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Escárnio com o eleitor

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A articulação do PL para lançar Eduardo Bolsonaro ao Senado por São Paulo, ainda que como suplente, cristaliza uma distorção crescente na política brasileira: a perda de relevância do desempenho no exercício do mandato como critério para a vida pública. Se antes o cargo exigia presença, hoje parece bastar o sobrenome. Deputado federal mais votado do País em 2018, com 1,84 milhão de votos, Eduardo perdeu seu mandato ao deixar de comparecer às sessões e não cumprir as exigências regimentais do mandato, após se mudar para o exterior.

 

Os dados mais recentes ajudam a dimensionar o problema. Em 2025, Eduardo não apresentou nenhum projeto de lei de autoria individual, participou de apenas 11 votações e fez um único discurso em plenário. Ainda assim, utilizou R$ 67.995 em cota parlamentar e R$ 1,5 milhão em verba de gabinete, segundo a Câmara dos Deputados.

 

Apesar disso, seu nome segue no centro das negociações políticas. O PL discute indicá-lo como suplente na chapa ao Senado encabeçada pelo presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado (PL), em composição vinculada ao projeto político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A própria viabilidade jurídica da candidatura ainda é analisada, diante do fato de Eduardo estar fora do País.

 

Não se trata apenas de um episódio individual. O que está em jogo é mais amplo: a progressiva dissociação entre mandato e responsabilidade. Durante muito tempo, ausência e baixo desempenho inviabilizavam candidaturas. Essa lógica, ao que tudo indica, deixou de operar.

 

O próprio campo político que sustenta a candidatura reconhece a contradição. Em fevereiro, ao comentar a hipótese de lançar o irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PL) fez uma pergunta singela: “Como é que a gente vai explicar para o eleitor que ele quer ser candidato se foi cassado por falta?”. A dúvida permanece válida. O que mudou foi a disposição de ignorá-la.

 

A condição de suplente, nesse contexto, pode funcionar como um atalho conveniente para contornar o constrangimento. Ao não encabeçar a chapa, dilui-se o custo político imediato da candidatura. Mas o expediente não altera a substância do problema e tampouco elimina seus efeitos. No Senado, suplentes assumem com frequência, sobretudo quando os titulares são chamados a ocupar cargos no Executivo. Em um eventual novo mandato de Tarcísio de Freitas, não seria improvável que o titular da chapa fosse deslocado para funções no governo, abrindo espaço justamente para quem hoje busca se acomodar na suplência.

 

Mesmo antes disso, porém, a presença de Eduardo na chapa já cumpre um papel eleitoral evidente. Seu nome, associado a um eleitorado altamente mobilizado, tende a funcionar como fator de atração de votos, independentemente de seu histórico recente no exercício do mandato.

 

Ao admitir como viável o retorno, ainda que indireto, de um político que não exerceu plenamente o mandato para o qual foi eleito, partidos contribuem para rebaixar os padrões mínimos de exigência. O problema, portanto, não se esgota na figura de Eduardo. Ele apenas explicita uma distorção mais ampla.

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