Força Aérea Brasileira abate avião venezuelano que entrou clandestinamente no espaço aéreo do Brasil
Por Adriana Victorino / O ESTDÃO DE SP
A Força Aérea Brasileira (FAB) abateu um avião venezuelano suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas. A aeronave entrou ilegalmente no espaço aéreo brasileiro na manhã desta terça-feira, 11, e desobedeceu às ordens de pouso forçado. Após a interceptação com tiros, o avião caiu em uma área de floresta nas proximidades de Manaus (AM). De acordo com a corporação, a medida é utilizada como último recuso, após a aeronave descumprir todos os procedimentos estabelecidos e continuar o voo ilícito.
Dois homens que pilotavam a aeronave foram encontrados mortos. Durante a operação, realizada em conjunto com a Polícia Federal (PF), os agentes localizaram um carregamento de drogas dentro do avião, cuja quantidade ainda está sendo avaliada.
Segundo a FAB, a aeronave não tinha identificação e foi detectada invadindo o espaço aéreo brasileiro. Diante disso, foram iniciadas “medidas de averiguação” para identificar sua procedência. Os procedimentos adotados seguem o Decreto nº 5.144, de 2004, que regulamenta a chamada “Lei do Abate”.
Os militares ordenaram que o avião alterasse a rota e pousasse em um aeródromo na região amazônica. Como não houve resposta, tiros de aviso foram disparados. Após a continuidade do voo irregular, a FAB classificou a aeronave como “hostil” e aplicou o Tiro de Detenção (TDE), recurso extremo utilizado para impedir a continuidade do voo ilícito.
“Não atendendo aos procedimentos coercitivos descritos no Decreto nº 5.144, a aeronave foi classificada como hostil e, dessa forma, submetida ao Tiro de Detenção (TDE), que consiste no disparo de tiros, com a finalidade de impedir a continuidade do voo. Essa medida é utilizada como último recurso, após a aeronave interceptada descumprir todos os procedimentos estabelecidos e forçar a continuidade do voo ilícito”, informou a FAB.
Brasil volta a ser visto como lugar bom para corruptos
Por Editorial / O GLOBO
O Brasil obteve no ano passado a pior colocação no ranking sobre percepção de corrupção da ONG Transparência Internacional desde que ele começou, em 2012. Há dez anos, estava no mesmo patamar de Bulgária, Grécia, Itália e Romênia. De lá para cá, todos melhoraram. O Brasil foi exceção. Agora estamos empatados com Argélia, Nepal e Níger. No Judiciário, o desmonte do combate à corrupção ficou patente em decisões favoráveis a implicados pela Operação Lava-Jato que haviam confessado crimes. Em vez de corrigir os erros da operação, optou-se por anulações indiscriminadas. No Legislativo, o inchaço das emendas parlamentares passou a irrigar esquemas de desvio de dinheiro público. Não surpreende que o Brasil tenha despencado da 69ª posição, alcançada em 2012, e hoje esteja no 107º lugar entre os 180 países avaliados no ranking da Transparência.
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), é apontado pelo relatório da Transparência Internacional como responsável pelas decisões de maior impacto negativo no Judiciário. Em 2023, ele anulou sozinho as provas do acordo de leniência da Odebrecht. Sua decisão monocrática, segundo a Transparência, “produziu efeito devastador em 2024, levando à anulação de mais de uma centena de casos no Brasil e beneficiando outros réus em, pelo menos, uma dezena de jurisdições estrangeiras”. Nos dois últimos anos, Toffoli suspendeu multas bilionárias do grupo J&F e da Odebrecht e negou-se a levar os casos para a apreciação do plenário da Corte. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, recorreu de quase todas as decisões, mas até o momento o STF pouco — se algo — fez para analisar os recursos.
Faz tempo o Legislativo tem sido uma usina de escândalos relacionados a emendas parlamentares. O ano passado não foi diferente. Entre 2022 e 2024, o orçamento empenhado em emendas cresceu 63%, chegando a R$ 46 bilhões. Nenhum Parlamento no mundo destina gastos na mesma proporção. A anomalia prima pela opacidade. Deputados e senadores fazem o que podem para esconder quem toma as decisões e o destino dos recursos. Depois de as emendas do relator que alimentavam o “orçamento secreto” serem julgadas inconstitucionais em 2022, os parlamentares passaram a usar as emendas de comissão para dirigir os recursos, um subterfúgio para impossibilitar a identificação do “parlamentar patrocinador”. Episódios escabrosos de desvios e corrupção aparecem sempre que há esforço maior de investigação.
A Transparência elogia as decisões do ministro Flávio Dino, do STF, relativas às emendas. Em decisões monocráticas depois confirmadas por seus pares, Dino tem defendido a transparência e a rastreabilidade do gasto público. Cada movimento do Congresso para tentar justificar o gigantismo e a opacidade das emendas aumenta a convicção de que algo de errado ocorre no Brasil. Pelas declarações dos recém-empossados presidentes da Câmara e do Senado, prosseguirá o embate do Parlamento com a Constituição. As tentativas de enfraquecer a Lei da Ficha Limpa e de anistiar os golpistas do 8 de Janeiro em nada contribuem para atenuar a percepção de leniência com a corrupção. A queda do Brasil na lista da Transparência poderá ser ainda mais vergonhosa.
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Auditoria na Previ é oportuna pelos riscos que ameaçam fundos de pensão
Por Editorial / O GLOBO
Foi preciso o ministro Walton Alencar, do Tribunal de Contas da União (TCU), pedir urgência para que os técnicos enfim dessem início à auditoria na Previ, o bilionário fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (BB), aprovada em agosto do ano passado. A auditoria recoloca em questão o uso dos fundos de pensão das estatais para turbinar planos de investimento mal estruturados e de execução obscura, com fins nitidamente políticos. Vale lembrar que, no passado recente, Previ, Petros (da Petrobras) e Funcef (da Caixa Econômica) despejaram recursos de seus cotistas em investimentos sem fundamento técnico, que resultavam no pagamento de propinas a partidos e políticos, desmascaradas no escândalo do petrolão.
O objetivo inicial da auditoria na Previ era apurar se a indicação, em 2023, do sindicalista João Fukunaga para o comando do maior fundo de pensão da América Latina obedecera às normas legais. Fukunaga é funcionário concursado do BB e fez carreira como secretário do Sindicato dos Bancários de São Paulo. A urgência solicitada por Alencar vem, porém, da constatação adicional de que o principal plano de previdência da Previ fechou o período de janeiro a novembro de 2024 com perdas de R$ 14 bilhões.
É perfeitamente possível que o déficit possa resultar de desequilíbrio técnico nos ativos mantidos pelo fundo, cuja carteira flutua segundo valores de mercado (esse déficit só se transforma em prejuízo para os cotistas caso os ativos sejam vendidos). Apesar disso, Alencar justifica a urgência pela necessidade de mapear “potenciais riscos”. E cita “os muitos exemplos danosos já ocorridos”.
Nos anos 1990, durante os governos Fernando Henrique Cardoso, os fundos de pensão investiram na privatização de estatais, nem sempre com resultados positivos. Os piores danos ocorreram nas gestões petistas. Previ, Petros e Funcef foram essenciais para a criação da Sete Brasil, estatal cujo objetivo era encomendar 29 sondas aos estaleiros nacionais e alugá-las à Petrobras. A Sete naufragou em dívidas, jamais foi competitiva no mercado e ganhou destaque como foco da corrupção desmascarada pelas investigações da Operação Lava-Jato. A empresa pediu recuperação judicial em 2016, e sua falência foi decretada em 2019. Hoje, a massa falida pede na Justiça indenização à Petrobras. Funcionários do Banco do Brasil, da Petrobras e da Caixa tiveram de fazer contribuições extraordinárias para tapar os rombos.
Tal história mostra os riscos a que estão sujeitos os fundos de pensão das estatais. É preciso proteger o patrimônio de seus cotistas e evitar que casos assim se repitam. Por isso a auditoria do TCU é tão oportuna.
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Fiasco em ranking de corrupção é resultado lógico
Na vida pública, como na particular, é frequentemente possível optar por um ou outro caminho a seguir. Entretanto não se podem escolher as consequências da opção tomada. Tal reflexão é válida para ilustrar o lamentável afrouxamento, nos últimos anos, das regras e práticas destinadas a coibir a corrupção no Brasil.
A progressiva tolerância com a rapinagem do colarinho branco configurou, nesse período recente, o verdadeiro e talvez único projeto de união nacional a agregar o chamado centrão e os dois polos do espectro partidário. Do congraçamento participam também as cúpulas do Executivo, Legislativo e Judiciário.
Escolha feita, consequência deflagrada. Em 2024, o Brasil teve o pior desempenho em 12 anos no mais reputado levantamento global sobre a percepção da corrupção. O país caiu três posições em relação a 2023 e foi o 107º colocado numa lista de 180 nações arroladas no indicador da Transparência Internacional.
O Brasil divide a desonrosa posição com Turquia, Argélia, Tailândia, Níger, Maláui e Nepal. No escore sintético, produzido com dados de organizações globais e entrevistas com agentes privados, a república brasileira caiu também em termos absolutos e é tida como mais corrupta que Índia, Indonésia e Marrocos.
Mas o ministro da Controladoria-Geral da União, Vinicius Carvalho, mostra-se bem menos preocupado com o retrocesso no combate ao flagelo da corrupção do que com a má imagem do país revelada pelo documento da Transparência Internacional. Levar a sério esse indicador pode, segundo ele, alimentar "narrativas que minam a confiança nas instituições democráticas".
Tornou-se lugar-comum do discurso governista tratar a veiculação de dados ou argumentos desabonadores como ameaças de bomba atômica autoritária. Enquanto isso, dissimula-se o acordão formado nas altas esferas da República para destruir os esforços anticorrupção do passado e fazer vista grossa a potenciais desmandos do presente.
Uma reviravolta do Supremo Tribunal Federal enterrou, para efeitos práticos, um dos maiores escândalos de desmandos com dinheiro público que já se documentaram no país sob a Lava Jato. O Palácio do Planalto passa a mão na cabeça de um ministro sob suspeita de desviar recursos da estatal Codevasf.
A sem-cerimônia com que deputados federais e senadores torram bilhões em emendas de escasso controle escancara o baixíssimo risco de operações fraudulentas serem objeto de detecção, denúncias e condenações judiciais definitivas. A farra se dissemina em Assembleias estaduais e Câmaras municipais.
Desmerecer o diagnóstico da Transparência Internacional não mudará a realidade de que a corrupção vem se tornando mais tolerável no Estado brasileiro. Se há algo que desestabiliza a democracia nesse tema é o descaso com o dinheiro dos contribuintes.
Alta dos gastos parafiscais alimenta incerteza
Por Editorial / O GLOBO
A forte expansão do gasto público desde a volta do PT ao Planalto é responsável não apenas pelo aumento do endividamento público, mas também pela alta dos preços — apesar de a inflação de janeiro ter ficado em 0,16%, melhor resultado do mês desde o Plano Real, o acumulado em 12 meses continua acima da meta (4,56% ante 4,5%). Talvez esse seja o motivo mais evidente para o cidadão comum dar atenção ao desarranjo fiscal. Merecem especial atenção aquelas despesas que, apesar de crescentes e recorrentes, não entram oficialmente no Orçamento. Conhecidas como parafiscais, incluem o financiamento de políticas públicas por fundos estatais, sua exclusão dos cálculos do arcabouço fiscal, o incentivo artificial ao consumo pelos bancos públicos, investimentos de estatais ou aumento do crédito subsidiado pelo BNDES com fins e garantias duvidosos e toda sorte de “criatividade contábil”.
O total dessas despesas em 2024 é estimado entre 0,3% e 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) — ante um déficit primário oficial que ficou em 0,1%. Parece pouco, mas elas estão crescendo e, neste ano, deverão somar pelo menos 1% do PIB, nas contas de bancos e economistas. A última manobra para gastar fora das regras foi, de acordo com o economista Marcos Mendes, uma mudança feita na lei em dezembro para permitir à estatal Pré-Sal Petróleo (PPSA) ser remunerada por fora do Orçamento. Dessa forma, o governo promoverá investimentos bilionários e se comprometerá com gastos fixos, sem levá-los em conta no cálculo nas metas fiscais. Quem entra no site da PPSA dá de cara com propaganda de concurso público para 100 vagas.
O Congresso também tem contribuído para ampliar os gastos parafiscais. O Pé-de-Meia é um promissor programa do Ministério da Educação, de ajuda financeira a alunos do ensino médio. Mas, ao criá-lo, os parlamentares estipularam que os novos gastos não estariam submetidos às regras do arcabouço fiscal. Em 2023, o Tesouro Nacional capitalizou um fundo para financiá-los. Ora, o fato de o Pé-de-Meia ou qualquer outra iniciativa ser considerada essencial não significa que deva ser excluída das regras fiscais. Ao contrário. Governar é escolher prioridades dispondo de recursos limitados, e negar esse fato óbvio não passa de enganação. O resultado os consumidores brasileiros já têm visto na hora de pagar a conta nos supermercados.
De olho nas eleições do ano que vem, o governo teima em manter a economia artificialmente acelerada, mesmo sabendo que mais cedo do que tarde o prejuízo chegará. Caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva priorize objetivos eleitorais de curto prazo, o Banco Central será obrigado a elevar mais os juros ou a deixá-los altos por mais tempo para enfrentar a inflação — com impacto na dívida pública, cuja alta no atual mandato é estimada em até 14 pontos percentuais do PIB. Quanto mais essa dívida cresce, mais caro é financiá-la, e menos dinheiro sobra para programas essenciais. Entre o ganho político imediato e o bem-estar futuro dos brasileiros, o governo tem insistido na primeira opção. Mas, infelizmente, não existe um universo paralelo em que se possa gastar à vontade com medidas parafiscais sem semear o caos.
O ministro que falou demais
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A desautorização curta, seca e taxativa do ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, pela Casa Civil, a propósito da possibilidade de reajuste do benefício do Bolsa Família, é sintoma típico de um governo que bate cabeça. Na busca por soluções milagrosas que, ao mesmo tempo, façam sumir os efeitos deletérios da inflação e resgatem a popularidade perdida pelo presidente Lula da Silva, ideias surgem em profusão. Mas, como não existe milagre para recolocar a economia nos trilhos, o resultado é, quase sempre, desastroso. Foi este o caso, mais uma vez.
Em entrevista recente à Deutsche Welle, Dias afirmou que o reajuste do benefício “está na mesa” e que a decisão seria tomada “até o fim de março”. Ao portal, o ministro informou que sua pasta está preparando um relatório sobre o Bolsa Família. “Temos que manter (o benefício no piso de) 40 dólares, que é o padrão internacional para o consumo. Nisso haverá pouca alteração. O problema é o preço dos alimentos, que teve essa elevação brusca do fim do ano passado para cá”, disse o ministro.
Em sua lógica, uma alteração no Bolsa Família contribuiria para suavizar o impacto da inflação sobre a população mais pobre. “Será um ajuste? Será um complemento na alimentação?”, comentou Dias, dizendo que a decisão seria tomada “dialogando com o presidente”. A repercussão imediata foi o lacônico comunicado da Casa Civil, negando estudos sobre o assunto e afirmando que o tema “não está na pauta do governo e não será discutido”. Na sequência, um comunicado do próprio Wellington Dias desmentiu a informação, com o cuidado de frisar que o ministério está comprometido com a responsabilidade fiscal.
Diante da avidez com que o governo busca fórmulas que reacendam a aura de Lula da Silva até as eleições de 2026, não parece inverossímil que o assunto tenha sido, de fato, colocado à mesa. Ainda mais porque a medida provisória que criou, em março de 2023, o “novo Bolsa Família” – em substituição ao programa do governo Bolsonaro, rebatizado de Auxílio Brasil – fixava prazo de dois anos para reajustar os valores dos benefícios e a linha de corte de quem é elegível ao programa. Não parece ser por acaso que o prazo estabelecido pela proposta e a declaração do ministro coincidam.
Na época, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome chegou a informar que a intenção era a de que as famílias beneficiárias não ficassem mais de 24 meses sem atualização no benefício para evitar que a inflação viesse a corroer o poder de compra. O Bolsa Família é a vitrine dos programas sociais de governos petistas e funciona como uma espécie de passaporte eleitoral. Mas, por óbvio, o custo precisa caber no cobertor curto do Orçamento anual do governo.
Elevar o valor do benefício para combater os efeitos da inflação, no entanto, é um contrassenso. Atacar as consequências – em vez das causas da inflação – não resolve o problema. O governo sabe que a forma de contribuir para estabilizar os preços é, em primeiro lugar, equilibrar o Orçamento público, sem artifícios ou espertezas, como tem sido visto no expurgo de gastos de políticas expansionistas da contabilidade federal.
Na mesma entrevista ao portal alemão, Dias, um petista histórico, relativizou com notável naturalidade o estouro da meta de inflação no ano passado. “Se a meta era 4,5% e fechamos em 4,8%, ficamos praticamente na meta, né?”, disse o ministro, atribuindo a ataques especulativos o descontrole cambial e criticando a reação do Banco Central, que, com a alta de juros, estaria “fazendo o contrário do seu papel”.
É provável que a confusão criada por Wellington Dias ao alimentar as expectativas dos beneficiários do Bolsa Família, além de provocar uma súbita queda da Bolsa e um aumento do dólar, tenha se instalado não pelo que disse, e sim por tê-lo dito. Não foi a primeira tampouco será a última vez que um governo sem foco programático e movido única e exclusivamente pelo ímpeto de Lula da Silva em se reeleger cometerá trapalhadas desse tipo.

