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Estratégia perigosa

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo pretende enviar um projeto de lei ao Legislativo propondo o aumento do limite para enquadramento no regime tributário do Microempreendedor Individual (MEI). O teto atual, em vigor desde 2018, é de um faturamento anual de até R$ 81 mil. A proposta do Executivo é elevá-lo gradualmente a R$ 130 mil ao longo dos próximos dois anos.

 

A correção do teto do MEI é demanda antiga do setor e ressurgiu durante os debates sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem redução de salários. Para os parlamentares, seria uma maneira de compensar os empresários pelo aumento dos custos decorrentes da promulgação da PEC. Uma coisa não tem nada que ver com a outra, mas a urgência de Lula em arranjar uma bandeira eleitoral criou as condições ideais para o oportunismo.

 

Foi nesse contexto que os deputados aprovaram um requerimento de urgência para o Projeto de Lei Complementar (PLP) 108/2021, de iniciativa do Senado e já aprovado na Casa. A proposta reajusta o teto do MEI, mas também amplia os limites para enquadramento no Simples Nacional. Para microempresas, o teto do faturamento anual passaria de R$ 360 mil para R$ 800 mil, e para empresas de pequeno porte, de R$ 4,8 milhões para R$ 8 milhões.

 

Como se sabe, regimes simplificados de tributação implicam perda de arrecadação. E, no caso do PLP 108/2021, não se trata de uma renúncia qualquer, mas de cerca de R$ 50 bilhões anuais, sendo R$ 2 bilhões apenas com o MEI. Foi o que motivou o Ministério da Fazenda a incluí-lo na lista de nove pautas-bomba que estavam em discussão no Legislativo.

 

Uma semana depois, no entanto, Durigan mudou de ideia. O ministro, agora, apoia o aumento do teto do MEI, mas num novo projeto a ser elaborado e enviado pelo governo ao Legislativo. Já o aumento dos limites do Simples “está fora de questão”, segundo o volúvel ministro. Durigan não descartou nem mesmo a possibilidade de permitir que os MEIs possam contratar mais funcionários – hoje, podem empregar um.

De fato, no Orçamento deste ano o gasto tributário com o MEI é de R$ 11,3 bilhões, uma fração da estimativa de perdas com o Simples Nacional, de R$ 134,3 bilhões. Como estratégia de redução de danos do PLP, pode até fazer sentido, mas o ministro parece superestimar sua capacidade de negociação com o Congresso.

 

Dificilmente os parlamentares aceitariam priorizar o projeto que o governo pretende enviar, em detrimento da proposta que já está pronta para ser submetida ao plenário. E, ainda que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), faça um acordo para pautar o texto do governo, basta que um deputado apresente uma emenda para incluir a majoração do teto do Simples no texto – o Executivo, afinal, não dispõe de maioria para barrá-la.

 

Entre especialistas, não há dúvida de que os custos de regimes como o Simples e o MEI são maiores que seus benefícios. Os tetos atuais já são bastante generosos, maiores que os praticados em economias desenvolvidas. Ampliá-los é uma maneira de manter distorções e ineficiências na economia e ampliar o déficit da Previdência. Em vez de formalizar pequenos negócios e trabalhadores de baixa renda, os programas acabaram por incentivar a migração de regime por empresas que já existiam e a “pejotização” de profissionais qualificados que antes trabalhavam como celetistas, tudo para pagar menos impostos.

 

Um governo preocupado com o futuro do País trabalharia pela correção das distorções geradas por regimes simplificados – não simplesmente pela arrecadação maior, mas, sobretudo, pelo incremento da produtividade da economia. Afinal, é por causa de políticas como essas que o País cresce pouco e de maneira tão errática há décadas.

 

Mas o governo Lula não parece preocupado com o futuro do País. Seu horizonte vai somente até outubro, e sua prioridade é conquistar a maior quantidade de votos possíveis até lá. Em uma jogada perigosa, decidiu aceitar as perdas que virão do reajuste dos limites do MEI na expectativa de impedir uma renúncia ainda maior com a ampliação do teto do Simples. Ao fim, pode ter de arcar com os custos das duas medidas.

Um prêmio à truculência

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Poucas categorias conseguem extrair tantas vantagens do poder público quanto os caminhoneiros. Desde a greve que paralisou o País em 2018, conquistaram um cartel do frete chancelado pelo Estado, receberam subsídios diversos, obtiveram sucessivas concessões e seguiram sendo tratados como um grupo ao qual o Congresso e o governo federal parecem dever satisfações permanentes. Como se nada disso bastasse, os caminhoneiros acabam de ser agraciados com uma anistia de multas.

 

A Câmara dos Deputados decidiu desta vez anular multas aplicadas aos participantes dos bloqueios de rodovias em protesto ao resultado da eleição de 2022. O perdão foi incluído como um “jabuti” pelo relator da medida provisória sobre o piso do frete, deputado Zé Trovão (PL-SC), e aprovado sem debate compatível com a gravidade do tema. Segundo seus defensores, as penalidades teriam sido excessivas e acabaram recaindo sobre trabalhadores que apenas exerciam seu direito de manifestação.

 

O discurso é conveniente, mas omite o essencial. As sanções não foram aplicadas porque caminhoneiros expressaram opiniões políticas. Foram impostas porque rodovias foram bloqueadas após a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas, interrompendo a circulação de pessoas e mercadorias em diversas regiões do País, ademais em desafio a decisões judiciais que determinavam a imediata desobstrução das estradas. As multas, portanto, prestavam-se a reafirmar um princípio elementar de qualquer democracia digna do nome: o inconformismo político não autoriza ninguém a paralisar o País nem a impor custos à coletividade.

 

A tentativa de apagar as consequências dos bloqueios de 2022 apenas reforça um padrão que se consolidou ao longo dos últimos anos. A greve dos caminhoneiros de 2018 foi um dos exemplos mais eloquentes da incapacidade do Estado de fazer valer sua autoridade diante de grupos organizados e dispostos a explorar sua capacidade de pressão. Se é verdade que “sem caminhão o Brasil para”, como se lê em carrocerias Brasil afora, essa realidade econômica nem remotamente pode servir como uma espécie de imunidade política e jurídica.

 

Durante dez dias, naquele fatídico maio de 2018, o País sofreu com o desabastecimento de combustíveis, alimentos e insumos essenciais à saúde e ao agro. Empresas interromperam operações, cadeias produtivas foram desorganizadas e os prejuízos econômicos alcançaram cifras bilionárias. O então presidente Michel Temer poderia ter sido mais duro para restaurar a normalidade jurídica e econômica, mas cedeu à pressão do momento. E daquela decisão surgiu o tabelamento do frete, uma intervenção incompatível com os princípios da livre iniciativa e da livre concorrência consagrados pela Constituição.

 

Ao fim e ao cabo, uma concessão apresentada à época como excepcional acabou transformada em política permanente. O que deveria ter sido uma resposta emergencial a uma crise converteu-se em regra. Desde então, governos de diferentes orientações político-ideológicas preferiram administrar a distorção em vez de corrigi-la, consolidando o que pode muito bem ser lido como um prêmio a uma categoria que não titubeia em usar a truculência como arma de negociação.

 

Não por acaso, os caminhoneiros continuaram a ocupar posição privilegiada na política nacional. Vieram subsídios ao diesel, programas especiais de financiamento de veículos, benefícios regulatórios e sucessivos gestos de acomodação. Recentemente, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva destinou bilhões de reais a uma nova linha de crédito voltada à renovação da frota. As justificativas mudam conforme a conjuntura. A lógica permanece a mesma: evitar atritos com uma categoria cuja capacidade de mobilização continua a causar arrepios em Brasília.

 

A Câmara dos Deputados não apenas perdoou as multas justamente aplicadas aos caminhoneiros que, irresignados com a vitória de Lula, resolveram impor os custos de seu inconformismo ao País. A Casa relativizou a aplicação da lei, abrindo um precedente perigoso, sobretudo quando dirigido a uma categoria que, mais de uma vez, já demonstrou que usa a pressão pela força como meio de satisfação de seus interesses.

CNJ cobra mais informações de Tribunais sobre R$ 30 bi em depósitos judiciais sob gestão do BRB

Por Alvaro Gribel / O ESTADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA - O corregedor do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Mauro Campbell Marques, deu mais 10 dias de prazo para que cinco tribunais de Justiça estaduais enviem atualizações sobre os R$ 30 bilhões em depósitos judiciais sob gestão do Banco de Brasília (BRB). O CNJ analisa o caso depois que a crise do BRB se agravou, e há receio de que esses recursos se percam em caso de liquidação do banco público. Como revelou o Estadão, Campbell intimou, em fevereiro, os Tribunais do Distrito Federal, da Bahia, de Alagoas, do Maranhão e da Paraíba para que expliquem a operação. Esses cinco tribunais injetaram os recursos dos depósitos judiciais — que não pertencem aos órgãos, e sim a participantes de processos em andamento — no BRB, em troca de uma maior taxa de retorno.

 

Procurado, o BRB afirmou, por meio de nota, que a solicitação do CNJ integra um procedimento de levantamento de dados, sem alteração sobre os depósitos e que tudo corre normalmente. O banco também afirma que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, na segunda-feira, 22, determinou que apenas o STF pode tomar providência sobre o caso.

 

“O banco informa que a medida cautelar proferida pelo STF nesta segunda-feira (22) reconhece, em análise preliminar, a necessidade de preservar a competência da Corte para apreciar as matérias relacionadas ao acordo homologado na ACO 3.755 e suspende os efeitos da decisão que determinava a retirada, da custódia do BRB, de recursos do âmbito do poder judiciário do Estado da Bahia”, diz o banco.

 

O CNJ informou, por meio de nota, que o TJ do Distrito Federal não renovou o contrato com o BRB.

 

“Quanto ao processo de escolha, o TJBA, TJPB e TJAL informaram que fizeram procedimento licitatório. O TJMA fez contratação direta e o TJDFT fez o procedimento por termo de credenciamento”, disse o órgão.  Procurados pela reportagem, os tribunais não se manifestaram.

Segundo relato do presidente do BRB, Nelson Antonio de Souza, durante audiência no Senado, há R$ 30,6 bilhões depositados no banco pelos tribunais.

 

“Esses depósitos não podem ser objeto de movimentação do BRB, que funciona como uma instituição que recebe para gerir e ponto final. Agora, não sabemos se esses depósitos estão preservados”, afirmou.

 

No fim de maio, Fux homologou acordo entre governo do Distrito Federal, BRB e o governo Federal para que uma operação de empréstimo cubra o rombo do banco. Em entrevista ao Estadão, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que Fux pediu pressa, em função dos riscos para o Judiciário, em caso de quebra do banco.

 

Informações mais recentes prestadas são de abril

Em seu despacho, Campbell explicou que as últimas informações prestadas pelos cinco tribunais ocorreram nos meses de março e abril. Por isso, determinou atualizações. “Tendo em vista que as últimas informações prestadas datam dos meses de março e abril, intimem-se os Tribunais para que digam, em 10 (dez) dias, se houve, a contar das últimas manifestações, fatos novos e/ou relevantes que ainda não foram colacionadas neste feito”, determinou Campbell.

 

A solicitação, feita no último dia 11 de junho, foi respondida, por ora, apenas pelo Tribunal de Justiça do Maranhão. “Após a realização das diligências internas pertinentes, informa-se que não foram identificados fatos novos ou relevantes que ainda não tenham sido oportunamente comunicados a esse Conselho Nacional de Justiça”, afirmou o desembargador Ricardo Tadeu Bugarin Duailibe.

 

O CNJ não soube informar sobre o fim do prazo, porque depende de quando cada tribunal tomou ciência do pedido. 

 

Na busca por maior rendimento, veio o risco

Em audiência no TJ do Maranhão, o então presidente da corte José Ribamar Froz Sobrinho, afirmou que recursos depositados no BRB tiveram rendimento mensal de R$ 15 milhões no BRB, cinco vezes mais do que os R$ 3 milhões pagos pelo Banco do Brasil.

 

Para o advogado Alex Ferreira Borralho, que provocou o CNJ para que o órgão cobrasse explicações dos tribunais, a rentabilidade também veio acompanhada de maior risco e há incerteza se os recursos estão preservados no BRB.

 

“Uma pessoa leiga já sabe que uma operação desse tipo tem tudo para dar errado. É uma rentabilidade absurda, muito acima do que era pago pelo Banco do Brasil”, afirmou.

 

Borralho diz que os próprios tribunais admitem que esses recursos são usados para o pagamento de penduricalhos (gratificações que não compõem os salários dos servidores).

“Há uma manifestação do presidente de um dos tribunais dizendo que pagou todas as gratificações de juízes estaduais com esse rendimento”, afirmou.

 

Segundo ele, os tribunais têm receio de cobrar o dinheiro do BRB, e assim aumentar o desequilíbrio do banco. Mas, por outro lado, há o risco de a instituição financeira ser liquidada pelo Banco Central e os tribunais perderem os depósitos.

 

“Se houver algum problema no que diz respeito a esses depósitos, os Executivos estaduais terão de socorrer de forma imediata. Isso é disciplinado em Constituição Estadual e Lei Federal”, apontou.

 

Para o economista Gabriel de Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, e ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), os depósitos judiciais deveriam considerar o risco da operação, e não a sua taxa de retorno.

 

“Existe um axioma financeiro de que, quanto maior o retorno, maior o risco. As decisões dos tribunais deveriam tomar ciência de todo o balanço de riscos envolvido em decisões como essa, cujo mapeamento e compliance tem de ser feito antes", afirmou. 

 

Em caso de insolvência do banco público, Barros entende que isso pode agravar as finanças dos governos estaduais e do Distrito Federal, porque eles teriam de socorrer os Tribunais de Justiça.

 

“O risco fiscal dos entes subnacionais já é elevado por razões estritamente de natureza fiscal e orçamentária, principalmente nos Estados. O efeito colateral negativo nas finanças estaduais do risco desses depósitos serem honrados pelo Tesouro é um “plus a mais” com grande potencial para desorganizar ainda mais profundamente as finanças públicas do país", disse.

 

 

Adesão do Rio ao Propag deve trazer esperança, mas inspirar cautela

Por Editorial / O GLOBO

 

O Rio precisa aproveitar com sabedoria a adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Como já aconteceu em 1993, 1997 e 2016, o Propag promove alívio nas dívidas dos estados com a União. Em troca de contrapartidas como cessão de ativos e investimentos sociais obrigatórios, o estado deixará de pagar juros sobre a dívida e obterá redução substancial tanto no valor total quanto nas parcelas mensais. O pior que pode acontecer é a folga aberta no caixa ser usada para ampliar gastos sem controle, como no passado.

 

 

Pelo Regime de Recuperação Fiscal (RRF) — a que o Rio aderiu em 2022 e que abandonará agora no fim deste mês—, o estado devia R$ 210 bilhões, que deveriam ser pagos até 2052 em parcelas corrigidas pela inflação, mais 4% de juros ao ano. Tal critério, embora mais brando que o vigente antes do RRF, ainda tornava a dívida impagável — diante do crescimento exponencial, as parcelas tiveram de ser congeladas pelo Supremo em R$ 436 milhões. Pelo novo Propag, o Rio, graças à entrega de vários ativos à União, passará a dever R$ 168,5 bilhões, que deverão ser pagos até 2056 em parcelas mensais de R$ 119 milhões corrigidas apenas pela inflação. No RRF, o gasto com as parcelas seria de R$ 5,2 bilhões neste ano. Se voltasse ao regime anterior, seriam R$ 9,5 bilhões. Com o Propag, serão R$ 3,3 bilhões — uma redução substancial.

 

Duas condições, contudo, são fundamentais para o Propag ser bem-sucedido. A primeira é os governantes evitarem cair na tentação criada por todo programa de redução de dívidas: acelerar os gastos e voltar a endividar-se, apostando em novo alívio mais adiante. O estado não pode depender eternamente da União, e não há como reduzir o endividamento a patamar razoável sem cuidar da saúde fiscal. O governador em exercício, Ricardo Couto, teve o bom senso de adotar um plano de 30 metas para zerar o déficit estimado em R$ 18,9 bilhões, ante receita de R$ 108 bilhões. São necessárias medidas estruturais para garantir redução consistente de gastos ao longo do tempo.

 

 

A segunda condição para o êxito do Propag é assegurar a aplicação virtuosa dos recursos destinados à área social como contrapartida para a redução de juros. Ao todo, o estado se comprometeu a investir em saúde, educação e segurança 1% do saldo devedor todo ano, ou mais de R$ 900 milhões em 2026 e R$ 2,2 bilhões em 2027. O governo fala em destinar a maior parte dos recursos ao ensino profissionalizante, uma área estratégica. É fundamental zelar pela gestão competente de tais investimentos, para que o dinheiro não seja desperdiçado nos desvãos da máquina estatal e, em vez disso, resulte em políticas públicas de eficácia comprovada, monitoradas com frequência.

 

Toda renegociação de dívidas deve inspirar cautela, mas trazer esperança. Cautela, para que não sirva de estímulo à gastança que cria novas dívidas à espera da próxima renegociação. Mas esperança de que o fim da asfixia financeira libere recursos para investimentos essenciais, de que nenhum estado pode abrir mão. Ambas as atitudes são recomendáveis diante do Propag.

 

O Palácio Guanabara, sede do governo do estado do RioO Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo

BC peca por falta de clareza em decisão sobre juros

Por Editorial / O GLOBO

 

Depois da reunião na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou o terceiro corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. A decisão era esperada, mas o comunicado divulgado em seguida gerou ruído. Mudanças na Selic são extremamente importantes para as projeções e expectativas do mercado financeiro, mas não têm consequências imediatas na economia. Quando muda a Selic, o Copom calcula os efeitos num período conhecido como “horizonte relevante”, intervalo de 18 meses, hoje com duração até o quarto trimestre de 2027. Ao mencionar o primeiro trimestre de 2028, porém, o comunicado causou estranheza. Por que a autoridade monetária teve de alongar o prazo de modo a justificar o corte nos juros? Teria sido falta de cautela com a inflação?

 

Ante os questionamentos, aumentou a expectativa com a ata da reunião, divulgada nesta terça-feira. O texto da ata não desfez as interrogações do mercado sobre o rumo da política monetária. Para os analistas, ficou difícil prever se na próxima reunião o Copom manterá a Selic em 14,25%, interrompendo o atual ciclo de queda, ou se prosseguirá nos cortes dependendo das condições.

 

Desde o ano passado, a meta de inflação passou a ser avaliada pelo IPCA acumulado em 12 meses. Ela só é considerada descumprida se o índice ficar por seis meses consecutivos fora do intervalo de tolerância — a faixa de 1,5% a 4,5%, com centro em 3%. Atualmente, esse índice está em 4,72%, e a última previsão dos economistas ouvidos pelo BC o situa em 4,15% no final de 2027. Por isso alguns analistas esperavam que não houvesse corte na Selic.

 

Na ata, o Copom reconhece a deterioração inflacionária, mas descreve um quadro ligeiramente diferente. Com base nas projeções para 2028, argumenta que, pelos seus cálculos, a inflação acumulada no quarto trimestre de 2027 estará em 3,7%, mais perto do centro da meta. Por isso afirma ter julgado “como mais adequadas, neste momento, trajetórias de Selic menos discrepantes” das preconizadas pelo mercado “por evitarem induzir volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros e agregados macroeconômicos”. Defende não reagir “integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes”. E cita o conflito no Oriente Médio e o fenômeno climático El Niño.

 

Embora o próprio Copom reconheça a nova realidade inflacionária, aparentemente julgou prematuro anunciar o fim do ciclo de queda, diante da incerteza que poderia justificar novo corte mais diante. É perfeitamente defensável, como argumenta a ata, evitar flutuações abruptas na Selic. Faltou, porém, mais transparência à forma como o Copom justificou a decisão. A mensagem parece defender uma convergência mais lenta à meta, daí o “horizonte relevante” ter se estendido além dos 18 meses de praxe. Só que a justificativa não ficou explícita. Nada disso significa que o BC tenha se tornado mais leniente com a inflação ou sido motivado pelo calendário eleitoral. Apenas que pecou por falta de clareza. Para reduzir os ruídos, o Copom terá doravante de ser mais explícito sobre como vê a política monetária com “momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração”.

 

O edifício do Banco Central, em BrasíliaO edifício do Banco Central, em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Vorcaro teve ‘acesso relâmpago’ à apuração sigilosa sobre negócio do Master com a Caixa

Por Rafael Moraes Moura — Brasília / COLUNA DA MALU GASPAR

 

 

O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, teve “acesso relâmpago” a uma apuração preliminar aberta pelo Ministério Público Federal (MPF) envolvendo a destituição de dois gerentes da Caixa Asset que se opuseram à compra de um lote de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que, dois dias após a iniciativa do MPF, Vorcaro recebeu em seu celular o documento que informava a abertura do procedimento sigiloso sobre o nebuloso negócio entre a Caixa Asset e o Master, que não foi concretizado após a área técnica do banco estatal considerar a operação “arriscada” e “atípica”.

 

O registro da autuação da “notícia de fato” foi enviado a Vorcaro em 18 de julho de 2024, apenas dois dias após a movimentação da Procuradoria da República no Distrito Federal. 

Em relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e que faz parte do conjunto de documentos tornados públicos na última terça-feira pelo ministro André Mendonça, a PF afirma que Vorcaro “buscava compreender a natureza, o motivo e o andamento dos procedimentos sigilosos em que seu nome aparece como parte ou possível investigado”.

O banqueiro recebeu o material de um de seus capangas, Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, que ganhava R$ 1 milhão por mês para providenciar uma série de atividades ilícitas, como obter acesso a investigações sigilosas, intimidar pessoas consideradas adversárias, planejar emboscadas e até mesmo ocultar informações da internet que seriam desfavoráveis ao entorno do banqueiro.

 

“Foi cadastro (sic) negócio lá da Assets (sic). Não tem IP [inquérito policial] ainda, só NF [notícia de fato]”, diz uma mensagem enviada a Mourão e repassada por ele a Vorcaro. O autor original da mensagem não é identificado no relatório da PF.

Alto risco

O resumo do procedimento destacava a matéria publicada em 12 de julho de 2024 pelo blog, que revelou que técnicos da Caixa Asset, o braço de gestão de ativos do banco estatal, alertaram em parecer sigiloso que o Banco Master não tinha “clareza, efetividade e consistência em seus números”, com um modelo de negócios de “difícil compreensão” e “alto risco de solvência para a instituição”. As letras financeiras emitidas pelo Banco Master que a Caixa Econômica Federal considerava comprar previam uma rentabilidade de 130% do CDI ao ano no prazo de 10 anos, muito acima da média do mercado.

 

Os temores dos técnicos da Caixa se confirmaram depois, após o Banco Central determinar a liquidação extrajudicial do Master, em novembro do ano passado, e o Supremo aprofundar as investigações de um esquema de corrupção e fraude capitaneado por Vorcaro com aliados de diferentes matizes políticos incrustados nos três poderes.

O negócio de R$ 500 milhões não foi concretizado, mas o episódio abriu uma crise sem precedentes na Caixa Asset, repercutiu no mercado financeiro e levou os gerentes Daniel Cunha Gracio, de renda fixa, que assina o parecer, e Maurício Vendruscolo, de renda variável, que também avalizou os documentos, a perderem seus cargos. Também fez a Controladoria-Geral da União (CGU) realizar uma auditoria inédita na Caixa Asset.

 

Extrato

Em 30 de julho de 2024, ou seja, duas semanas após a abertura do procedimento no MPF-DF, Mourão volta a tratar do assunto com Vorcaro.

“Opa. Bom dia! Tem alguém olhando isso? De ontem, atualização no Caixa Assets (sic)”, escreveu o capanga, ao encaminhar ao chefe um “extrato de documento administrativo” que informava o gabinete da procuradora responsável pelo caso, Luciana Loureiro.

 

O registro do sistema interno do MPF também trazia um resumo em que destacava ser necessário “verificar a necessidade de instauração de inquérito policial”, o que colocou o comparsa de Vorcaro em estado de alerta. 

“Dá uma olhada nisto com quem esta (sic) por conta de olhar isto para não deixar virar [inquérito policial]. E sanar isto”, escreve Mourão.

“"Qial (sic) e esse. Da Caixa?", questiona Vorcaro, já preocupado com o surgimento de diversas frentes de investigação em andamento contra os seus negócios.

No final das contas, foi instaurado o inquérito, que tramita sob sigilo na Justiça Federal do Distrito Federal. 

Acesso privilegiado

Um dos pontos destacados pelos investigadores é o de que os documentos encaminhados a Vorcaro sobre o caso Caixa Asset foram acessados por uma servidora pública da Procuradoria da República no Maranhão.

“Impõe-se esclarecer se a consulta foi realizada de forma regular, se o acesso foi ilegalmente obtido mediante invasão (“hackeado”) ou se houve franqueamento direto por parte da própria usuária”, ressalta a PF.

 

Em outra troca de mensagens, ocorrida um mês antes do início do procedimento sobre a Caixa, em 18 de junho de 2024, Mourão pediu a Vorcaro para confirmar a lista de pessoas cujos processos sigilosos deveriam ser monitorados. Nela, constavam o empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro; o pai do banqueiro, Henrique Vorcaro; e Nelson Tanure, apontado pela PF como “sócio oculto” do Master.

“Dos seus quais você quer puxe e te envie?”, questiona Mourão. "Todos obviamente”, responde o banqueiro.

 

Três dias depois, Mourão volta a entrar em contato com o chefe: “Me dá um update, se quer alguma coisa. Para puxar o que precisar estamos com acesso total e ilimitado lá [ao sistema interno do MPF], só não sei até quando”.

O acesso só ficaria comprometido cinco meses depois, com a prisão do banqueiro no aeroporto internacional de Guarulhos, por ordem da Justiça Federal de Brasília – que, desconfiam os investigadores, também teria vazado.

 

 

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