Moraes e Toffoli devem explicações com urgência
Por Editorial / O GLOBO
As últimas revelações sobre o caso Master impõem aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), o dever de dar explicações urgentes e, acima de tudo, convincentes. As mensagens trocadas por Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, reveladas pela colunista do GLOBO Malu Gaspar, são o desdobramento mais grave do caso desde que ela própria noticiou o contrato milionário do escritório de familiares de Moraes com o Master — jamais desmentido nem explicado. Ao mesmo tempo, as transações imobiliárias de Toffoli e seus familiares com o grupo de Vorcaro seguem envoltas em dúvidas.
Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Vorcaro datadas de 17 de novembro de 2025, dia em que foi preso, sugerem que ele informava Moraes sobre as negociações para venda do Master e mostram que falou também sobre o inquérito sigiloso da Justiça Federal de Brasília que o levaria à prisão. Nas mensagens, enviadas na forma de imagens de visualização única, ele por duas vezes pergunta se havia novidade e questiona: “Conseguiu bloquear?”. Naquele mesmo dia, foi anunciada a operação de venda do Master ao grupo Fictor. Horas depois, Vorcaro foi preso, e o Master liquidado.
Em sua primeira reação, Moraes negou em nota ter recebido mensagens de Vorcaro e afirmou tratar-se de “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”. No início da noite, o Supremo emitiu outra nota, afirmando que as mensagens “não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”. Os prints, diz a nota, “estão vinculados a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionados” a Moraes. A nota do STF não esclarece os fatos.
Ao contrário do que ela afirma, O GLOBO não obteve acesso às mensagens nas “pastas” em que foram distribuídas à CPMI do INSS. Elas foram periciadas pela PF por meio de um software que as apresenta com os arquivos associados (os "prints"). Constam da perícia o nome e o número de celular de Moraes. Esse número não só respondeu quatro vezes às mensagens de Vorcaro com imagens de visualização única, como disparou emojis de aprovação à primeira e à última. Embora a PF não disponha dos prints das respostas, sua existência está registrada e associada ao celular de Moraes. Ele não tem como negar a relação com Vorcaro.
Que diziam essas mensagens? Por que foram enviadas com tantos cuidados? Eram frequentes? Que queria Vorcaro ao procurar Moraes? Por que ele, e não sua mulher, Viviane Barci de Moraes, advogada com quem mantinha contrato milionário? Que nível de amizade havia entre os dois? Tais dúvidas não devem ser encaradas como ofensas, mas como questões de interesse da sociedade, a quem mesmo ministros do Supremo devem explicações, afinal não estão acima da lei.
Já haviam ficado no ar dúvidas sobre as relações entre Toffoli e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro envolvido no escândalo. Toffoli demorou a admitir ser sócio da empresa que vendeu sua parte no resort Tayayá, no Paraná, a um fundo de Zettel. Afirmou nunca ter recebido dinheiro, mas isso não basta. Ele foi relator do caso Master, sobre o qual decretou sigilo quase absoluto, e tomou medidas questionáveis. Só saiu do caso quando veio à tona a sociedade no Tayayá. Ainda há fatos a esclarecer.
Ministros do STF não podem se dar o direito de omitir explicações. Elas em nada prejudicam o papel crucial da Corte na defesa da democracia quando o país sofreu tentativa de golpe de Estado. Esse feito está gravado na História, como O GLOBO já afirmou em editoriais. O fato de Vorcaro e seus cúmplices estarem presos mostra que as instituições funcionam, mesmo quando vivem crises. Mas, enquanto tudo não é esclarecido, seria de bom-tom que Moraes e Toffoli se declarassem suspeitos em todas as votações relacionadas ao caso Master. Não podem pairar dúvidas sobre as relações de Vorcaro com figuras tão relevantes da República.
Lula tem queda na principal faixa beneficiada pela isenção do IR e vê Flávio Bolsonaro avançar
Por Caio Sartori — Rio de Janeiro / O GLOBO
A primeira pesquisa Datafolha do ano eleitoral ilustra a dificuldade que o presidente Lula ainda enfrenta para conquistar os brasileiros beneficiados pela isenção do Imposto de Renda, ampliada a quem ganha até R$ 5 mil. Entre dezembro e março, apesar de a medida ter entrado em vigor, o petista viu a aprovação estagnar e a intenção de voto cair em simulação de segundo turno na faixa alcançada por ela. Ao mesmo tempo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) passou a derrotar o presidente na simulação de segundo turno dentro do grupo que abarca quem recebe entre dois e cinco salários mínimos por mês, no qual se concentram os agraciados pela política do governo, e cresceu em diferentes estratos sociais.
Com quase dois a cada cinco eleitores da amostra, a faixa de dois a cinco salários é uma das mais críticas para Lula. Considerando a margem de erro específica do segmento — quatro pontos percentuais —, o presidente viu a aprovação seguir tecnicamente congelada, mas com oscilação negativa de dois pontos. Hoje, 42% desses eleitores apoiam o trabalho do petista, contra 55% que o rechaçam.
Além do cenário estagnado na percepção sobre o governo, as projeções eleitorais mostram que Flávio cresceu no embate direto num eventual segundo turno. A faixa de renda aqui analisada foi a segunda com maior variação nos últimos três meses, atrás apenas dos mais ricos. Entre os entrevistados com renda de dois a cinco salários, o herdeiro do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) derrota o petista por 48% a 40%. A despeito de representar empate técnico no limite da margem, o resultado inverte o registrado em dezembro, que era de 47% a 40% para o presidente.
Na campanha de 2022, a promessa de ampliar a isenção do IR foi uma das principais bandeiras de Lula. O Congresso a aprovou no ano passado, e, no PT, a leitura era de que a medida impulsionaria a avaliação do presidente quando entrasse em vigor.
Promessa de campanha
Fundador do Ipespe, o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda aponta que os números atuais na faixa de renda são parecidos com os das pesquisas anteriores ao segundo turno de 2022. A mudança no IR, diz, chegou agora mais como obrigação do que como uma novidade.
— Lula perdeu nesse segmento e não conseguiu, no governo, reverter o quadro. Não conseguiu emplacar uma narrativa de sucesso econômico: país crescendo, renda melhorando, empreendedores avançando — avalia. — A isenção do IR aparece como mero “cumprimento de promessa”, não como benefício de fato novo. Vale lembrar que isso atinge os trabalhadores que pagam impostos, sendo que há milhões de microempreendedores que não o fazem.
Na visão de Lavareda, o que chegará à campanha com maior potencial para Lula, no universo do trabalho, é a defesa do fim da escala 6x1. Trata-se de uma política que atinge sobretudo os trabalhadores de renda baixa — já propensos ao lulismo, mas que hoje lhe dão vitória menos confortável do que em outras ocasiões.
Na visão de Lavareda, o que chegará à campanha com maior potencial para Lula, no universo do trabalho, é a defesa do fim da escala 6x1. Trata-se de uma política que atinge sobretudo os trabalhadores de renda baixa — já propensos ao lulismo, mas que hoje lhe dão vitória menos confortável do que em outras ocasiões.
Na análise por gênero, a vantagem de Flávio entre os homens é uma das principais diferenças para a última pesquisa feita antes do segundo turno de 2022, disputado entre Lula e Bolsonaro. Àquela altura, o petista tinha vantagem menor que a de agora no eleitorado feminino e conseguia empate técnico (47% a 46%) no masculino.
Hoje, o presidenciável da direita abre oito pontos de distância para o adversário quando só os homens são considerados. Não à toa Flávio tem apostado em discursos com acenos às mulheres, a fim de apaziguar a desvantagem de 13 pontos entre elas. Outro dado do Datafolha reforça a ideia de “calcificação” do eleitorado. Nove a cada dez entrevistados dizem que não se arrependem do voto dado na eleição de 2022, o que aponta para a possibilidade de outra disputa decidida por margem reduzida.
Estancar a sangria
Por Merval Pereira / O GLOBO
A crise institucional anunciada se amplia à medida que se espalham as notícias de que há mais uma tentativa de superar os problemas causados por relações indevidas de dois dos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) com o caso Master. A tentativa de estancar a sangria — “com o Supremo, com tudo”, como previa o lobista Romero Jucá e aconteceu na Operação Lava-Jato — faz com que outras instituições, como as Forças Armadas, se inquietem com a possibilidade de que a solução seja varrer para debaixo do tapete os acontecidos e fingir que nada houve de mais grave.
A possibilidade de terminar em pizza faz com que a credibilidade institucional do país seja reduzida, senão a pó, pelo menos a uma politicagem malvista pela população e provoca reações diversas na sociedade, que se refletem nas pesquisas eleitorais, nos meios militares e políticos. A repercussão dos desvios de que são suspeitos os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli se refletirá na campanha eleitoral e tem efeito de longa duração. Não se trata de indignação passageira, como a provocada por alguma frase infeliz do presidente Lula ou por uma escola de samba que atravessou o ritmo para desfilar na campanha eleitoral.
Há uma sensação de que o governo tem culpa nesse cartório e de que o próprio presidente manipula a situação a seu favor. Como, no entanto, esse é um caso apartidário, e Daniel Vorcaro cooptou vários setores da máquina de poder de Brasília, também os candidatos de oposição são acusados de participação no esquema. Não esquecer que o senador Ciro Nogueira propôs subir o limite protegido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, o que quadruplicaria o golpe do Master.
Como o Brasil anda calcificado, na definição do cientista político Felipe Nunes, da Quaest, há disparates para todos os lados. Criticar Moraes agora significa apoiar o bolsonarismo. A esquerda resolveu assumir a defesa dos ministros do Supremo, como se a eles fosse dado o privilégio da impunidade, pois salvaram a democracia. Os militares, que desmontaram o golpe pela não adesão aos planos de Bolsonaro, sofreram. Suas maçãs podres foram devidamente julgadas e condenadas, sem que houvesse reação corporativista como a que toma conta dos supremos.
O descontrole é tão grande que, de herói para boa parte da população, Moraes virou suspeito, enquanto outro ministro, André Mendonça, é agora poderoso. Os dois são saídos da direita política. Moraes foi nomeado por Michel Temer, o traidor de Dilma na versão da esquerda; Mendonça, por Bolsonaro. Cada um dos lados calcificados escolhe seu malvado favorito e faz com que a política brasileira seja um painel alucinado em que, de vez em quando, escolhem um herói para chamar de seu. O ministro Gilmar Mendes já foi herói da direita quando classificou o governo petista de “cleptocracia” ou quando impediu Dilma de nomear o então ex-presidente Lula chefe da Casa Civil.
Virou herói da esquerda quando, para se vingar do juiz Sergio Moro, comandou uma campanha virulenta contra ele e os procuradores de Curitiba, baseado em prova ilegal conseguida por meio de um hacker que acabou preso por invadir o site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e, passando-se pelo ministro Moraes, mandou prendê-lo, numa irônica ação criminosa. Gilmar conseguiu, com o fim da prisão em segunda instância, liberar Lula da cadeia e, mais adiante, decretar que Moro era um juiz parcial e suspeito, levando todos os processos da Operação Lava-Jato a ser anulados, até os que envolviam devolução do dinheiro roubado.
Todas essas idas e vindas acontecem porque, há muito tempo, a maioria dos ministros do Supremo se considera parte do jogo político, muda de jurisprudência de acordo com os ventos e se envolve em negócios privados como se fosse um cidadão comum, quando deveria ser jurisconsulto acima de qualquer suspeita.
Master: o acerto de R$ 38 milhões entre a Reag e escritório de advocacia de Ibaneis
COLUNA DA MALU GASPAR COM Por Johanns Eller / O GLOBO
O escritório de advocacia do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), fechou um contrato de R$ 38 milhões de venda de honorários de precatórios a um fundo ligado à Reag, gestora investigada pela Polícia Federal (PF) por fazer parte no esquema de desvio de recursos pelo Banco Master. O contrato foi fechado em maio de 2024, quando o BRB já vinha adquirindo carteiras da instituição de Daniel Vorcaro.
Como mostrou O GLOBO, a PF e o Ministério Público Federal (MPF) apontaram a Reag como uma estrutura central do esquema de fraudes do Master. A gestora integra a complexa teia de fundos por onde o dinheiro captado pelo banco em transações irregulares era distribuído, dificultando a rastreabilidade e o destinatário final dos valores.
Em março de 2025, o diretor do fundo que fechou o contrato com o escritório de Ibaneis é o mesmo representante do grupo que participou e votou em assembleias de acionistas do BRB como representante do Borneo, outro fundo investigado pela PF por ter sido usado em uma operação do Master e da Reag para comprar 25% do controle do BRB abaixo do preço do mercado, enquanto negociavam carteiras fraudulentas do Master.
Segundo a PF, o Borneo havia alcançado em junho participação de 4,5% do capital total do BRB e mais de 12% das ações preferenciais. As ações estão bloqueadas pela Justiça. Em 29 de maio de 2024, o Ibaneis Advocacia e Consultoria vendeu ao fundo Reag Legal Claims os direitos creditórios sobre honorários advocatícios no valor nominal de R$ 38 milhões, com data-base de dezembro de 2021. Hoje o fundo se chama Pedra Azul.
Precatórios são ordens de pagamento determinadas pela Justiça a municípios, estados ou da União que costumam demorar anos para serem liberados, por dependerem de condenação judicial em última instância. Nessa modalidade de negócios, o comprador adquire o direito de receber os honorários, que em geral cabe a quem ajuizou a ação e corresponde a fatias maiores do que as do mercado, já que precatórios são títulos de difícil recebimento.
No caso da Pedra Azul, a dívida total era de R$ 381,2 milhões. Não há registro de que o fundo já tenha recebido os honorários. A equipe da coluna teve acesso ao termo de cessão dos honorários assinado entre Luzineide Getro de Carvalho, gerente administrativa do escritório do governador, e o diretor da Reag Ramon Pessoa Dantas. Também participou do negócio o escritório Engels Augusto Muniz Sociedade Individual de Advocacia, próximo do grupo político de Ibaneis.
O diretor do Reag Legal Claims é Marcos Ferreira Costa, que desde o ano passado é representante da Reag e do Borneo, que vota nas assembleias de acionistas do banco. Ele também aparece na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como responsável pela Reag DTVM, liquidada pelo Banco Central (BC).
A Reag foi liquidada pelo BC em janeiro, dois meses após o regulador tomar a mesma decisão em relação ao banco de Vorcaro. Segundo o BC, a medida foi tomada “por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes” do sistema financeiro nacional. A gestora ainda é alvo de outra frente de investigações da PF, a Operação Carbono Oculto, que apura a lavagem de dinheiro de facções criminosas no mercado de combustíveis e em instituições financeiras.
No fim de fevereiro, a Justiça Federal de Brasília determinou o bloqueio das ações do BRB controladas por investigados no caso Master, entre eles o Borneo. Tanto o banco de Vorcaro quanto a Reag e o Will Bank já haviam sido liquidados extrajudicialmente pelo BC àquela altura. O objetivo é garantir um possível ressarcimento por prejuízos ao banco de Brasília provocados pelo esquema de fraudes.
A Polícia Federal também descobriu outra conexão entre a Reag e o escândalo do Master: após a liquidação do banco em novembro passado, Vorcaro escondeu R$ 2,2 bilhões que deveriam ser preservados para o pagamento de credores pelo liquidante indicado pelo BC em uma conta em nome de seu pai, Henrique Vorcaro, na gestora.
Em nota assinada por seis advogados, a defesa de Ibaneis Rocha afirmou que o governador está afastado do escritório de 2018 e “não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento” e que ele “nunca participou de quaisquer negociações” com Costa ou com a Reag (leia a íntegra da nota ao final da matéria).
Procurada, a Reag não se manifestará. Já o BRB não retornou o contado da equipe da coluna até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.
Pressão sobre Ibaneis
A operação milionária entre seu escritório de advocacia e a Reag, formalizada durante o período em que o Master e pouco antes da aquisição de 25% do BRB pelas duas instituições, é mais um episódio nebuloso que demanda explicações do governador do Distrito Federal. Eleito pela primeira vez para um cargo político em 2018 e reeleito em 2022, Ibaneis Rocha é um advogado conhecido pelo seu bom trânsito no Judiciário em Brasília. Ele chegou a presidir a seção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no DF.
Após ser afastado por quase três meses do governo por decisão de Alexandre de Moraes por suposta negligência durante os ataques do 8 de janeiro, Ibaneis retomou o cargo e escapou de ser indiciado no inquérito da trama golpista. Mas o escândalo do Master voltou a pressionar o emedebista jurídica e politicamente, levando em conta sua autoridade sobre o BRB e a indicação de Paulo Henrique Costa, afastado da presidência do banco pela Justiça em novembro.
Ibaneis é alvo de pedidos de impeachment na Assembleia do DF e sua pré-candidatura ao Senado Federal tem sido colocada em dúvida até por aliados na direita. A compra do Banco Master pelo BRB, descrita posteriormente pela Justiça como “pura camaradagem”, foi defendida publicamente pelo governador em diferentes ocasiões sob o argumento de que o negócio, uma vez confirmado, renderia dividendos bilionários e nacionalizaria o BRB. Para ele, o negócio não era um risco, e sim uma “oportunidade”.
“O BRB passará a estar, a partir desta fusão, entre os grandes bancos do país”, declarou o governador em agosto de 2025 ao sancionar a aprovação da Câmara Distrital para a compra da instituição privada.
Após a deflagração da Operação Compliance Zero da Polícia Federal e a liquidação do Master, Ibaneis alegou que problemas podem ter existido nas negociações por conta de um “excesso de confiança” no então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que comandou as negociações. Em depoimento à PF no fim de dezembro, Vorcaro disse ter mantido “conversas institucionais” com o governador do DF na presença de outras pessoas a respeito das negociações com o BRB em diferentes ocasiões. Ibaneis, por sua vez, afirmou que só esteve com o banqueiro uma vez e disse que não discutiram detalhes do negócio.
Ligação umbilical entre Master e Reag
O controlador da Reag, João Carlos Mansur, é conhecido no mercado como parceiro de negócios de Daniel Vorcaro. A proximidade é verificada inclusive pelas redes sociais: no LinkedIN, Mansur já publicou selfies sorridentes com o dono do Master. “Dia de comemorar com os amigos”, dizia a legenda de uma publicação feita em 2022.
Um dos negócios que os dois fizeram juntos foi a compra do Will Bank, em 2024. No mesmo ano, Reag e o Master adquiriram, junto com Nelson Tanure, papeis do grupo GPA, dono da rede Pão de Açúcar, de olho na potencial venda das operações no Brasil pelo grupo Casino. Tanure é apontado pela PF e pelo Ministério Público Federal como o sócio oculto do Master, o que o empresário nega.
Rombo bilionário
Sob pressão do Banco Central para recompor a liquidez e o patrimônio após o rombo deixado pela fraude do Master, o BRB adotou uma força-tarefa em busca de compradores para ativos próprios e outros oriundos do Master para tentar compensar o rombo provocado pela carteira de crédito fraudada de R$ 12,2 bilhões.
A corrida contra o relógio ocorre em função do temor no governo do DF e no próprio BRB de uma eventual intervenção do Banco Central ou mesmo uma federalização da instituição para evitar sua falência. Embora tenha conseguido vender algumas das carteiras de crédito originais do banco para recompor a liquidez, arrecadando R$ 5 bilhões, as ofertas do BRB foram recebidas com ceticismo e desconfiança na Faria Lima, em especial no que diz respeito à precificação dos ativos.
Na última semana, a Câmara Legislativa do DF aprovou um projeto para capitalizar o banco estatal e evitar que ele quebre. Além de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões bancado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), está prevista a cessão de nove imóveis públicos. A pauta recebeu 14 votos favoráveis e 10 contrários, mas ainda não foi sancionada pelo governador.
Como mostramos no blog, Ibaneis buscava empurrar uma decisão definitiva para a vice-governadora, Celina Leão (PP), após sua desincompatibilização para concorrer ao Senado – o que pode ocorrer até o início de abril – para evitar uma “confissão” de que errou ao avalizar compra do Master. Mas o emedebista tem sido pressionado a assumir a responsabilidade pelos prejuízos diante dos riscos de intervenção no BRB.
A defesa do Governador Ibaneis Rocha esclarece que ele está afastado do escritório de advocacia desde 2018, de modo que não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento. Esclarece-se, ainda, que o Governador Ibaneis nunca participou de quaisquer negociações com o Sr. Marcos Ferreira Costa, tampouco com outros representantes dessa empresa. Todas as informações que detém sobre o grupo foram adquiridas a partir de matérias de jornais, já no presente ano.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
Roberta Castro Queiroz
Marcelo Turbay Freiria
Liliane de Carvalho Gabriel
Álvaro Chaves
Ananda França de Almeida
A tesoura dos Correios está cega
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A redução do inflado quadro de funcionários dos Correios, que em novembro de 2025 girava em torno de 86 mil, é uma das bases do plano de reestruturação que condicionou o empréstimo bancário de R$ 12 bilhões à companhia. Há três meses, a agonizante estatal comprometeu-se a reduzir a folha em 15 mil postos em duas fases de um Programa de Demissão Voluntária (PDV). Seriam 10 mil este ano e mais 5 mil em 2027. A menos de um mês do fim do prazo da primeira leva, a adesão não passa de 2 mil, muito aquém do previsto.
Reduzir custos da estatal mais deficitária do governo federal não está sendo tarefa fácil, e é possível inferir que, em grande parte, os muitos vícios acumulados em anos de gestão ineficiente, para dizer o mínimo, e decisões questionáveis do governo estejam contribuindo para isso. Em dezembro de 2022, imediatamente antes da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o quadro de funcionários somava 87.571, de acordo com o relatório da administração da empresa. Em dezembro de 2023, o total havia caído para 85.884, como mostrou o balanço da empresa, mas o reajuste salarial de 10,12% – mais do que o dobro da inflação de 4,62% daquele ano – elevou o custo da folha para mais de R$ 10 bilhões.
Reajuste real, ou seja, acima da inflação, é a aspiração de qualquer trabalhador que vive de salário. Lula sabe bem disso, e é contando com o retorno em votos que ele insiste, por exemplo, na política populista de reajuste real do salário mínimo. Num cenário de contas saneadas, com receita folgadamente superior às despesas, seria o melhor dos mundos. Não é o caso dos Correios, e muito menos das contas públicas do País. O rombo não tarda a crescer de forma descontrolada.
O ano de 2022 terminou com um prejuízo de R$ 809 milhões registrado pelos Correios. O do ano passado ainda não foi divulgado, mas estima-se que tenha ficado em torno de R$ 10 bilhões, que, apenas a título de ilustração, é a mesma cifra da folha de pessoal da empresa em 2023 e semelhante à parcela já desembolsada do empréstimo que, obviamente, não será suficiente para resolver a situação pré-falimentar da estatal.
Vale lembrar que a empresa só conseguiu obter o financiamento junto ao consórcio de cinco bancos depois de o Tesouro garantir que, se a estatal não honrar a dívida, o erário o fará, com o dinheiro arrecadado dos contribuintes. De acordo com o próprio Tesouro, o valor já liberado para os Correios corresponde a 78% do saldo devedor das operações de crédito garantidas pela União em todas as empresas estatais.
Em 2024 foi lançado um PDV para tentar conter custos da empresa, com meta em torno de 4 mil funcionários. O plano de reestruturação divulgado no final de 2025 mostrou que o buraco era mais embaixo, e a necessidade de enxugamento subiu para 15 mil servidores. Mas é difícil imaginar o que uma empresa afeita a benesses extraordinárias teria de oferecer para cortar um número tão expressivo de funcionários. Basta lembrar a gratificação natalina de R$ 2,5 mil, apelidada de “vale-peru”, distribuída a cada um em dezembro de 2024, quando já era incontestável a crise sem precedentes.
Brasil desperdiça seu capital humano
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Um novo indicador lançado pelo Banco Mundial para mensurar quão efetivamente um país constrói seu capital humano coloca o Brasil em uma incômoda posição intermediária, ainda que superior à da maioria dos países latino-americanos, com exceção do Chile e do Uruguai. Dos 325 pontos possíveis, o Brasil obteve 203, acima da média global (186), bem como daquela da América Latina e Caribe (194), mas bem distante da pontuação do país mais bem colocado, o Japão (284). Os EUA marcaram 252 pontos.
O Índice de Capital Humano+ (HCI+, na sigla em inglês) acompanha a probabilidade de que uma criança cresça e se transforme em um adulto saudável, educado e produtivo. Para calcular o HCI+, o Banco Mundial leva em conta três pilares do desenvolvimento humano: saúde, educação e emprego. No quesito saúde, o Brasil ficou mais perto da pontuação considerada ideal (50), obtendo 44 pontos. Já em educação, o Brasil fez 115 pontos (188 era a marca ideal), enquanto em trabalho obteve 44 (contra um ideal de 87). A distância entre a pontuação ideal e a obtida em educação é a que mais afeta negativamente o desempenho brasileiro, segundo o Banco Mundial.
Cada ano de educação universitária eleva o HCI+ em 16 pontos, refletindo o valor agregado de habilidades avançadas. Contudo, quando técnicas e aprendizados conquistados por meio da educação não são utilizados no mercado de trabalho, o capital humano sofre uma erosão. Em conjunto com o HCI+, o Banco Mundial também publicou o relatório Construindo o Capital Humano Onde Mais Importa: Lares, Bairros e Locais de Trabalho, no qual traz uma das constatações mais alarmantes sobre o Brasil: em média, o brasileiro no mercado de trabalho acumula apenas metade do capital humano de um trabalhador dos EUA.
Tamanha desvantagem não se materializa fortuitamente. Ela é construída ao longo do ciclo de uma vida. Na infância, por exemplo, o tempo e a qualidade do cuidado que os pais dedicam aos filhos e o acesso a escolas e a serviços de saúde produzem efeitos duradouros sobre a capacidade de aprendizagem, bem como da evolução da renda do trabalho. Em relação específica ao Brasil, os economistas do Banco Mundial encontraram evidências de que uma pessoa que cresce em um domicílio de baixa renda em um bairro também de baixa renda ganhará, quando adulta, cerca da metade do que alguém que, embora também seja de baixa renda, cresceu em uma vizinhança de alto rendimento.
Além disso, ainda que um bairro conte com boas escolas e serviços de saúde, problemas como a violência ou a poluição podem limitar o acesso à educação ou a tratamentos de enfermidades, minando as oportunidades de desenvolvimento. A capacidade de desenvolvimento encontra obstáculos mesmo quando, por sorte ou à custa de considerável esforço, um adulto vence as barreiras da falta de atenção e de cuidados adequados na infância, extrai o máximo de conhecimento possível de escolas carentes de bons professores e chega ao mercado de trabalho.
Isso porque o ambiente de trabalho, que deveria seguir contribuindo para o aprimoramento das habilidades humanas, nem sempre oferece condições para tal. Pior, pode inutilizar conhecimentos previamente adquiridos, sem nada adicionar em troca. Como se vê, é no entrelaçamento de uma infância vivida dignamente, educação de qualidade e aprimoramento profissional contínuo que se constrói capital humano.
Não surpreende, portanto, que o Brasil ocupe posição apenas intermediária no HCI+, já que por aqui boa parte da população vive em bairros desprovidos de serviços básicos que, por vezes, também são assolados pela violência. Buscar soluções efetivas para todos esses desafios deveria ser uma prioridade do País, que, no entanto, segue buscando atalhos como acabar com a escala de trabalho 6x1. Em tese, mudar a escala de trabalho vai melhorar a vida de quem trabalha, quando na verdade os brasileiros seguem em desvantagem em relação aos americanos, por exemplo, porque têm formação insuficiente para executar suas funções. Sem atacar o real problema, tal fosso só seguirá se ampliando.

