Na trincheira dos juros
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto porcentual, para 14,5% ao ano, em reunião concluída em 29 de abril. A harmonia dos membros do comitê em relação à magnitude do corte, que veio de acordo com o esperado pelo mercado financeiro, contrasta com o que se viu nos EUA.
Por lá, o Fed (banco central americano) também adotou a decisão que era aguardada e manteve a taxa de juros de referência entre 3,5% e 3,75%, mas de forma totalmente dividida. A maioria do colegiado optou pela manutenção dos juros, mas também houve quem votasse por um comunicado sem sinalização de cortes futuros e quem tenha deliberado por uma queda da taxa já agora. Desde que retornou à Casa Branca, o presidente Donald Trump vem constrangendo publicamente o banco dos EUA a cortar os juros na marra. Por ora, ele foi bem sucedido em instalar a discórdia entre os membros do colegiado. A influência do presidente pode vir a crescer, porém, já que o atual presidente do Fed, um dos alvos preferenciais da ira do republicano, está de saída.
Já aqui, a despeito do fato de que a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, tal qual a de Trump, também pressiona por juros mais baixos, o BC tem se mostrado estritamente técnico e unido no combate à inflação. A coesão na tomada de decisões é um sinal importante no que diz respeito à formação de expectativas. Uma autoridade monetária que emite sinais contraditórios causa perturbações desnecessárias no mercado. Tudo isso é ainda mais importante no momento em que o cenário para a determinação dos juros tornou-se especialmente mais complexo.
Como destacou o próprio Banco Central no comunicado sobre o corte recente da Selic, o ambiente para a calibragem da política monetária no Brasil é extremamente desafiador. Por um lado, a atividade econômica do País, por força dos juros elevados já há bastante tempo, vem desacelerando, como era de se esperar. Por outro, no entanto, o prolongamento do conflito no Oriente Médio amplia o estrangulamento sobre a cadeia de fornecimento global de petróleo e derivados, alimentando a inflação.
“Neste momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária”, enfatiza o BC.
Em função disso, instituições financeiras, que antes previam que a Selic encerraria 2026 no patamar de 13%, já começaram a rever suas projeções e estimam que os juros devem encerrar o ano entre 13,25% e 13,5%. É o mais provável, embora o comunicado do BC não ofereça muitas pistas sobre os próximos passos. O que o comunicado faz, além de descrever o efeito da política contracionista sobre a atividade econômica e as projeções de inflação elevada, é sinalizar que “segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros”.
No fim, o que o BC fez foi comprar tempo para ter mais serenidade quando voltar a deliberar sobre a Selic, já no mês que vem.

