Defesa de Bolsonaro se diz estarrecida e indignada com denúncia da PGR e fala em 'narrativa fantasiosa'
A defesa de Jair Bolsonaro (PL) afirmou nesta terça-feira (18) que recebeu com "estarrecimento e indignação" a denúncia contra o ex-presidente e que não há elementos na peça da PGR (Procuradoria-Geral da República) que o conecte à "narrativa construída" no documento.
O comunicado diz, ainda, que o Bolsonaro nunca esteve próximo de qualquer forma de ruptura do Estado democrático de Direito. Para os defensores, a PGR chega ao 'cúmulo' de atribuir ao ex-presidente participação em planos contraditórios entre si e baseada em uma única delação premiada.
"A despeito dos quase dois anos de investigações — período em que foi alvo de exaustivas diligências investigatórias, amplamente suportadas por medidas cautelares de cunho invasivo, contemplando, inclusive, a custódia preventiva de apoiadores próximos —, nenhum elemento que conectasse minimamente o presidente à narrativa construída na denúncia, foi encontrado."
Bolsonaro foi acusado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) de praticar os crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito e de golpe de Estado, de dano qualificado pela violência e grave ameaça contra patrimônio da União, deterioração de patrimônio tombado e participação em uma organização criminosa.
Somadas, as penas máximas chegam a 43 anos de prisão, sem contar os agravantes, além da possibilidade de ele ficar inelegível por mais tempo do que os oito anos pelos quais foi condenado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
De acordo com a nota da defesa, não há qualquer mensagem de Bolsonaro que embase a acusação, apesar de uma verdadeira devassa ter sido feita em seus telefones pessoais.
Os representantes do ex-presidente junto ao STF (Supremo Tribunal Federal) falam em denúncia inepta e que a acusação chega "ao cúmulo de lhe atribuir participação em planos contraditórios entre si e baseada numa única delação premiada, diversas vezes alteradas, por um delator [o ex-ajudante de ordens Mauro Cid] que questiona a sua própria voluntariedade".
"Não por acaso ele mudou sua versão por inúmeras vezes para construir uma narrativa fantasiosa", diz a defesa. "O presidente Jair Bolsonaro confia na Justiça e, portanto, acredita que essa denúncia não prevalecerá por sua precariedade, incoerência e ausência de fatos verídicos que a sustentem perante o Judiciário."
Mis cedo nesta terça, em visita ao Senado, Bolsonaro comentou estar tranquilo diante de uma então iminente denúncia da Procuradoria.
"Não tenho nenhuma preocupação quanto às acusações, zero", disse a jornalistas após almoço com senadores aliados.
"Estou aguardando chegar [a denúncia]. Espero que agora eu possa ter acesso aos autos. Você já viu a minuta de golpe, por acaso? Não viu. Eu também não vi. Já viu a delação do [Mauro] Cid? Você não viu. Estou aguardando."
Ele criticou a decisão da Justiça Eleitoral que o tornou inelegível e voltou a atacar o TSE. O ex-presidente afirmou que Lula (PT) está "derretendo" e insinuou haver um movimento para impedi-lo de disputar a eleição contra o petista.
Além de Bolsonaro, outras 33 pessoas foram denunciadas pela PGR, entre eles o ex-ministro Walter Braga Netto, que foi candidato a vice-presidente na chapa de 2022 e, atualmente, está preso preventivamente. Fora o general, outros cinco estão detidos.
Também foram denunciados os ex-ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Anderson Torres (Justiça), o ex-comandante da Marinha Almir Garnier Santos e o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro Mauro Cid, que firmou acordo de delação premiada e deve obter benefícios.
A lista dos denunciados inclui 23 militares das Forças Armadas —7 deles são oficiais-generais. Somente a Aeronáutica não teve acusados.
O termo 'identitário' azedou
Mariliz Pereira Jorge / Jornalista e roteirista de TV/ FOLHA DE SP
Identitários de esquerda já perderam. Apenas não sabem —ou se fazem de sonsos. São tão ensimesmados que não percebem que o eco de seus discursos inflamados vem minguando. São incapazes de uma leitura de mundo e de momento descontaminada para entender que passaram a ser criticados por parte de uma audiência que defende os mesmos fins, mas não endossará e cada vez menos se calará diante dos meios.
Cidadãos que se identificam com a esquerda já colocam em balaios distintos ativistas sérios de movimentos sociais das caricaturas que os identitários se tornaram. De um lado, aqueles que têm foco em causas que melhoram objetivamente a qualidade de vida e os abismos de desigualdade que existem no país. Do outro, radicais com pautas que só servem para animar a claque, garantir likes e um bom dinheiro em consultorias e palestras, além de cancelamentos em série para provar seu virtuosismo.
Do teclado do identitário não sai uma única solução para problemas reais que precisam ser enfrentados, apenas combustível para uma guerra infinita de reparação, fincada num discurso punitivista. É o que fizeram com a psicanalista Maria Rita Kehl e com o diretor Walter Salles, mas sobra para todos que ousam questioná-los. Suas ações são baseadas em condenações sumárias, assassinato de reputações, desqualificação de interlocutores por conta de gênero e de etnia.
Agora que o termo azedou de vez, identitários querem fazer crer que os críticos são contra causas e conquistas legítimas, ao mesmo tempo em que ignoram os sinais de fadiga dessa forma de atuação vindos do hemisfério norte. É decolonial para cá, decolonial para lá, mas copiam "ipsis litteris" a receita desastrosa do wokismo "estadunidense".
Em vez de moderar o tom e focar mais em interesses coletivos e menos em dores e traumas individuais, alimentam a sanha da extrema direita, que agradece o comportamento autofágico dos justiceiros, eficientes apenas na decolonização dos centros acadêmicos das universidades e na derrubada do patriarcado da Vila Madalena.
O confrade manda a real
Dora Kramer / Jornalista e comentarista de política / FOLHA DE SP
Do jeito que vai, o PT —com Lula ou sem ele— perde a eleição em 2026. Foi, em resumo, o que disse Antônio Carlos de Almeida Castro, admirador e apologista das ideias do presidente. Isso até segunda-feira (17), quando escreveu e depois falou em voz alta o que governistas dizem no particular.
Kakay, como é conhecido o advogado, expôs em detalhe o que Gilberto Kassab havia dito há dias levando Lula a usar de ironia: "Comecei a rir quando li a declaração do companheiro Kassab".
Segundo o presidente do PSD, governo nenhum se sustenta com ministro da Fazenda fraco. Ele alertou para a necessidade de o presidente fortalecer Fernando Haddad (PT) a fim de chegar competitivo à eleição de 2026.
Pois Kakay, companheiro de fato, foi além ao apontar com precisão o efeito do distanciamento de Lula da realidade à sua volta: "Está se esforçando para perder a reeleição". Recado de amigo, muito longe de poder ser visto como intriga do inimigo.
É uma crítica, claro, mas em tom de alerta de quem está vendo o ambiente se deteriorar e apela por uma reação o quanto antes. É muito diferente da posição dos adversários. Estes não externam apreensão; antes olham a cena com satisfação.
Ministros e aliados integrantes do grupo para onde foi dirigida inicialmente a análise não tiveram esse entendimento em público. Dividiram-se entre o silêncio reverente, para não dar margem a maior repercussão, e o levantar de peneiras, para tapar a escorchante luz do sol.
A linha de defesa foi a de alegar que a situação é passageira, pois as pesquisas (principalmente a mais recente do Datafolha) registram uma foto do momento. Um instantâneo duradouro, digamos. A queda na aprovação do governo vem sendo constante e desabou de dois meses para cá.
A conferir qual será a escolha de Lula: levar em conta a avaliação sincera do confrade ou dar ouvidos às aleivosias dos aduladores de plantão. Na primeira hipótese, terá chance de se reorganizar. Na segunda, insistirá na persistência do erro para honra e gáudio da oposição.
Por que o comércio da avenida Gomes de Matos em Fortaleza está em decadência? Entenda
Funcionário de um lava-jato, no início da via, Francisco Eduardo, 59 anos, é saudosista do comércio da Gomes de Matos. Em poucos minutos de conversa, ele relembra restaurantes, grandes lojas de tecidos e aviamentos e até agências bancárias que o local já teve e que fecharam.
"O Montese já foi bom de comércio, mas é só andar por aqui para você ver, as coisas tudo fechadas e até os telhados estão levando".

O pouco movimento reflete no número de carros que Eduardo lava. "Tem dias que não para ninguém. Que passo o dia sentado sem fazer nada, é muito ruim."
Proprietário de uma Loteria, David Bezerra, 31 anos, diz que depois do fechamento na pandemia, só os grandes voltaram a abrir e "nem foram todos". Ele comenta que com o aluguel caro, se colocar mesmo na ponta do lápis, só consegue "empatar" no final do mês.
Tô há 10 anos aqui e fico porque ainda tenho os clientes fiéis. Quando cheguei ainda era bom, mas, agora, tá bem complicado".
A vendedora Silvana Lessa, 57 anos, acredita que o fechamento do comércio em geral, na região, tem relação com a economia.
"Tudo só aumentando, o governo só colocando encargos. Isso tira o poder econômico dos investidores, dos comerciantes e vai afastando o consumidor também, que não consegue comprar. Noto que não é só a Gomes de Matos, é o bairro todo. Aqui na Expedicionário também o tanto que tem de imóveis vazios, é muito triste. O pouco que tá aberto, não tem gente dentro, não vende".
O vendedor de uma loja de redes que preferiu não se identificar, afirmou que o movimento é fraco. "Tem dias que vende, tem dias que não entra ninguém".
E, enquanto a reportagem esteve no local, o movimento de consumidores era fraco. As únicas lojas com mais gente eram as autopeças. Nestas, principalmente em frente a uma rede com diversos prédios no local, havia muitos carros estacionados em frente e filas no balcão.
Já outros estacionamentos de calçada até estavam cheios, mas não de consumidores. Um flanelinha que diz trabalhar há tempo no local, mas não soube precisar quanto, afirmou que as pessoas estavam em atendimento médico em uma clínica de um plano de saúde.
"Essa gente não tá comprando, tá em consulta. E quando tinha as Americanas aqui também não tinha movimento, não. Por isso fechou".
Sem levantamentos ou estudos do local
A reportagem procurou a Câmara de Dirigentes Logistas (CDL), mas a entidade não possui estudos sobre os comércios de ruas de bairros, como a Avenida Gomes de Matos.

Assim, conforme informações da assessoria de comunicação, a SMDE enviaria uma equipe técnica do núcleo de Empreendedorismo e Sustentabilidade de Negócios, ainda na semana passada, para "conversar com os empreendedores, acolher as demandas e avaliar que ações podem ser desenvolvidas para o comércio da região".
Para Christian Avesque, consultor de empresas e professor da Faculdade CDL, há três questões fundamentais influenciando na diminuição dos corredores comerciais mais antigos da cidade, como esse da Avenida Gomes de Matos. São elas: estrutura, segmento de mercado e comportamento de compra.
Ele relata que historicamente a região do Montese teve um destaque demográfico muito grande, nas décadas de 80 e 90 e, por isso, o comércio de rua era muito forte, e não apresentava problemas ligados a estacionamento, segurança e conveniência. Porém, de 2015, 2018 para cá, sobretudo no pós-pandemia, esses corredores comerciais que eram fortes perderam densidade.
Ou seja, elas têm um fluxo intenso de passantes, de transporte público e individual, mas a densidade, o qual é um conceito importante, onde o consumidor para, tem conforto, tem um estacionamento, pode se deslocar sem ter trânsito, sem ter nenhum atrito, a Gomes de Matos perdeu muito, assim como a Bezerra de Menezes, dentre outras".
Sobre o pós-pandemia, Avesque comenta que comércios mais populares, como os de utilidades, também perderam força nas ruas. "O consumidor tem preferido comprar esses produtos de forma híbrida, sobretudo nos canais digitais, recebendo em casa em até 24 ou 48 horas".
A outra questão ligada ao consumidor, propriamente dito, é que com a compra pela internet "ele não se sujeita mais ao calor, barulho e insegurança, dessas grandes vias das áreas mais periféricas de Fortaleza".
"O consumidor já tem condições de ter uma compra com nível de preço semelhante, sem correr tanto risco, sem ter tanto atrito e sem ter um, vamos dizer assim, sofrimento no processo de compra", comenta.
As novas tendências do comércio
Sobre os segmentos de mercado que a Gomes de Matos apresentava, o especialista diz que no tempo de comércio mais forte, eram cinco. O primeiro era o segmento bancário, "que está completamente no ambiente digital".
O segundo é o de confecções. Avesque diz que o Montese, historicamente, tinha muitas facções, oficinas e tinha as lojas próprias dessas empresas. "E esse comércio de roupa, vestuário, ou ele migrou para o ambiente digital, ou migrou para os centros populares e outros modelos de operação semelhantes".
"E dentro dessa questão de infraestrutura, o consumidor fica muito mais confortável e com conveniência comprando vestuário via smartphone, ou então em centros populares que têm preços mais baixos", reforça
Fios e aviamentos também ligados às confecções eram comércios facilmente encontrados no local. Porém, pequenos e médios empreendedores têm ido a São Paulo comprar produtos ou então compram em ambiente digital, podendo ter preços e condições melhores, comprando em escala maior.
Lojas de materiais de construção são citadas como um terceiro segmento que já foi muito forte naquela área. Mas com o surgimento dos home centers (lojas de materiais de construção), Avesque afirma que o consumidor acaba atraído por ter tudo no mesmo local e pelas condições de preço.

"Assim, essas lojas de materiais de construção acabam servindo só para emergências. Então, acabam sem ter um ticket médio de compra que banque a operação na totalidade".
E o quarto segmento que era importante, dentro daquela área, era de miudezas e utilidade. Este ainda pode ser encontrado, mas em menor escala. Na avenida ainda é possível ver casa de venda de redes, de material escolar e brinquedos, além de grandes nomes estaduais, como Casa Freitas e nacionais como Magazine Luiza e Casa Bahia, entre outras.
Vale lembrar que no início deste ano a unidade das Lojas Americanas da Gomes de Matos foi fechada.

"Neste aspecto, há um movimento de preferir ir aos shoppings para estas compras, como também a 'shoppização' do centro da cidade, em que muitas vezes vale mais a pena você se deslocar e ter uma condição econômica para poder barganhar os preços", reforça Avesque.
Perfil do bairro mantém vivas as autopeças
Diferente de todos os outros segmentos de comércio que sofreram com a chegada de novas opções e do conforto para o consumidor trazido pelo comércio virtual, andando pela rua é possível encontrar muitas autopeças ou lojas relacionadas.
Essas lojas se mantêm, conforme o professor da CDL, por conta do perfil dos moradores da região. De classe média baixa, eles teriam veículos mais antigos que precisam de manutenção de oficinas de bairro.
"Essa é uma demanda primária, quando quebra o carro, quando precisa fazer um reparo. Então, circundante em um raio de 3 a 5 km dessas autopeças há oficinas tradicionais, que não são autorizadas das marcas, ou pequenas oficinas, que precisam de rapidez para entregar esses carros e segurança para ser feito o reparo."
Avesque afirma ainda que esse tipo de comércio e serviço muitas vezes fazem parceria e, inclusive, o consumidor consegue pagar tudo junto e parcelado.
"A grande explicação disso é o poder de renda do entorno desse bairro, com a densidade demográfica de pessoas com renda média baixa, a idade média da frota de veículos entre 10 e 15 anos, a necessidade de consertos ágeis e maquinetas compartilhadas, para oferecer uma forma de pagamento que caiba no bolso".
Salas ociosas e aluguéis caros
Andando pela avenida a reportagem se deparou com muitas salas e prédios com placas de venda ou aluguel. Não há uma entidade que faça levantamento sobre esse dado, mas, na percepção da equipe, cerca de um terço dos locais disponíveis está vazio. Buscando algumas imobiliárias com placas afixadas, foi possível saber média de preços e de tempo aberto de locação.

Com 7 anos de corretagem de imóveis, Felipe Arrais afirma que os preços de locações na avenida iniciam em R$ 2 mil. Com uma sala disponível na imobiliária em que trabalha, ele comenta que o local entrou em sua carta de negócios há 5 meses.
"Depois da pandemia o mercado aqui da região teve um grande colapso. Como o comércio está mais online, os comerciantes estão optando por pegar pontos mais baratos e investir em tráfego pago (estratégia de marketing digital que visa atrair visitantes para um negócio por meio de anúncios)", relata.
Luiz Carlos Pinheiro Bastos, corretor em Fortaleza há 32 anos, reforça ter muitos imóveis desocupados na avenida. "Isso aconteceu nos últimos 10 anos. Antes essa avenida era um polo de lojas do setor de aviamentos e tecidos para confecção. Esse setor transferiu suas lojas para lugares mais baratos, pois a virtualização dispensa a loja física", conta.
Sobre os valores no local, ele afirma que para venda o metro quadrado (m²) está de R$ 3 mil a R$ 3,5 mil de terreno, conforme as benfeitorias e padrões de construção. Já para alugar, galpão está na faixa de R$ 20 o m² e terreno seria de R$ 10 a R$ 30 o m². As lojas teriam os valores de 0,5% a 1% do valor do imóvel.
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As voltas que o mundo dá
Por Merval Pereira / O GLOBO
A política se move por sensações, das quais o medo é a mais importante. O cidadão vota por medo de perder o emprego, medo de perder benefícios, medo de mudanças radicais, medo de continuar sem perspectivas e assim por diante. Às vezes, como no caso do Pix, ou dos celulares em 2002, esse sentimento não é captado pelos políticos. Outras, como no caso do Bolsa Família ou do crédito consignado, responde a uma necessidade reprimida do cidadão comum e torna-se ferramenta eleitoral poderosa.
Quando o Pix foi lançado pelo Banco Central, no governo Bolsonaro, não houve a percepção de que era uma ajuda fundamental aos pequenos empreendedores, uma conquista que permite a indivíduos transacionar fora do sistema bancário, autonomamente. Por isso, quando se espalhou o boato de que o governo taxaria transações a partir de determinada quantia, houve uma revolta incontrolável, que levou a uma derrota do governo. Só cancelando a norma interna da Receita Federal ele conseguiu convencer a população de que não haveria taxação.
Bolsonaro não conseguiu transformar em votos essa ferramenta popular que seu governo criou. Da mesma maneira, em 2002, o candidato tucano José Serra não usou o celular em sua campanha eleitoral. Hoje, os celulares são o dobro da população brasileira. Um instrumento de trabalho fundamental, como o Pix. O Bolsa Família surgiu para substituir o Fome Zero, que falhou no seu objetivo.
Inicialmente, seria um instrumento político para dar poder aos cidadãos das comunidades, fora da alçada dos prefeitos e vereadores. Só que o então ministro Patrus Ananias entendeu que a validade daquele pacote social ia muito além e convenceu Lula a colocar os prefeitos no esquema de distribuição do Bolsa Família, transformando-os em cabos eleitorais diretos. Foi um sucesso, a tal ponto que o PT passou a usar a ameaça de que o Bolsa Família acabaria se Lula fosse derrotado. O medo de perdê-lo deu muitos votos ao PT e a Lula, até que o tempo fez com que o benefício passasse a ser entendido pelos beneficiários como parte de seus recursos financeiros, irrevogável.
Quando Bolsonaro não apenas manteve o plano, com outro nome, mas aumentou seu valor, ficou claro que governo nenhum acabará com o Bolsa Família. Sua eficácia eleitoral também foi reduzida. Para o economista Fabio Giambiagi — que acaba de lançar novo livro analisando a trajetória da economia brasileira nos últimos 40 anos (“A vingança de Tocqueville” — editora Alta Books), o PT está desperdiçando uma nova oportunidade.
Giambiagi pontua que, nas últimas quatro décadas, o país registrou avanços importantes. Reconquistou a democracia. Desde a reestruturação da política brasileira e a garantia dos direitos civis e políticos da população, o Brasil derrotou a hiperinflação, enfrentou a dívida externa e avançou na rede de proteção social. Ele lembra que os avanços do país estão associados a três períodos e a três governos: a redemocratização, à década de 1980 e ao governo Sarney; a estabilização, aos anos FH (1995/2002); e os avanços sociais aos dois primeiros governos Lula (2003/2010). Depois de 2010, o país se perdeu.
O livro de Giambiagi menciona que essa trajetória se deu, em grande parte, em razão do desencontro entre o PSDB e o PT: “O fim indolor da inflação ter sido uma marca do PSDB foi algo que o PT não conseguiu perdoar nos 20 anos seguintes e colocou os dois partidos em polos opostos. Nas últimas quatro décadas o Brasil continuou tropeçando nas finanças públicas e na produtividade.
Os gastos públicos cresceram quase que continuamente — com exceção do período 2017/2022, deixando de lado a alta pontual de 2020 — e, agora, o governo Lula, repetindo o desgastado receituário de uma economia com forte presença do Estado, implementou um programa de expansão fiscal com intensidade poucas vezes vista — e voltou a usar a Petrobras para políticas que não dão certo”.
Esquerda está presa em torre de marfim, diz cientista político Yascha Mounk
Ana Luiza Albuquerque / FOLHA DE SP
Conhecido por pesquisar a ascensão de líderes populistas e a crise da democracia liberal, o cientista político germano-americano Yascha Mounk aponta falhas no comportamento da esquerda ao lidar com esses fenômenos.
Em entrevista por videoconferência à Folha, Mounk defende que a esquerda está presa em uma torre de marfim, que passou a se ver como parte do establishment e que deveria recuperar suas raízes como defensora da liberdade de expressão.
Ex-colunista da Folha, ele argumenta que a regulação das redes sociais deveria ser limitada, por acreditar que não cabe aos governos ou às empresas de tecnologia decidir quais visões devem ser censuradas. "Embora países da Europa e da América Latina tenham adotado formas bastante extremas de censura, eles não conseguiram fazer desaparecer as ideias que esperam censurar", diz.
Bolsonaristas ficaram muito animados com a vitória de Donald Trump. O quanto populistas de direita com tendências autoritárias fortalecem uns aos outros?
O Brasil e os Estados Unidos são, em alguns aspectos, sociedades bastante semelhantes. Por isso, acho que o fato de alguém como Trump vencer pela segunda vez também deve atualizar a probabilidade de alguém da linha de Bolsonaro ser eleito no Brasil.
Acho que a parte mais importante é a informação que nos dá sobre a natureza atual das sociedades democráticas ocidentais. Há também a influência política direta. O fato de que o presidente dos Estados Unidos e um dos homens mais ricos do mundo, Elon Musk, possam estar ajudando a impulsionar essas forças políticas no Brasil. Isso possibilita que Bolsonaro ou Marine Le Pen, na França, digam: "Nosso relacionamento com os Estados Unidos irá melhorar se eu for eleito, em vez de nos tornarmos um pária internacional como resultado da minha eleição".
Trump disse que os Estados Unidos não precisam do Brasil. Isso também sinaliza que Bolsonaro e seus aliados não são tão importantes para ele?
Bem, a única pessoa que é importante para Donald Trump é Donald Trump. Seu critério para determinar de quem ele gosta é quem gosta dele. Em suas negociações com o Brasil ou com outros países, Trump dirá: "Estou feliz em trabalhar com qualquer pessoa, desde que você reconheça que eu sou o chefe". Não acho que ele tenha pensado muito sobre Lula ou Bolsonaro. Ele diz, claro, eu me dou bem com Lula, eu me dou bem com qualquer um, desde que ele me dê o que eu quero.
A vitória de Trump é um alerta para Lula, considerando-se as próximas eleições?
Esse estilo de política [populismo] se tornou uma das forças dominantes em praticamente todas as democracias do mundo. Mas as forças moderadas também mantêm um lugar muito poderoso. Podemos esperar uma concorrência bastante acirrada entre elas.
O que eu entendo, não acompanhando de perto a política brasileira, é que Lula, neste momento, é o favorito para vencer a reeleição. Mas ele certamente tem vulnerabilidades, desde sua idade até o fato de o Brasil ser um país muito polarizado.
Ao longo dos anos, os democratas tentaram de tudo para derrotar Trump, trabalhando por seu impeachment e para que as investigações contra ele avançassem. Por que todas as estratégias falharam?
Bem, você está certa e errada. Eu diria que os democratas tentaram todas as estratégias exceto se olhar no espelho e tentar adotar posições populares. De certa forma, Trump tem sido muito mais implacável e ágil ao lidar com suas fraquezas. Assim, quando percebeu que o aborto era um perigo para ele, prometeu que não assinaria uma lei federal proibindo o procedimento. Os democratas não fizeram tanto para cobrir suas vulnerabilidades em questões como imigração e a participação de mulheres trans em esportes competitivos ou outras áreas em que são profundamente impopulares.
Qual o primeiro passo para derrotar Trump?
Eu diria que é evitar os erros que os democratas cometeram em 2016. Aceitar que Trump foi legitimamente eleito, evitar afirmações enganosas sobre as maneiras pelas quais ele é perigoso, concentrar-se nos abusos reais de poder, que serão muitos. Temo que os democratas já estejam caindo na armadilha de não fazer isso. O governo tomou tantas medidas genuinamente impopulares ou potencialmente perigosas nos primeiros dez dias, mas o maior debate nas redes sociais foi a respeito de Elon Musk ter feito ou não uma saudação a Hitler.
Eu me pergunto se os democratas estão perdidos da mesma forma que a esquerda brasileira por vezes parece perdida diante da direita bolsonarista.
Eles estão muito perdidos. Eu sempre penso em um famoso livro de Thomas Kuhn sobre a estrutura das revoluções científicas. Ele diz que, quando um determinado paradigma científico deixa de explicar o mundo, mesmo os cientistas que começam a reconhecer isso não são capazes de abandonar essa estrutura, porque eles não têm alternativa. É preciso inventar uma nova estrutura para que eles estejam dispostos a abandonar a antiga.
Se você não tem uma nova estrutura, você dobra a aposta nas coisas fáceis. Você chama Trump de Hitler, de Mussolini. Você volta a usar formas de política simbólica que reúnem sua base, agradam seus doadores e são exigidas por seus funcionários mais jovens, mas não faz nada para expandir sua coalizão ou mesmo para manter ao seu lado as pessoas que historicamente fizeram parte dela.
Por que os grandes empresários da tecnologia têm se alinhado a líderes como Trump?
Primeiro, eles estão genuinamente irritados com as tentativas de censura do governo. Qualquer pessoa que defenda a liberdade deveria ser mais cética em relação à visão dominante em grande parte da Europa e da América Latina. Eu me tornei bastante norte-americano em relação a isso. Não acho que os governos devam decidir o que posso dizer e ler online. E também não acho que os bilionários devam decidir. A única maneira de preservar isso é exigir de fato uma liberdade de expressão genuína e abrangente nessas plataformas.
O sr. é contra qualquer forma de regulação das redes?
Precisamos de algumas formas de regulamentação para coisas como pornografia infantil e chantagem. Mas não deveria ser possível o governo dizer que "essa é uma visão política que consideramos ruim, ofensiva ou perigosa e, portanto, vamos exercer influência sobre essas empresas para forçá-las a retirar essas coisas do ar". Acho que é muito ingênuo, principalmente em uma época em que as forças populistas são tão poderosas como agora, pensar que os governos estarão sempre, ou na maioria das vezes, ao lado dos tolerantes e dos progressistas.
A esquerda se acostumou a tentar remover uma ideia do debate em vez de disputar a opinião pública?
Sim, e acho que isso tem algo a ver com o fato de a esquerda ter ficado presa à mentalidade da torre de marfim. É fácil quando você está em um espaço como uma universidade, em que a esquerda tem sido dominante há muitas décadas, fazer apelos à autoridade porque você sabe que a pessoa em posição de autoridade concorda com você.
Embora países da Europa e da América Latina tenham adotado formas bastante extremas de censura, eles não conseguiram fazer desaparecer as ideias que esperam censurar.
A esquerda deveria recuperar suas raízes como defensora da liberdade de expressão. A triste verdade é que é sempre o establishment que quer impor limites ao discurso. Em muitos países, a esquerda começou a ser tentada por essa posição equivocada, que vai contra sua própria história e tradição, porque começou a se considerar como o establishment.


