SP no fogo cruzado do crime
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Cidades do interior paulista viraram palco de uma sangrenta disputa entre integrantes do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo uma recente reportagem do Estadão, investigações da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MPSP) revelaram que a facção fluminense envia matadores do Rio de Janeiro para executar seus rivais em Rio Claro e região. Como o “serviço” é feito numa rápida viagem, trata-se do “bate-volta do crime”. Foram ao menos três homicídios executados com esse modus operandi: um cerco ou uma emboscada à vítima, perseguição pelas ruas e execução à luz do dia, com o uso de armamento pesado, como fuzis.
E tudo começou em 2021, quando integrantes de um grupo chamado Bonde do Magrelo iniciaram os ataques contra o PCC. Em 2023, após uma troca de comando, eles resolveram se aliar de vez aos bandidos do CV para fazer frente aos inimigos. Criminosos paulistas, inclusive, mudaram para o Rio de Janeiro e, de lá, ditam as ordens aos comparsas em São Paulo, dominam territórios a distância, controlam biqueiras do tráfico de drogas e, sobretudo, espalham o pânico entre os paulistas, assim como costumam fazer com os fluminenses. A ousadia é tamanha que o bando do Rio de Janeiro chegou até a cravar a sigla “CV” numa bandeira do Estado de São Paulo.
Esse avanço da facção fluminense impactou, decerto, os indicadores de criminalidade. Ao longo de cinco anos, foram ao menos 30 assassinatos em Rio Claro ligados ao crime organizado: um quinto de todos os casos de homicídio do município no período. E, além de aterrorizarem a vida em Rio Claro, os bandidos do CV já estão presentes também em Americana, Araras, Hortolândia, Piracicaba e Santa Bárbara d’Oeste, entre outras cidades. Ou seja, o bando do Rio de Janeiro amplia sua rede em importantes e prósperos municípios paulistas, numa região estratégica para o agronegócio, a indústria e os serviços do Estado.
Tudo isso preocupa, por óbvio, as autoridades públicas paulistas. Segundo os promotores de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o monitoramento policial identificou uma sucessão de crimes violentos na região nos últimos anos, como as execuções “bate-volta”, a carbonização de corpos e até chacinas em represália a mortes de faccionados de bandos rivais. De acordo com os investigadores do MPSP, o confronto entre CV e PCC “escalou significativamente”, não restando dúvida de que a região vive hoje “um estado de guerra urbana”.
O instrumento de negociação do crime organizado é a morte. Trata-se das duas maiores organizações criminosas do País, que, com os mais variados negócios ilícitos, movimentam somas bilionárias, atuam como máfias, protegem seus mercados internos e ampliam as conexões internacionais. Às autoridades públicas paulistas não resta alternativa senão combater ostensivamente o CV.
E, não menos importante, as forças de segurança precisam manter suas ações para asfixiar o PCC, com inteligência, integração e cooperação, a fim de enfraquecer a facção que silenciosamente domina grande parte do Estado. Se o convívio com o PCC já é insuportável, a chegada do CV é intolerável.

