Emendas individuais são campo fértil para toma lá, dá cá
Não bastassem a opacidade e os desvios no uso de recursos públicos com emendas parlamentares, atualmente sob intervenção do Supremo Tribunal Federal para tentar moralizar o tema, reportagem da Folha revelou como elas tornam espúria a disputa por cadeiras no Congresso Nacional.
Levantamento do jornal mostrou que 110 deputados e senadores concentraram verbas de emendas enviadas a municípios de prefeitos aliados que foram reeleitos em 2024. Assim, em 2026, é possível que os alcaides ajudem esses mesmos parlamentares em suas campanhas à reeleição.
Com o auxílio dos prefeitos, fatalmente acabarão tendo mais vantagens e visibilidade em relação a adversários locais.
A análise levou em conta deputados e senadores que destinaram 70% ou mais de suas emendas individuais para essas cidades nos últimos dois anos. Com os repasses de verbas, os parlamentares ganharam destaque em 216 municípios de correligionários em todo o país.
Em troca do dinheiro, prefeituras têm se prontificado a produzir vídeos e fotos de ambulâncias, vias pavimentadas e outros investimentos pagos com as emendas dos congressistas, sempre projetando os nomes dos parlamentares como a melhor opção no Congresso para a população local.
Os 110 congressistas que se beneficiam da simbiose com os prefeitos integram partidos da esquerda à direita —12 são do PT; 19 do PL. Mais da metade domina dois ou mais municípios com os repasses em seus nomes.
Emendas parlamentares não são um problema em si e foram criadas para descentralizar o Orçamento público. O dispositivo é útil, por exemplo, para garantir recursos para demandas locais em regiões normalmente não atendidas pelo governo federal.
As cidades beneficiadas pelos parlamentares, por exemplo, estão entre as menores do Brasil e ostentam índice de desenvolvimento baixo ou muito baixo.
O problema é que as emendas são individuais, o que favorece o uso eleitoral dos recursos, como se atesta nas dezenas de prefeituras beneficiadas pelas verbas.
No próximo dia 27, representantes dos Executivo, Legislativo e Judiciário devem se reunir no STF para tentar um acordo sobre a transparência e a rastreabilidade na execução de emendas.
Seria oportuno também que fosse discutido o montante inaudito de verbas do Orçamento destinado por meio de emendas e a substituição do formado individual pelo coletivo, de forma a limitar o "toma lá, dá cá" entre parlamentares e prefeitos.
Impopularidade pode aumentar irresponsabilidade fiscal
O tombo inaudito no índice de aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva não é só má notícia para o petista, já que enseja temores no mercado de que o Planalto abrace de vez a irresponsabilidade fiscal daqui em diante, gerando impactos severos sobre a inflação que afeta sobretudo os mais pobres.
Segundo pesquisa do Datafolha, entre dezembro e janeiro, a taxa de entrevistados que consideram seu governo ótimo ou bom despencou de 35% para 24%. Na mão inversa, a reprovação subiu de 34% para 41%.
Ambas as marcas são inéditas para o mandatário, considerando seus governos de 2003 a 2010 e o atual. A desaprovação se espraia até mesmo em segmentos tradicionalmente lulistas.
A crise decorre de problemas pontuais e estruturais. No primeiro grupo, encontra-se o desastre de gestão e comunicação em janeiro, quando a edição de uma medida para vigiar transações acima de R$ 5.000 no Pix foi criticada e chegou a ser alvo de uma campanha de fake news.
Já as questões subjacentes à queda são mais complexas. Apesar de ter na Fazenda um ministro que se diz comprometido com o rigor fiscal, Fernando Haddad, na prática Lula tem minado qualquer ideia de austeridade.
De tal irresponsabilidade decorreu a disparada do dólar ao final de 2024, pressionando a inflação de alimentos e outros itens básicos, que afeta principalmente a renda dos mais pobres —nesse grupo, a aprovação do presidente caiu de 44% para 29%.
A recente alta do preço dos ovos é uma provável nova trincheira a ser explorada pela oposição, que na crise do Pix foi eficaz em maximizar danos. Manifestações contra o presidente, marcadas para 16 de março, poderão dar uma medida do desafio a ser enfrentado por Lula.
Em favor do petista, há divisão nas hostes rivais, cortesia da insistência de Jair Bolsonaro (PL) em dizer que será candidato em 2026, mesmo impedido.
Políticos mais óbvios que poderiam se colocar na disputa, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), não o fazem e perdem exposição. Com isso, mutações do bolsonarismo —o cantor Gusttavo Lima é um exemplo— ocupam o noticiário.
Dadas as incertezas sobre a guerra tarifária proposta pelo americano Donald Trump, que pode impactar câmbio e inflação aqui, o horizonte visível é tenso e agravado por pressões políticas domésticas, como a expansão do apetite por cargos do centrão.
As medidas sugeridas para tentar melhorar a popularidade de Lula enfrentam obstáculos, como a ampliação dos programas Pé-de-Meia e Auxílio-Gás, além da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.
Embora o pior cenário seja o da elevação dos gastos, é bastante provável que tudo siga como está, sem o aumento na gastança, pois o presidente já deve ter percebido, pelos números da pesquisa, que a irresponsabilidade fiscal não está funcionando.
PEC da Blindagem é vergonhosa
Por Merval Pereira / O GLOBO
É natural que deputados tentem se proteger com uma PEC da Blindagem, porque está um cheiro de que muitas emendas foram desviadas para outros fins. Mas esta PEC é vergonhosa. Eles não querem nem que assessores sejam investigados e que o Congresso seja avisado antes de qualquer ação da PF; uma série de privilégios que o cidadão comum não tem.
Acho que a blindagem deve ser por declarações, porque está havendo um certo exagero do STF em punir declarações de deputados, até mesmo na Tribuna do Congresso e em entrevistas. Políticos precisam ter imunidade parlamentar para dar suas opiniões, por mais absurdas que sejam. Mas evitar que sejam investigados é uma diferença brutal, não é possível aceitar.
Quanto à queda da popularidade do Lula, acredito que não deve ter sido surpresa para o governo – deve existir um acompanhamento diário sobre isso – mas mostra que o governo do PT e Lula, especialmente, não estão sabendo lidar com a mudança da sociedade brasileira. Ele está funcionando como o Lula de 20 anos atrás, e a população está rejeitando. É um problema sério a esta altura da vida ter que mudar a maneira de ver a sociedade, e uma derrota para o Lula e para o PT descobrirem que já não influenciam mais a população, e que o que fizeram há 20 anos, que foram importantes para que se tornassem o que são, já não funcionam mais, já não são entendidos pela população como um favor do governo. É muito difícil a esta altura da vida para Lula se conectar com o mundo novo que está enfrentando.
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Jovem é sequestrada e morta ao deixar igreja em Quixeramobim, no Ceará
REDAÇÃO DIARIONORDESTE
A jovem Natany Alves Sales, de 20 anos, foi sequestrada por três homens e morta ao tentar deixar um estacionamento, após sair de uma igreja, em Quixeramobim, no Sertão Central do Ceará, na tarde desse domingo (16). Uma grande mobilização chegou a ser feita nas redes sociais visando encontrar a vítima antes da confirmação do óbito.
Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que a jovem tentava sair com um Renault Kwid de um estacionamento e acabou sendo abordada por três homens. O vídeo foi divulgado no Instagram por Narah Alves, mãe da jovem.
Horas depois do sequestro, o carro de Natany foi abandonado pelos criminosos em uma rua na cidade de Quixadá — 43,8 km de distância do município que ela foi raptada. Imagens de uma câmera flagraram o momento que o carro foi estacionado. Os três suspeitos saíram do veículo e fugiram caminhando.
Autoridades lamentam caso
O governador Elmano de Freitas condenou o caso, qual classificou como uma "violência inaceitável", e se solidarizou com os parentes e amigos da jovem. "Lamento profundamente esse fato e me solidarizo". O chefe do Executivo ainda destacou que não tem medido esforços e investimentos para aumentar a segurança no território cearense. "Continuaremos trabalhando noite e dia para enfrentar esse grave problema, que atinge todo o País."
Cirilo Pimenta, o prefeito de Quixeramobim, também lamentou o ocorrido e decretou lutou oficial de três dias no município.
"É com grande tristeza no coração que me solidarizo com a família de Natany, assassinada cruelmente por bandidos desalmados vindos de outros municípios. [...] Deus, em sua infinita misericórdia, é o único capaz de trazer à família a consolação que seu amor produz. Que Ele os abençoe e os fortaleça neste momento de dor e luto", diz um trecho do comunicado postado nas redes da prefeitura.
Polícia prende três suspeitos e população se mobiliza

Após investigações na região com apoio das imagens de câmeras de segurança, equipes das polícias Militar e Civil conseguiram prender os três homens suspeitos pelo crime. Eles foram levados para a Delegacia Regional de Quixadá.
No final da noite, inúmeros populares se reuniram em frente à Delegacia Regional para acompanhar a chegada dos suspeitos de terem cometido o homicídio contra Natany Alves.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS) e com a Polícia Civil e aguarda mais detalhes sobre o caso.
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O ‘suco amargo’ da dívida pública
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Recentemente, em evento na Casa das Garças, instituto que reúne a nata do pensamento econômico brasileiro, o ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga afirmou que a autoridade monetária precisa de ajuda e que “só tem um lugar que pode ajudar, que é o fiscal”.
A declaração foi dirigida ao atual comandante do BC, Gabriel Galípolo, personagem principal de seminário no instituto. Na visão de Arminio, Galípolo tomará um “suco amargo”, uma vez que a dívida pública cresce velozmente.
Arminio tem razão. Como o governo não controla os gastos – ao contrário, o presidente Lula da Silva já disse que não adotará novas medidas fiscais –, resta ao BC aplicar o pesado remédio do juro alto, que funciona, concordam o atual e o ex-BC, mas mantém o País “na UTI”, nas palavras de Arminio.
Daí o apelo de Arminio para que Galípolo tente convencer o Executivo de que a inflação não pode ser combatida unicamente por meio de uma política monetária restritiva, dado que o efeito colateral é a explosão do endividamento do governo.
Não faz muito tempo, o Tesouro Nacional divulgou que a Dívida Pública Federal (DPF) nominal totalizou R$ 7,3 trilhões em 2024, 12,2% a mais que em 2023. Trata-se da maior elevação desde 2020, quando a dívida saltou 17,9% em meio à emergência sanitária da covid-19.
Para 2025, as estimativas também são de dívida nas alturas. De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF) do Tesouro, a DPF deve crescer entre 10% e 16% neste ano, encerrando o ano em patamar entre R$ 8 trilhões e R$ 8,5 trilhões. Confirmada a previsão, o estoque da dívida no fim deste ano terá praticamente dobrado em relação ao que era em 2019 (R$ 4,3 trilhões).
Embora a taxa básica de juros seja o principal vetor do aumento da DPF, fato é que a Selic só está tão elevada para compensar os gastos excessivos do Executivo.
E, com uma taxa de juros tão elevada, não há como a composição da dívida não piorar. Sinal claríssimo disso é que o PAF de 2025 prevê que o porcentual de títulos do Tesouro com taxas flutuantes (pós-fixados) fique entre 48% e 52% no fim deste ano. Desde 2023, a parcela desses títulos na composição da dívida só aumenta, e tanto o volume como o perfil da dívida se deterioram.
Por ora, já está contratado que a Selic subirá mais um ponto porcentual, para 14,25%, quando o Comitê de Política Monetária se reunir em março, mas a trajetória da inflação sugere que os juros precisarão subir ainda mais.
Além disso, o quadro externo tampouco oferece ajuda – a inflação nos Estados Unidos acelerou em janeiro, o que reduz as chances de o Fed (o banco central norte-americano) baixar os juros, pressionando ainda mais o BC brasileiro.
Tudo somado, sem que o Executivo se ajude, a eficácia do choque de juros ficará comprometida, mesmo com o endividamento em patamar estratosférico. Se isso ocorrer, é líquido e certo que as hostes petistas seguirão culpando o remédio (a Selic elevada) e desacreditando o diagnóstico (o governo é gastador). Quando o paciente é negacionista e recusa a própria responsabilidade no tratamento, não há remédio que resolva.
Erros e falta de visão para o futuro do governo comprovam que não se pode esperar muito de Lula 3
Por Diogo Schelp / O ESTADÃO DE SP
A queda abrupta na aprovação do governo Lula em pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (14), com apenas um em cada quatro eleitores brasileiros classificando sua gestão como ótima ou boa, tem algumas explicações objetivas, como a corrosão da renda da população e os erros de gestão e comunicação muito bem explorados pela oposição, a exemplo da mal-lograda tentativa de aumentar a fiscalização sobre o Pix. Esses fatores até podem ser corrigidos com mudanças efetivas nas políticas públicas, a começar por aquelas que alimentam a inflação, se o petista estivesse disposto a ir contra os próprios instintos perdulários. Mas há uma razão subjetiva para o derretimento do apoio ao governo Lula que é persistente e muito mais difícil de combater: o fato de que desde o começo os eleitores tinham baixa expectativa em relação ao seu terceiro mandato.
Em janeiro de 2023, o Datafolha revelou que apenas 49% dos brasileiros achavam que Lula 3 seria um ótimo ou bom governo. Era a expectativa positiva mais baixa de todos os presidentes no início de seus mandatos desde a redemocratização, inclusive do próprio Lula. Em 2002, depois da sua primeira eleição, 76% dos entrevistados disseram que ele faria um gestão ótima ou boa. Bolsonaro começou seu governo com uma expectativa positiva de 65% e até Dilma Rousseff deu o pontapé inicial em seu primeiro mandato com 73% de eleitores esperançosos. É verdade que Lula tem a particularidade de não estar em seu primeiro governo, mas, sim, em seu terceiro mandato não consecutivo. Mas isso não ameniza as coisas para o seu lado.
É tentador atribuir essa baixa expectativa em relação a Lula 3 ao fato de o petista ter vencido a eleição de 2022 por uma margem apertada. Mas essa não era a única razão. Há de se considerar também que a imagem do presidente eleito estava desgastada por seu passado de condenações por corrupção que o levaram à cadeia e que, posteriormente, foram anuladas. Esse histórico penal foi deixado de lado por uma parte significativa do eleitorado que avaliou ser um mal maior permitir a continuidade do governo de Jair Bolsonaro.
Esse é o ponto que interessa e que assombra Lula até hoje: ele não foi eleito para o seu terceiro mandato por oferecer esperança aos eleitores, mas porque a rejeição a Bolsonaro era muito alta e porque o petista se apresentou como a pessoa capaz de derrotá-lo. Lula não venceu por ter uma visão de futuro para o país ou as melhores propostas para melhorar a vida dos cidadãos, mas por ter sido o candidato mais anti-Bolsonaro disponível. A baixa expectativa que muitos eleitores tinham em relação ao terceiro mandato de Lula era ao mesmo tempo uma oportunidade e um risco para o presidente. A oportunidade era a de apresentar um governo melhor do que dele se esperava, obtendo, como recompensa, uma alta satisfação popular. O risco era o de confirmar ou até mesmo frustrar negativamente a já baixa expectativa que se tinha em relação ao seu governo.
Estudos de psicologia social demonstram que as pessoas tendem a reter informações que confirmam suas expectativas e ignorar ou descartar fatos que as desmentem. Ou seja, a não ser que Lula fizesse um governo realmente bom, superando as expectativas de forma inequívoca, cairia em uma armadilha de avaliação popular em que eventuais conquistas, como a baixa taxa de desemprego, passam despercebidas e os erros e problemas, como a inflação em alta, ganham relevo, confirmando a descrença de que sua gestão seria bem sucedida e resolveria as mazelas da população.
O desmoronamento de sua popularidade, portanto, não era uma questão de “se”, mas de “quando”. Mais ou cedo ou mais tarde, a conjunção de fatores objetivos, como a inflação dos alimentos e a possibilidade de mudanças no PIX, confirmaria o fator subjetivo, a baixa expectativa em relação ao governo, e se refletiria no derretimento dos seus índices de aprovação. Haja estratégia de marketing para lidar com isso.

Jornalista e comentarista político, foi editor executivo da Veja entre 2012 e 2018. Posteriormente, foi redator-chefe da Istoé, colunista de política do UOL e comentarista da Jovem Pan News. É mestre em Relações Internacionais pela USP.

