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Caso Júnior Mano e Bebeto do Choró: PF aponta limite de saques de R$ 49.999,99 para driblar Coaf

Escrito por Igor Cavalcantei / DIARIONORDESTE
 
 

O relatório final da Polícia Federal (PF) enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o caso que envolve o deputado federal Júnior Mano (PSB) e o ex-prefeito foragido de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), descreve um padrão de movimentações financeiras atípicas para evitar o monitoramento de órgãos de controle. Segundo os investigadores, empresas e operadores ligados ao grupo realizavam saques e depósitos fracionados em valores próximos ao patamar regulatório que aciona alertas automáticos ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

 

De acordo com a PF, a estratégia consistia em realizar uma grande quantidade de transações em valores ligeiramente inferiores a R$ 50 mil como uma tentativa deliberada de evitar o rastreamento da origem e do destino dos recursos movimentados.

“Após a entrada de valores, verifica-se uma pulverização quase imediata por meio de transferências a terceiros, pagamentos de boletos e movimentações interbancárias, sem que haja registro de vínculos comerciais com os destinatários. Tal dinâmica reforça a tese de que os valores não permanecem em circulação dentro do sistema bancário por período suficiente para indicar finalidade lícita, mas sim que são rapidamente dispersos, conforme padrão descrito na etapa de ‘layering’ da lavagem de dinheiro”, avaliam os investigadores.

Empresas eram usadas para driblar fiscalização

Entre as empresas citadas pela investigação está a MK Empreendimentos, ligada ao empresário Maurício Gomes Coelho. De acordo com o relatório, a companhia realizou dezenas de saques em espécie no valor de R$ 49,9 mil, segundo a PF. Apenas em um ano, o negócio movimentou mais de R$ 116 milhões, sendo cerca de R$ 2,3 milhões retirados em dinheiro vivo, em grande maioria, usando o método de fracionamento.

 

“Não bastasse o vultoso volume de recursos, as comunicações destacam ainda que a movimentação financeira da MK é absolutamente incompatível com seu faturamento declarado, que gira em torno de R$ 2 milhões anuais, contrastando fortemente com as cifras movimentadas nos relatórios — mais de R$ 116 milhões em operações de débito apenas no intervalo de doze meses, com destaque para 1.086 transações via PIX, 387 liquidações de cheques e dezenas de aplicações financeiras, saques e pagamentos”, complementa a PF. Outra empresa mencionada é a AM Transportes, Locações e Serviços LTDA, associada a Maria Aurilene Pinheiro. 

“A empresa apresentou padrão repetido de saques em espécie com valores entre R$ 49.900,00 e R$ 49.999,99, evidenciando clara intenção de evitar os sistemas de comunicação automática por valor. No período de novembro de 2023 a maio de 2024, foram registradas 156 operações de saque, totalizando quase R$ 2,5 milhões levados em numerário, prática que impede a identificação do real destinatário dos recursos”, aponta a PF.

O relatório também descreve movimentações semelhantes na Cariri Edificações Serviços e Condução Eireli, vinculada a Carlos Douglas Almeida Leandro, um servidor público com salário mensal inferior a R$ 6 mil. A empresa de transporte escolar, fundada em outubro de 2020, teve movimentações financeiras superiores a R$ 50 milhões em menos de quatro anos de atividade. 

 

Outro padrão da Cariri Edificações era a realização de dezenas de saques no valor de R$ 49.999,99, especialmente entre março e abril de 2024, período que antecedeu as eleições municipais.

Registros do relatório bancário com dezenas de saques em valores inferiores a R$ 50 mil.
Legenda: Parte das movimentações feitas pela empresa Cariri Edificações Serviços e Conduções. O relatório identifica dezenas de operações de saque em espécie.Foto: Reprodução/Relatório PF

A Colinas Construções Transportes e Serviços LTDA, controlada por Iago Viana Nascimento e posteriormente renomeada para SFC Serviços, também aparece no documento com padrão semelhante de retiradas. Conforme a PF, a empresa — que também supostamente atuava no ramo de transporte escolar — registrou movimentações de grande volume em um curto período de tempo, com destaque para um fluxo de R$ 41,2 milhões em menos de sete meses (no período de 1º de setembro de 2022 a 22 de fevereiro de 2023). A companhia também seguia o modus operandi de saques — em dias subsequentes e, às vezes, no mesmo dia — em valores como R$ 49.980, R$ 49.992 e R$ 49.997.

Ainda segundo a investigação, a Kronus Serviços utilizava outro mecanismo para retirar recursos das contas: a emissão de cheques padronizados no valor de R$ 49,9 mil para beneficiários sem vínculo comercial aparente, entre eles servidores públicos. Ao todo, somente essa empresa movimentou, em menos de três meses, a cifra de R$ 7,9 milhões.

 

“As retiradas coincidem com práticas já identificadas em outros núcleos do grupo criminoso e indicam a existência de fluxo de recursos para beneficiários múltiplos, sem justificativa econômica plausível, sugerindo pagamento indireto por apoio político, serviços não declarados ou redistribuição ilícita de verbas públicas”, acrescenta a PF.

O mesmo padrão apareceu nas empresas Millenium Construções e Rapi Transportes EIRELI, que acumularam, entre 2020 e 2022, movimentações superiores a R$ 15 milhões cada uma, também com grande volume de saques fracionados em espécie, realizados com frequência em valores próximos a R$ 49 mil. 

“Em comum, todas essas empresas compartilham características estruturais: forte dependência de recursos públicos, movimentação financeira superior ao porte declarado, ausência de comprovação da finalidade das transações, realização habitual de saques em espécie fracionados, e transferências para pessoas físicas sem nexo comercial com a atividade declarada”, analisa a PF.

Finalidade das movimentações

A PF concluiu que essas movimentações financeiras atípicas eram fundamentais para manter o esquema criminoso com o financiamento de atividades ilícitas. Na prática, segundo o relatório, o fracionamento de saques e depósitos teria sido utilizado para alimentar um caixa paralelo com diferentes finalidades. Entre os usos finais dos recursos, os investigadores citam o financiamento ilegal de campanhas eleitorais, a compra de votos e o pagamento de propina a agentes políticos em troca de contratos públicos.

 

Para os investigadores, a repetição dos valores e o padrão das movimentações afastam a hipótese de coincidência e indicam uma estratégia para fugir dos mecanismos de controle financeiro.

 

O que a Política Federal revelou sobre o suposto esquema

Conforme mostrou o PontoPoder na última sexta-feira (13), o relatório aponta o deputado federal cearense Júnior Mano e o ex-prefeito foragido de Choró, Bebeto Queiroz, como peças centrais desse suposto esquema criminoso. Para os investigadores, a dupla coordenava uma ampla rede de desvio de emendas parlamentares para financiar campanhas eleitorais, controlar gestões municipais e obter enriquecimento ilícito com recursos públicos. O documento com os indícios contra eles foi enviado ao relator do caso na Suprema Corte, o ministro Gilmar Mendes, no último dia 29 de janeiro. Para a PF, a organização criminosa captava recursos por meio da negociação de emendas parlamentares federais, que previam um retorno de propina variando entre 12% e 15%, e fraudes sistemáticas em licitações municipais. 

 

Para efetivar os desvios e tentar driblar os órgãos de controle, entravam em cena as empresas controladas pelo grupo, como a MK Empreendimentos, a AM Transportes e a Cariri Edificações. Na conta dos empreendimentos, os recursos eram sacados em montantes ligeiramente inferiores a R$ 50 mil e usados para a compra direta de votos, com valores negociados entre R$ 200 e R$ 500, conforme revelou a PF.

 

Quem é quem no esquema?  Bebeto Queiroz, ex-prefeito de Choró, foragido

 

A PF identifica Carlos Alberto Queiroz Pereira, o “Bebeto do Choró”, como o líder máximo e “núcleo irradiador” das condutas investigadas. Ele teria a palavra final sobre a gestão dos recursos ilícitos e a coordenação da compra de votos, inclusive com ingerência em diversas gestões municipais. Ao analisar documentos e aparelhos eletrônicos dos investigados, os agentes da Polícia Federal encontraram elementos que indicam Bebeto como controlador de dezenas de empresas usadas para pagar despesas pessoais e eleitorais dele e de aliados políticos, além de manter troca de mensagens com a negociação de valores para a compra de votos. Ele também atuava, segundo a apuração, para influenciar agentes da Segurança Pública.

 

Ele é indiciado por organização criminosa, compra de votos, lavagem de dinheiro e fraudes licitatórias em concurso com outros investigados.

Desserviço à causa das mulheres

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A eleição da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados reacendeu uma controvérsia previsível. De um lado, críticas que contestam sua presença no colegiado, sob o argumento de que a sra. Hilton não seria mulher. De outro, reações imediatas em sua defesa, afirmando que, como mulher trans, deve ser reconhecida como tal – e que questioná-la seria “transfobia”. O debate, assim, não tardou a se reduzir a uma disputa identitária que pouco esclarece o essencial.

 

Não é por aí. A questão relevante não está em discutir se a deputada é ou não é mulher. À luz das transformações culturais e legais do nosso tempo, trata-se de uma mulher trans. E ponto. Insistir nesse impasse empobrece o debate e desvia o foco. O ponto substantivo é outro: a sra. Hilton é o melhor nome para representar a pluralidade das mulheres brasileiras? Ou sua atuação, marcada por forte carga ideológica, por um comportamento por vezes divisivo e por uma retórica frequentemente confrontacional e persecutória, tende mais a aprofundar cisões do que a construir pontes?

 

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher não é, ou não deveria ser, uma trincheira identitária. É um espaço institucional voltado à formulação de políticas públicas e à construção de consensos mínimos em torno de temas concretos: violência doméstica, desigualdade salarial, acesso a creches, saúde reprodutiva, mercado de trabalho. São assuntos que exigem capacidade de diálogo, articulação e senso de prioridade.

 

Com efeito, a escolha de seus integrantes não pode obedecer apenas à lógica da representatividade simbólica. Representar não é apenas encarnar uma causa, mas ampliá-la, torná-la inteligível e aceitável para além da própria tribo. É construir maioria, não apenas expressar identidade.

 

Não se ignora aqui o fato de que a sra. Hilton construiu sua trajetória com base em pautas legítimas, sobretudo no campo dos direitos das minorias. Mas também se notabilizou por uma atuação que privilegia o embate em detrimento da escuta e da persuasão. Em um ambiente já polarizado, a dúvida é se esse perfil fortalece a agenda das mulheres ou a restringe a um campo ideológico, afastando apoios necessários para avanços concretos.

 

A política brasileira oferece exemplos dos riscos de se confundir representatividade com liderança. Nem todo símbolo é um bom articulador, e nem toda voz potente é a mais eficaz para produzir resultados. Há momentos em que se exige menos afirmação identitária e mais habilidade institucional. Isso não significa deslegitimar lideranças trans.

 

A diversidade é um valor democrático. Mas, por si só, não substitui critérios de eficácia. A pergunta central é mais simples, ainda que de resposta igualmente complexa: quem melhor reúne condições de avançar a agenda das mulheres?

 

Este jornal reconhece a identidade de gênero da deputada, mas não vê em Erika Hilton o nome mais adequado para cumprir essa tarefa com amplitude, equilíbrio e resultado.

Prisão domiciliar para Bolsonaro

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O gravíssimo estado de saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro recolocou diante das instituições brasileiras um dever de maturidade: combinar rigor jurídico com serenidade. Internado em unidade de terapia intensiva com broncopneumonia e portador de um histórico extenso de cirurgias e internações, Bolsonaro enfrenta uma condição clínica que exige extrema cautela. E, acima de tudo, requer que aceitemos o óbvio: chegou o momento para que se converta sua prisão em regime domiciliar.

 

Exceto para militantes mais empedernidos ou análises contaminadas pela ferocidade da polarização, há elementos suficientes para justificar tratamento especial ao ex-presidente. Desconte-se a grita de oportunistas que pretendem capitalizar eleitoralmente o estado de saúde de Bolsonaro ou usá-lo para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF). À parte as paixões políticas, torna-se difícil sustentar a permanência dele em regime fechado.

 

Convém recordar que Jair Bolsonaro não está preso por acaso nem por capricho de adversários. Foi condenado a 27 anos de prisão por liderar uma organização criminosa voltada à tentativa de golpe de Estado e à subversão da ordem democrática. Trata-se de crime de extrema gravidade institucional. Durante meses, Bolsonaro e aliados empenharam-se em desacreditar o sistema eleitoral, mobilizar setores militares e estimular uma ruptura com o resultado das urnas. A responsabilização judicial desses atos é um marco na história republicana.

 

Recorde-se também que o próprio Bolsonaro contribuiu para chegar a essa situação. Ao longo do processo, desafiou decisões judiciais, estimulou confrontos com as instituições e incentivou mobilizações destinadas a constranger o STF. Em diversas ocasiões, comportou-se como quem acreditava poder tensionar indefinidamente os limites da lei sem sofrer consequências. Como já observou este jornal, Bolsonaro pareceu pedir para ser preso, tamanha a sequência de provocações e desobediências às determinações da Justiça.

 

Nada disso muda agora. A doença não altera a gravidade dos crimes cometidos nem autoriza aliados a transformar o quadro médico em instrumento político. Há quem veja na fragilidade física do ex-presidente uma oportunidade de mobilização emocional e dividendos eleitorais. Trata-se de cálculo político cristalino. E cínico.

 

Reconhecer esse oportunismo, no entanto, não dispensa o Estado de agir com prudência e humanidade. A legislação brasileira admite prisão domiciliar quando as condições de saúde do detento são incompatíveis com o ambiente carcerário ou exigem cuidados médicos permanentes. Trata-se de dispositivo legal aplicado cotidianamente, não de privilégio.

 

Há ainda uma dimensão institucional que recomenda cautela. A prisão de um ex-presidente da República nunca é um fato trivial. O Estado deve aplicar a lei com firmeza, mas sem ignorar as circunstâncias excepcionais que cercam alguém que ocupou o cargo máximo do País. Há precedentes para tanto. Quando o ex-presidente Fernando Collor foi condenado e iniciou o cumprimento da pena, o STF avaliou seu estado de saúde e definiu novas condições de encarceramento. Hoje cumpre prisão domiciliar justamente por se entender que sua condição clínica é incompatível com o regime fechado.

 

Se laudos médicos consistentes indicarem situação semelhante no caso de Bolsonaro, a concessão de prisão domiciliar não representará capitulação política nem absolvição disfarçada. Será apenas a aplicação da lei em sua dimensão mais elementar, isto é, aquela que exige que a punição conviva com a dignidade humana.

 

Bolsonaro deve cumprir a pena imposta pela Justiça, decorrente de crimes graves contra a democracia. Mas isso não dispensa o Estado brasileiro de agir com humanidade. Se o quadro clínico assim o exigir, a prisão domiciliar poderá ser a solução juridicamente correta e institucionalmente prudente – não para livrá-lo da lei, insista-se, mas para demonstrar que, no Brasil, até mesmo a punição de um ex-presidente permanece submetida à lei, e não ao impulso da vingança.

Vorcaro ameaça atingir PT e governo Lula em delação premiada sobre conexões do Master

Por Vera Rosa / O ESTADÃO DE SP

 

 

Há um clima de “delação do fim do mundo” na Praça dos Três Poderes. Para sair da prisão, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, já negocia uma colaboração premiada e, de acordo com informações que chegaram ao Palácio do Planalto, pretende puxar o PT e o governo Lula para o escândalo. Até agora, as falcatruas do Master atingiram em cheio o Supremo Tribunal Federal (STF), além de políticos e presidentes de partidos do Centrão. Respingaram, ainda, no ministro da Casa Civil, Rui Costa, que era governador da Bahia à época da expansão do banco, e no líder do governo no Senado, Jaques Wagner, seu antecessor à frente do Palácio de Ondina.

 

Interlocutores de Vorcaro asseguram, porém, que os negócios na Bahia não envolveriam apenas a venda da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) e o cartão para servidores públicos, com desconto em folha de pagamento, chamado CredCesta. Por essa versão, haveria vários escândalos que se conectam, tendo a lavagem de dinheiro como pano de fundo.  “Minha preocupação com isso é zero”, disse à Coluna o ministro Rui Costa, ciente de que a artilharia será dirigida agora para as conexões do PT da Bahia com o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master.

 

Petistas influentes também foram avisados de que Vorcaro não vai incriminar os ministros do STF Dias Toffoli Alexandre de Moraes em sua “confissão”. Diante disso, restariam a ele dois caminhos: ou apontar o dedo para senadores, deputados e até governadores ligados ao Centrão e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ou mirar o PT para acertar o presidente Lula neste ano eleitoral.

 

Vorcaro trocou de advogado justamente com o objetivo de fazer delação: no lugar de Pierpaolo Bottini, que deixou a equipe jurídica do banqueiro, assumiu José Luís Oliveira Lima, conhecido como Juca. Advogado do ex-ministro José Dirceu no escândalo do mensalão, Juca também defendeu o general Braga Netto, hoje preso, no processo da trama golpista e conduziu colaborações premiadas de peso na Lava Jato, como a de Leo Pinheiro, da OAS.

 

Advogados próximos ao ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, afirmam, no entanto, que uma “delação light”, direcionada para atingir um campo político e poupar o outro, não será aceita. Nesse caso, não adiantaria Vorcaro “desbastar” a denúncia, tirando personagens relevantes da “cena do crime”, porque todos os dados serão cruzados com as investigações feitas até agora pela Polícia Federal.

 

A cúpula do PT recebeu recados de que Vorcaro tem, ainda, informações sobre negócios com políticos e empresários de Minas Gerais que podem prejudicar o governo. Detalhe: Minas é o segundo maior colégio eleitoral do País e Lula ainda não conseguiu montar o seu palanque lá. No primeiro mandato do petista, o mensalão teve um importante capítulo em Minas, com investigações sobre empréstimos fraudulentos do BMG para o PT e empresas de Marcos Valério, considerado o operador do esquema. Agora, a oposição faz de tudo para atingir Lula e enfraquecer sua aliança no Estado. Desde o início da redemocratização, quem vence em Minas sobe a rampa do Planalto.

 

Na outra ponta, ministros do STF avaliam que Lula e o PT entraram numa “gincana” com bolsonaristas para ver quem ataca mais o tribunal. Nessa toada, dizem que políticos de A a Z descobriram que bater no Supremo “dá voto”. Mas não é só isso: ameaças de delações para todos os gostos tiram o sono de políticos e magistrados e abalam a Praça dos Três Poderes. Muito além do jardim da Toffolândia e do Xandaquistão...

 

 

Bolsonaro deveria ser transferido a prisão domiciliar

Por  Editorial / O GLOBO

 

 

Ex-presidente Jair BolsonaroEx-presidente Jair Bolsonaro — Foto: Cristiano Mariz/14-9-2025

 

 

Seria um gesto de sensatez e humanidade do Supremo Tribunal Federal (STF) a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro ao regime domiciliar de prisão. Internado em Brasília desde sexta-feira com pneumonia bacteriana, ele apresenta recuperação da função renal e melhora do quadro inflamatório, porém ainda sem previsão de alta. Não está em questão sua condenação por tentativa de golpe de Estado. A pena de mais de 27 anos mal começou a ser cumprida. Mas, dado seu quadro clínico sensível, Bolsonaro receberia mais atenção se pudesse ser transferido para casa, mediante uso permanente de tornozeleira — sem prejuízo de voltar à prisão caso desrespeite as medidas restritivas.

 

Ele está preso em regime fechado desde novembro, depois de repetidas infrações e desrespeito a decisões da Justiça. Em 18 de julho, antes da condenação, o ministro Alexandre de Moraes determinou o uso de tornozeleira eletrônica e recolhimento noturno. Não demorou três dias para Bolsonaro descumprir a proibição de usar redes sociais. No início de agosto, cometeu nova infração ao participar por telefone de manifestações, motivando a prisão domiciliar. Em novembro, demonstrou descontrole ao usar um ferro de soldar para danificar a tornozeleira.

 

Diante da tentativa de fuga, não houve alternativa senão determinar o regime fechado. Bolsonaro foi preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, onde começou a cumprir a sentença. No início do ano, foi transferido a uma ala no 19º Batalhão da PM do Distrito Federal, conhecida como Papudinha. O lugar permitiu acesso regular a banhos de sol e outros confortos. Em regime fechado, Bolsonaro soube manter bom comportamento. Mesmo assim, o restabelecimento da prisão domiciliar deveria vir acompanhado de regras rígidas, com monitoramento constante, vedação a aglomerações e, sobretudo, determinação de volta à prisão ao primeiro deslize.

 

Motivos de saúde não faltam para a transferência. Bolsonaro já havia sido hospitalizado em dezembro para tratar uma hérnia inguinal bilateral. Em janeiro, passou por exames depois de uma queda. Além de sequelas das várias cirurgias realizadas depois do atentado sofrido em 2018, prestes a completar 71 anos, ele sofre de problemas cardíacos e respiratórios. Até o momento, porém, todos os pedidos da defesa por prisão domiciliar foram negados. Há duas semanas, a Primeira Turma do STF — formada por Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia — referendou por unanimidade as decisões que o mantiveram na Papudinha. Serviu de base uma perícia médica da Polícia Federal, segundo a qual seu quadro de saúde demanda cuidados porque ele sofre de hipertensão, aterosclerose, refluxo e aderências intra-abdominais. Mas, como conta com médico e unidade de saúde permanente à disposição, a conclusão foi que não havia justificativa para a domiciliar.

 

A nova internação impõe outra avaliação do STF. No ano passado, Moraes concedeu ao ex-presidente Fernando Collor o benefício da prisão domiciliar em caráter humanitário. Condenado em 2023 a oito anos e dez meses em regime fechado por corrupção e lavagem de dinheiro em esquema na BR Distribuidora, Collor apresentava idade avançada (75 anos) e comorbidades graves, como Parkinson. Bolsonaro sofre de males que lhe submetem a riscos mais urgentes. É adequado, além de justo, que receba o mesmo tratamento.

Lula articula nos bastidores licença de Toffoli e eventual renúncia do STF

Por  Malu Gaspar / O GLOBO

 

 

O presidente Lula e o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF)O presidente Lula e o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF) — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo; Nelson Jr./SCO/STF

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem trabalhando para tentar convencer o ministro Dias Toffoli a se licenciar do Supremo Tribunal Federal (STF) sob o pretexto de evitar o surgimento de novas denúncias contra ele. De acordo com interlocutores do presidente ouvidos pela reportagem, Lula tem pedido a pessoas próximas de Toffoli que o convençam a se afastar alegando motivos de saúde e, no médio prazo, a deixar o Tribunal em definitivo.

 

O presidente tem dito a pessoas próximas ter sido informado de que o que já se tornou público até agora a respeito da relação de Toffoli com o grupo de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, seria apenas um aperitivo do que ainda pode vir à tona. Apesar do esforço de Lula, porém, Toffoli tem dito a quem o questiona a respeito que não tem nenhuma intenção de se afastar e que não há risco de surgirem mais informações comprometedoras que não estejam no material já apresentado pelo diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, ao presidente do STF Edson Fachin, em fevereiro.

 

O documento da PF citava as transações do ministro com o grupo de Vorcaro, que pagou R$ 35 milhões por uma fatia do resort de que Toffoli é sócio. Pressionado pelos pares, o ministro renunciou à relatoria do caso Master, mas Fachin arquivou o processo sobre a suspeição do colega. Indicado ao cargo por Lula em seu segundo mandato, Toffoli pode, em tese, atuar no Supremo até 2042, quando completa 75 anos e será obrigado a se aposentar.

 

Ao justificar sua intenção de fazer Toffoli se afastar, Lula tem dito que a PF já sabe de vários outros episódios que podem complicar a vida do ministro e, por tabela, arrastar o STF de volta para o epicentro da crise. Além disso, uma licença de Toffoli seria uma forma de aliviar a pressão sobre o STF e ajudá-lo a blindar Alexandre de Moraes, também no centro da crise que o Master provocou na Corte por conta do contrato de R$ 130 milhões com o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e pelas mensagens trocadas com Daniel Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro. Numa delas, Vorcaro pergunta ao ministro se ele “conseguiu bloquear” algo até agora não esclarecido.

 

Fator Moraes

A aliados, nos últimos dias, Lula tem dito que não pode deixar Moraes descoberto, por duas razões principais. A primeira é que ele é grato ao ministro pela condução do processo da trama golpista, com a condenação de Jair Bolsonaro e seus ex-ministros e auxiliares. Lula costuma dizer que reconhece que se não fosse Moraes ele muito provavelmente não seria hoje presidente.

 

A segunda razão para blindar Moraes deriva dessa mesma condição. Lula entende que seu governo está tão associado ao ministro que seria impossível um agravamento da crise não o prejudicar – como já vem acontecendo agora.

Sem contar que Moraes deve assumir a presidência do STF a partir de setembro de 2027 – e portanto estará no comando da Corte se o petista se reeleger.

 

A medida do estrago

Na semana passada, várias pesquisas de opinião mediram o estrago provocado pelas revelações sobre o envolvimento de Moraes e Toffoli com o dono do Master. À Meio/Ideia, 44% dos entrevistados disseram que candidatos ao Senado Federal que defendem o impeachment de ministros do STF têm maior probabilidade de receber seu voto.

 

De acordo com a Quaest, 49% dos brasileiros dizem que não confiam no Supremo Tribunal Federal, índice superior ao daqueles que confiam – 43%. Segundo o Datafolha, a desconfiança no STF atingiu um patamar recorde, com 43% dos brasileiros declarando não confiar no STF, o maior índice da série histórica, iniciada em 2012.

 

É um cenário que ajuda Flávio Bolsonaro (PL) e pode machucar ainda mais a campanha de Lula à reeleição, daí porque o presidente tenta aliviar a crise tirando um dos focos de problemas, Dias Toffoli, do caminho. Como em tudo na política, porém, o plano de Lula tem seus riscos. Toffoli não quer nem ouvir falar em licença. E embora o diretor-geral da PF tenha afirmado ao presidente que não há mais nada para surgir de novo a respeito das relações entre Vorcaro e Moraes, todos no Planalto sabem que o caso Master está apenas começando.

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