Pretensões militares
Político moderado e experiente, o ministro José Múcio, da Defesa, conduz um bem-sucedido trabalho de pacificação das Forças Armadas após a traumática ofensiva golpista de Jair Bolsonaro (PL). Para tanto, também trata de assumir a defesa de velhos pleitos da caserna.
Entre eles, destaca-se a reivindicação de uma mudança de patamar dos gastos militares brasileiros. Desta vez, Múcio usou a guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã como argumento para a elevação das despesas do atual 1% do Produto Interno Bruto para 2%.
É fato que essa é uma tendência global no momento. Sob Donald Trump, os EUA planejam elevar seus desembolsos no setor acima de 4% neste 2026, enquanto seus aliados europeu na Otan buscam cumprir o piso de 2%. Mas o Brasil, felizmente, não tem envolvimento direto nos conflitos que suscitam tal expansão.
Discussão de prioridades à parte, a meta dos militares é inteiramente descabida no atual estado do Orçamento federal. O Ministério da Defesa desembolsou, no ano passado, R$ 131,9 bilhões, enquanto o governo teve déficit de R$ 61,7 bilhões, sem contar os encargos com juros da dívida. Duplicar as verbas da pasta, portanto, significaria mais que triplicar o rombo dos cofres da União.
Mais que isso, nos próximos anos será imperativo transformar o déficit num expressivo superávit a fim de conter a escalada do endividamento, enquanto os gastos com aposentadorias e saúde estarão pressionados pelo envelhecimento da população. Imaginar que alguma pasta poderá dobrar sua fatia orçamentária nesse cenário é mero devaneio.
Ainda assim, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já concedeu a fardados, com a colaboração do Congresso, agrados como liberar investimentos de R$ 5 bilhões fora dos limites fiscais. Pode parecer pouco diante dos montantes reivindicados, mas não deixa de ser evidência da saturação do Orçamento.
A Defesa, ademais, está longe de uma gestão eficiente de seus recursos. Os encargos com pessoal ativo e inativo consomem cerca de três quartos do dinheiro, ou R$ 100,5 bilhões pagos em 2025. Desse total, mais da metade, ou R$ 53 bilhões, destinou-se a cobrir o desequilíbrio do regime previdenciário militar.
As regras iníquas para reservistas e reformados —que ficaram quase intocadas na reforma de 2019— tornam a inatividade na caserna por demais custosa ao país. As Forças Armadas deveriam aceitar uma revisão de tais privilégios antes de pleitear mais dinheiro do contribuinte.

