PSD, Republicanos e PP: siglas da base criticam governo e alimentam alternativas para 2026
Por Caio Sartori — Rio / O GLOBO
Alianças eleitorais costumam refletir a coalizão de governo montada nos anos anteriores pelo presidente da República, mas Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta nas últimas semanas a artilharia de partidos que comandam, somados, oito ministérios. Caciques de PSD, Republicanos e PP fazem críticas abertas à gestão petista e vislumbram outros caminhos para 2026, com mais sinais oposicionistas do que governistas. Ao mesmo tempo, o União Brasil prepara o lançamento da pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado, governador de Goiás. Além de Caiado, outros quadros dessas legendas ventilados como presidenciáveis são o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o do Paraná, Ratinho Júnior (PSD).
No momento, essas siglas negociam a conquista de espaços no governo, na iminência da reforma ministerial aguardada para as próximas semanas. Cientes de que o Planalto precisa delas para garantir a governabilidade, aproveitam para aumentar seus passes. — Não é legal (emparedar o governo), diz alguma coisa sobre a natureza da aliança. Mas não quer dizer que isso não seja um jogo para extrair alguma vantagem — avalia a cientista política Argelina Figueiredo, referência há décadas nos estudos sobre presidencialismo de coalizão. — Mas, sim, alguns desses partidos têm uma opção clara, que é o Tarcísio. E quem tem alguma carta na mão não deixa de jogar.
É incomum ver partidos que ocupam espaços relevantes em governos abraçarem outra candidatura na eleição seguinte. Quase sempre a coalizão governamental espelha a aliança de sucessão. Um caso marcante, no entanto, foi o do antigo PFL, que era a principal base de sustentação de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) durante todo o governo, mas na reta final pulou do barco e ficou neutro em 2002, em vez de apoiar o tucano José Serra. — A conjuntura desde 2014 e o fator Bolsonaro tornaram Lula muito refém desses partidos que ganharam força nesse período. Há um Congresso mais forte e com partidos mais fisiológicos e conservadores — diz a professora do Iesp-Uerj.
Haveria neste mandato uma distância maior entre as visões ideológicas e programáticas do governo e as do Congresso, o que deixa Lula dependente dos partidos fortalecidos. Não se trata, diz Argelina, do fim do presidencialismo de coalizão motivado pela ascensão das emendas parlamentares, e sim de uma mudança na dinâmica, na esteira de fatores políticos. Caso a aprovação de Lula continue a cair, o cenário pode piorar.
A crítica de Gilberto Kassab, presidente do PSD, foi a que mais doeu no petista. O dirigente voltou atrás na semana passada e disse que torce pelo sucesso de Lula, mas antes havia avaliado que ele perderia se a próxima eleição fosse hoje. A depender do estado, o PSD tem quadros mais lulistas, como Rio e Minas, ou mais bolsonaristas, caso do Paraná.
Disputa por espaço
Na contramão do movimento da centro-direita, o PSB aposta na lealdade a Lula para defender a manutenção de Geraldo Alckmin como vice do petista na chapa do ano que vem. Enfrenta, no entanto, um MDB com cardápio farto de nomes e disposto a tomar o espaço.
Em entrevista ao GLOBO, o prefeito do Recife, João Campos, classificou como disfunção do sistema o fato de partidos que comandam ministérios robustos não darem indícios de que vão apoiar a reeleição do presidente. Campos tende a assumir em maio a presidência nacional do PSB e deixa claro que uma das principais bandeiras será manter Alckmin na chapa.
— Isso é uma prioridade. Quando fizemos a aliança com Lula, o maior partido a apoiá-lo foi o PSB. Nenhum dos grandes partidos que hoje têm ministérios apoiou Lula — disse em janeiro. — E tenho certeza de que muitos também não coligarão no ano que vem. Isso é uma disfunção, claro que é, mas para resolver não é simples. Hoje o modelo de representação no Congresso quase exige que isso seja feito.
Se a maioria dos partidos de centro e centro-direita vive relação dúbia com Lula, o MDB — detentor de três ministérios — aspira ao cargo que hoje é de Alckmin. São considerados nomes fortes para a vice o ministro dos Transportes, Renan Filho, a do Planejamento, Simone Tebet, e o governador do Pará, Helder Barbalho.
PSB e MDB, inclusive, trocaram farpas na semana passada por causa do impeachment de Dilma Rousseff (PT), que beneficiou o então vice emedebista Michel Temer. O presidente do PSB, Carlos Siqueira, disse à Folha de S. Paulo que a experiência com o MDB na vice “não é das melhores na história”. Foi rebatido por uma dura nota oficial do outro partido, que apontou que “ao longo de 2016, o PSB mudou de posição e, na última hora, votou a favor do impeachment da Dilma”.

