devido aos avanços tecnológicos, fotos, vídeos, gravações são mantidos “nas nuvens”, onde a Polícia Federal vai buscar informações valiosas que revelam o passado que gostariam de esconder.

 

Se os petistas trabalham nesse diapasão de aceitar os erros pelo bem do país, por que os bolsonaristas não deveriam fazer o mesmo? O bem do país, nesse caso, depende da visão de cada um dos lados, mas definitivamente nada tem a ver com a realidade. O cansaço dos eleitores é evidente pela rejeição dos dois candidatos mais conhecidos e bem votados: o quarto mandato de um contra o segundo do outro grupo. Não há novidades à frente, não há esperanças a estimular.

 

Mais do mesmo, a abrir caminhos para novidades como o candidato Renan Santos, do Missão, que aparece com 10% de escolhas em São Paulo e tem o tamanho de ex-governadores da direita tradicional. Cresce no eleitorado, sobretudo jovem, com a autodefinição: “Sou Milei na forma e Bukele no conteúdo”.

A era da paranoia digital

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Em dois meses, entra em vigor o regime de responsabilização das plataformas digitais fabricado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Não por decisão do povo, mas por paternalismo judicial, o País está prestes a ingressar num experimento social temerário de administração de conflitos políticos e culturais.

 

A liberdade de expressão nunca significou ausência de responsabilidade. Crimes são crimes, dentro ou fora da internet. A questão é como responsabilizar abusos sem transformar a circulação de ideias em atividade de alto risco.

 

O Marco Civil aprovado pelos representantes do povo e desfigurado por seus mandatários togados partia de uma distinção elementar. Plataformas não são veículos totalmente neutros, como correios ou telefonia, pois organizam, recomendam, monetizam e moderam os conteúdos que veiculam. Por outro lado, tampouco são como jornais ou emissoras de rádio e TV, pois não produzem, selecionam ou editam conteúdos. Há uma diferença entre publicar e hospedar. Jornais publicam. Redes hospedam publicações de milhões de terceiros.

 

Por isso vigorava um regime intermediário. A responsabilidade imediata pela publicação recaía sobre seu autor. As plataformas respondiam em casos específicos: de impulsionamento pago, após notificação de ilícitos flagrantes (como violação à intimidade ou direitos autorais) ou se mantivessem a publicação após uma ordem judicial de remoção. Esse equilíbrio foi rompido. Agora, uma notificação qualquer pode tornar as empresas corresponsáveis pelo conteúdo veiculado.

Alguns conteúdos proibidos pelo STF apresentam ilicitude evidente. Vídeos de pornografia infantil ou incitação ao suicídio sempre foram suprimidos pelas redes. Mas “atos antidemocráticos”, “ódio a mulheres”, “racismo” ou “homofobia” exigem interpretação mais refinada de contexto, intenção e significado.

 

Os próprios tribunais divergem. A feminista Isabella Cêpa atravessou um calvário na Justiça por se referir a uma deputada trans como “homem” até o STF concordar com o arquivamento da ação, por ausência de configuração de crime. O humorista Léo Lins foi condenado a 8 anos de cadeia por satirizar minorias antes de ser absolvido em segunda instância. O Ministério Público denunciou, arquivou e retomou a denúncia contra o influencer Monark por defender para o Brasil uma legislação liberal como a dos EUA, permitindo, por exemplo, partidos nazistas.

As plataformas precisarão julgar em horas o que a Justiça decide em anos. Em tese, não serão responsabilizadas se houver “dúvida razoável”. Mas todo conteúdo controverso estará sob uma espada de Dâmocles: vale a pena correr o risco de mantê-lo no ar?

 

Ninguém precisa imaginar um censor sentado numa repartição pública para dimensionar a mudança. O Estado amplia o risco. As redes o evitam. À menor dúvida, optarão pela remoção, não porque moderadores sejam ideólogos ou conspirem contra a liberdade, mas porque o custo é menor. É tão simples quanto isso.

 

O novo regime altera o comportamento dos usuários. Convencer o adversário ainda é uma opção. Mas silenciá-lo é mais eficaz. O STF incentiva todo cidadão a ser censor com a promessa de proteger minorias e fortalecer a democracia. Mas, na guerra de todos contra todos, governos, partidos, corporações e grupos militantes dispõem de muito mais recursos para explorar mecanismos de pressão e denúncia. Na prática, valerá a lei do mais forte. A coincidência com a abertura da campanha eleitoral só torna a mudança ainda mais inquietante.

 

Democracias dependem de leis, eleições e instituições. Mas dependem ainda mais de uma regra elementar: controvérsias devem ser resolvidas por argumentação, crítica e persuasão. Censura é exceção. Em breve será regra. Um volume crescente dos conflitos será travado por notificações, denúncias, bloqueios e litígios. Campanhas de remoção tornam-se uma arma versátil nas disputas políticas e culturais. Pior do que as vozes amordaçadas é a multidão das que jamais romperão a barreira da autocensura e da paranoia.

 

O STF, em consórcio com o governo federal, usurpou o Congresso e pariu uma legislação bastarda sob o pretexto piedoso de tornar o ambiente digital menos tóxico, mais seguro para minorias, mais plural, livre, civilizado, democrático e com menos concentração de poder. Na prática, colherá o exato oposto.

A maioridade da Lei Seca

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Passados 18 anos de vigência da chamada Lei Seca, o Brasil colhe resultados bastante positivos decorrentes da tolerância zero para o consumo de bebida alcoólica na direção de veículo automotor. Não obstante, o País ainda enfrenta significativos desafios não só para manter, como também para ampliar a eficácia da legislação.

 

De acordo com um estudo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), publicado recentemente pelo Estadão, as mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool caíram de forma considerável entre 2010 e 2024: foram 1.925 óbitos a menos, o que corresponde a uma queda de 12,8%. No mesmo período, o recuo na taxa de mortes no trânsito por álcool a cada 100 mil habitantes é ainda mais expressivo: uma diminuição de 19,5%.

 

Restou provado que regras mais duras e punições mais severas desestimularam a mistura de álcool e direção e atingiram seu objetivo principal, qual seja, salvar vidas. Mas há muito trabalho ainda a ser feito. A análise detalhada dos dados de bases oficiais compilados pelo Cisa indica uma inflexão nada abonadora da efetividade da legislação.

 

O principal achado é preocupante: a queda de mortes é consistente, mas não é constante. Após consecutivas reduções até 2016, houve, desde então, uma reversão da trajetória. Naquele ano, foram 13.095 óbitos, que voltaram à marca de 13.075 mortes há dois anos. Isso quer dizer que a taxa de óbitos a cada 100 mil habitantes, que havia atingido seu menor patamar em 2019, de 5,4, retomou uma alta contínua e bateu a marca de 6,2 em 2024.

 

Esses números não são aleatórios. O perfil das vítimas ajuda a entender o motivo dessa mudança de tendência nas estatísticas do trânsito brasileiro: o crescimento da frota de motocicletas e a quantidade de acidentes envolvendo motociclistas ajudam a explicar o fenômeno.

 

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que 40% das mortes de trânsito no País envolvem motociclistas. Fatores sociais e culturais formam a tempestade perfeita: veículos mais baratos, mais econômicos e mais ágeis, as motos ganharam espaço nas cidades como ferramenta de trabalho ou meio de locomoção, tendo os homens, que mais se expõem aos efeitos nocivos do álcool, como seus principais condutores.

 

E, segundo o Cisa, 86,7% das vítimas de acidente de trânsito em decorrência do álcool são homens. E são eles também que abarrotam os hospitais brasileiros em busca de socorro após um acidente, respondendo por 81,8% das hospitalizações, gerando um alto custo ao Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Como bem afirmou ao Estadão a coordenadora do Cisa, Mariana Thibes, “o trânsito ficou mais perigoso”. Um exemplo dessa tragédia é a letalidade do trânsito da cidade de São Paulo, onde por dia ao menos um motoboy não volta vivo para casa, sendo os homens, principalmente os jovens, as maiores vítimas.

 

Tudo isso indica que houve um afrouxamento do poder público no cerceamento do consumo de bebida alcoólica na direção de veículo automotor. Se tivesse havido fiscalização e campanhas de conscientização mais assertivas, os números decerto seriam bem diferentes.

 

Ademais, os dados apresentados pelo Cisa indicam que houve um relaxamento dos condutores, seja por não mais temer a punição, seja por adotar estratégias para contornar a lei, como a recusa da realização do teste do bafômetro durante uma blitz.

 

Como se vê, o trânsito brasileiro ainda apresenta números incompatíveis com a ideia de país civilizado. Não é razoável conformar-se com que milhares de cidadãos percam a vida todos os anos em razão de causas evitáveis. Pior, é inadmissível tolerar a reversão da trajetória de mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool, de queda para alta.

 

O estudo do Cisa, com dados e evidências, mapeia o problema, diagnostica sua real dimensão e traça o perfil das principais vítimas. Trata-se de instrumentos preciosos para que o poder público reaja. O País precisa de políticas públicas, campanhas e fiscalização focadas na população potencialmente vítima da violência no trânsito. Não é preciso muito para salvar vidas.

Alarme falso e perigoso

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Milhões de brasileiros foram surpreendidos por um “alerta extremo” em seus celulares na noite de sexta-feira e na madrugada de sábado. Desta vez, porém, não havia tempestades, enchentes, rajadas de vento nem ondas de calor a comunicar: o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil foi alvo de uma invasão hacker e disparou, indevidamente, ao menos dez mensagens com os textos “misantropia”, “ataque alienígena” e “humanos, chegamos”. Passado o susto inicial, o episódio virou motivo de piada. Trata-se, no entanto, de uma brincadeira de péssimo gosto – ademais, perigosa – que atingiu brasileiros em sete Estados, entre eles São Paulo e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal.

 

O incidente foi grave. Mas, se serviu para alguma coisa, foi para expor vulnerabilidades preocupantes do sistema. Em entrevista ao TecMundo/Estadão, o hacker que assumiu a autoria da invasão revelou como há falhas substanciais a serem corrigidas pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil na gestão da ferramenta. Segundo seu relato, o acesso ao sistema foi obtido por meio de credenciais e da quebra de senhas de servidores públicos da Defesa Civil do Pará – senhas fracas, óbvias. As fragilidades do sistema, portanto, foram mais do que expostas, foram ridicularizadas.

 

As autoridades federais agiram corretamente ao tirar o sistema do ar para conter novos ataques cibernéticos. A Polícia Federal abriu investigação. Espera-se que ela seja conduzida com celeridade e, sobretudo, com rigor na punição dos responsáveis. O episódio, contudo, carrega um efeito pedagógico que vai além do caso policial: ficou evidente que o governo federal, em parceria com os demais entes federados que integram o sistema, precisará revisar e aprimorar seus protocolos de segurança. Afinal, o atributo mais elementar de qualquer ferramenta de alertas climáticos é justamente a sua credibilidade. Em muitos casos, o respeito da população pelos alertas é, literalmente, questão de vida ou morte.

 

Um plano criterioso deverá ser implementado para tornar mais rigorosos os controles de acesso e uso do sistema. Mas a crise abre também uma oportunidade de refinamento mais amplo. Não é incomum que a população receba alertas de chuvas fortes quando a água já está prestes a cair, sem tempo hábil para reação – ou que avisos de tempestades se dissipem sem que nenhuma delas chegue. Esse descompasso crônico banaliza a ferramenta e corrói, silenciosamente, sua credibilidade.

 

O ataque hacker arranhou de forma inequívoca a reputação do sistema de alertas. Mas, além de restaurá-la, as autoridades têm agora a oportunidade de recalibrá-lo e torná-lo mais eficaz. Já existe tecnologia de georreferenciamento capaz de aumentar a precisão dos disparos – e ela deve ser adotada. Quando um alerta for emitido, os cidadãos precisam ter a certeza de que devem agir imediatamente.

 

Restituir a segurança e a credibilidade do sistema nacional de alertas da Defesa Civil é uma tarefa urgente. Seu adequado funcionamento protege o maior de todos os bens: a vida.

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