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Você sabe qual é sua classe social? Responda as perguntas na ferramenta do GLOBO e descubra

Por  — Rio / O GLOBO

 

 

O Brasil tem hoje 50,1% da população nas classes A, B e C — ou seja, metade dos brasileiros está ao menos no patamar médio de padrão de vida, algo que não ocorria desde 2015. A outra metade está distribuída entre as classes D e E. Mas o que diferencia uma da outra? É simplesmente a renda? Ou fatores como perfil de consumo e nível de instrução pesam na definição? Responda as perguntas na ferramenta do GLOBO e descubra a que classe social você pertence. Caso não visualize a ferramenta, clique aqui.

 

Há diferentes metodologias para definir as classes de renda no Brasil. A mais usada pelas empresas de pesquisa é o chamado Critério Brasil.

Essa metodologia, da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), existe desde os anos 1970 e é reformulada conforme mudam os bens consumidos pelas famílias. A renda não é usada para classificá-las.

 

Nesse método, são dados pontos aos bens consumidos que vão se somando. Quanto maior a pontuação, mais alta é a classe social. Com base nessa metodologia, O GLOBO criou uma ferramenta, para o leitor ver em qual classe ele se enquadra.

 

— A classificação do consumidor dos domicílios foi criada para que fosse de fácil aplicação pelo entrevistador e de fácil entendimento para quem está sendo entrevistado. Pela posse de bens, dependendo de seu valor, e quantidade (desses bens) identifica-se maior ou menor aquisitivo — explica Duílio Novaes, presidente da Abep.

 

A lista de bens vem sendo atualizada, bem como as condições do domicílio, outro critério da metodologia. Novaes lembra que saiu o aspirador, a rádio e a televisão, mas a presença de empregada doméstica e o número de banheiros na residência ainda faz uma distinção em relação ao poder de compra das famílias.

 

Veja abaixo os critérios usados pela associação:

 

  • Bens e eletrodomésticos: São investigados quantos itens há num lar, como carro, computador, geladeira, freezer, lava-louça, lava-roupa, moto.
  • Condições da casa: Também são apurados quantos banheiros há no domicílio e como é o entorno, se há rua pavimentada e se há água encanada
  • Nível de instrução: Os entrevistadores perguntam o grau de escolaridade do responsável.

Depois de traçar o perfil da classe social, a Abep faz estimativas de renda domiciliar mensal média para os estratos socioeconômicos.

 

A consultoria Tendências também estima os rendimentos das classes sociais. Mas considera faixas de rendimento domiciliar mensal e não renda média, como a Abep. Veja abaixo as estimativas da consultoria:

  • Classes D/E: até R$ 3,4 mil (49,9% da população)
  • Classe C: de R$ 3,4 mil a R$ 8,1 mil (31%)
  • Classe B: de R$ 8,1 mil a R$ 25,2 mil (14,8%)
  • Classe A: acima de R$ 25,2 mil (4,3%)

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Nhenhenhém contra o Ibama

O baixo teor republicano das convicções de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre instituições de Estado revela-se em suas falas sobre extração de petróleo e gás ao largo da foz do Rio Amazonas.

O presidente exige que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) se curve aos planos do governo de turno, em atropelo à missão precípua do órgão.

Durante entrevista em Macapá (AP) na quarta-feira (12), Lula defendeu perfurações prospectivas na chamada margem equatorial: "Se depois a gente vai explorar, é outra discussão. O que não dá é para a gente ficar nesse lenga-lenga. O Ibama é um órgão do governo, parecendo que é um órgão contra o governo".

Por óbvio, os bens tutelados pelo Ibama são recursos naturais renováveis, não combustíveis fósseis. Mas cabe a ele promover estudos sobre o impacto ambiental de atividades poluidoras, como a indústria petroleira, e fazer recomendações técnicas para licenciar, ou não, empreendimentos.

A região costeira do Amapá, que fica próxima às áreas petrolíferas em questão, tem alta produtividade biológica. Caracteriza-se por extensos manguezais, locais de reprodução e sustento de diversas espécies de peixes, crustáceos, aves e mamíferos.

Esses ecossistemas são sensíveis a derramamentos de óleo que podem ocorrer em plataformas oceânicas. Um dos piores foi o da Deepwater Horizon no Golfo do México, em 2010, que chegou a vazar 1,3 milhão de litros de petróleo cru por dia e espalhou uma mancha de 1.500 km², que alcançou a Louisiana e o Texas.

A Deepwater estava a menos de 100 km da costa, já o bloco 59 da margem equatorial se encontra a mais 160 km de Oiapoque (AP). Cabe realizar investigação detalhada de correntes oceânicas para simular a probabilidade de um vazamento chegar ao litoral brasileiro ou da Guiana Francesa.

Ademais, há que delinear protocolo em caso de acidentes. Não se trata só de fazer operações midiáticas para resgate de animais cobertos de piche, mas de projetar a contenção da mancha e o salvamento da tripulação na plataforma, entre outras providências —considerando que os centros urbanos com boa infraestrutura estão a centenas de quilômetros.

O processo é complexo, e por isso se impõe dar ao Ibama a latitude de ação necessária para emitir parecer técnico lastreado na melhor informação. Ao acusar o instituto de ser contra o governo, Lula exibe mais voluntarismo do que apreço pela independência de órgãos de Estado, aos quais cabe zelar pelo bem público.

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Persistem erros na gestão de vacinas contra Covid

Por  Editorial / O GLOBO

 

Cinco anos depois do início da pandemia, felizmente a Covid-19 é hoje uma doença sob controle, graças à vacinação maciça da população. Mas não vivemos num cenário de risco zero. O vírus ainda circula — e ainda mata. No ano passado, 5.960 brasileiros perderam a vida em consequência da doença. Ela foi estabilizada, por isso não deveria haver espaço para vacilos que ampliem os riscos. É fundamental manter a população vacinada, especialmente os grupos mais vulneráveis, como idosos, gestantes, crianças ou imunossuprimidos. O Ministério da Saúde, responsável por comprar as vacinas e distribuí-las, tem a obrigação de oferecê-las na versão atualizada para as novas cepas, uma vez que o vírus está em constante mutação. Infelizmente, não é o que tem ocorrido.

 

Apenas a vacina pediátrica está atualizada. A versão disponível nos postos para adultos protege contra a cepa XBB.1.5 da variante ômicron, e não contra a cepa JN.1, desde abril considerada o alvo a combater. Não se trata de detalhe irrelevante. Desde o início da pandemia, o vírus sofre mutações que lhe permitem driblar as barreiras impostas pelas vacinas. Daí a necessidade de atualização constante. Não que a vacina oferecida seja inútil — sempre é melhor tomar alguma do que nenhuma. Mas ela não confere a melhor proteção para o vírus em circulação. Tal fato faz diferença para os vulneráveis.

 

No afã de oferecer versões mais recentes, o Ministério da Saúde tem cometido erros. No fim do ano passado, firmou contrato com a Zalika Farmacêutica para receber doses da vacina indiana Covovax. É verdade que cláusulas preveem a entrega da vacina atualizada. Só que a versão da Covovax para a cepa JN.1 não fora autorizada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), portanto não poderia ser usada no Brasil. A farmacêutica submeteu pedido de autorização, mas ele foi indeferido no início deste ano, sob o argumento de que os documentos apresentados não comprovavam que os padrões de qualidade seriam mantidos até o fim do prazo de validade.

 

Não foi a primeira mancada. No ano passado, o ministério recusou um lote de 3 milhões de doses da vacina da Moderna atualizadas para a cepa JN.1, numa troca envolvendo problemas no prazo de validade. O governo alegou que, na época, não havia autorização da Anvisa para essa versão. É verdade, mas a aprovação veio pouco tempo depois. Teria sido melhor que a pasta se entendesse com a Anvisa. Só agora o ministério informa que essas doses já estão em distribuição. Deveria haver um caminho mais ágil para a aprovação de versões atualizadas das mesmas vacinas, como noutros países.

 

O governo alega que a vacina da Zalika “protege contra formas graves da doença e hospitalizações, mesmo diante de novas variantes do vírus”. Mas não faz sentido gastar dinheiro para comprar vacinas defasadas. Se vai adquirir novas doses, o mais lógico é buscar produtos autorizados pela Anvisa para as cepas recentes. Não é o caso da Zalika. De nada adianta economizar em licitações se a vacina não oferece a melhor proteção. Quando na oposição, os petistas criticaram duramente o governo Jair Bolsonaro pelos atrasos na compra de vacinas durante a pandemia. Tinham razão. Mas os erros de gestão e planejamento continuam a se suceder, com desabastecimento frequente de vacinas. Não é justo impor ao cidadão um dilema entre não se vacinar ou tomar a versão desatualizada.

 

Vacinação contra a Covid--19 no Rio

Licença para o parafiscal

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Menos de um mês após determinar o bloqueio de R$ 10 bilhões do programa Pé-de-Meia, que burla a premissa básica de registrar despesas públicas no Orçamento, o Tribunal de Contas da União (TCU) voltou atrás e, a despeito das advertências explícitas dos auditores técnicos, liberou os recursos para o pagamento do programa. O prazo de 120 dias para que os gastos passem a constar do Orçamento de 2025 parece um mero indicativo, já que o TCU aquiesceu com seu prolongamento caso haja atraso na deliberação da medida pelo Congresso.

Chama a atenção, neste caso, a guinada da Corte ao tratar do programa. Primeiro, corretamente alertou que o modelo de financiamento do programa, com fundos de natureza privada abastecidos por recursos públicos, era apenas um arranjo para driblar o Orçamento. Depois, para justificar a suspensão da medida cautelar que havia dado, identificou “perigo da demora reverso”, nas palavras do presidente do TCU, Bruno Dantas. O ministro Aroldo Cedraz, por sua vez, chegou a falar em “furor social” caso a trava à liberação dos recursos não fosse revogada.

 

O fato é que o mérito do programa não é – ou não deveria ser – o ponto central da questão. A distribuição de mesada aos estudantes do ensino médio da rede pública para evitar a evasão escolar, assim como a formação de uma poupança ao fim do período para incentivar a participação no Enem e a continuidade dos estudos, é perfeitamente defensável do ponto de vista orçamentário, desde que seja discutida com o Legislativo e caiba na programação de despesas previstas para o ano. Para isso existe a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA).

 

A liberação de recursos para um programa social mantido por mecanismos sabidamente parafiscais, mesmo em caráter provisório, abre um precedente perigoso, e é notório o desinteresse do governo Lula da Silva em incluir o Pé-de-Meia na peça orçamentária de 2025, que ainda nem foi apreciada pelo Congresso e cuja votação ficou para depois do carnaval, muito embora o prazo tenha vencido em dezembro passado. Pelos cálculos do governo, o pagamento da poupança estudantil custará R$ 15,5 bilhões, mas só R$ 1 bilhão consta do Orçamento, justamente contando com a manutenção dos gastos paralelos.

 

O aval “provisório” do TCU ratifica o descumprimento de regras fiscais que minam a credibilidade do arcabouço criado pelo próprio governo para garantir a sustentabilidade das contas públicas a longo prazo, controlar o endividamento e equilibrar receitas e despesas para manter investimentos em educação, saúde e segurança pública. Ressalte-se que não se trata de uma questão que exija soluções emergenciais, como um desastre imprevisto. A evasão escolar constitui, por óbvio, uma calamidade que o País precisa combater, mas sem a necessidade de soluções criativas extraorçamentárias.

 

Como ação planejada, o Pé-de-Meia poderia ter sido tratado como prioridade educacional entre as políticas públicas federais, mas o governo optou pela pior forma de execução. Em novembro de 2023, editou medida provisória para criar um programa e um fundo para custeá-lo. Depois, um projeto de lei aprovado pelo Congresso trouxe os detalhes da estratégia que burlou o regramento fiscal com o uso dos fundos.

 

A manobra não passou despercebida dos auditores do TCU ao concluírem que “os recursos provenientes de resgate de cotas do FGO, Fgeduc e Fundo Social são receitas públicas e devem constar do orçamento, em respeito ao princípio da universalidade”. O relatório destaca as consequências deletérias de arranjos do tipo para as contas públicas, “como a perda de credibilidade do arcabouço fiscal, o que acarreta fuga de investidores, desvalorização da moeda frente ao dólar e, consequentemente, aumento da inflação e das taxas de juros”.

 

Levando em consideração o apreço do lulopetismo por gambiarras fiscais – vide a dotação orçamentária insuficiente do Auxílio-Gás e a proposta inicial de financiá-lo com um fundo abastecido por recursos do pré-sal –, o recuo do TCU é música para os ouvidos de um governo perdulário.

Penas contra réus do 8 de Janeiro despertam dúvida

Por Editorial / O GLOBO

 

 

É um acinte à democracia a proposta de anistiar os 898 réus acusados pela violência contra as sedes dos três Poderes no fatídico 8 de janeiro de 2023. Passados dois anos, 371 foram condenados à prisão e 527 a penas alternativas. Outros tantos esperam o fim do julgamento. A todos foi garantido amplo direito de defesa, como prevê a Constituição. Quem defende a anistia sustenta um raciocínio absurdo, segundo o qual tudo não passou de vandalismo espontâneo. É como se, sem objetivo nem organização, os criminosos tivessem trocado um passeio no zoológico na Asa Sul pela invasão do Congresso, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Palácio do Planalto. Como se não estivessem acampados em quartéis do Exército clamando por golpe de Estado, com base em teorias estapafúrdias sobre fraude eleitoral. A intenção golpista ficou evidente desde o primeiro vidro estilhaçado.

 

Mas, se não há dúvida quanto à justiça das condenações proferidas pelo Supremo, o mesmo não pode ser dito das penas aplicadas. Das 225 sentenças por crimes graves, 43,4% são superiores a 14 anos de prisão. É verdade que, com bom comportamento, boa parte dos condenados será libertada ao cumprir um sexto da pena, menos de três anos. Mas, entre tantas comparações plausíveis, fica evidente o contraste com a punição aos dois golpistas que tentaram explodir um caminhão de combustível perto do aeroporto de Brasília em 2022 — um foi condenado a cinco anos; o outro a 9 anos e oito meses.

 

Entre juristas, circula uma interpretação segundo a qual a necessidade de dar exemplo resultou em penas demasiado duras. Desde a primeira condenação, em setembro de 2023, houve divergência no próprio STF. O voto do relator, ministro Alexandre de Moraes, condenou o réu a 17 anos de prisão. Foi acompanhado pelos ministros Edson Fachin, Luiz Fux, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Cármen Lúcia e Rosa Weber. Porém o ministro Luís Roberto Barroso, hoje presidente do Supremo, defendeu penas menores. De acordo com ele, não se pode condenar um réu, ao mesmo tempo, pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado, pois um crime absorve o outro. Uma única conduta, no entender de Barroso, não deveria ser punida duas vezes.

 

A questão suscita debate no Direito Penal. Um traficante de drogas que usa arma ilegal deve ser punido pelos dois crimes? O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu em dezembro que não. Mas há dezenas de condenações por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, embora um crime decorra do outro. Ou por homicídio e ocultação de cadáver. Como disse ao GLOBO o criminalista Pierpaolo Bottini, “não há fórmula matemática” para definir quando um crime é absorvido pelo outro.

 

 A tese de Barroso foi, até o momento, derrotada em todas as votações no plenário. Mas isso não invalida o questionamento, pois seus argumentos podem fazer sentido. É certo que os advogados dos condenados entrarão com recursos para esclarecer dúvidas ou contradições, conhecidos como “embargos de declaração”. Foi assim no julgamento do Mensalão, quando alguns embargos resultaram em redução de pena. Nos casos do 8 de Janeiro, esses embargos trarão ao STF a oportunidade de se debruçar mais uma vez sobre a questão, para que não restem dúvidas a respeito das penas e para que se encerre com justiça esse capítulo trágico da História brasileira.
 
Invasão e depredação das sedes dos três Poderes, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023
 

'Quentinhas invisíveis': ONG contratada em Pernambuco informou CPFs inconsistentes em prestação de contas

Por  e  — Brasília / O GLOBO

 

Contratada pelo governo federal para fornecer refeições a pessoas em situação de vulnerabilidade social, uma organização não-governamental de Pernambuco apresentou uma lista com dados de beneficiários que inclui CPFs inconsistentes ou que pertencem a pessoas com nomes diferentes dos que contam na relação. Os documentos foram anotados à mão na prestação de contas da entidade, que firmou contrato de R$ 3 milhões com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) em novembro de 2024.

 

Após ser questionada pelo GLOBO sobre as inconsistências, a pasta suspendeu o termo de colaboração com a entidade e disse que, caso sejam constatadas irregularidades, poderá pedir a devolução dos recursos já repassados à entidade. “O MDS reitera que, constatada qualquer irregularidade quanto ao cumprimento do objeto pactuado e quanto à boa e regular utilização dos recursos públicos, as devidas medidas saneadoras serão adotadas, o que pode incluir glosa e pedido de devolução de recursos à União, bem como inabilitação das cozinhas junto ao programa”, diz o ministério comandado por Wellington Dias.

 

A prestação de contas com os CPFs inconsistentes foi apresentada pela Associação da Juventude Camponesa Nordestina Terra Livre, que tem como vice-presidente Ana Lúcia Gusmão Brindeiro, funcionária do gabinete da deputada estadual Rosa Amorim, do PT, mesmo partido do ministro. Em nota, a entidade disse "que está disposta a investigar qualquer suspeita de irregularidade". Também procurada, a parlamentar disse o da assessora "não se relaciona com a função que a mesma executa na associação".

 

O presidente da associação Terra Livre, Sandreildo José dos Santos, afirmou que pode ter ocorrido erro no preenchimento da lista. Dos 400 nomes informados, o GLOBO identificou ao menos 150 CPFs inconsistentes.

 

O Cadastro de Pessoa Física (CPF), emitido pela Receita Federal, é um número único de identificação, com 11 dígitos. Os dois últimos dígitos são gerados por meio de um algoritmo e utilizados para verificar a validade do documento. Nos casos identificados pela reportagem, a sequência numérica não segue essa lógica.

 

— Nós temos alguns problemas. Essas cozinhas trabalham com povo de rua, muita dificuldade com documento. Mas se tiver indícios de ingerência, a gente vê — disse Santos.

 

O contrato da associação Terra Livre foi feito no âmbito do Programa Cozinha Solidária, ação de combate à fome do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Para fornecer os alimentos, a ONG subcontratou outras entidades que atuam em diferentes cidades pernambucanas.

 

Uma delas foi a Uma Gota de Esperança, contratada para entregar as quentinhas em Paulista (PE), município de 342 mil habitantes na Região Metropolitana de Recife. A lista com os CPFs inconsistentes é atribuída à entidade. Questionada sobre os dados, a responsável pela ONG, Thais de Moraes Wanderley, culpa as próprias pessoas atendidas pelas informações prestadas.

 

— As pessoas, quando vêm buscar a comida, elas assinam, colocam o CPF e a data. Acredito que esteja acontecido isso. Elas dão "de cor" e devem informar qualquer número de CPF. Até eu estou abismada agora — disse Thais.

 

Entre os CPFs incluídos na lista de beneficiados pela ONG que distribui quentinhas está o de Jorgiana de Paula Wanderley Gomes, que Thais informou ser prima de seu marido. O nome atribuído ao documento na lista da entidade, contudo, é Erika da Silva. Questionada sobre a inconsistência, a presidente da entidade não respondeu.

 

Também procurada nesta quinta-feira, Jorgiana disse nunca ter recebido quentinhas de programas do governo. Pouco tempo depois, enviou uma nova mensagem à reportagem informando que conversou com Thaís e que o registro na lista se refere a uma "cesta solidária" recebida da ONG. Ela não explicou, porém, a razão de seu CPF ter sido atribuído ao nome de outra pessoa. Além disso, o fornecimento de cestas básicas não faz parte do programa Cozinha Solidária.

 

Há ainda ao menos outros cincos casos em que o nome atribuído ao CPF na lista da ONG não confere com os registros do próprio governo, como no cadastro de beneficiários do Auxílio Emergencial.

 

As suspeitas de irregularidades envolvendo a ONG de Pernambuco não é um caso isolado no Cozinha Solidária. Como revelou O GLOBO, o Ministério do Desenvolvimento Social contratou uma entidade comandada por um ex-assessor do PT para fornecer os alimentos na periferia de São Paulo. A associação Movimento Organizacional Vencer, Educar e Realizar (Mover Helipa), por sua vez, repassou verbas para entidades lideradas por atuais e ex-auxiliares de parlamentares petistas.

 

Após firmar contrato de R$ 5,6 milhões com o governo federal, a associação Movimento Organizacional Vencer, Educar e Realizar (Mover Helipa) subcontratou uma teia de ONGs de atuais ou ex-integrantes de gabinetes petistas para produzir e distribuir as quentinhas. O GLOBO visitou alguns dos endereços informados ao governo federal e não encontrou sinais da produção ou distribuição dos alimentos. Na ocasião, o ex-assessor parlamentar disse desconhecer se os alimentos não estavam sendo fornecidos e atribuiu ao acaso o fato de os subcontratados serem ligados ao PT.

 

A exemplo do que ocorreu com a ONG de Pernambuco, o contrato com a Mover Helipa também foi suspenso pelo ministério, que também acionou a Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) para investigar o caso.

 
 Ministro Wellington Dias visita entidade de São Paulo que teve contrato suspenso após suspeitas de irregularidades
 

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