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Dívidas se alastram perigosamente pela Federação

Estados e grandes municípios brasileiros têm, na grande maioria, um histórico de dívidas não pagas ou orçamentos engessados por despesas elevadas com pessoal, dados os compromissos em educação, saúde e segurança pública. Tais deficiências dificultam seu acesso ao crédito para investir.

 

 

Para conseguirem empréstimos e financiamentos, governadores e prefeitos dependem de autorização e, no mais das vezes, de garantia do Tesouro Nacional —que, também devido à condição de principal credor, acaba assumindo o papel de supervisor das finanças regionais. Quando o ocupante do Planalto é propenso ao aumento do gasto público, como é o caso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o expansionismo fiscal se espalha com facilidade pela Federação.

Desde 2023, o volume de crédito autorizado pelo Tesouro a estados e municípios vem em escalada. De R$ 55,9 bilhões no primeiro ano do terceiro mandato de Lula, o montante foi a R$ 85,8 bilhões no ano passado, e o total beira os R$ 207 bilhões. Por definição, o acesso a financiamentos permite que esses entes federativos gastem acima de suas arrecadações. As consequências se veem nos balanços.

 

Nas prefeituras, o superávit primário (receitas menos despesas, excluindo encargos com juros) acumulado em 12 meses caiu de R$ 25,9 bilhões no final de 2022 para R$ 5,8 bilhões em abril último. Nos estados, passou-se de superávit de R$ 39 bilhões para déficit de R$ 3,4 bilhões neste ano de eleições —não havia saldo negativo desde 2015, durante o governo Dilma Rousseff (PT).

 

Uma escalada de endividamento como essa pode ser menos preocupante se a capacidade de pagamento dos tomadores for bem avaliada. Essa condição, porém, é questionada em estudo publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas, como noticiou a Folha.

 

Segundo o trabalho, a metodologia adotada pelo Tesouro não leva em conta indicadores considerados mais relevantes para antecipar possíveis dificuldades financeiras, casos do resultado primário, da evolução da receita corrente, da proporção de despesas com pessoal e do envelhecimento da população.

 

Trata-se de questão técnica complexa e decerto sujeita a debate mais aprofundado. É fato, no entanto, que a última onda de endividamento estadual e municipal, sob o patrocínio de Dilma, teve consequências funestas. Quando acaba o dinheiro nas administrações locais, afinal, o impacto se dá de forma direta nos serviços públicos mais básicos.

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Inflação dos mais pobres é o dobro da registrada por mais ricos em maio

Leonardo Vieceli / FOLHA DE SP

 

A inflação das famílias com renda muito baixa no Brasil foi de 0,83% em maio, sob impacto da alta dos preços da alimentação no domicílio e da energia elétrica, apontam cálculos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

 

O índice desacelerou em relação a abril, quando foi de 0,92%, mas seguiu como o maior do levantamento pelo segundo mês consecutivo. O Ipea investiga a inflação da cesta de consumo de seis faixas de renda da população. A taxa das famílias mais pobres em maio (0,83%) foi mais do que o dobro da observada entre as mais ricas, com renda alta (0,38%).

A diferença havia sido ainda maior em abril. Na ocasião, a inflação da renda muito baixa (0,92%) foi quase o quádruplo da registrada pelo grupo mais rico (0,24%). O índice da renda alta foi o único da pesquisa que acelerou na passagem de abril para maio. A taxa dessa camada, porém, seguiu como a menor das seis faixas de renda pelo segundo mês consecutivo.

 

Conforme o Ipea, o aumento dos preços dos alimentos consumidos no domicílio (1,65%) e o reajuste da conta de luz (3,67%) explicam a inflação mais intensa para quem ganha menos em maio.

 

A carestia da comida e da energia elétrica afeta os diferentes grupos da população, mas pesa mais para as famílias com renda menor.

Isso ocorre porque os mais pobres têm um orçamento reduzido e uma cesta de compras mais restrita aos itens básicos do dia a dia.

No grupo com renda muito baixa, o rendimento domiciliar é inferior a R$ 2.299,82 por mês. Entre os mais ricos, com renda alta, o valor supera R$ 22.998,22 por mês.

A inflação dos grupos é calculada pelo Ipea a partir de dados do IPCA, o índice oficial de preços do país divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

As cestas de bens e serviços de cada faixa de renda são adaptadas a cada realidade de consumo.

FAIXAS DE RENDA DO INDICADOR DE INFLAÇÃO

Rendimento mensal domiciliar

  • Renda muito baixa: menor que R$ 2.299,82

  • Renda baixa: entre R$ 2.299,82 e R$ 3.449,73

  • Renda média-baixa: entre R$ 3.449,73 e R$ 5.749,55

  • Renda média: entre R$ 5.749,55 e R$ 11.499,11

  • Renda média-alta: entre R$ 11.499,11 e R$ 22.998,22

  • Renda alta: maior que R$ 22.998,22

Fonte: Ipea

O IPCA, em termos gerais, foi de 0,58% em maio. O índice foi o maior para o mês desde 2021, embora tenha desacelerado ante abril (0,67%).

A alimentação no domicílio (1,65%) teve a alta de preços mais intensa para maio desde 2008 (2,27%). Analistas associaram o resultado à redução da oferta de parte dos produtos e ao frete mais caro.

O transporte rodoviário foi pressionado pela alta do óleo diesel logo após o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro. Em maio, porém, os combustíveis até geraram alívio para a inflação dos diferentes grupos da população. O diesel caiu 2,34% no IPCA do mês passado, sem compensar totalmente os avanços depois do começo da guerra. O produto subiu 13,9% só em março e mais 4,46% em abril.

 

Um movimento semelhante aconteceu com a gasolina, que baixou 1,46% em maio. O produto, contudo, registrou altas de 4,59% em março e de 1,86% em abril. Segundo o Ipea, outro fator de alívio para a inflação do mês passado veio dos produtos farmacêuticos. A alta dos preços dessas mercadorias desacelerou a 0,35% no IPCA de maio, após marcar 1,77% em abril.

 

A inflação em ano eleitoral preocupa o governo Lula (PT), que adotou um pacote de medidas para frear a carestia dos combustíveis. O presidente deve concorrer à reeleição em outubro.

O horizonte da inflação no segundo semestre tem o desafio do fenômeno climático El Niño, que altera a distribuição de chuvas. Previsões indicam risco de um evento com forte intensidade. Caso se confirme, a situação pode dificultar a produção agropecuária, com eventuais repasses para os preços.

 

Tradicionalmente, o El Niño aumenta o risco de seca nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, enquanto favorece chuvas fortes no Sul.

 

ACUMULADO NO ANO E EM 12 MESES

No acumulado deste ano até maio, a faixa de renda muito baixa apresenta inflação de 3,46%, a maior do levantamento do Ipea. A carestia dos alimentos também pressionou a taxa nesse recorte.

 

O grupo com rendimento alto registra a variação menos intensa (2,83%). Trata-se da única taxa abaixo de 3%. O resultado menor reflete quedas de preços de passagens aéreas e transporte por aplicativo, conforme o Ipea.

 

No acumulado de 12 meses, o cenário mostra diferenças. São as famílias com renda alta que mostram a maior inflação nesse recorte. A variação da cesta dos mais ricos foi de 5,26% até maio. É a única acima de 5%. Já as famílias com renda muito baixa acumularam inflação de 4,29% nos 12 meses até maio. É a menor da pesquisa.

 

Antes da pressão em 2026, os preços dos alimentos haviam mostrado trégua no segundo semestre do ano passado. Isso contribuiu para levar a inflação das famílias de menor renda para um patamar mais baixo no acumulado de 12 meses.

 

Motoristas de aplicativos veem jogada eleitoral em novo programa de crédito para categoria

Lívia GoulartRaquel Athaide / FOLHA DE SP

 

 

Motoristas de aplicativo em São Paulo receberam com cautela o novo programa do governo Lula (PT) voltado à categoria, que começa a ser aplicado a partir desta sexta-feira (19). A medida prevê R$ 30 bilhões em financiamento facilitado para compra e troca de carros de até R$ 150 mil reais.

O Move Brasil Táxi e Aplicativos oferece taxas de juros menores que a vigente no mercado, hoje em 1,9% ao mês e 25,6% ao ano, segundo dados do Banco Central. A ideia do governo é que os juros fiquem abaixo da taxa Selic anual, agora 14,5%.

 

A Folha entrevistou sete profissionais que trabalham com táxi ou aplicativos de corrida, como Uber e 99. A maioria acredita que o programa vai beneficiar os trabalhadores. Ainda assim, há ressalvas quanto às motivações políticas e ao período do anúncio, feito cinco meses antes da eleição.

É consenso entre os motoristas ouvidos que a iniciativa é positiva. As corridas, alegam, são mal remuneradas por conta das taxas impostas pelas empresas. Na contramão, a ação do governo entra como uma alternativa para reduzir gastos e facilitar a compra e troca de veículos.

É o que diz Leandro Oliveira, 51, motorista de aplicativo. "O valor gasto para manter e pagar um carro é muito alto e demanda boa parte do que a gente recebe no mês", afirma. Ele considera votar no Lula se o programa funcionar como prometido pelo governo.

Os outros motoristas entrevistados afirmaram que o benefício não influenciará na decisão de voto. Silvio Vidal, 53, dirige como táxi e para a Uber. Ele, por exemplo, diz que a iniciativa soa como estratégia política para ganhar votos na eleição deste ano, apesar de ver a medida de forma positiva.

"O Lula ficou três anos sem olhar para a categoria e agora, faltando poucos meses para a eleição, quer se aproximar". Para Vidal, ações como essa não aproximam os profissionais do presidente.

O taxista Bruno Melquiades, 30, e o motorista de aplicativo Edison Silva, 52, enxergam a mesma motivação na iniciativa. Melquiades afirma que, mesmo com um mandato inteiro para implementar melhorias, o governo quer agradar os motoristas por interesse eleitoral. "Fez só para ganhar voto", diz.

Silva, que comprou um carro recentemente e não será beneficiado pelo programa, reconhece que a medida pode ajudar a categoria, mas diz que ainda faltam soluções para problemas centrais da profissão, como o preço dos combustíveis. Mesmo aprovando a proposta, ele diz que é "jogada política em ano de eleição".

 

Já Diego Fernandes, 34, é motorista de aplicativo de forma esporádica e diz ter percebido a mistura de interesses políticos e econômicos. Segundo ele, melhorias demoraram a chegar aos profissionais de aplicativo, especialmente se comparadas aos benefícios já concedidos aos taxistas.

Os motoristas de táxi podem obter até 30% de desconto na compra de carros zero-quilômetro, concedido por meio da isenção de impostos federais e estaduais.

Pontos principais do PLP 152/25, que regulamenta o trabalho por app

  • Desconto máximo de 30% por serviço

    As empresas não poderão descontar mais de 30% daquilo que o usuário pagou

  • Composição de custos para a atividade

    A remuneração bruta considera 75% de custos. Os outros 25% equivalem aos serviços executados

  • Preço mínimo por corrida ou por entrega

    Fixado em R$ 8,50, com a previsão de atualização anual pelo INPC

  • O que as empresa não poderão exigir:

    Relação de exclusividade; Jornada mínima de trabalho; Que o trabalhador aceite o serviço; Punição por desconexão

  • Contribuição ao INSS

    Trabalhadores pagarão 5% sobre os 25% equivalentes aos serviços executados Empresas pagarão 20% + 2% para um financiamento contra acidentes de trabalho

Segundo Ricardo Toledo, 52, que dirige para a Uber, não seria necessário incluir os taxistas no novo programa de financiamento do governo. "Não mudaria nada para eles, porque a categoria já recebe desconto na compra de carro, além de ter leis próprias".

O motorista Leandro Oliveira é o único entre os entrevistados que acredita na aproximação de Lula com os motoristas por conta do novo programa. Ele diz que, para melhores condições de trabalho, o governo precisa dialogar mais com as empresas.

Lula tentou regulamentar o trabalho por aplicativos, mas houve divergência nas negociações com o Congresso Nacional e a discussão ficou para o ano que vem. Em dezembro de 2025, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), encabeçou um grupo de trabalho para tratar do assunto.

O PLP 152/2025, de autoria do deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), queria regulamentar o trabalho de motoristas e entregadores por aplicativos. Os motoristas, porém, não concordam com o projeto, por não atender a demanda dos trabalhadores. A gestão petista, que a princípio se posicionou contra o projeto de Gastão, também considera que as relações de trabalho por meio dos aplicativos são precárias.

 

"É um modelo que aparenta proteção, com um mínimo de seguridade social, mas, na prática, valida a superexploração das plataformas", disseram lideranças dos trabalhadores por aplicativos à Folha.

 

Impacto do fim da escala 6x1 no setor público não pode ser ignorado

Por Editorial / O GLOBO

 

 

É inexorável que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Escala 6x1, que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, trará prejuízos à economia — em carta aberta, 3 mil entidades empresariais manifestaram apoio a uma proposta bem mais sensata para modernizar o regime de trabalho, a PEC do Trabalho Flexível. Um aspecto menos criticado, mas não menos nocivo, é seu impacto no setor público. Embora apenas 0,6% dos servidores federais e 1% dos estaduais hoje trabalhem mais de 40 horas por semana, a situação nos governos municipais é distinta — e as prefeituras deverão sofrer impacto significativo.

 

O país conta com 12,5 milhões de servidores, entre os quais 500 mil policiais, 1,7 milhão de professores e 3,4 milhões de profissionais de saúde. Como as prefeituras estão na ponta da prestação de serviços, seis em dez são funcionários municipais. Nos municípios, 4,4% dos efetivos seguem a escala 6x1 e deixarão uma lacuna que precisará ser preenchida. Além disso, as prefeituras contratam maior contingente de serviços terceirizados em educação, saúde ou segurança, cujo custo aumentará pela necessidade de mais funcionários para cumprir as escalas, como mostrou reportagem do GLOBO.

 

De acordo com a Controladoria-Geral da União (CGU), os terceirizados somam 69 mil na esfera federal, boa parte já em regime de 40 horas. Para estados e municípios, não há dados atualizados, mas as prefeituras concentram a maioria. São os responsáveis pela merenda e pela segurança nas escolas, pela limpeza e pela manutenção nos postos de saúde e hospitais.

 

A Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que, com o fim da escala 6x1, será necessário contratar 25,8 mil novos servidores, efetivos e temporários, com impacto de R$ 1,5 bilhão nos orçamentos municipais. Outro estudo, contratado pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP) à Finance Consultoria, avalia o aumento de custo em R$ 34,5 bilhões, R$ 20,2 bilhões dos quais em contratos de terceirização e R$ 5,4 bilhões em funcionários temporários. É verdade que esses números devem ser vistos com reserva, pois foram encomendados por entidades com interesses claros em reivindicar mais recursos para municípios. Mesmo assim, a realidade que traduzem não pode ser ignorada.

 

Na versão atual, o texto da PEC determina que a jornada poderá ser ampliada, atendendo à demanda de serviços públicos essenciais, como saúde, segurança ou transporte, mas isso também terá custo com pagamento de horas extras. Há ainda previsão de um período de transição. O artigo nono da PEC estipula que o fim da escala 6x1 valerá para os terceirizados “após aditamento contratual para manutenção do equilíbrio econômico-financeiro, conforme o regime jurídico aplicável, a ser formalizado no prazo máximo de um ano”. O prazo de 12 meses, porém, apenas adiará o problema. Ao fim desse período, não haverá alternativa: ou os prefeitos terão de gastar mais, pressionando o orçamento, ou então reduzirão ainda mais a qualidade dos serviços, já tão criticada pela população.

 

 

Força Municipal do Rio: prefeituras gastarão mais com fim da escala 6x1Força Municipal do Rio: prefeituras gastarão mais com fim da escala 6x1 — Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

MEIs são o próximo alvo das ‘bondades’ de Lula

Por Ediorial / O GLOBO

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encontra limites na distribuição de “bondades” de olho nos dividendos eleitorais. A próxima na lista promete ser o afago aos microempreendedores individuais (MEIs). O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, disse em entrevista ao GLOBO que o Planalto prepara um desdobramento do programa Desenrola para regularizar a situação dos MEIs endividados.

 

As condições são para lá de camaradas: desconto de até 70% e parcelamento de débitos em até 12 anos. Segundo Pereira, as transações serão limitadas a R$ 20 mil em dívidas e à prestação mínima de R$ 25 — hoje o prazo é de até dois anos, com parcela mínima de R$ 50. Pelos cálculos do governo, a iniciativa beneficiará até 4 milhões de MEIs — ou 4 milhões de eleitores. O próprio Pereira reconhece que o impacto será de R$ 4 bilhões até 2028. Sem medida de compensação. Trata-se de mais um item na lista de “bondades” sem fim: isenção do Imposto de Renda, ampliação do Minha Casa, Minha Vida para a classe média, fim da “taxa das blusinhas”, financiamento para carros de taxistas e motoristas de aplicativo, subsídios a combustíveis… e sabe-se lá mais o quê.

 

Como acontece com o endividamento das famílias, não há garantia de que o socorro resolverá o problema dos MEIs. Em 2023, cumprindo promessa de campanha, Lula lançou o Desenrola Brasil. Foi importante para tirar famílias do sufoco, mas o alívio durou pouco. O endividamento voltou a crescer e, menos de três anos depois, o governo criou uma nova edição do programa.

Não surpreende. Tais programas atacam as consequências, não as causas do problema. Enquanto o governo gastar sem freios e precisar tomar dinheiro emprestado pagando juros cada vez mais altos, não haverá solução. O desequilíbrio fiscal é o principal motivo para as taxas altíssimas cobradas nos empréstimos, com consequente inadimplência e demanda por sucessivos Desenrolas. Pior: ao aliviar os juros para um grupo específico, o governo cria uma distorção que obriga o Banco Central a aumentá-los ainda mais para manter a inflação sob controle. A sucessão de Desenrolas agrava as causas do problema, em vez de resolvê-las.

 

Como se não bastasse, o governo pretende enviar ao Congresso um projeto para elevar o teto de faturamento dos MEIs para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. Um equívoco. O programa, criado para estimular a formalização de empreendedores de baixa renda, se afastou de seus objetivos. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostrou que ele beneficia não cidadãos da base da pirâmide social, mas profissionais com formação e renda incompatíveis com o alvo inicial. A despeito dos benefícios, o MEI é um programa caro para a sociedade. Por isso, antes de qualquer ampliação, seria fundamental uma avaliação criteriosa, de modo a calibrá-lo para atender a quem realmente precisa.

 

Toda bondade do governo tem custo. Como mostrou reportagem do GLOBO, os programas generosos lançados por Lula em ano eleitoral já somam R$ 215 bilhões, ou 1,6% do PIB. Lamentavelmente, só R$ 9 bilhões, ou 4%, entram nas regras do arcabouço fiscal. Sem falar nas medidas que tramitam no Legislativo, com impacto previsto de R$ 217 bilhões, caso aprovadas. As “bondades” cairão como uma bomba no colo do próximo presidente.

A PF corrige relatório e diz que Vorcaro não enviou malote para Ciro em avião com Beto Louco

Por Johanns Eller / O GLOBO

 

 

A Polícia Federal (PF) comunicou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que se equivocou ao correlacionar as datas de um diálogo do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, sobre o pagamento de R$ 350 mil em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e um voo fretado entre São Paulo e Brasília que transportava o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, hoje foragido e investigado na Operação Carbono Oculto.

 

A Polícia Federal (PF) comunicou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que se equivocou ao correlacionar as datas de um diálogo do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, sobre o pagamento de R$ 350 mil em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e um voo fretado entre São Paulo e Brasília que transportava o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, hoje foragido e investigado na Operação Carbono Oculto.

 

Em pelo menos dois dos relatórios que embasaram a operação contra o presidente nacional do PP, tornados públicos na semana passada pelo relator do caso no STF, ministro André Mendonça, a PF destacou que Vorcaro discutiu em 6 de agosto de 2025 o envio do dinheiro a Ciro com seu cunhado e operador financeiro, Fabiano Zettel.

 

Os investigadores cruzaram a data com o relato do piloto Mauro Caputti Mattosinho, que trabalhou até setembro do ano passado na Táxi Aéreo Piracicaba (TAP), à imprensa de que teria transportado um malote – presumivelmente com dinheiro – em um voo que tinha Beto Louco entre seus passageiros e se deslocou entre São Paulo e Brasília e teria ouvido o empresário citar Ciro em diversas ocasiões.

 

Posteriormente, porém, a PF reconheceu que a viagem do empresário ocorreu em 6 de agosto de 2024, ou seja, exatamente um ano antes da conversa entre Vorcaro e Zettel. A correção foi encaminhada ao STF em 28 de abril, mais de um mês após o protocolo da representação original, mas antes da realização da operação da PF. A retificação foi reiterada ao ministro André Mendonça por meio de um segundo ofício assinado pelo delegado Anderson Rodrigo Andrade de Lima.

 

O material foi anexado de forma avulsa ao acervo de milhares de páginas do inquérito do Master disponibilizadas simultaneamente no último dia 16 por determinação do magistrado, que incluía ainda os relatórios defasados com a correlação incorreta inferida pela PF, que foram acessados e repercutidos pela equipe do blog nesta matéria. “A inconsistência foi verificada durante reanálise dos elementos constantes dos autos e refere-se exclusivamente à indicação temporal de comunicações utilizadas na análise”, diz o documento submetido pela Polícia Federal à Corte.

 

“Entretanto, a partir de reavaliação detalhada do material extraído, constatou-se que houve equívoco na indicação do ano das referidas comunicações, tendo sido verificado que os diálogos ocorreram, na realidade, em 06/08/2025, e não em 06/08/2024 (data do referido voo), como inicialmente consignado”, afirmou a PF, que afastou a correlação temporal entre os dois fatos.

 

Na petição, assinada pelos agentes Wilker Goulart e Felipe Silva de Oliveira, os investigadores ponderam que o erro de “natureza meramente material” não muda o fato de que houve o voo investigado pela PF e as conversas sobre o pagamento em espécie para Ciro Nogueira.

 

“Por fim, destaca‑se que a correção ora comunicada não implica juízo conclusivo acerca da materialidade ou da destinação dos valores mencionados, tampouco invalida outras análises constantes da IPJ [informação de Polícia Judiciária], devendo o equívoco ser considerado apenas sob o aspecto temporal anteriormente exposto”, argumenta o ofício.

Relatório citava malote aéreo

Na primeira versão do relatório da PF, os investigadores destacaram diálogos em que Daniel Vorcaro cobra de Fabiano Zettel o pagamento do valor a Ciro Nogueira quando o Master ainda tentava vender parte de seus ativos para o Banco BRB.

 

“Resolve Ciro e galerias hoje. Manda agora lá”, escreveu o então CEO do banco.

Zettel, então, reclama que uma transferência TED não havia chegado e detalha os valores pendentes, que incluem textualmente “Nota Ciro mais impostos 2” e “Espécie Ciro 350k”.

 

Vorcaro, então, afirma que fará parte das transferências naquele momento e orienta que o cunhado priorize as pendências referentes ao senador e outros gastos referentes a “galerias”.

A PF então apostou na tese de que o malote foi transportado no jatinho que, na verdade, havia transportado Beto Louco um ano antes. O jatinho Gulfstream G150 de prefiro PR-SMG pertence oficialmente à TAP, também na mira da Operação Carbono Oculto, que apura o esquema de fraudes no setor de combustíveis liderado pelo empresário e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, que controlavam a distribuidora Copape.

 

Ainda de acordo com a PF, outras mensagens obtidas no celular de Daniel Vorcaro demonstraram que o dono do Banco Master usou o mesmo jato Gulfstream G150 em diversas ocasiões “para viagens de seus interesses”, o que indicaria “fortemente a prática dos crimes de corrupção passiva e ativa”.

 

Inicialmente o relatório destacou que Mattosinho declarou em entrevistas que o Beto Louco mencionou Ciro diversas vezes durante o trajeto, perguntando, por exemplo, se “estava tudo certo com o Ciro” e se “o Ciro já estava os aguardando”.

 

O empresário está foragido e tenta há meses negociar uma delação com a Justiça brasileira. Seu último paradeiro rastreado pela PF foi a Líbia, país no norte da África. As investigações apontam para a participação do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas fraudes, mas a defesa de Beto Louco vem negando peremptoriamente qualquer relação dele com a facção criminosa.

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