Busque abaixo o que você precisa!

Cerco a policiais corruptos é essencial para deter o crime

Por  Editorial / O GLOBO

 

São oportunas e necessárias as operações deflagradas em São Paulo e no Rio de Janeiro nas últimas semanas para prender policiais que, valendo-se do escudo de agentes da lei, atuam como os bandidos a quem deveriam reprimir. Tais desvios representam uma anomalia numa sociedade que, fustigada pela violência e pelo crime organizado, deposita suas esperanças nas instituições. É fundamental investigá-los a fundo, identificar os responsáveis e levar a julgamento.

 

Nesta terça-feira, a Polícia Federal (PF) deflagrou no Rio uma operação sugestivamente chamada Anomalia II, com o objetivo de desarticular um grupo criminoso formado por policiais civis e operadores financeiros. Foram presos um delegado e dois agentes (um traficante já estava na cadeia), acusados de usar uma delegacia para extorquir dinheiro do Comando Vermelho, além de atuar na lavagem do dinheiro. Na segunda-feira, haviam sido presos três suspeitos, entre eles um delegado da própria PF. O ex-secretário estadual Alessandro Pitombeira, que ocupou pastas em dois governos diferentes, também foi alvo (ele já estava detido).

 

Paralelamente, o Ministério Público (MP) do Rio deflagrou outra operação para prender 19 policiais acusados de dar proteção ao bicheiro Rogério Andrade. Os agentes, diz a denúncia, faziam segurança de pontos de exploração de jogos ilegais e se valiam da corrupção para facilitar a atuação do grupo.

 

A promiscuidade entre policiais e bandidos não fica restrita ao Rio. Em São Paulo, a Justiça Militar condenou 11 PMs acusados de dar proteção ao delator do PCC assassinado em 2024 (policiais são acusados também de participar da execução). Na semana passada, MP de São Paulo, PF e Corregedoria de Polícia Civil desmantelaram outro esquema envolvendo policiais civis, doleiros, advogados e operadores financeiros. O grupo, segundo a apuração, manipulava investigações e agia para destruir evidências, inclusive provas digitais armazenadas no próprio departamento de polícia.

 

A prisão de três PMs do Rio no início do mês expôs mais um caso estarrecedor. Eles foram acusados de ter assaltado um ônibus de turismo no Arco Metropolitano em maio. Depois de abordar o veículo com passageiros que voltavam de São Paulo, alegaram que os produtos a bordo não tinham nota fiscal e passaram a saqueá-los, levando pelo menos 11 celulares. Apesar dos apelos dos lesados, se recusaram a conduzi-los à delegacia. O trio estava fardado e usava uma viatura oficial da PM.

 

Não se deve, naturalmente, tomar tais casos como retrato da polícia toda. A maioria dos policiais brasileiros arrisca sua vida e honra sua profissão, essencial para enfrentar a criminalidade. Mas é fundamental que os corruptos sejam identificados, afastados e punidos. É inconcebível que agentes pagos pelo Estado para fiscalizar o cumprimento das leis façam exatamente o contrário do que deveriam.

 

Há várias implicações perigosas nos desvios de policiais. Eles põem em risco os próprios colegas, ao vazar informações internas ao crime organizado e prejudicar investigações. Não se pode dizer que haja leniência ou cumplicidade das corporações policiais, uma vez que as operações têm sido levadas a cabo, resultando em julgamentos, condenações e expulsões. É preciso, porém, refletir sobre a seleção dos agentes e os mecanismos de controle dos desvios. Bandidos não podem ser admitidos nem tolerados na polícia.

Compartilhar Conteúdo

444