A tesoura dos Correios está cega
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A redução do inflado quadro de funcionários dos Correios, que em novembro de 2025 girava em torno de 86 mil, é uma das bases do plano de reestruturação que condicionou o empréstimo bancário de R$ 12 bilhões à companhia. Há três meses, a agonizante estatal comprometeu-se a reduzir a folha em 15 mil postos em duas fases de um Programa de Demissão Voluntária (PDV). Seriam 10 mil este ano e mais 5 mil em 2027. A menos de um mês do fim do prazo da primeira leva, a adesão não passa de 2 mil, muito aquém do previsto.
Reduzir custos da estatal mais deficitária do governo federal não está sendo tarefa fácil, e é possível inferir que, em grande parte, os muitos vícios acumulados em anos de gestão ineficiente, para dizer o mínimo, e decisões questionáveis do governo estejam contribuindo para isso. Em dezembro de 2022, imediatamente antes da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o quadro de funcionários somava 87.571, de acordo com o relatório da administração da empresa. Em dezembro de 2023, o total havia caído para 85.884, como mostrou o balanço da empresa, mas o reajuste salarial de 10,12% – mais do que o dobro da inflação de 4,62% daquele ano – elevou o custo da folha para mais de R$ 10 bilhões.
Reajuste real, ou seja, acima da inflação, é a aspiração de qualquer trabalhador que vive de salário. Lula sabe bem disso, e é contando com o retorno em votos que ele insiste, por exemplo, na política populista de reajuste real do salário mínimo. Num cenário de contas saneadas, com receita folgadamente superior às despesas, seria o melhor dos mundos. Não é o caso dos Correios, e muito menos das contas públicas do País. O rombo não tarda a crescer de forma descontrolada.
O ano de 2022 terminou com um prejuízo de R$ 809 milhões registrado pelos Correios. O do ano passado ainda não foi divulgado, mas estima-se que tenha ficado em torno de R$ 10 bilhões, que, apenas a título de ilustração, é a mesma cifra da folha de pessoal da empresa em 2023 e semelhante à parcela já desembolsada do empréstimo que, obviamente, não será suficiente para resolver a situação pré-falimentar da estatal.
Vale lembrar que a empresa só conseguiu obter o financiamento junto ao consórcio de cinco bancos depois de o Tesouro garantir que, se a estatal não honrar a dívida, o erário o fará, com o dinheiro arrecadado dos contribuintes. De acordo com o próprio Tesouro, o valor já liberado para os Correios corresponde a 78% do saldo devedor das operações de crédito garantidas pela União em todas as empresas estatais.
Em 2024 foi lançado um PDV para tentar conter custos da empresa, com meta em torno de 4 mil funcionários. O plano de reestruturação divulgado no final de 2025 mostrou que o buraco era mais embaixo, e a necessidade de enxugamento subiu para 15 mil servidores. Mas é difícil imaginar o que uma empresa afeita a benesses extraordinárias teria de oferecer para cortar um número tão expressivo de funcionários. Basta lembrar a gratificação natalina de R$ 2,5 mil, apelidada de “vale-peru”, distribuída a cada um em dezembro de 2024, quando já era incontestável a crise sem precedentes.

