Como fica e qual o futuro do PDT após a saída dos deputados estaduais rumo ao PSB
A filiação de oito deputados estaduais do PDT ao PSB, nesta sexta-feira (7), compõe mais um capítulo da crise interna da sigla que há pouco mais de três anos era a principal força política do Ceará. Desde as eleições de 2022, a legenda registrou uma debandada de prefeitos e de parlamentares. A desidratação, no entanto, ainda promete novos capítulos, com a perspectiva de que, até o próximo ano, os deputados federais sigam os passos dos estaduais.
O Diário do Nordeste procurou lideranças pedetistas que permanecem na sigla e ouviu cientistas políticas sobre os rumos da legenda no Ceará. Ao todo, o partido tinha 13 deputados estaduais, contudo, a bancada reduziu para cinco nomes: Antônio Henrique, Cláudio Pinho, Bruno Pedrosa (aliado de Cid, mas decidiu ficar na sigla), Queiroz Filho e Lucinildo Frota (eleito pelo PMN, mudou para o partido). Nessa nova conjuntura, a maioria da bancada do partido será da oposição no Estado.
A lista dos que saíram tem: Antônio Granja (suplente em exercício), Guilherme Landim, Guilherme Bismarck (suplente em exercício), Jeová Mota, Lia Gomes (licenciada), Marcos Sobreira, Oriel Nunes (licenciado), Osmar Baquit (licenciado), Romeu Aldigueri, Salmito Filho, Sérgio Aguiar e Tin Gomes (suplente em exercício).
O grupo seguiu o rumo tomado pelo senador Cid Gomes (PSB), por dezenas de prefeitos e centenas de vereadores que deixaram os quadros pedetistas em fevereiro do ano passado e se filiaram ao PSB. A perda de nomes se refletiu em enfraquecimento eleitoral. No pleito de 2024, o PDT elegeu apenas 5 prefeitos, número bem inferior aos 67 eleitos em 2020.
A cientista política e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), Mariana Dionísio, ressaltou que essa saída de mandatários pedetistas ocorre em um ritmo fragmentado, o que torna a situação da sigla ainda mais delicada.
“Entre 2023 e 2024, 40 prefeitos pediram desfiliação do partido e, agora, deputados eleitos pelo PDT se juntam à sigla do principal dissidente: o PSB de Cid Gomes. Essa transição é o reflexo claro desta disputa interna e sinaliza a desidratação da legenda. Há poucas esperanças para a sobrevivência política do PDT enquanto as disputas internas não forem resolvidas. Quando Ciro Gomes decidiu pelo isolamento da sigla em prol de uma estratégia política que flertava com a independência, acabou por desperdiçar alianças e prolongar a crise”, disse.
A perda de quadros, no entanto, não é o único revés do PDT. Outra derrota importante ocorreu na capital cearense, onde o prefeito José Sarto (PDT), que disputou a reeleição, ficou em terceiro lugar. O mau desempenho nas urnas se refletiu nacionalmente, com o PDT saindo do rol de partidos com prefeitos eleitos em capitais. Soma-se a isso o quarto lugar de Ciro Gomes (PDT) na corrida pela Presidência da República em 2022.
O PDT que fica
Entre os nomes que se mantêm no PDT, uma das saídas encontradas por parte do grupo foi se reaproximar do grupo governista em Fortaleza. Esse movimento gerou uma nova divisão na legenda, já que os aliados mais fiéis ao ex-prefeito Roberto Cláudio (PDT) e a Ciro Gomes defendem que a sigla seja oposição municipal, estadual e nacional ao PT.
Na Câmara de Fortaleza, Jânio Henrique (PDT) e PPCell (PDT) integram essa ala. "Estou aqui para declarar para os meus eleitores e para o povo de Fortaleza que farei uma oposição ao PT, consequentemente, ao governo de Evandro Leitão. Uma oposição séria, coerente e, acima de tudo, propositiva, sempre propondo melhorias e benfeitorias. Quando prefeito acertar, vou estar lá para aplaudir e apoiar, quando errar, vou estar lá para cobrar", disse PPCell, em vídeo nas redes sociais, na última terça-feira (4).
Contudo, a ampla maioria da bancada pedetista assumiu posição de base do prefeito após a vitória de Evandro. Ao todo, são seis nomes, incluindo o ex-presidente da Câmara, Gardel Rolim (PDT). Além de apoiar Sarto no primeiro turno, o político reforçou a campanha de André Fernandes (PL) no segundo turno, mas, atualmente, passou a figurar na lista de membros da base. O vereador, inclusive, se reuniu com o prefeito na última sexta-feira (7).
Presidente nacional interino do PDT, o deputado federal André Figueiredo conversou com o Diário do Nordeste e explicou sobre como o partido tenta equilibrar a relação entre as duas alas.
“A bancada do PDT tem seis parlamentares que encaminharam apoio à gestão do Evandro e dois de oposição, independência. Vamos trabalhar enquanto bancada apoiando a gestão do Evandro, vamos ter uma posição unificada, respeitando as diferenças, (...) os posicionamentos divergentes de dois vereadores”, disse.
O pedetista também minimizou as diferenças entre a posição das bancadas pedetistas em Fortaleza e no Estado em relação aos governos petistas, reforçando que o PDT integra a base do Governo Lula, mas é oposição em vários municípios. “Os entes federados não necessariamente se vinculam uns aos outros (...) Vamos dialogar com a bancada de deputados estaduais, o mais importante é estarmos unidos”, finalizou.
O futuro do PDT
Para Monalisa Torres, a continuidade do PDT como uma sigla com algum peso no Ceará dependerá do surgimento de lideranças que ocupem o espaço de articulador deixado por Cid.
“O que coloco é a possibilidade para o PDT de atrair uma liderança que tenha a mesma capacidade de atração de lideranças, de articulação política e carismática, de concorrer para o Legislativo, por exemplo, e de ser puxador de votos, mas é difícil, considerando os quadros que vão restar. Quem poderia ocupar esse espaço? O Roberto Cláudio? Sinceramente, eu não sei se ele vai continuar na legenda depois das eleições de 2024. O Ciro? Ele não atua muito a nível local, fica mais nas questões nacionais. Então, a legenda hoje não tem tantas lideranças expressivas”, concluiu.
Outro desafio para o partido é a possibilidade de mais uma debandada com a saída de deputados federais. Parlamentares como Eduardo Bismarck, Idilvan Alencar, Mauro Filho e Robério Monteiro receberam uma carta de anuência para deixar o PDT em 2023. O documento é o mesmo usado pelos deputados estaduais para conseguir autorização da Justiça para deixar a legenda.
No caso dos federais, eles não demonstraram interesse em sair imediatamente da sigla, mas há a possibilidade de que mudem de sigla até 2026. Essa migração deve ser a mais danosa para o PDT, já que a representatividade na Câmara dos Deputados é usada como base de cálculo para envio de recursos para a campanha e tempo de propaganda eleitoral. Quanto maior a bancada de deputados federais de um partido, maior será o acesso a esses benefícios.
“Para lideranças com projetos políticos mais ambiciosos, como Roberto Cláudio e Ciro Gomes, esse cenário representa um grande desafio (...) Sem uma base parlamentar sólida e sem apoio expressivo no Estado, eles podem ter a competitividade comprometida, especialmente em uma eventual disputa pelo governo do Ceará ou por um cargo majoritário nacional”, concluiu a cientista política e professora.
O presidente do PDT Fortaleza, Roberto Cláudio, foi procurado pela reportagem, mas indicou ouvir o presidente nacional interino do PDT, André Figueiredo.
Um veredicto para a Foz do Amazonas
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Incontáveis vezes Lula da Silva se manifestou pública e abertamente favorável à perfuração de um poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial. A afirmação recente que fez ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de que o processo será destravado em breve, é apenas mais um sinal de que a decisão política está tomada, o que, aliás, também já ficou evidente há algum tempo. E aí está o problema: o tempo que se arrasta sem que a decisão se converta em fato.
Depois do encontro com Alcolumbre, em entrevista a uma rádio mineira, o presidente voltou ao tema, declarando que o governo terá de “encontrar uma solução para explorar essa riqueza”, sem detalhar como pretende pôr fim a uma batalha travada dentro do próprio governo. De um lado, a ala ambientalista; do outro, a Petrobras, que há 12 anos vem tentando obter licença para operar na área arrematada em leilão. Multinacionais que adquiriram blocos licitados na Margem Equatorial desistiram do negócio após anos de queda de braço com o Ibama, num dos exemplos mais flagrantes de insegurança em contratos públicos.
Reunião recente no Planalto, com a presença dos ministros da Casa Civil, Rui Costa, e do Meio Ambiente, Marina Silva, além dos presidentes da Petrobras, Magda Chambriard, e do Ibama, Rodrigo Agostinho, sinalizou que se pode ter chegado a um consenso. A confirmação, feita por Agostinho, de que haverá uma nova avaliação do Ibama após a Petrobras concluir a construção de uma unidade de proteção da fauna no Oiapoque alimenta essa expectativa.
Há muito a exploração na Foz do Amazonas deixou de ser uma questão essencialmente técnica para se transformar numa interminável disputa de poder político. Desde o início do terceiro mandato de Lula, dúvidas sobre a permanência de Marina Silva no governo pairam sobre decisões relativas à Margem Equatorial. A renúncia de Marina em 2008, no segundo mandato de Lula, como resposta ao esvaziamento de sua pasta, é memória ainda viva.
Passados dois anos de mandato, a missão de Marina no governo tomou dimensão maior que o debate isolado sobre a Foz do Amazonas. E, paradoxalmente, a importância da cúpula mundial do clima (COP-30), que neste ano será sediada no Brasil, não por acaso às portas da Amazônia, em Belém (PA), contribui para isso, assim como o trabalho de combate ao desmatamento e a incêndios florestais e avanços importantes como a fixação da nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) para redução da emissão de gases.
Estrategicamente, Lula saiu em defesa da ministra dizendo que tentam “jogar em cima da companheira Marina a responsabilidade pela não aprovação” da licença para o posto teste. Ao que se sabe até agora, a intenção do presidente é de que a autorização saia ainda neste semestre, para evitar atropelos com a COP-30, em novembro. Tanto melhor que a solução para a Margem Equatorial se confirme o quanto antes.
Afinal, a abertura de uma nova fronteira de exploração de petróleo é, antes de tudo, uma decisão soberana do Estado brasileiro.
À falta de governança, resta o ‘gogó’
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O presidente Lula da Silva rasgou de vez a fantasia de chefe de Estado e de governo e resolveu vestir o figurino que mais o deixa confortável: o de eterno candidato em campanha eleitoral. Premido pela queda de popularidade, além dos sucessivos desgastes causados, direta ou indiretamente, pelo vazio programático que marca seu terceiro mandato, Lula se lançou numa turnê Brasil afora com o objetivo, segundo disse, de “disputar no gogó” com a oposição. À guisa de divulgar realizações do governo, Lula quer ampliar o campo da batalha discursiva contra seus adversários políticos para além das redes sociais, um ambiente dominado pela direita, como é notório.
Por ora, é vistoso o ânimo do petista para subir no palanque com cada vez mais frequência, malgrado daqui até 2026 Lula ter sob sua responsabilidade direta um país acossado por problemas de toda ordem que demanda a atenção e o tempo do presidente da República. Lula decerto não pedirá votos para não afrontar tão acintosamente a Lei Eleitoral, mas, na prática, seu giro pelo País, iniciado na quinta-feira passada, no Rio de Janeiro, não é outra coisa senão uma campanha eleitoral antecipada – afinal, como o próprio petista admitiu, “2026 já começou”. Tanto é assim que essa estratégia para tirar o governo das cordas, segundo reportagens publicadas pela imprensa, foi concebida pelo marqueteiro Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), responsável pela vitoriosa campanha do petista na eleição de 2022.
Além das viagens de Lula, Sidônio programou roteiros para a primeira-dama Rosângela da Silva, conhecida como Janja, o vice-presidente Geraldo Alckmin e ministros de Estado. Mas não há tour de force publicitária que dê conta de engambelar os brasileiros quando o próprio Lula se ressente publicamente de não conseguir imprimir uma “marca” em seu governo, como o fez nos outros dois mandatos presidenciais. O fato de um marqueteiro ser o condutor dos passos de Lula daqui até as próximas eleições gerais – pois foi com essa missão que Sidônio foi alçado ao cargo de chefe da Secom – diz muito sobre a real preocupação do presidente, qual seja, a reeleição, e não a construção de uma agenda virtuosa para o País, claramente identificada como tal e negociada com a sociedade por meio de seus representantes no Congresso. Se assim o fizesse, os resultados viriam como desdobramentos naturais e, muito provavelmente, tamanho esforço de propaganda seria ocioso.
A estratégia publicitária não é nova e deu certo no passado, o que seguramente é um fator motivador para que Lula desça do Palácio do Planalto e suba no palanque antes da hora. Na esteira do escândalo do mensalão, há cerca de 20 anos, Lula também decidiu sair de Brasília e rodar pelo País para escapar da crise política que se abateu sobre seu governo na capital federal. Como se sabe, o movimento foi bem-sucedido, haja vista que o petista foi reeleito em 2006. A diferença, porém, era o estado da economia brasileira à época, muito mais favorável ao então incumbente do que agora. Somadas à violência urbana que apavora os brasileiros, a carestia e a estagnação econômica estarão no centro do debate político com vistas à sucessão de Lula em 2026, ano em que a defesa da democracia contra a ameaça golpista encarnada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, inelegível até 2030, certamente terá papel muito menos determinante do que teve em 2022.
Além de apreensão, em que pese o fato de mal ter iniciado a metade final de seu mandato, o recurso ao “gogó” revela que Lula claramente fez a escolha de sobrepor a política de imagem à governança responsável capaz de responder aos desafios econômicos e sociais que o Brasil enfrenta neste momento.
Não se sabe exatamente como Lula e o País chegarão a 2026, mas é certo que o eleitorado estará cansado de uma retórica vazia, que não encontra respaldo na vida cotidiana de milhões de brasileiros ansiosos pela concretização de um futuro mais auspicioso para todos – há muito prometido, mas nunca plenamente realizado.
O impressionante déficit das estatais
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
As estatais tiveram um déficit de R$ 8,1 bilhões no ano passado, segundo o Banco Central (BC), uma deterioração e tanto em relação a 2023, quando houve um resultado negativo de R$ 2,2 bilhões aos cofres públicos. Foi o pior resultado de toda a série histórica. Esse número se refere apenas às estatais que não dependem do Tesouro Nacional para arcar com gastos de custeio e empregados. Isso exclui Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e BNDES, além de empresas públicas que integram o Orçamento, como Embrapa e Codevasf.
O resultado causou péssima impressão, e a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, rapidamente foi escalada para explicá-lo. Segundo ela, o número expressa apenas a diferença entre receitas e despesas correntes do ano. Muitas dessas companhias têm utilizado o caixa acumulado em anos anteriores para realizar investimentos. Nove das 20 estatais federais acompanhadas pelo BC têm registrado lucro, de acordo com Dweck.
À luz dessas justificativas, o estrondoso déficit das estatais até parece menos grave do que ele é. Segundo ela, muitas empresas ficaram praticamente “proibidas” de investir durante os governos de Jair Bolsonaro e Michel Temer. Sob o governo Lula da Silva, isso mudou, o que explicaria boa parte do déficit. Os Correios seriam um exemplo disso. A atual gestão da empresa diz ter investido R$ 2 bilhões, que estavam em caixa, em tecnologia, renovação da frota e infraestrutura, entre outras áreas. Por isso, sozinhos, os Correios representaram 40% do déficit das estatais, com R$ 3,2 bilhões.
O presidente dos Correios, Fabiano Silva dos Santos, disse que a empresa estava sucateada, praticamente “na bacia das almas”, mas que agora está em processo de franca recuperação. Há, segundo ele, um plano de reestruturação em curso para torná-la lucrativa. Mas os números da empresa não autorizam qualquer otimismo. Os Correios acumularam um prejuízo de R$ 2,1 bilhões entre janeiro e setembro do ano passado, depois de perdas de R$ 597 milhões em 2023 e de R$ 767 milhões no ano anterior.
A perspectiva para o futuro não é positiva. Os Correios argumentam ter perdido R$ 2,2 bilhões em receitas desde que o governo começou a taxar as “blusinhas”. Em razão do programa Remessa Conforme, os Correios perderam a exclusividade que detinham na importação de compras de até US$ 50. Ora, se a concorrência tem conquistado parte do mercado de encomendas, mais um motivo para os Correios serem mais eficientes e reduzirem seus custos. Mas não é isso que a empresa almeja fazer, pelo contrário. A intenção é restabelecer essa reserva de mercado para melhorar seu desempenho.
O argumento da exclusividade, por óbvio, vale apenas para um lado. Os Correios alegam que precisam arcar, sozinhos, com o custo de universalização dos serviços, sem qualquer ajuda do Tesouro, como se essa não fosse a função de uma empresa que detém monopólio constitucional para tal. Não é novidade que a empresa tenha um custo fixo elevado com empregados – são, afinal, quase 85 mil em todo o País. Mas, paradoxalmente, essa mesma empresa realizou um concurso público para contratar 3,5 mil novos funcionários no ano passado.
O presidente dos Correios disse, ainda, que medidas adotadas por gestões anteriores afetam o resultado atual. Nisso ele tem razão. No ano passado, os Correios se comprometeram a pagar R$ 7,6 bilhões ao fundo de pensão de seus funcionários para cobrir metade do rombo do Postalis nos próximos anos. A maior parte desse rombo, no entanto, se deve aos péssimos investimentos realizados durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.
A trajetória dos Correios desfaz a narrativa que o governo Lula da Silva tenta emplacar para diminuir a relevância do déficit das estatais. Se hoje ainda há lucro, é apenas porque as empresas estão queimando caixa sem conseguir reverter um padrão ruim. A continuar dessa forma, esse lucro muito em breve se converterá em prejuízo. Longe de ser algo menor e que possa ser relativizado, o resultado indica uma tendência perigosa para o futuro e demonstra que o temerário modo petista de gerir estatais voltou com tudo.
PSD, Republicanos e PP: siglas da base criticam governo e alimentam alternativas para 2026
Por Caio Sartori — Rio / O GLOBO
Alianças eleitorais costumam refletir a coalizão de governo montada nos anos anteriores pelo presidente da República, mas Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta nas últimas semanas a artilharia de partidos que comandam, somados, oito ministérios. Caciques de PSD, Republicanos e PP fazem críticas abertas à gestão petista e vislumbram outros caminhos para 2026, com mais sinais oposicionistas do que governistas. Ao mesmo tempo, o União Brasil prepara o lançamento da pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado, governador de Goiás. Além de Caiado, outros quadros dessas legendas ventilados como presidenciáveis são o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o do Paraná, Ratinho Júnior (PSD).
No momento, essas siglas negociam a conquista de espaços no governo, na iminência da reforma ministerial aguardada para as próximas semanas. Cientes de que o Planalto precisa delas para garantir a governabilidade, aproveitam para aumentar seus passes. — Não é legal (emparedar o governo), diz alguma coisa sobre a natureza da aliança. Mas não quer dizer que isso não seja um jogo para extrair alguma vantagem — avalia a cientista política Argelina Figueiredo, referência há décadas nos estudos sobre presidencialismo de coalizão. — Mas, sim, alguns desses partidos têm uma opção clara, que é o Tarcísio. E quem tem alguma carta na mão não deixa de jogar.
É incomum ver partidos que ocupam espaços relevantes em governos abraçarem outra candidatura na eleição seguinte. Quase sempre a coalizão governamental espelha a aliança de sucessão. Um caso marcante, no entanto, foi o do antigo PFL, que era a principal base de sustentação de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) durante todo o governo, mas na reta final pulou do barco e ficou neutro em 2002, em vez de apoiar o tucano José Serra. — A conjuntura desde 2014 e o fator Bolsonaro tornaram Lula muito refém desses partidos que ganharam força nesse período. Há um Congresso mais forte e com partidos mais fisiológicos e conservadores — diz a professora do Iesp-Uerj.
Haveria neste mandato uma distância maior entre as visões ideológicas e programáticas do governo e as do Congresso, o que deixa Lula dependente dos partidos fortalecidos. Não se trata, diz Argelina, do fim do presidencialismo de coalizão motivado pela ascensão das emendas parlamentares, e sim de uma mudança na dinâmica, na esteira de fatores políticos. Caso a aprovação de Lula continue a cair, o cenário pode piorar.
A crítica de Gilberto Kassab, presidente do PSD, foi a que mais doeu no petista. O dirigente voltou atrás na semana passada e disse que torce pelo sucesso de Lula, mas antes havia avaliado que ele perderia se a próxima eleição fosse hoje. A depender do estado, o PSD tem quadros mais lulistas, como Rio e Minas, ou mais bolsonaristas, caso do Paraná.
Disputa por espaço
Na contramão do movimento da centro-direita, o PSB aposta na lealdade a Lula para defender a manutenção de Geraldo Alckmin como vice do petista na chapa do ano que vem. Enfrenta, no entanto, um MDB com cardápio farto de nomes e disposto a tomar o espaço.
Em entrevista ao GLOBO, o prefeito do Recife, João Campos, classificou como disfunção do sistema o fato de partidos que comandam ministérios robustos não darem indícios de que vão apoiar a reeleição do presidente. Campos tende a assumir em maio a presidência nacional do PSB e deixa claro que uma das principais bandeiras será manter Alckmin na chapa.
— Isso é uma prioridade. Quando fizemos a aliança com Lula, o maior partido a apoiá-lo foi o PSB. Nenhum dos grandes partidos que hoje têm ministérios apoiou Lula — disse em janeiro. — E tenho certeza de que muitos também não coligarão no ano que vem. Isso é uma disfunção, claro que é, mas para resolver não é simples. Hoje o modelo de representação no Congresso quase exige que isso seja feito.
Se a maioria dos partidos de centro e centro-direita vive relação dúbia com Lula, o MDB — detentor de três ministérios — aspira ao cargo que hoje é de Alckmin. São considerados nomes fortes para a vice o ministro dos Transportes, Renan Filho, a do Planejamento, Simone Tebet, e o governador do Pará, Helder Barbalho.
PSB e MDB, inclusive, trocaram farpas na semana passada por causa do impeachment de Dilma Rousseff (PT), que beneficiou o então vice emedebista Michel Temer. O presidente do PSB, Carlos Siqueira, disse à Folha de S. Paulo que a experiência com o MDB na vice “não é das melhores na história”. Foi rebatido por uma dura nota oficial do outro partido, que apontou que “ao longo de 2016, o PSB mudou de posição e, na última hora, votou a favor do impeachment da Dilma”.
Lula está diante de inflação combinada com freio no PIB
Como era de esperar depois do choque de juros e da piora geral das condições financeiras decorrentes da política orçamentária irresponsável do governo petista, os primeiros sinais de desaceleração da economia começam a aparecer.
Em dezembro, a criação de empregos com carteira assinada, ajustada para excluir fatores sazonais, caiu para apenas 23 mil, a primeira surpresa negativa em dois anos de ritmo mensal de cerca de 150 mil postos.
Em janeiro, outras evidências, desta vez nas sondagens de confiança de vários setores da economia, sugerem apreensão quanto ao futuro. O indicador relativo aos consumidores, por exemplo, caiu de 91,3 para 86,2 pontos no mês, a leitura mais baixa desde fevereiro de 2023.
Alta da inflação em itens essenciais, como alimentos e combustíveis, corrói o poder de compra e deve levar as famílias a um comportamento mais austero diante dos riscos, que podem incluir a perda de emprego.
Com a escalada do dólar, mesmo que arrefecida nas últimas semanas, e do IPCA, que aponta para mais de 5% neste ano, o Banco Central vem elevando sua taxa de juros. A Selic já está em 13,25% ao ano e deve ter mais uma elevação de 1 ponto percentual em março. Ainda não é claro quando cessará o arrocho monetário.
A causa para essa conduta é a gigantesca expansão dos gastos públicos nos últimos dois anos, que impulsionou a demanda além da capacidade produtiva e com isso pressionou os preços.
Mesmo descontando fatores sazonais para o encarecimento dos alimentos, o gênio da inflação de serviços, mais duradoura, já saiu da garrafa —e será custoso colocá-lo de volta.
A questão, agora, é qual será a resposta do Planalto. Os ensaios da área política do governo, até aqui, são preocupantes.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já deu declarações desastradas sobre como os brasileiros devem lidar com a inflação, sugerindo alterações nos hábitos de consumo como forma de baixar preços.
Apenas colheu piadas nas redes sociais, em mais uma falha de comunicação depois da trapalhada em torno do monitoramento da Receita Federal sobre as transações por meio do Pix.
O mandatário também insistiu que os bancos públicos devem expandir o crédito. Tudo indica que novas iniciativas virão para ampliar modalidades, como o consignado, mesmo diante do já elevado endividamento das famílias e do comprometimento da renda com o pagamento de juros.
Tais medidas seriam um contraponto à alta da Selic —algo temerário, pois qualquer tentativa de dificultar o ajuste necessário para controlar a inflação apenas tornará ainda mais contraditória a política econômica.
Hoje, o aumento insustentável das despesas do Tesouro Nacional tem efeito acelerador no PIB, enquanto os juros do BC buscam frear a atividade. O perigo, como de costume, é que nenhuma das tarefas seja cumprida a contento.

