Com emboscada e até tiros, avanço do crime organizado coloca agentes do Ibama em risco na Amazônia
Por Lucas Altino / O GLOBO
Foto de 2025 mostra fiscais do Ibama em Terra Indígena onde ataque aconteceu — Foto: Reprodução
Uma operação contra exploração ilegal de madeira no último sábado, no Amazonas, evidenciou o risco crescente a que estão submetidos agentes do Ibama que atuam na região. Ao tentar apreender um caminhão usado na prática clandestina dentro da Terra Indígena (TI) Tenharim-Marmelos, no município de Manicoré, cinco fiscais foram atacados por homens armados e precisaram se esconder na mata, enquanto a viatura da equipe era incendiada. Episódios como esse vêm se tornando cada vez mais comuns na Amazônia, em um fenômeno associado ao aumento da presença de facções no bioma, segundo o próprio órgão ambiental.
Nos últimos anos, atentados similares repetiram-se em diferentes pontos amazônicos, sobretudo em operações contra garimpo ilegal e exploração de madeira, atividades com forte presença dessas organizações criminosas. O caso em Manicoré ocorreu durante fiscalização em ramais clandestinos de escoamento de madeira ilegal na TI. O material é posteriormente comercializado na região da Vila Santo Antônio do Matupi, na rodovia Transamazônica.
Durante a ação, os agentes flagraram dois caminhões transportando madeira, e conseguiram abordar um deles. Antes de o veículo ser apreendido, contudo, um grupo com cerca de 30 homens armados chegou ao local e iniciou agressões físicas contra os fiscais.
Mesmo em inferioridade numérica e de armamento, os servidores conseguiram fugir para a floresta. Horas depois, retornaram à cidade de Humaitá (AM) e seguiram à sede da Polícia Federal (PF), onde denunciaram o ocorrido. De acordo com o Ibama, parte dos autores do ataque já foi identificada a partir de relatos e imagens registradas pelas vítimas.
Um estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de dezembro passado, mostrou que, entre 2023 e 2024, 42 mil dos 68 mil hectares de terra usados para extração de madeira no Amazonas não tinham autorização, 62% do total. Em um esquema de “lavagem de madeira”, grupos usam autorizações de outros lotes para validar, ilegalmente, a comercialização de vegetação retirada de áreas proibidas, como as terras indígenas. Embora nem toda a cadeia clandestina tenha participação direta de facções do narcotráfico, esses grupos vêm investindo cada vez mais nesse tipo de atividade por conta da alta lucratividade e da facilidade para lavar dinheiro obtido com outras práticas criminosas.
Agentes expostos
Procurado pelo GLOBO, o Ibama informou que não possui estatísticas específicas sobre ataques a seus servidores. A escalada da violência, entretanto, é confirmado pelo diretor de Proteção Ambiental do instituto, Jair Schmitt: — Estou há 24 anos no Ibama, conheço bem a Amazônia, e hoje o perfil criminal é totalmente diferente. Em momentos do passado a gente nem precisava trabalhar armado, mas isso agora é impensável. Aumentou o número de ataques, qualquer servidor confirma. O ambiente está mais violento, e os agentes públicos mais expostos.
Schmitt destaca justamente a chegada das facções à região como um dos fatores determinantes para o fenômeno. Para lidar com o novo panorama, cada operação passou a ser feita com um levantamento de áreas de risco, além do estabelecimento de protocolos e planejamento específicos junto aos fiscais. — O crime organizado tem se arvorado na Amazônia, principalmente na mineração e exploração madeireira — diz o diretor, que elenca ainda como causas o aumento da circulação de armas no país e a desestruturação do Ibama e das ações de fiscalização na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o que teria “empoderado” os criminosos. — Essas pessoas estão formando pequenas resistências ao poder do Estado, e as invasões em Terras Indígenas viraram prática rotineira.
A hostilidade na Amazônia também ficou visível durante as operações na TI Yanomami contra o garimpo. Ao longo de 2023, quando a missão especial começou, fiscais do Ibama foram atacados com armas de fogo pelo menos dez vezes. Retirada do território Yanomami, parte dos envolvidos na atividade ilegal migrou para a TI Sararé, em Mato Grosso, que se transformou na Terra Indígena mais desmatada entre 2024 e 2025. Em setembro do ano passado, cinco garimpeiros ligados ao Comando Vermelho (CV) atiraram, com fuzil, em agentes do Ibama. Após o confronto, eles abandonaram a arma, carregador, munições, celular e um kit de internet por satélite antes de escapar.
Outra TI com episódios de violência é a Terra Apyterewa, no Pará. Em dezembro último, equipes do Ibama e da Funai, além da Força Nacional de Segurança e das polícias Civil e Militar, foram atacadas durante uma ação de desintrusão e apreensão de gado. Um colaborador que prestava apoio ao trabalho morreu após ser emboscado e atingido por disparos de arma de fogo.
A Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, também se tornou um local de ameaças. Só no ano passado, foram contabilizados ao menos sete confrontos armados em ações contra o garimpo, com 12 suspeitos presos.Na semana passada, quatro pessoas foram condenadas pelo incêndio, em Manaus, de dois helicópteros utilizados em operações de fiscalização do Ibama, em um prejuízo de mais de R$10 milhões. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a motivação foi retaliar as fiscalizações ambientais na região.
‘Guerra na floresta’
Binho Zavaski, diretor da Associação dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente do Distrito Federal (Asibama-DF) e ex-presidente da associação nacional, também avalia que, na última década, houve a ascensão, na Amazônia, de grupos como CV, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Família do Norte. Além da atuação tradicional no tráfico de drogas e de armas, eles passaram a investir no garimpo clandestino e na exploração de madeira: — É uma guerra na floresta, uma guerra contra o crime ambiental praticado por grupos extremamente poderosos e organizados, do Brasil e de fora — alerta.
Em meio a esse cenário, servidores negociam o pagamento de uma Gratificação de Atividade de Risco (GAR). Além disso, Zavaski cobra a integração das diferentes forças de segurança nessas operações e o investimento em equipamentos de proteção. — Além dessa sensação de impunibilidade, de que o crime ambiental compensa, ainda tem a constante pressão desses grupos pela mudança da legislação, para que essas atividades ilícitas possam, ali na frente, ser regularizadas rendendo, muitas vezes, o que já rende hoje através dessa condição ilegal — acrescenta.
Histórico da violência
- Fevereiro de 2023: Quatro garimpeiros ilegais morreram em troca de tiros com agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Ibama na Terra Indígena Yanomami. Na ação, armas foram apreendidas, incluindo um fuzil (foto). Segundo suspeita da PRF à época, os suspeitos seriam membros do PCC. Agosto de 2023: Uma equipe do Ibama foi atacada a tiros durante fiscalização contra o garimpo ilegal na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, no Pará. Um criminoso, que portava uma pistola, foi baleado e, apesar de socorrido, não resistiu ao ferimento (foto).
- Setembro de 2023: Fiscais do ICMBio e policiais da Força Nacional foram atacados e tiveram os carros queimados durante fiscalização na Floresta Nacional de Aripuanã, no Sul do Amazonas. No local, foram encontrados armas, equipamentos e veículos usados para desmatamento ilegal. Junho de 2025: Agentes do ICMBio que atuavam na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, passaram a ser regularmente atacados. Ofensiva incluiu bloqueio de estradas com fogo, destruição de pontes, cortes de cerca e até tentativa de incêndio no acampamento da equipe de fiscalização.
- Setembro de 2025: Cinco garimpeiros ligados ao CV trocaram tiros de fuzil com agentes do Ibama durante operação na Terra Indígena Sararé, um dos territórios mais devastados do país. Após o confronto, eles abandonaram arma, carregador, munições, celular e um kit de internet (foto). Dezembro de 2025: Um colaborador do Ibama que apoiava as equipes que atuavam na desintrusão da Terra Indígena Apyterewa, no Pará, morreu após ser atingido por disparos de arma de fogo. A operação havia sido determinada pelo STF, com retirada de invasores e a apreensão de gado.

