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Divisão de fundo eleitoral para campanha causa divergência no PT

Augusto Tenório / FOLHA DE SP

 

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, sugeriu enviar o fundo eleitoral das campanhas a deputado para os diretórios estaduais do partido decidirem como será dividida a verba. A sugestão causou forte reação na atual bancada da sigla, que prefere concentrar a partilha na direção nacional.

 

A ideia foi lançada por Edinho numa reunião com a bancada de deputados federais há cerca de três semanas, segundo parlamentares da sigla, com o argumento de que os dirigentes estaduais teriam uma percepção melhor de quais são os candidatos com mais chances e que valeriam maior investimento. Deputados reclamaram imediatamente, e o encontro foi encerrado sem resolução.

 

Deputados afirmaram à Folha, sob reserva, que há preocupação que esse modelo de distribuição de fundo eleitoral os prejudique. Eles dizem que nem todos os parlamentares são da mesma corrente dos dirigentes estaduais da legenda. Por isso, temem serem preteridos na partilha, com a destinação de valores maiores para adversários internos que sejam ligados à cúpula estadual.

 

O PT tem várias tendências internas. A majoritária é a CNB (Construindo um Novo Brasil), mais ao centro. Há ainda correntes minoritárias, como a Mensagem ao Partido e a Articulação de Esquerda, que ficam mais a esquerda.

Mesmo dentro das mesmas correntes, há concorrências internas e disputas. Dessa forma, quem não tem o controle ou não é um aliado próximo dos dirigentes estaduais teme ficar sem fundo eleitoral se a partilha for definida a nível estadual. O presidente pode concentrar os recursos em alguém do seu próprio grupo.

 

Pelo desenho proposto por Edinho, o diretório nacional do PT decidiria o fundo eleitoral das campanhas do presidente da República, de governadores e senadores. Lula, que tentará a reeleição, deve receber algo em torno de R$ 120 milhões, podendo ser mais, caso o presidente não consiga um alto volume de doações privadas.

O investimento para governos e ao Senado deve ser feito a partir da prioridade nacional do partido e do desempenho dos pré-candidatos. A avaliação de Edinho é que a partilha de deputados federais seria feita com mais propriedade pelos diretórios estaduais, por estarem mais próximos das bases eleitorais. Com isso, teriam uma percepção melhor de quem tem mais chance e mereceria um investimento maior.

 

Neste ano, os partidos contarão com R$ 4,9 bilhões de fundo eleitoral, abastecido por recursos públicos. O PT ficou com R$ 615,4 milhões para repassar a candidatos à Presidência, aos governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas.

 

Os gastos cobertos pelo fundo eleitoral incluem produção de material gráfico, impulsionamento de conteúdo na internet, contratação de pessoal, aluguel de espaços para eventos, transporte e serviços de comunicação para os postulantes.

Atualmente, a federação constituída por PT, PC do B e PV conta com 82 deputados. A expectativa do governo é aproximar a bancada de sustentação do presidente Lula para algo próximo das 100 cadeiras nesta eleição, para ampliar a força no Congresso e tornar o presidente menos dependente de outras siglas em novo mandato.

 

O PT ainda não definiu as regras de distribuição. O assunto está em debate no GTE (Grupo Tático Eleitoral) da sigla. Serão estabelecidos critérios também para repasses a candidaturas femininas e de pessoas pretas e pardas.

A divisão do fundo eleitoral também gerou divergências no PSOL. A deputada federal Erika Hilton (SP) acusou o seu partido de dar preferência a novos pré-candidatos da sigla na distribuição.

 

Inteligência artificial tornou-se fato consumado no Brasil

A inteligência artificial está na cabeça e no cotidiano dos brasileiros. De acordo com a pesquisa nacional deste mês de junho do Datafolha, 86% dos entrevistados afirmam conhecer ou ter ouvido falar da tecnologia. Entre eles, a maioria (52%) declara já tê-la utilizado.

As expectativas sobre qual será o efeito líquido da chamada inteligência artificial generativa na vida de cada um estão divididas. Um terço avalia que a inovação trará mais benefícios que prejuízos, outro terço pensa o contrário e os demais que opinaram (26%) preveem impacto neutro.

A opinião pública se divide em duas parcelas equivalentes quanto ao temor de que a sua profissão desapareça pela ação da IA.

As respostas tornam a ficar largamente majoritárias —e negativas— quando os participantes são indagados sobre se os modelos deveriam tomar decisões como as de contratar e demitir profissionais, aprovar empréstimos bancários e definir tratamentos médicos. Humanos são mais confiáveis nessas tarefas para mais de dois terços dos brasileiros.

Uma interpretação plausível dos principais achados da pesquisa é a de que a IA depressa se tornou um fato consumado no Brasil, há relativa incerteza sobre a linha geral de seus benefícios e ampla rejeição a que a responsabilidade por decisões cruciais seja alienada para essas poderosas máquinas computacionais.

Esta Folha vê com otimismo a onda de inovações que cruzou o rubicão com o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022. Ela tem liberado energias transformadoras em praticamente todos os setores da atividade e em escala planetária. Onde quer que haja um padrão, por complexo que seja, as novíssimas ferramentas de IA logram decifrá-lo, automatizando tarefas e reduzindo as falhas e o tempo de sua execução.

Decerto subsistem os riscos inerentes a qualquer revolução tecnológica. Alguns empregos vão se tornar obsoletos, enquanto outros irão surgir ou ganhar proeminência. A transição será tanto mais benéfica quanto mais instruída for a população, mais livre for o ambiente para inovar e competir, mais resistentes forem as defesas contra a cartelização e mais eficiente for o gasto social.

Há que combater o hábito das velhas elites política, empresarial e corporativista brasileiras de impor barreiras à absorção tecnológica, das quais com frequência constam a criação de empresas estatais e privilégios privados.

Não é preciso inventar burocracias, agências ou labirintos regulatórios para enfrentar os comportamentos lesivos dos conglomerados globais que lideram a corrida pela IA, como o seu péssimo costume de roubar conteúdo de terceiros para o treinamento e a operação de seus modelos.

Jamais deveria sair do foco nesse debate o interesse coletivo na prosperidade. É aspiração atemporal da humanidade ter acesso crescente a bens e serviços —e reduzir a necessidade de dedicar esforço pessoal a atividades pouco criativas e compensadoras.

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TCE aponta irregularidades na convocação de concursados da Funsaúde e pede plano de ação

Escrito por Nícolas Paulino / DIARIONORDESTE

 

 

O Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE) endureceu a cobrança sobre o Governo do Ceará em relação ao chamamento de aprovados no concurso da extinta Fundação Regional de Saúde (Funsaúde), bem como o preenchimento de quase 1.700 vagas para assistência à população. 

Um novo relatório de instrução da Secretaria de Controle Externo (Secex), concluído em 15 de junho, aponta que a gestão estadual não preencheu a totalidade das vagas previstas no concurso, mantendo profissionais aprovados no cadastro de reserva enquanto utiliza contratos considerados “precários” com cooperativas para suprir o déficit na saúde pública.

 

Em março de 2026, quando o concurso perdeu oficialmente a validade, a discussão girava em torno de uma petição inicial do Ministério Público de Contas (MPC), que estimava 1.212 vagas ociosas. 

Naquela época, o TCE solicitou esclarecimentos preliminares, e a Sesa alegou que já havia cumprido "rigorosamente" a lei ao convocar os 6.000 aprovados previstos originalmente no certame, negando a existência de previsão legal para chamar o cadastro de reserva.

O novo relatório, de junho, avança para uma análise de mérito pela área técnica do TCE e rejeita as justificativas do Governo. A principal novidade é a atualização do número de vagas ociosas para 1.685, sendo 1.451 oriundas de desistências e 234 de exonerações registradas até o mês de março. 

 

O documento técnico do Tribunal conclui que houve "preterição arbitrária e imotivada", pois o Estado teria ignorado jurisprudências do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que garantem o direito de nomeação aos candidatos da reserva quando surgem vacâncias dentro do prazo de validade do certame.

 

O que previa o concurso?

O concurso da Funsaúde foi realizado em 2021 para preencher 6.000 vagas nas áreas médica, assistencial e administrativa. Em abril de 2023, o Governo do Estado decidiu extinguir a Fundação e determinou que os aprovados fossem incorporados diretamente ao quadro da Secretaria da Saúde (Sesa).

 

A Lei Estadual nº 18.338/2023 estabeleceu um cronograma de convocações até 2026 e previu a redução progressiva dos serviços de cooperativas de saúde à medida que os concursados assumissem seus postos. 

 

No entanto, candidatos e órgãos de controle denunciam que o Governo não está repondo as vagas de quem desiste ou pede exoneração, preferindo manter as terceirizações.

 

Déficit na saúde

O TCE cita nominalmente como responsáveis o governador Elmano de Freitas e a secretária da Saúde, Tânia Mara Coelho. A unidade técnica propõe a audiência de ambos para que apresentem justificativas, sob risco de aplicação de multa. A gravidade da situação é reforçada por uma lacuna no sistema público: o Tribunal calculou um déficit total de 8.103 cargos vagos na Sesa, o que representa cerca de 39% do quadro de pessoal da Secretaria. 

 

O relatório destaca que esse vácuo é preenchido por uma rede de 79 contratos ativos com cooperativas médicas e 131 para funções assistenciais, como enfermagem e fisioterapia.

 

Providências esperadas do Governo

A partir da análise, o TCE aguarda uma ação concreta do Poder Executivo. Entre os pedidos da entidade, destaca-se a assinatura de um prazo para que o Governo apresente um plano de ação detalhado, que deve conter: O preenchimento imediato das 1.685 vagas ociosas por meio da reclassificação e convocação do cadastro de reserva;

 

  • A substituição gradual das contratações precárias (cooperativas e terceirizadas) por servidores efetivos, regularizando o quadro da Sesa conforme exige a Constituição.

Para o TCE, a manutenção das cooperativas para funções permanentes, enquanto existem concursados aguardando, caracteriza uma "ineficiência do concurso" e um risco de descontinuidade dos serviços essenciais prestados à população. Para representantes dos aprovados ouvidos pela reportagem, o TCE "nos passa uma confiança de que a decisão vai trazer mais profissionais para somar ao Sistema Único de Saúde (SUS)" para atender à população cearense.

 

O que diz a Sesa?

Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Sesa informou que, “até o momento, não foi intimada acerca do documento mencionado”. Em março, a Pasta já havia declarado que o Governo do Ceará “cumpriu rigorosamente a Lei nº 18.338/23, finalizando em 2026 o chamamento de todos os 6 mil profissionais aprovados no certame”.

 

Além disso, segundo o relatório do TCE, a representação da Sesa argumentou em oitiva que o Estado agiu de acordo com a Lei nº 18.338/2023 e que a contratação das cooperativas para prestação de serviço complementar é “legítima”.

A Colômbia volta à direita

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Mau perdedor, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, alegou “fraude” para não reconhecer de imediato a derrota de seu candidato, Iván Cepeda, para o oposicionista Abelardo de la Espriella nas eleições presidenciais. Em vão. A Registraduría, órgão responsável pela apuração dos votos, confirmou a vitória de De La Espriella.

 

O futuro ocupante da Casa de Nariño é o mais novo político dito “antissistema” a derrotar o partido no poder, fenômeno que vem ganhando força em todo o mundo.

 

Embora muito se fale em guinada à direita na América do Sul – o triunfo eleitoral de De La Espriella soma-se ao de Javier Milei, na Argentina, de Rodrigo Paz, na Bolívia, e de José Antonio Kast, no Chile –, o resultado colombiano parece antes um sintoma do cansaço generalizado do eleitor com quem quer que esteja no poder, uma fadiga que tem beneficiado candidatos outsiders.

 

É verdade que, no momento, com exceções como o Brasil, a maioria dos países sul-americanos é governada pela direita, ao contrário do que se viu no início dos anos 2000, quando partidos de esquerda dominavam a região – movimento que ficou conhecido como “onda rosa”.

 

Contudo, é preciso matizar as cores dessas ondas – rosa, à esquerda, e azul, à direita. A onda de esquerda ocorreu em um momento no qual o discurso antissistema não era tão prevalente como agora. Os partidos, de uma orientação ou de outra, confrontavam-se, não raro com ferocidade, mas sem pregar contra a ordem político-institucional vigente, como se observa nos últimos anos.

 

Portanto, a onda azul que parece varrer a América Latina configura um fenômeno mais complexo, já que engloba tanto políticos com longa carreira pública, como Paz e Kast, quanto neófitos estridentes, como Milei e o próprio De La Espriella.

 

O fato de a Colômbia ter rejeitado nas urnas sua única administração de esquerda – que, a despeito de algum avanço social, implementou uma política de “paz total” que só agravou a violência – não significa que De La Espriella terá governabilidade fácil. Primeiro, porque sua vitória, incontestável, deu-se por margem estreitíssima: cerca de 250 mil votos o separam do derrotado Cepeda.

Além disso, as propostas do presidente eleito para livrar a Colômbia de um de seus principais traumas históricos – a violência – são controversas. Compreende-se que a população, vítima de criminosos, guerrilhas e dissidências envolvidas nas mais diversas atividades ilícitas, tenha, por esperança ou desespero, optado por De La Espriella. Mas, se quiser de fato melhorar a vida do colombiano atormentado pelo crime, o futuro presidente precisará buscar outra inspiração além de seu homólogo salvadorenho, Nayib Bukele.

 

Encarceramento em massa e supressão de direitos humanos são políticas que podem aplacar a raiva dos cidadãos, mas, cedo ou tarde, cobram um preço elevado sem necessariamente garantir uma paz estável. No caso da Colômbia, país tão marcado pelo crime, é indispensável muita responsabilidade política para lidar com a legítima angústia de sua população.

O Brasil na lanterna da competitividade

Por Notas & Informações O ESTADÃO DE SP

 

 

O Brasil conseguiu a proeza de cair sete posições no Ranking Mundial de Competitividade, elaborado pelo International Institute for Management Development (IMD) em parceria com a Fundação Dom Cabral. O que já era ruim ficou ainda pior. Na edição de 2026, o País aparece num desalentador 65.º lugar, em um rol de 70 economias, à frente apenas de Botsuana, Mongólia, Nigéria, Namíbia e Venezuela.

 

Entre outros vizinhos latino-americanos, o Brasil amarga a pior posição. Chile (43.º), Porto Rico (52.º), Argentina (58.º), Colômbia (59.º), Peru (60.º) e México (62.º) estão todos à sua frente.

 

Apesar de desempenho razoável em indicadores como “atração de investimento estrangeiro” e “geração de energia renovável”, o País segue falhando em áreas fundamentais para a competitividade. No quesito “eficiência governamental”, ficou na penúltima colocação: 69.ª entre 70 países, superando apenas a Venezuela. Por si só, esse resultado é bastante revelador.

 

A ineficiência do Estado está na raiz de muitos dos problemas crônicos do Brasil, a começar pela educação básica de baixa qualidade. Da primeira infância à capacitação profissional, o País falha sistematicamente na qualificação de seus cidadãos. Não por acaso, a produtividade medida pelas horas efetivamente trabalhadas recuou 0,5% no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre).

 

O contraste com economias asiáticas é constrangedor. China e Coreia do Sul, outrora mais pobres do que o Brasil, investiram décadas em educação, infraestrutura e tecnologia. Hoje, superam o País, e muito, em PIB per capita, indicadores educacionais e produtividade do trabalho.

 

O Brasil só não está ainda pior no ranking porque em critérios como “performance econômica” aparece uma posição acima da Suíça (36.ª, ante 37.ª). Mas a comparação é enganosa. A economia suíça, além de figurar há décadas entre as mais maduras do mundo, combina alta eficiência governamental com excelente infraestrutura. Basta dizer que, no ranking geral, a Suíça ocupa o 3.º lugar, atrás apenas de Singapura e Hong Kong. Seu PIB per capita é praticamente dez vezes maior que o brasileiro.

 

O crescimento econômico do Brasil não tem bases sólidas. O País insiste em estratégias de curto prazo, como o estímulo ao consumo imediato, em vez de reformas estruturais com horizonte mais largo. Corre, assim, o risco de perder posições até mesmo nos quesitos em que ainda não figura na lanterna.

 

Como se o quadro já não fosse grave o suficiente, o País está prestes a aprovar o fim da escala de trabalho 6x1, medida cujos efeitos deletérios sobre a produtividade são sobejamente conhecidos. Vale dizer, almeja-se desfrutar das condições de trabalho típicas das nações desenvolvidas, onde as jornadas são mais curtas justamente porque a produtividade é alta, sem passar pelas reformas estruturais e pelos investimentos de longo prazo que tornaram essa realidade possível.

Os números do Fundo Monetário Internacional (FMI) dimensionam o fosso que separa o Brasil daquelas nações mais prósperas. Entre 1980 e 2025, o PIB per capita global cresceu 675%; o do Brasil, no mesmo período, avançou 428%, ou seja, menos de dois terços da média mundial. Enquanto Coreia do Sul, Taiwan e Singapura se desvencilharam da chamada armadilha da renda média, o Brasil parece ter se acomodado nela. Como já sublinhamos nesta página, nada disso é fortuito (ver editorial O Brasil escolheu o atraso, 10/5/2026).

 

A opção pelo desperdício é tanto mais lamentável quanto maiores são as oportunidades desperdiçadas pela Nação. O País dispõe de capital humano, extensão territorial e diversidade de recursos que poucos no mundo podem contrastar. Se não está inscrito em pedra que o Brasil está condenado à mediocridade, há, no entanto, escolhas que há anos nos mantêm aprisionados a esse fado. E enquanto essas escolhas não mudarem, os rankings continuarão a retratar este país que decidiu ser medíocre.

A onipresença das bets tem de acabar

Por Notas & Informações O ESTADÃO DE SP

 

 

A decisão do Ministério da Justiça de investigar a prática de propaganda abusiva do canal CazéTV, que divulga promoções de bets durante a transmissão da Copa do Mundo, é correta, mas suscita dúvidas sobre a seletividade da iniciativa. Concentrar esforços em um veículo específico, enquanto a publicidade ostensiva das apostas online corre solta, de forma desavergonhada, por praticamente todos os espaços de comunicação do País, é um desserviço. É urgente que o Estado imponha regras muito mais restritivas à publicidade das bets, cujos efeitos nocivos para os apostadores há muito são estudados e sobejamente conhecidos.

Hoje, é impossível ignorar a publicidade das bets. Basta assistir a um jogo de futebol para perceber a extensão do problema. Mas não só. Os anúncios de bets, produto responsável por aumentar o endividamento das famílias e afetar a educação de jovens, entre tantos problemas, estão em plataformas digitais, rádios, TV, festas populares, nas ruas e em diversas transmissões esportivas, sem mais restrições além de avisos a serem lidos com lupa sobre a “moderação” na jogatina.

 

É um escárnio. Não faltam dados sobre o estrago que a ludopatia tem feito no País. O Instituto Locomotiva constatou que 86% dos apostadores têm dívidas, 64% dos quais já estão negativados pelos serviços de proteção ao crédito. Entre os brasileiros inadimplentes, quase um terço aposta regularmente. Os efeitos extrapolam o orçamento doméstico: ansiedade, estresse, culpa e alterações de humor aparecem de forma recorrente entre os próprios jogadores. Seis em cada dez entrevistados na pesquisa admitem que as apostas afetam seu estado emocional e provocam sentimentos negativos.

 

Em um aspecto ainda mais alarmante, o estudo O impacto das bets na educação superior, realizado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), mostra que 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam iniciar uma faculdade em 2025 adiaram a matrícula por causa de gastos com apostas. Isso representa quase 1 milhão de brasileiros fora do ensino superior.

 

Já passou da hora de o Estado determinar regras restritivas às propagandas das apostas online, assim como ocorre com a publicidade de cigarros e bebidas alcoólicas. Não se trata de ferir as liberdades individuais, mas de limitar a publicidade de produtos de altíssimo potencial de dano, que obviamente devem estar submetidos a regras compatíveis com os estragos que provocam. Aqueles que quiserem seguir jogando têm todo o direito de fazê-lo, mas sem incentivos sedutores nem tampouco desconhecimento dos riscos que estão correndo.

 

Há iniciativas em curso para tentar conter o avanço das apostas online no Brasil. No início de junho, os Ministérios da Justiça e da Fazenda firmaram uma parceria para combater violações de casas de apostas e ampliar a regulamentação do mercado. Um dos focos da cooperação técnica são as interfaces e recursos que enganam os usuários e os induzem a tomar decisões que beneficiam as bets. Mas essas ações claramente são insuficientes. A restrição tem de ser muito mais draconiana.

 

Como mostrou o Estadão, a publicidade feita por influenciadores, atletas e até medalhistas olímpicos durante as transmissões esportivas edulcora as bets, faz com que as apostas pareçam um entretenimento inofensivo, ampliando os riscos inerentes aos jogos de azar, acelerando sua difusão e convertendo vícios individuais em danos coletivos.

 

Diante de todos esses fatos, é difícil entender o que ainda impede autoridades com poder de barrar a onipresença das bets na vida dos brasileiros de tomar uma decisão de interesse público. Não há dúvida sobre o que precisa ser feito, mas o que sobressai é a falta de coragem para desafiar o lobby dessa indústria deletéria, sob o falso pretexto de risco de colapso do mercado publicitário.

 

A história está aí para denunciar a falácia. Tal como ocorreu à época da imposição de restrições à propaganda de álcool e tabaco, o mercado encontrará rapidamente novos anunciantes. Times, atletas, influenciadores, canais do YouTube e eventos culturais vão seguir atraindo patrocinadores dos mais diversos produtos para sustentar seus modelos de negócio, sem que isso seja feito à custa da saúde física, psíquica e financeira dos brasileiros.

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