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Desabamento em igreja expõe descaso com patrimônio

Por Editorial / O GLOBO

 

 

O desabamento do teto da Igreja da Ordem Primeira de São Francisco, no Centro Histórico de Salvador, mostra o descaso com que o Brasil trata os turistas e o patrimônio histórico. A tragédia matou uma jovem de 26 anos, feriu cinco visitantes e destruiu uma relíquia do barroco brasileiro. Era notória a precariedade do templo, conhecido como Igreja de Ouro e considerado uma das sete maravilhas de origem portuguesa no mundo.

Dois dias antes da tragédia, o frei Pedro Júnior Freitas da Silva, guardião-diretor da igreja, alertara o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre a dilatação no teto e pedira vistoria. A inspeção estava prevista para esta quinta-feira, mas o desabamento não esperou os trâmites burocráticos. A fissura no teto era só uma das muitas carências da igreja. Em 2023, reportagem do portal g1 revelou o estado do edifício. Havia pilastras sem reboco, piso desnivelado, fiação exposta e, em alguns lugares do complexo religioso, o teto estava escorado em ripas de madeira. Um dos pátios fora parcialmente interditado devido ao risco de queda de um pináculo, depois removido.

 

Como é costume nas tragédias nacionais, consumado o desabamento, iniciou-se um jogo de empurra sobre a responsabilidade. O Iphan informou que vistorias não acontecem todo dia, mas apenas quando é detectado um problema. Alegou que o pedido foi feito pelo protocolo normal, sem urgência. Para situações de emergência, disse o instituto, a igreja deveria ter procurado a Defesa Civil ou o Corpo de Bombeiros. A Defesa Civil de Salvador argumentou que, embora tivesse conhecimento do comprometimento de algumas partes da estrutura, não havia risco de desabamento, por isso o prédio não foi interditado. E o Corpo de Bombeiros se disse surpreso.

O acidente expõe o pouco-caso com o patrimônio nacional. Na prática, não existe rotina de cuidado com relíquias como a Igreja de Ouro, construída entre os séculos XVII e XVIII e tombada pelo Iphan desde os anos 1930. Quando acontece uma tragédia, todos se eximem de responsabilidade. A queda do teto está longe de ser caso isolado. A preservação de edifícios históricos deixa a desejar em todo o Brasil. Em 2018, um incêndio destruiu o Museu Nacional, no Rio, incinerando um acervo de valor inestimável — o museu não tinha proteção contra fogo. O patrimônio da Bahia, diz Luiz Alberto de Freire, da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), está “seriamente comprometido” com a falta de manutenção. Ele cita como exemplo o Convento de Santa Teresa, de 1686, sede do Museu de Arte Sacra da UFBA.

 

Tão importante quanto investigar o desabamento e punir os responsáveis pela morte da jovem é evitar que ocorram casos semelhantes. É preciso identificar as construções que correm maior risco e recuperá-las, antes que desabem ou sejam destruídas por incêndios. Compreende-se que prédios erguidos séculos atrás acumulem problemas estruturais, mas outros países mantêm conservadas construções muito mais antigas.

 

Não se pode dizer que faltem recursos. No fim do ano passado, o governo reservou R$ 1,77 bilhão para emendas parlamentares de comissão (de um total de R$ 4,2 bilhões bloqueados pelo STF). O Ministério do Turismo ficou com o maior quinhão: R$ 441 milhões. Quanto dessa bolada foi destinado ao restauro ou à preservação do patrimônio?

 

 

O interior da Igreja da Ordem Primeira de São Francisco, em Salvador, onde teto desabou

 

Planos de saúde: reajustes e falta de atendimento dobram ações na Justiça, que pesam nas contas das operadoras

Por  — Rio / O GLOBO

 

 

O volume de ações judiciais de consumidores contra operadoras de planos de saúde encerrou 2024 com quase 300 mil novos casos. O patamar mais que dobrou em três anos e é o maior já registrado desde o início do monitoramento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2020.

 

Para operadoras, a judicialização excessiva do setor pressiona custos, que acabam elevando os reajustes dos contratos, e, na ponta, consumidores desassistidos veem na Justiça o caminho para acessar tratamentos e remédios.

 

Os dados do CNJ não detalham as ações mais recorrentes, mas, segundo advogados que atuam no setor, elas se concentram em negativas de tratamento pelas operadoras e reajustes excessivos dos contratos.

 

No estado mais populoso do país, a maior parte dos novos processos envolvem casos de garantia de tratamento médico (64,7%) e fornecimento de medicamentos (17,9%). Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), foram 21.334 novas ações em 2024, 0,7% a menos que o total registrado no ano anterior.

 

Depois de mais de um ano tratando um câncer de mama, a servidora pública Tama Bulbow, de 48 anos, viu a doença voltar e atingir seus pulmões, ossos e linfonodos. Os médicos receitaram medicamento de uso contínuo que atacaria a doença com menos efeitos colaterais. O tratamento custaria, ao mês, cerca de R$ 30 mil.

 

Ela buscou sua operadora, mas a cobertura foi recusada sob o argumento de que, apesar de inclusa no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a substância não era indicada para o tipo de tumor que ela enfrenta.

 

Seus médicos, então, optaram por um tipo específico de quimioterapia, mas o pedido também foi negado. Ela levou o caso à Justiça e, após decisão liminar no fim de novembro, a operadora passou a entregar à beneficiária o medicamento.

 

— Antes de judicializar, pedi algumas vezes para a operadora reavaliar, mas sempre recebi negativas. Não foi por falta de tentativa. Pago o plano há 20 anos. Quando precisei, o tratamento me deu uma dor de cabeça — desabafa.

 

Tratamentos negados

Especialista em Direito à Saúde do escritório Vilhena Silva, o advogado Caio Henrique Fernandes diz que o número de casos tem aumentado ano a ano, e que, além dos tratamentos negados pelas operadoras e percentuais muito altos de reajuste, no ano passado houve um pico de novos processos tratando do cancelamento unilateral dos contratos pelas empresas.

 

Só nos quatro primeiros meses do ano, a ANS recebeu 5.648 reclamações de usuários sobre as rescisões, 31% acima do patamar registrado em igual período de 2023. O aumento só parou após um acordo entre as operadoras e o então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira.

 

— A Justiça não é o primeiro caminho do usuário. Ele geralmente busca a ANS, abre uma reclamação, mas o problema não é resolvido e ele acaba recorrendo ao Judiciário — diz Fernandes.

 

A advogada Melissa Leal Pires, especializada em Direito Aplicado aos Serviços de Saúde e Direito do Consumidor, destaca ainda que outro tema frequente entre as ações é a barreira comercial encontrada por consumidores acima dos 60 anos, que ou não conseguem contratar novos planos ou são impedidos de realizar a portabilidade dos contratos:

 

— No passado, as operadoras eram mais agressivas nessa barreira da idade. Hoje, elas impõem uma contratação com carência e cobertura limitada, dependendo da faixa etária. E até quando a pessoa tem direito à portabilidade sem carência, eles exigem.

 

Em novembro, o CNJ e a ANS firmaram um acordo de cooperação técnica para a redução das ações na Justiça. A iniciativa prevê a elaboração de notas e pareceres técnico-científicos da agência reguladora para abastecer o e-Natjus, sistema que reúne informações do setor para ajudar magistrados na tomada de decisões.

 

A plataforma já tem uma equipe técnica e banco de dados, desenvolvido pelo Ministério da Saúde e os hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, para auxiliar magistrados nas ações que envolvem o Sistema Único de Saúde.

 

— Começaremos um projeto-piloto junto ao Tribunal de Justiça da Bahia neste semestre — diz Daiane Lira, conselheira do CNJ e supervisora do Fórum Nacional do Judiciário para a Saúde (Fonajus).

 

Impacto nos custos

Entre 2019 e 2023, a judicialização custou R$ 17,1 bilhões às operadoras, segundo dados da ANS levantados pela Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). Gustavo Ribeiro, presidente da entidade, defende que, entre casos levados à Justiça, são minoria aqueles em que o beneficiário tem direito:

 

— A maioria é judicialização indevida e casos de fraude, como pedidos de tratamento a partir de laudos fraudados. Essas distorções acabam tirando dinheiro do usuário que paga o plano.

Vera Valente, diretora executiva da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), que representa 12 grandes grupos de planos de saúde, argumenta que muitos casos na Justiça envolvem tratamentos e medicamentos “com custos altíssimos” e não incluídos no rol da ANS.

 

‘Ruim para todo mundo’

Vera cita, por exemplo, o Zolgensma, indicado para o tratamento de atrofia muscular espinhal (AME), considerado o remédio mais caro do mundo. Cada dose chega a custar R$ 6 milhões. Em 2023, o medicamento foi incluído no rol da ANS com indicação para pacientes pediátricos com até 6 meses de idade e que estejam em ventilação mecânica invasiva, ou seja, entubados.

 

— Mas vemos casos de pessoas adultas tentando acessar o tratamento na Justiça. Quando se judicializa para acessar o que não está previsto em contrato, há um prejuízo a todos que estão no sistema. O medicamento de alto custo sai do bolso de todo mundo, o impacto é imenso. A judicialização excessiva é ruim para todo mundo — argumenta.

 

Analista de Saúde do Itaú BBA, Vinicius Figueiredo afirma que, analisando mês a mês, houve queda no volume de novas ações a partir de setembro passado. Ainda assim, a alta ano a ano se traduz em mais custos para as operadoras.

 

Figueiredo destaca que as empresas conseguiram “se equilibrar melhor” em 2024, não apenas com reajustes maiores, mas com novas estratégias, como flexibilização do pagamento à rede prestadora e parcerias entre operadoras e hospitais para reduzir custos:

 

— Naturalmente a judicialização se traduz em mais custo para as operadoras, mas ainda faz sentido pensar em reajustes (dos contratos coletivos) na casa dos dois dígitos, próximos de 10%.

 

Para analistas do Citi, apesar da desaceleração no número de novos processos em dezembro (queda de 21% em relação a igual mês de 2023), “continua preocupante o rápido aumento de novos casos envolvendo saúde suplementar no Brasil”. “Esse movimento reflete não apenas o perfil historicamente judicializado do setor, mas também desenvolvimentos regulatórios recentes que contribuíram para esse cenário”, dizem os analistas.

Reforma sem rumo não conserta nada

Por  Vera Magalhães / O GLOBO

 

 

Ninguém sabe mais, ou ainda, qual será o escopo, o tamanho, o rumo e o objetivo da propalada reforma ministerial. De pouco adianta Lula dizer que é mania da imprensa ou dos políticos falar em reforma a cada início de ano. Foi ele que deflagrou a especulação sem saber ao certo o que pretende ao seu término — uma forma bastante errática de proceder, ainda mais com popularidade em baixa.

 

Pior que a incerteza quanto aos rumos da mexida no governo é a apatia do entorno do presidente — do Palácio aos ministérios mais distantes na Esplanada, do PT aos partidos do Centrão —, que, pela primeira vez neste mandato, demonstra preocupação com o risco de derrota em 2026 e admite que existe fadiga de material.

 

Não existe uma esperança real de que mudanças nas pastas possam fidelizar os partidos que hoje nominalmente integram a base de Lula. Será a avaliação do petista que contará, lá na reta final, para decidir quem pulará em cada canoa. Ela dependerá da economia, em primeiro lugar, mas também da capacidade de o presidente reconquistar parte do seu borogodó, um patrimônio gasto nos dois primeiros anos, sobretudo no espectro que votou nele com base no discurso da frente ampla.

 

O diagnóstico, desta vez, não é meu. Foi feito, em maior ou menor grau, por ministros e parlamentares de diversos matizes, mas todos eles aliados de Lula. O tripé descrito por Sidônio Palmeira em sua exposição na reunião ministerial do começo do ano — comunicação, gestão e política — está com as três pernas bambas. Por ora, Lula só mexeu na primeira, e o case do boné, nesta semana, parece ter dado algum ânimo aos aliados para pelo menos tirar uma onda por ter deixado a extrema direita baratinada pela primeira vez em muito tempo

 

Mas, se a gestão não andar e a política não fizer sua parte, não será com base em sacadas para as redes sociais que Lula recomporá sua imagem, eles mesmos sabem.

 

A gestão está atada ao titular da Casa Civil, Rui Costa, que encarna o maior paradoxo do mandato Lula 3: goza, aparentemente, de plena confiança do chefe, mas é praticamente unanimidade negativa entre seus colegas, que antes mesmo de servirem água e café aos visitantes se põem a falar mal de quem deveria coordenar o governo e nem sequer responde a suas ligações e os deixa plantados em reuniões de que sai sem se despedir, para não falar das propostas que deixa tomando poeira em sua gaveta.

 

A política está com seu destino atrelado à novela das emendas parlamentares, e Lula não dispõe de instrumentos para resolvê-lo sem desatar esse nó. Dependerá da capacidade de os três Poderes chegarem a um denominador comum, mas ninguém acredita que o Executivo conseguirá, com o Supremo, com tudo, fazer com que o naco do Orçamento nas mãos do Congresso seja reduzido. Pode, no máximo, conseguir desembaçar um pouco o vidro para dar à destinação dos recursos alguma transparência. E, quiçá, convencer deputados e senadores a aplicar parte do dinheiro nos seus projetos estruturantes.

 

Para que reforma, então, nesse cenário em que os movimentos são tão limitados? Isso ninguém, por mais próximo de Lula que seja, sabe responder. Porque ele mesmo ainda não deixou claro o que pretende. Trocar a articulação política por alguém do PT ou do Centrão é uma possibilidade, mas sem garantia de sucesso.

A Saúde — em qualquer diagnóstico sério de desempenho do tripé comunicação, gestão e política — teria de ser o primeiro ministério a ser consertado, até porque o fracasso nessa área que mexe literalmente com a vida de todos pode custar a reeleição. Mas ninguém sabe se Lula insistirá, sabe-se lá por quê, em manter Nísia Trindade, que é seriíssima e tem biografia a toda prova, mas não deu certo na função.

 

Com esse grau de improviso e falta de rumo, a reforma pode resultar apenas na troca de seis por meia dúzia ou, pior, quatro ou cinco.

Ceará registra 10 açudes sangrando em 8 cidades

Escrito por Lucas Falconery/ DIARIONORDESTE

 

Fevereiro, mês que dá início à quadra chuvosa no Ceará, começa com 10 açudes sangrando e outros 4 com volume acima de 90%, conforme o monitoramento feito pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), nesta terça-feira (5). Há um ano, nenhum reservatório tinha sangrado e apenas um estava acima de 90% da capacidade.

 

O monitoramento feito em 157 açudes cearenses aponta volume armazenado de 43,96%, também superior ao quadro de fevereiro de 2024, quando o Estado estava com 36,90% da capacidade.

Confira os 10 açudes sangrando no Ceará:

  • Arrebita (Forquilha): 18,53 hm³
  • Carmina (Catunda): 13,19 hm³
  • Forquilha (Forquilha): 50,13 hm³
  • Jenipapo (Meruoca): 4,94 hm³
  • Caldeirões (Saboeiro): 1,24 hm³
  • Gerardo Atimbone (Sobral): 6,10 hm³
  • Santo Antônio de Aracatiaçu (Sobral): 24,34 hm³
  • São Pedro Timbaúba (Miraíma): 15,77 hm³
  • Do Batalhão (Crateús): 2,77 hm³
  • Sucesso (Tamboril): 7,13 hm³

O Açude Castanhão, em Alto Santo, – principal reservatório do Estado – está com 27,47% de volume. Há um ano, o volume estava em 22,97%. No momento, 34 açudes estão com volume inferior a 30%, cenário mais favorável do que os 50 açudes nesta situação no início de fevereiro do ano passado.

No momento, os açudes próximos de sagrar são Acaraú Mirim, em Massapê; Patos, em Sobral; Germinal, em Pacoti; e Cachoeira, em Aurora.

No momento, os açudes próximos de sagrar são Acaraú Mirim, em Massapê; Patos, em Sobral; Germinal, em Pacoti; e Cachoeira, em Aurora.

A Funceme indica ainda 20% de chance de as chuvas ficarem acima da média e outros 35% de resultarem na categoria abaixo da média, no mesmo período.

Conforme a Funceme, os eventos expressivos foram causados pela atuação conjunta de sistemas meteorológicos, como Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN) e Zona de Convergência Intertropical (ZCIT).

No entanto, o órgão explica que as chuvas de pré-estação não têm relação com a quadra chuvosa, uma vez que os sistemas que atuaram em dezembro e janeiro são particulares do período.

Para o bom resultado, a Fundação considera o dia 15 de janeiro como um marco: em um único dia, o Estado atingiu 62,2 milímetros de média.

Açude Forquilha cheio

 

Depois do pacotinho, a agendinha

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A equipe econômica do governo Lula da Silva elencou sua lista de prioridades para os próximos dois anos. A exemplo do pacote fiscal, que gerou tanta expectativa quanto frustração, a ponto de ser chamado de “pacotinho”, a agenda econômica também já pode ser tratada no diminutivo.

 

São, ao todo, 25 propostas, o que já demonstra uma perigosa combinação entre incoerência e otimismo. Afinal, quem tem 25 prioridades não tem nenhuma, sobretudo quando 15 delas dependem da aprovação de um Congresso com o qual o governo precisa negociar cada projeto individualmente.

 

A lista é encabeçada pelo fortalecimento do arcabouço fiscal de forma a garantir, ao mesmo tempo, a expansão do Produto Interno Bruto (PIB), desemprego e inflação baixos e estabilidade da dívida. Em primeiro lugar, é bastante simbólico que o fortalecimento do arcabouço não passe, nem superficialmente, por medidas de corte de gastos.

 

Em segundo lugar, o desempenho econômico do ano passado explicita a dificuldade do objetivo do governo. O crescimento surpreendeu e a taxa de desemprego chegou a níveis historicamente baixos, mas a inflação estourou a meta e a dívida bruta subiu 2,2 pontos porcentuais, para 76,1% do PIB. O endividamento, por sinal, só não aumentou ainda mais porque o Banco Central queimou reservas para conter a desvalorização cambial em dezembro.

 

Com um crescimento econômico menor, como o projetado para 2025, o desemprego tende a subir e a inflação, a desacelerar. A trajetória da dívida bruta, no entanto, permanece uma incógnita, pois depende de muitos fatores, entre os quais despesas que possuem regras próprias e que crescem à revelia do arcabouço fiscal e dos juros, que aumentam justamente quando não há credibilidade fiscal.

 

Já ficou claro que o limite aos supersalários e a reforma da previdência dos militares, que estão na lista da Fazenda, não serão suficientes para sinalizar um compromisso firme com o reequilíbrio das contas públicas. Por outro lado, já se sabe que, a depender de Lula da Silva, não haverá novas medidas fiscais.

 

A agenda também insiste em ações que custaram caro à credibilidade do ministro Fernando Haddad. Mais uma vez, a reforma tributária sobre a renda foi apresentada associada à promessa de campanha de isentar impostos de quem ganha até R$ 5 mil mensais e à tributação sobre milionários.

 

Para um governo que depende da arrecadação para cumprir a meta, não parece prudente abrir mão de uma receita líquida e certa como contrapartida a uma tentativa de fazer os mais ricos pagarem mais na proporção de seus rendimentos. Não que isso não deva ser proposto, mas seria útil levar em conta a experiência de muitos países que já tentaram o mesmo sem muito sucesso antes de se comprometer com a medida.

O Congresso, ademais, não parece disposto a avalizar pautas impopulares. E nem se pode culpar os parlamentares por essa postura. Cabe, afinal, ao Executivo apresentar uma agenda que represente um projeto de país capaz de mobilizar a sociedade. Se assim fosse, angariar o apoio de deputados e senadores seria um processo quase natural.

 

O que há, no entanto, é um verdadeiro deserto de ideias, e a única ambição parece ser a de sobreviver até 2026. O Orçamento é expressão disso. Até que a peça orçamentária seja aprovada, o governo só poderá executar 1/18 dos gastos discricionários por mês, à exceção de despesas obrigatórias como salários e aposentadorias. O detalhe é que a apreciação da proposta, que deveria ter ocorrido no ano passado, ocorrerá somente após o carnaval.

 

Antes disso, o governo pretende concluir a reforma ministerial para acomodar o Centrão na Esplanada dos Ministérios e encontrar uma forma minimamente honrosa de entrar em acordo com o Legislativo e o Supremo Tribunal Federal sobre as emendas parlamentares.

 

Se já é pouco para quem almeja tentar a reeleição presidencial, é muito pouco para um governo que se elegeu sob a égide de salvar a democracia e reconstruir as políticas públicas destruídas pelo bolsonarismo. Depois do pacotinho, o marqueteiro Sidônio Palmeira terá muito trabalho para defender essa agendinha.

Proposta imprudente

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Durou cerca de 24 horas a proposta de solução do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, para um problema de décadas. A decisão de remover a população do Jardim Pantanal, na zona leste da capital paulista, a pretexto de resguardá-la dos alagamentos recorrentes no bairro, foi adiada após seu padrinho político, o governador Tarcísio de Freitas, pedir mais “cautela” na formulação de projetos para a região.

 

O Jardim Pantanal, erguido na várzea do Rio Tietê nos anos 1980, está debaixo d’água há quase uma semana. E não é de hoje que basta cair uma chuva mais forte sobre a cidade para que o lugar inunde. No episódio mais grave, registrado em 2009, o Jardim Pantanal ficou mais de um mês alagado. Agora, com ruas transformadas em canais e casas tomadas pela água novamente, o prefeito resolveu falar em remoção, uma ideia tão simplista quanto equivocada.

 

Segundo Nunes, a Prefeitura realizou um estudo prévio para a construção de um dique de contenção do Rio Tietê na área afetada. A obra, contudo, não poderia ser realizada, na visão do prefeito, em razão do seu custo, da ordem de R$ 1 bilhão. Ademais, para Nunes, seria ocioso “lutar contra a natureza”.

 

No mesmo dia em que anunciou a ideia, Nunes se reuniu com Tarcísio para discutir o drama do Jardim Pantanal. Na ocasião, foram apresentadas três propostas de intervenção no bairro elaboradas pela Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb). A melhor solução para o problema crônico dos cerca de 45 mil paulistanos que vivem no Jardim Pantanal, de acordo com o prefeito, seria removê-los de suas casas e deixar para trás suas histórias e seus vínculos afetivos, comunitários e econômicos, dando-lhes em troca uma “ajuda financeira” de R$ 20 mil a R$ 50 mil. Essa ação, porém, custaria quase R$ 2 bilhões ao erário – o dobro, portanto, do custo de construção do dique que o prefeito havia rejeitado um dia antes.

 

Outras duas propostas preveem obras de macrodrenagem a fim de manter os moradores onde estão – e a um custo menor para a Prefeitura de São Paulo. Por isso, no dia seguinte, em conversa com jornalistas, coube ao governador do Estado recomendar prudência, com toda a razão, na análise desses projetos. “Se a gente adotar, na pressão, uma solução que seja simplista, provavelmente a gente vai dar uma resposta errada”, disse o governador.

 

Diante de tanta incerteza, o prefeito Nunes afirmou que está “avaliando possibilidades” e que não havia “nada definido” sobre o que fazer no Jardim Pantanal. Por ora, o trabalho será focado em ações de assistência emergencial. A definição de um projeto definitivo para a região foi prometida para abril.

 

O que a Prefeitura poderia fazer de imediato é concluir as obras de drenagem no Jardim Pantanal que estão atrasadas há mais de um ano. Enquanto sofre, a população local espera pela instalação de um pôlder, espécie de muro para conter a água, lançá-la num reservatório e depois escoá-la por um córrego. Estivesse de pé, decerto essa estrutura teria ao menos atenuado os efeitos da última enchente.

 

Os alagamentos na região e em outras áreas da metrópole tendem a aumentar diante dos eventos climáticos cada vez mais extremos e recorrentes. Isso exigirá políticas públicas habitacionais e ambientais bem estruturadas, e não o improviso com que Nunes anunciou o fim de um bairro para dizer, um dia depois, que ainda analisará opções.

 

Os alagamentos no Jardim Pantanal não são mera reação da natureza, mas reflexo de decisões erradas sobre a ocupação do solo tomadas ao longo de muitos anos. Com ou sem os moradores, qualquer ação na região custará caro e não pode ser decidida no calor do momento ou apenas quando o bairro está debaixo d’água.

 

Seja qual for o projeto escolhido – construir diques, parques ou remover a população –, espera-se das autoridades uma solução eficaz e definitiva para o Jardim Pantanal e, sobretudo, para seus milhares de moradores.

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