Lulinha abre 'empresa de gaveta' na Espanha em meio a investigações do INSS
O empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT), abriu uma "empresa de gaveta" na Espanha após o início das investigações sobre a fraude do INSS, que apuram se ele foi um dos beneficiários do esquema.
Batizada de Synapta, a empresa teve início de operação registrado em 13 de janeiro de 2026 e foi inscrita em 6 de fevereiro no Registro Mercantil de Madri.
A Folha visitou nesta segunda-feira (16) o endereço de registro da empresa, localizada no distrito de Chamartín, região de alto padrão na zona norte de Madri.
A companhia declara atividades genéricas na área de tecnologia, como consultoria técnica e informática, implementação de soluções digitais e suporte a usuários. Também cita atuação no setor de intermediação comercial, como "identificação de oportunidades de compra ou venda".
O escritório fica no quinto andar de um típico complexo de edifícios modernos que abriga companhias internacionais, consultórios e sedes da administração pública madrilenha.
Lulinha consta como administrador único da empresa, que não teve nenhuma movimentação registrada oficialmente desde sua abertura, exceto a nomeação do escritório de advocacia espanhol Monereo Meyer Abogados e cinco de seus funcionários como procuradores legais.
O endereço registrado pela Synapta é o mesmo desse escritório, especializado na assessoria a empresas estrangeiras com negócios na Espanha e em Portugal.
O capital informado da empresa é o mínimo exigido pela legislação espanhola: 3.000 euros, o equivalente a cerca de R$ 18 mil.
Tanto o recepcionista do prédio quanto a recepcionista da firma de advocacia disseram à reportagem desconhecer a Synapta. A segunda funcionária, porém, confirmou ser possível que a companhia tivesse domicílio registrado naquele mesmo endereço.
A legislação espanhola —assim como a brasileira— permite que empresas mantenham um endereço fiscal que não seja o local de operação dos negócios, prática comum e prevista em lei.
Stefan Meyer, um dos fundadores do escritório, mostrou surpresa ao ouvir que a reportagem procurava a empresa do filho do presidente brasileiro. "O que nós temos a ver com isso? Mande um email e investigaremos, ok?", disse. Mais tarde, a assessoria respondeu que, por dever de confidencialidade profissional, não poderia comentar além das informações públicas.
A defesa de Lulinha diz que a empresa cumpre as exigências legais e ainda não exerce atividades, tendo sido formalizada visando projetos futuros do filho do presidente da República. Por já estar constituída na prática, mas sem atividades efetivas relevantes, é considerada por ora como "de gaveta".
Os advogados dizem que o empresário atualmente trabalha e recebe renda como pessoa física no exterior, sem detalhar os contratos ou clientes, sob o argumento de preservação de privacidade.
Lulinha teve seus sigilos bancário e fiscal quebrados pelo STF (Supremo Tribunal Federal), a pedido da Polícia Federal, e pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) mista do INSS em fevereiro, medida que foi suspensa pelo ministro Flávio Dino e que será julgada em plenário físico da corte.
Trechos dos dados sigilosos, repassados pela PF à CPI, apontam que, em quatro anos, Lulinha recebeu pouco mais de R$ 9,7 milhões em suas contas e repassou valor equivalente, somando R$ 19,5 milhões em transações.
A PF afirmou em um relatório, divulgado nesta terça-feira (17) pelo Estadão, que a mudança de país poderia ser uma "evasão do país". "Do ponto de vista investigativo, asseveramos que Lulinha viajou para o exterior, sem previsão de volta, o que denota possível evasão do país, considerando estar associado aos fatos associados ao principal operador das fraudes bilionárias a milhões de aposentados do Brasil", diz o relatório.
A ida do filho de Lula para a Espanha já era de conhecimento de aliados do presidente desde meados de 2025. Àquela altura, a primeira operação para apuração das fraudes do INSS já havia ocorrido, mas não havia notícia de ligações dele com o caso.
Na época, Lulinha disse a interlocutores que não tinha intenção de falar sobre seu novo emprego e que pretendia atuar no setor privado, conforme informou a Folha então.
A mudança para o exterior pode trazer dificuldades para as investigações. "Há complicações [para realizar] busca e apreensão e até [entregar] intimações", avalia o jurista Wálter Maierovitch.
A defesa de Lulinha diz que a mudança para a Espanha não tem relação com as investigações sobre a fraude no INSS. Ela afirma que, caso seja solicitado pelo STF, o filho do presidente retornará ao Brasil para prestar esclarecimentos.
As investigações da fraude do INSS apuram informações, relatadas por uma testemunha, de que o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, suspeito de realizar pagamentos para manter o esquema de fraudes na Previdência, teria repassado valores a Lulinha por meio da empresária Roberta Luchsinger, amiga de sua mulher, Renata de Abreu Moreira.
Roberta Luchsinger é investigada pela Polícia Federal. Em 16 de dezembro, o ministro do STF André Mendonça, relator no Supremo do inquérito sobre a fraude, emitiu mandados de busca e apreensão na sede de sua empresa, em Higienópolis, região central da capital paulista.
Luchsinger recebeu R$ 300 mil do Careca do INSS, valores que são alvo de apuração da PF. Uma testemunha do caso afirmou que a transferência faria parte de um pagamento maior, que somaria R$ 1,5 milhão e teria como destino final "o filho do rapaz", em referência a Lulinha.
A defesa da empresária afirmou que o pagamento não teria relação com os ilícitos apurados no esquema do INSS e seria decorrente de um negócio de canabidiol desenvolvido entre ela e Careca. A defesa de Lulinha admitiu que ele viajou a Portugal, com despesas pagas pelo lobista, para conhecer o projeto.
Uma semana antes da operação contra Luchsinger, em dezembro, Lulinha fez uma série de movimentações na gestão de suas empresas no Brasil: a LLF Tech Participações, a G4 Entretenimento e Tecnologia e a BR4 Participações.
No caso das duas primeiras empresas, as movimentações, registradas na Junta Comercial de São Paulo, transferiram a administração dos negócios para Renata. No caso da BR4, ele deixou a sociedade.
As três empresas estão registradas, em São Paulo, em um prédio comercial em Pinheiros, na zona oeste, mas não funcionam lá.
Trump mira o agônico regime cubano
O regime que governa Cuba desde a revolução de 1959, tornado socialista dois anos depois, vive uma crise agônica. Além da prostração econômica endêmica, desmorona a infraestrutura energética da ilha. A ditadura criada por Fidel Castro (1926-2016), herdada por seu irmão Raúl e legada hoje a Miguel Díaz-Canel, é uma relíquia aberrante da Guerra Fria.
Nascida popular contra outro regime autoritário, tornou-se um instável instrumento da tentativa da União Soviética de ameaçar os Estados Unidos perto de casa, quase levando o mundo a uma guerra nuclear em 1962.
A partir daquele ano, o embargo americano à ilha tornou-se a desculpa ideal para uma espiral de abusos contra os direitos humanos, decadência econômica e clientelismo político.
A morte do império comunista centrado em Moscou, em 1991, pareceu jogar a ilha no rumo da normalidade —houve flexibilização econômica, dado que as torneiras soviéticas haviam secado.
Aos poucos, porém, a autocracia de Hugo Chávez e a ditadura subsequente de Nicolás Maduro, ambas filiais dos serviços secretos cubanos na Venezuela, reabriram linhas de auxílio na forma de petróleo subsidiado.
Até um ensaio de acomodação com os EUA se desenhou em 2015, um ano antes da morte de Fidel, mas a primeira encarnação de Donald Trump na Casa Branca fez o processo retroceder. Agora, em sua volta ao poder, o presidente republicano aperta o garrote no regime insular.
Trump capturou Maduro em janeiro. Com isso, foi cortado o envio de petróleo e derivados à ilha, cuja matriz energética depende de 16 usinas termoelétricas a diesel. Ato contínuo, os apagões, que já denunciavam a obsolescência do sistema, tornaram-se diários.
Na segunda-feira (16), o governo declarou o colapso da rede elétrica. Não sem coincidência, no mesmo dia, Trump veio a público dizer acreditar "que terá a honra de tomar Cuba" e que "pode fazer o que quiser" com o país.
Ao mesmo tempo, emergiram relatos de que as negociações com os EUA, admitidas por Díaz-Canel, talvez incluam sua saída do poder, visando entregar uma vitória ao estilo Venezuela para Trump exibir nas eleições parlamentares de novembro.
Isolado ao lado de Israel em sua guerra contra o Irã, Trump precisa de mais um diversionismo. Essa hipótese não configura um final feliz. Cuba merece se libertar do comunismo para abraçar a democracia, não cair de volta nas mãos de alguns escroques à espreita na Flórida ou ver o regime arrumar um novo patrono.
Cláudio Pinho destaca queda no desempenho industrial cearense
Por Giovanna Munhoz / ALECE
Deputado Cláudio Pinho (PDT) - Foto: Júnior Pio
O deputado Cláudio Pinho (PDT) destacou o desempenho industrial cearense e a necessidade de políticas para fortalecer a economia no Estado. O parlamentar se pronunciou durante o primeiro expediente da sessão plenária da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece), nesta terça-feira (17/03).
Segundo Cláudio Pinho, a Pesquisa Industrial Mensal Regional, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresenta que a produção industrial do Ceará retraiu já no primeiro mês do ano em relação a 2025. “A indústria cearense registrou retração de 2,5%. Estamos perdendo espaço, e isso não são apenas números, são empregos e geração de renda para o povo”, disse.
O deputado apontou que entre as maiores retrações do setor industrial estão a fabricação de máquinas e elétricos, com queda de 28,4%; produtos têxteis, com retração de 24%, e os produtos alimentícios, com queda de 14,9%. “O enfraquecimento industrial significa menos oportunidades para o povo cearense. Cadê as empresas que gerariam renda, desenvolvimento e mudariam a economia do Estado através da produção do hidrogênio verde? Ninguém ouve mais falar disso”, assinalou.
O parlamentar frisou ainda os projetos de construção do data center do TikTok no Ceará. “Agora quem vai resolver o problema da economia não é mais o hidrogênio verde, é o TikTok. Vai mudando. São camadas de divulgação do Governo, mas que não resolvem nada. O povo precisa de emprego e renda para viver bem”, disse.
Edição: Vandecy Dourado
Políticas eficazes contra violência têm efeito positivo na economia
Por Editorial / O GLOBO
Policiamento ostensivo em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira / Agência O Globo
As vítimas da violência não se resumem aos mortos pelos bandidos. Nas regiões conflagradas, quem sobrevive ao crime também sofre consequências econômicas. Onde organizações criminosas imperam, a extorsão, a destruição de capital físico e até fatores intangíveis como estresse dificultam a vida de empreendedores e diminuem investimentos. Um estudo recém-publicado da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo constatou os efeitos econômicos positivos das políticas de segurança pública bem-sucedidas. No período de 2002 a 2019, o Distrito Federal e cidades de oito estados que obtiveram êxito no combate ao crime registraram aumento entre 7% e 10% nas novas empresas e em vagas com carteira assinada.
A descoberta desmente que o avanço da criminalidade seja inexorável ou esteja imune às políticas dos governos estaduais. A divisão da cidade em áreas menores; a análise pormenorizada baseada em indicadores objetivos; a integração das forças policiais e outras instituições do Estado; o estabelecimento de objetivos com pagamento de bônus são medidas eficazes contra o crime.
No início do século, o governo de Minas Gerais deu os primeiros passos para a gestão baseada em dados, com resultados e pagamento relacionado ao desempenho. O estado criou e implementou um sistema estatístico para embasar decisões e premiações. Historicamente separados, os comandos das polícias Militar e Civil passaram a manter reuniões regulares, frequentadas por representantes de outros segmentos do setor público. Na mesma época, São Paulo também atualizou sua política de segurança. Uma das principais diretrizes foi a integração de dados policiais. Em pouco tempo, DF e outros seis estados (Pernambuco, Rio, Paraíba, Espírito Santo, Alagoas e Ceará) lançaram programas semelhantes.
De acordo com o estudo “Aprimorar a gestão policial aumenta o desenvolvimento econômico: evidências do Brasil”, o impacto dependeu do histórico da região. Nos lugares mais violentos, a redução do crime foi maior, mas os benefícios econômicos foram menores. Não estão claras as razões para a diferença. Talvez em cidades com menos homicídios a polícia tenha mantido foco na redução de crimes contra a propriedade, contribuindo para o êxito econômico. “Regiões com alto nível de violência podem precisar de intervenções adicionais, como programas sociais, incentivos econômicos específicos e investimentos em infraestrutura, para aproveitar totalmente o potencial econômico da redução do crime”, diz Bruno Pantaleão, autor do estudo. São pontos que ainda merecem mais pesquisas.
Com emboscada e até tiros, avanço do crime organizado coloca agentes do Ibama em risco na Amazônia
Por Lucas Altino / O GLOBO
Foto de 2025 mostra fiscais do Ibama em Terra Indígena onde ataque aconteceu — Foto: Reprodução
Uma operação contra exploração ilegal de madeira no último sábado, no Amazonas, evidenciou o risco crescente a que estão submetidos agentes do Ibama que atuam na região. Ao tentar apreender um caminhão usado na prática clandestina dentro da Terra Indígena (TI) Tenharim-Marmelos, no município de Manicoré, cinco fiscais foram atacados por homens armados e precisaram se esconder na mata, enquanto a viatura da equipe era incendiada. Episódios como esse vêm se tornando cada vez mais comuns na Amazônia, em um fenômeno associado ao aumento da presença de facções no bioma, segundo o próprio órgão ambiental.
Nos últimos anos, atentados similares repetiram-se em diferentes pontos amazônicos, sobretudo em operações contra garimpo ilegal e exploração de madeira, atividades com forte presença dessas organizações criminosas. O caso em Manicoré ocorreu durante fiscalização em ramais clandestinos de escoamento de madeira ilegal na TI. O material é posteriormente comercializado na região da Vila Santo Antônio do Matupi, na rodovia Transamazônica.
Durante a ação, os agentes flagraram dois caminhões transportando madeira, e conseguiram abordar um deles. Antes de o veículo ser apreendido, contudo, um grupo com cerca de 30 homens armados chegou ao local e iniciou agressões físicas contra os fiscais.
Mesmo em inferioridade numérica e de armamento, os servidores conseguiram fugir para a floresta. Horas depois, retornaram à cidade de Humaitá (AM) e seguiram à sede da Polícia Federal (PF), onde denunciaram o ocorrido. De acordo com o Ibama, parte dos autores do ataque já foi identificada a partir de relatos e imagens registradas pelas vítimas.
Um estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de dezembro passado, mostrou que, entre 2023 e 2024, 42 mil dos 68 mil hectares de terra usados para extração de madeira no Amazonas não tinham autorização, 62% do total. Em um esquema de “lavagem de madeira”, grupos usam autorizações de outros lotes para validar, ilegalmente, a comercialização de vegetação retirada de áreas proibidas, como as terras indígenas. Embora nem toda a cadeia clandestina tenha participação direta de facções do narcotráfico, esses grupos vêm investindo cada vez mais nesse tipo de atividade por conta da alta lucratividade e da facilidade para lavar dinheiro obtido com outras práticas criminosas.
Agentes expostos
Procurado pelo GLOBO, o Ibama informou que não possui estatísticas específicas sobre ataques a seus servidores. A escalada da violência, entretanto, é confirmado pelo diretor de Proteção Ambiental do instituto, Jair Schmitt: — Estou há 24 anos no Ibama, conheço bem a Amazônia, e hoje o perfil criminal é totalmente diferente. Em momentos do passado a gente nem precisava trabalhar armado, mas isso agora é impensável. Aumentou o número de ataques, qualquer servidor confirma. O ambiente está mais violento, e os agentes públicos mais expostos.
Schmitt destaca justamente a chegada das facções à região como um dos fatores determinantes para o fenômeno. Para lidar com o novo panorama, cada operação passou a ser feita com um levantamento de áreas de risco, além do estabelecimento de protocolos e planejamento específicos junto aos fiscais. — O crime organizado tem se arvorado na Amazônia, principalmente na mineração e exploração madeireira — diz o diretor, que elenca ainda como causas o aumento da circulação de armas no país e a desestruturação do Ibama e das ações de fiscalização na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o que teria “empoderado” os criminosos. — Essas pessoas estão formando pequenas resistências ao poder do Estado, e as invasões em Terras Indígenas viraram prática rotineira.
A hostilidade na Amazônia também ficou visível durante as operações na TI Yanomami contra o garimpo. Ao longo de 2023, quando a missão especial começou, fiscais do Ibama foram atacados com armas de fogo pelo menos dez vezes. Retirada do território Yanomami, parte dos envolvidos na atividade ilegal migrou para a TI Sararé, em Mato Grosso, que se transformou na Terra Indígena mais desmatada entre 2024 e 2025. Em setembro do ano passado, cinco garimpeiros ligados ao Comando Vermelho (CV) atiraram, com fuzil, em agentes do Ibama. Após o confronto, eles abandonaram a arma, carregador, munições, celular e um kit de internet por satélite antes de escapar.
Outra TI com episódios de violência é a Terra Apyterewa, no Pará. Em dezembro último, equipes do Ibama e da Funai, além da Força Nacional de Segurança e das polícias Civil e Militar, foram atacadas durante uma ação de desintrusão e apreensão de gado. Um colaborador que prestava apoio ao trabalho morreu após ser emboscado e atingido por disparos de arma de fogo.
A Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, também se tornou um local de ameaças. Só no ano passado, foram contabilizados ao menos sete confrontos armados em ações contra o garimpo, com 12 suspeitos presos.Na semana passada, quatro pessoas foram condenadas pelo incêndio, em Manaus, de dois helicópteros utilizados em operações de fiscalização do Ibama, em um prejuízo de mais de R$10 milhões. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a motivação foi retaliar as fiscalizações ambientais na região.
‘Guerra na floresta’
Binho Zavaski, diretor da Associação dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente do Distrito Federal (Asibama-DF) e ex-presidente da associação nacional, também avalia que, na última década, houve a ascensão, na Amazônia, de grupos como CV, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Família do Norte. Além da atuação tradicional no tráfico de drogas e de armas, eles passaram a investir no garimpo clandestino e na exploração de madeira: — É uma guerra na floresta, uma guerra contra o crime ambiental praticado por grupos extremamente poderosos e organizados, do Brasil e de fora — alerta.
Em meio a esse cenário, servidores negociam o pagamento de uma Gratificação de Atividade de Risco (GAR). Além disso, Zavaski cobra a integração das diferentes forças de segurança nessas operações e o investimento em equipamentos de proteção. — Além dessa sensação de impunibilidade, de que o crime ambiental compensa, ainda tem a constante pressão desses grupos pela mudança da legislação, para que essas atividades ilícitas possam, ali na frente, ser regularizadas rendendo, muitas vezes, o que já rende hoje através dessa condição ilegal — acrescenta.
Histórico da violência
- Fevereiro de 2023: Quatro garimpeiros ilegais morreram em troca de tiros com agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Ibama na Terra Indígena Yanomami. Na ação, armas foram apreendidas, incluindo um fuzil (foto). Segundo suspeita da PRF à época, os suspeitos seriam membros do PCC. Agosto de 2023: Uma equipe do Ibama foi atacada a tiros durante fiscalização contra o garimpo ilegal na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, no Pará. Um criminoso, que portava uma pistola, foi baleado e, apesar de socorrido, não resistiu ao ferimento (foto).
- Setembro de 2023: Fiscais do ICMBio e policiais da Força Nacional foram atacados e tiveram os carros queimados durante fiscalização na Floresta Nacional de Aripuanã, no Sul do Amazonas. No local, foram encontrados armas, equipamentos e veículos usados para desmatamento ilegal. Junho de 2025: Agentes do ICMBio que atuavam na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, passaram a ser regularmente atacados. Ofensiva incluiu bloqueio de estradas com fogo, destruição de pontes, cortes de cerca e até tentativa de incêndio no acampamento da equipe de fiscalização.
- Setembro de 2025: Cinco garimpeiros ligados ao CV trocaram tiros de fuzil com agentes do Ibama durante operação na Terra Indígena Sararé, um dos territórios mais devastados do país. Após o confronto, eles abandonaram arma, carregador, munições, celular e um kit de internet (foto). Dezembro de 2025: Um colaborador do Ibama que apoiava as equipes que atuavam na desintrusão da Terra Indígena Apyterewa, no Pará, morreu após ser atingido por disparos de arma de fogo. A operação havia sido determinada pelo STF, com retirada de invasores e a apreensão de gado.
Habermas e a imprensa
Por Merval Pereira / O GLOBO
Esfera pública é um conceito difundido pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (falecido no sábado aos 96 anos). Define o espaço em que os assuntos públicos são discutidos pelos atores, públicos e privados, levando à formação da opinião pública, que reflete os anseios da sociedade civil, pressionando os governos. Esse conceito é fundamental para compreendermos o papel do jornalismo, que Habermas entendia como mediação entre Estado e sociedade civil. Ele definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação.
No texto “O valor da notícia”, ressalta que estudo sobre fluxos de comunicação mostra que, ao menos no âmbito da comunicação política, a imprensa de qualidade desempenha papel de “liderança”. O noticiário político de rádio e TV depende dos temas e das contribuições provenientes do que chama de jornalismo “argumentativo”. Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia, dizia Habermas.
O tema, sempre central em sua obra, levou-o a escrever um último livro intitulado “Uma nova mudança estrutural da esfera pública”, em que se dedica a analisar as consequências da comunicação digital na sociedade moderna. O filósofo francês Jean Baudrillard já advertia que “a desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos”. Pois Habermas registrou que as redes geram “ruídos incessantes em bolhas de opinião autossustentáveis”, levando a esfera pública a se fragmentar sob o domínio das big techs, que têm compromisso apenas com o lucro, provocando degeneração da democracia.
Para Habermas, a legitimidade da democracia depende da comunicação entre a sociedade civil e o centro de poder, deteriorada pelos ruídos da polarização estimulada pelas redes sociais. A importância de uma imprensa livre e profissional na produção de informação confiável é essencial para o funcionamento da esfera pública e da democracia, afirmava Habermas. O conceito de degradação da esfera pública pode ser aplicado a cenários como o uso indevido de canais de comunicação por figuras públicas para misturar interesses pessoais e privados, como acesso de familiares de políticos a redes sociais oficiais, ou os casos de corrupção como acompanhamos com o Banco Master, com diversas figuras públicas envolvidas.
Frequentemente o ambiente político brasileiro é afetado por ações estratégicas (focadas apenas no poder/sucesso individual ou partidário) em detrimento de uma ação comunicativa voltada para o entendimento mútuo, conceito central na obra de Habermas, referência para defender o jornalismo profissional e a democracia contra investidas populistas ou autoritárias. O filósofo alemão revelou, em artigos, seu temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade, segundo ele, até hoje desempenhou.
A tal ponto que Habermas chegou a sugerir que os governos democráticos deveriam subsidiar os jornais “de qualidade” para garantir que se encarreguem de continuar alimentando a esfera pública para o debate das grandes questões. A proposta tinha por base a tese de que uma imprensa livre é vital para uma sociedade democrática. A ideia não foi adiante, e o próprio Habermas admitiu que a possibilidade de manipulação desse estímulo oficial poderia interferir nesse debate, o deslegitimando.

