Estruturas instaladas na faixa de areia da Praia do Futuro são retiradas por fiscalização
Cerca de 40 agentes participam da ação, entre eles fiscais da SPU, da Vigilância Sanitária, da Agência de Fiscalização da Prefeitura de Fortaleza (Agefis), da Polícia Militar (PM), da Polícia Federal (PF), além da Guarda Municipal de Fortaleza (GMF).
O material demolido e removido ficará sob responsabilidade da Prefeitura de Fortaleza, que dará a destinação adequada, conforme a pasta federal.

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A dívida fala mais alto
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A dívida bruta deve ultrapassar a marca de R$ 10 trilhões em 2026, segundo reportagem publicada pelo Estadão/Broadcast, e o gasto com o pagamento dos juros deve chegar a R$ 1 trilhão ainda neste ano, cifra inédita na série de estatísticas fiscais do Banco Central (BC) iniciada em 2001. Os dados ilustram a escalada do endividamento público e provam a insuficiência do arcabouço fiscal como instrumento para estabilizar sua trajetória.
Nos últimos dez anos, a dívida bruta mais que dobrou. De R$ 3,252 trilhões em 2014, o endividamento atingiu R$ 8,984 trilhões no fim do ano passado. Na proporção do Produto Interno Bruto (PIB), por sua vez, o avanço foi de cerca de 20 pontos porcentuais, de 56,28% para 76,50% do PIB. Em 2028, a projeção é de que ela atinja R$ 11,314 trilhões, o equivalente a 89,27% do PIB, segundo previsões do mercado coletadas pelo BC.
O governo Lula da Silva sustenta não haver riscos de insolvência, cenário com o qual ninguém, de fato, trabalha no mercado financeiro. Mas isso não significa que não haja problemas, pois uma dívida elevada é, por óbvio, cara. Segundo o BTG Pactual, apenas a Bolívia precisa captar mais dinheiro que o Brasil para rolar sua dívida.
Ainda que não haja expectativa de calote, o aumento da dívida causa impactos na inflação e exige do Banco Central que mantenha a taxa básica de juros elevada por mais tempo, o que afasta investimentos e dificulta o crescimento econômico.
Não é por outra razão que economistas cobram do governo que faça um ajuste fiscal e volte a alcançar superávits primários, ou seja, um saldo positivo entre receitas e despesas, com exceção dos gastos com juros da dívida. Eis o único caminho para conter o endividamento e, consequentemente, os juros e a inflação de maneira sustentável.
Com uma meta de inflação a perseguir, o BC não pode simplesmente baixar os juros para impedir que a dívida e seu custo aumentem mais. O governo, no entanto, ajudaria muito se trabalhasse em conjunto com o BC para fazer da política fiscal uma aliada da política monetária, e não sua oponente.
Seria, ademais, uma maneira de desobstruir os canais de transmissão da política monetária, que hoje, nas palavras do presidente do BC, Gabriel Galípolo, exigem que “as doses do remédio sejam mais elevadas para que você consiga atingir o mesmo efeito”.
Mas o governo já deu mostras suficientes de que não fará nada nesse sentido. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, reconheceu que o arcabouço fiscal terá de ser modificado, mas afirmou que isso só será possível em 2027 – ou seja, depois das eleições presidenciais de outubro do ano que vem.
Uma vez que se coloca de forma tão contrária à revisão de gastos, o governo deveria ao menos preservar a arrecadação para impedir a piora da dívida até lá. Mas não é o que tem ocorrido. A prometida reforma do Imposto de Renda foi abandonada para dar lugar a um projeto cujo principal objetivo é isentar todos aqueles que ganham até R$ 5 mil mensais.
O governo tampouco conseguiu encontrar espaço para incluir programas prioritários em sua agenda no Orçamento, como o Pé-de-Meia, que paga bolsas para incentivar estudantes de baixa renda a concluírem o ensino médio. Até agora, também não encontrou uma forma de financiar o Auxílio Gás, que terá o alcance quadruplicado até o ano que vem.
E, enquanto o BC aumenta os juros para conter a demanda e a inflação, o governo abre a torneira para ampliar o crédito consignado privado e criar mais uma faixa para financiar a aquisição de moradias pela classe média no Programa Minha Casa Minha Vida.
Culpar o ex-presidente do BC foi a estratégia do governo enquanto a instituição esteve sob a liderança de Roberto Campos Neto, e na falta de um discurso melhor a ladainha foi repetida depois das reuniões do Copom de janeiro e março.
É por essas e outras que o mercado financeiro passou a acompanhar a evolução da dívida bruta com lupa nos últimos meses. Pouco importa alardear o cumprimento da meta de déficit zero quando várias despesas são excluídas do cálculo. A dívida fala mais alto.
O prejuízo com a insegurança
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Carente de áreas verdes, São Paulo ganhou recentemente uma trilha urbana de 182 quilômetros, a maior da cidade, que conecta unidades de conservação, represas e parques naturais na zona sul da capital. É, portanto, uma excelente notícia, festejada pelos paulistanos, como pudemos verificar nas manifestações de leitores deste jornal reunidas no Tema do Dia da edição de 20 de abril passado. No entanto, todos esses leitores foram unânimes em dizer que, apesar de felizes com a iniciativa, não pretendiam usufruir da novidade, por uma razão fundamental: a insegurança.
“A região é linda, mas o extremo da zona sul é muito violento, não tenho coragem”, escreveu a leitora Sheila Bitencourt. Outra leitora, Edilaine Bompani, também lamentou: “Deve ser lindo, mas com certeza a segurança é zero”.
Esse é um bom retrato da sensação de vulnerabilidade que muitos paulistanos têm em sua cidade. Ainda que a Trilha Interparques, como é chamado o circuito, tenha sido entregue com a promessa de vigilância 24 horas em alguns pontos, os moradores da capital desconfiam – um sentimento que só será mitigado quando o policiamento se fizer mais efetivo e presente e quando andar com o celular na mão deixar de ser perigoso.
É uma pena que o medo impeça o paulistano de usufruir de tudo o que a cidade tem para o lazer de seus moradores, como é o caso da Trilha Interparques, que oferece píeres com vista para a Represa Billings, um dos principais reservatórios de água da região metropolitana, torre de observação panorâmica para outra represa, a Guarapiranga, e áreas para piquenique.
O visitante também pode ver a transição da Mata Atlântica, bioma caracterizado por mata densa e exuberante, para o Cerrado, de vegetação mais baixa e esparsa. Acessível por diversos pontos, a Trilha Interparques pode ser percorrida a pé ou de bicicleta. De acordo com a Prefeitura, o percurso é sinalizado de modo que ninguém se perca em área de mata.
Ademais, projetos como a Trilha Interparques podem estimular a preservação ambiental. Nessa região específica, de grandes represas, um ganho potencial é a conscientização sobre a necessidade de fontes de água livres de poluição. E para a população local um parque desse tipo pode representar oportunidades econômicas que, como se sabe, não são abundantes nos extremos da capital paulista. Ou seja, todos têm a ganhar.
Para que todo esse potencial se realize, contudo, o poder público precisa atuar de maneira mais firme para dar aos usuários a segurança que eles esperam. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirmou que intensificou o patrulhamento da Guarda Civil Metropolitana em pontos estratégicos do parque, mobilizando 29 viaturas e 87 agentes. Parece insuficiente para uma rota de mais de 180 quilômetros, que atravessa regiões com altos índices de criminalidade.
Seria uma pena que a Trilha Interparques fosse preterida como programa familiar de lazer dos paulistanos em razão do medo.
Embates políticos prejudicam a recuperação do Rio Grande do Sul
Por Editorial / O GLOBO
Um ano depois do desastre ambiental que atingiu 2 milhões em quase 500 municípios do Rio Grande do Sul, o enfrentamento entre o governador Eduardo Leite (PSDB) e o PT gaúcho tem prejudicado a recuperação do estado e o apoio às vítimas da tragédia. Várias obras de comportas, diques e proteção contra enchentes ainda não saíram do papel. Das casas prometidas aos desabrigados, mais da metade nem sequer foi contratada. Repasses estão parados na burocracia estatal, enquanto os mais vulneráveis sofrem as consequências dos embates políticos.
Ainda nos primeiros dias da tragédia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou como secretário para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul um adversário político de Eduardo Leite, o deputado petista Paulo Pimenta, então secretário de Comunicação da Presidência (Secom) e pré-candidato petista ao governo gaúcho. Leite passou a tratar de questões referentes ao apoio federal com um potencial adversário de seu grupo político na eleições do ano que vem. Em setembro, Pimenta foi substituído em Porto Alegre por outro petista, Maneco Hassen. Era grande o risco de que os planos eleitorais para 2026 prejudicassem o entendimento entre as burocracias de Porto Alegre e Brasília. É o que tem ocorrido.
O mais recente motivo de reclamações de Leite envolve a liberação de R$ 3 bilhões do fundo federal extraordinário de R$ 6,5 bilhões, criado para atender ao estado. Petistas justificam o atraso alegando falta de projetos. Hassen afirma que foi preciso “cobranças mais incisivas e públicas” para que o governo estadual atendesse às exigências necessárias para a contratação das empresas. O assunto é tema de conflito entre PT e a base de Leite na Assembleia Legislativa. “Eduardo Leite não se mexeu para elaborar os projetos necessários”, diz nota de deputados petistas.
O governador acusa a bancada do PT de usar a questão “de forma desonesta com interesses meramente eleitorais”. “É do conhecimento do governo federal que o estado está buscando a atualização dos projetos para ter acesso aos recursos do fundo”, afirma.
Enquanto transcorre o entrevero, há ainda 383 desabrigados, nove abrigos estão ativos e falta concluir obras importantes. Das dez comportas do sistema anticheias de Porto Alegre, sete não foram fechadas nem substituídas. Dos reforços necessários em quatro diques na cidade, apenas um será concluído em maio, e outro está com obras paralisadas pela Justiça. De 24,8 mil casas prometidas pelo programa Minha Casa, Minha Vida, apenas 10,6 mil foram entregues, contratadas ou estão em construção.
E apenas na segunda-feira o governo gaúcho publicou edital para atualizar o projeto de engenharia do sistema de proteção contra cheias de Eldorado do Sul (Leite diz que a própria enchente criou a exigência de novos estudos para mitigar os impactos ambientais). Trechos de rodovias alagadas continuam bloqueados ou em péssimo estado. Há muito trabalho ainda.
Sem dúvida o primeiro passo para executá-lo é superar as desavenças políticas e os interesses eleitorais.
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Sem leito, pacientes deitam no chão no Hospital de Messejana; unidade diz não orientar prática
Na unidade, especializada em diagnosticar e tratar doenças cardíacas e pulmonares, há, inclusive, idosos dormindo nessas condições, conforme denúncia à reportagem. Muito por falta de leitos ou poltronas, mas, também, devido à espera de dias por uma transferência para outros hospitais da rede estadual.
"Tem muito paciente deitado no chão porque as cadeiras são bem duras. São idosos. Ficam sentados aguardando que sejam transferidos [para outro hospital] ou consigam um leito. [...] No sábado, tinha um paciente que já estava lá [na mesma situação] há três dias, também aguardando transferência", relatou a filha de um desses enfermos, que terá sua identidade preservada. O pai dela, de 62 anos, deu entrada na unidade no último sábado (26) para tratar uma obstrução de veias coronárias.
Além de não ter um lugar adequado para ser tratado, o pai da denunciante também não tem sido medicado devidamente, de acordo com ela. "Ele está naquelas cadeiras da recepção porque não tem leito. Ele toma insulina e está sem tomar. Até então, não tinham dado [o remédio]. Passam dizendo que vão medicar, mas não vão", cobrou a filha.
Imagens obtidas pela reportagem mostram pacientes dormindo no chão, cobertos por lençóis brancos, enquanto outros utilizam cadeiras de plástico com acolchoamentos improvisados com mantas para descansar os pés.
'Nenhuma pessoa é orientada a deitar-se no chão', diz hospital
O Diário do Nordeste procurou a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) para saber quantos leitos do Hospital de Messejana estão ocupados e qual a demanda, atualmente, da unidade. Também foi questionado diretamente se o local enfrenta uma superlotação.
Em resposta, o hospital ignorou a solicitação sobre os dados e não mencionou nada sobre estar no limite da capacidade de atendimento, mas informou que "faz, diuturnamente, o monitoramento de altas para agilizar as internações na instituição" e que "realiza a transferência de pacientes com menor complexidade para hospitais secundários parceiros". Além disso, destacou que, mensalmente, a unidade atende quatro mil pacientes na emergência e interna mais de mil pessoas.
"Os profissionais do Hospital de Messejana prestam assistência a todos os pacientes que dão entrada na Emergência da unidade. O espaço dispõe de cadeiras e poltronas para a pessoa que está recebendo atendimento clínico e seu acompanhante. A instituição ressalta que nenhuma pessoa é orientada a deitar-se no chão do local", resumiu a pasta.
'Tem pacientes que estão gravíssimos, sentados em cadeiras', reconhece sindicato de médicos
O Sindicato dos Médicos do Ceará tem acompanhado a situação no Hospital de Messejana. "Lá, realmente, está superlotado. Tem pacientes que estão gravíssimos, em estágios avançados, sentados em cadeira porque não tem maca para eles", declarou o presidente da entidade, Edmar Fernandes.
Gerenciado pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), o Hospital de Messejana recebe pacientes de todo o interior do Estado e até de outras regiões do Brasil.
Mesmo quando é o acompanhante e não o paciente que, por cansaço, se deita no chão, há risco para o tratamento, uma vez que é o ajudante quem tem contato mais próximo com o enfermo e quem dá banho nele. "Se a higiene é fundamental para o sucesso de uma terapia, se é uma prioridade nossa, uma pessoa deitar no chão, mesmo acompanhante, vai sair contaminada, vai tocar na pessoa [doente] e vai multiplicar a possibilidade de infecção hospitalar", comentou.
Edmar afirmou ainda que o Hospital de Messejana é "bem referenciado" e, por isso, recebe pacientes dentro do perfil da unidade, o que aumenta o risco de um tratamento feito em local inadequado. "São pacientes cardíacos, por isso é até mais grave", compreendeu. Situação que, segundo ele, também afeta os profissionais que trabalham no hospital, que acabam atuando em condições mais estressantes e com recursos insuficientes.
Uma possibilidade de melhorar esse cenário, no entendimento do presidente sindical, seria otimizar a regionalização da saúde, com a instalação de mais hospitais de referência no interior do Estado, diminuindo a demanda sobre a Capital, e investir em prevenção e cuidados relacionados ao envelhecimento da população.
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Governo Lula foi alertado por diferentes órgãos sobre explosão de fraudes no INSS desde 2023
Por Daniel Weterman / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA — O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi alertado por diferentes órgãos sobre a disparada de fraudes nas mensalidades ilegais descontadas de aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) desde 2023. Documentos mostram que os alertas vieram do Tribunal de Contas da União (TCU), da Controladoria-Geral da União (CGU), do Ministério Público, do Conselho Nacional de Previdência Social, da imprensa e de auditores do próprio INSS.
O esquema levou à queda do presidente do instituto, Alessandro Stefanutto, e ao afastamento de outros dirigentes por omissão e falta de controle nas operações. O INSS alega ter tomado providências para aperfeiçoar o processo a partir de 2024, principalmente com adoção de biometria e o cancelamento das mensalidades não autorizadas pelos beneficiários, mas não explicou por que as fraudes aumentaram. As fraudes ocorreram com valores cobrados por associações e sindicados de aposentados e pensionistas. Essas entidades oferecem serviços como consultas médicas, auxílio funeral e “marido de aluguel” (reparos residenciais) e cobram uma mensalidade que é descontada diretamente da folha de pagamento dos beneficiários.
Na maioria dos casos, os aposentados não autorizaram esses descontos e muitos sequer sabiam que estavam associados a esses sindicatos. As investigações mostram que houve negligência no tratamento do problema e as fraudes só dispararam, em vez de diminuírem ou acabarem.
Explosão de fraudes motivou investigações e alertas em 2023
Em 2023, a CGU iniciou uma investigação sobre os descontos indevidos devido às denúncias e ao aumento expressivo no número de mensalidades descontadas. O órgão justificou o trabalho “devido ao súbito aumento no montante dos descontos (de R$ 536,3 milhões em 2021 a R$ 1,3 bilhão em 2023)”, além de “fragilidade dos controles mantidos pelo INSS para a realização desses descontos, histórico de irregularidades reportadas e elevado número de requerimentos de cancelamento.”
A CGU fez alertas e constatou que o INSS não implementou controles suficientes para diminuir os riscos de descontos indevidos, conforme relatório da Controladoria. O INSS seguiu assinando acordos com os sindicados mesmo após uma suspensão ocorrida em 2019, com o crescimento significativo dos descontos a partir de julho de 2023, de acordo com os investigadores.
Os resultados das entrevistas com beneficiários que foram vítimas das fraudes foram encaminhadas pela CGU ao INSS no dia 3 de julho de 2024, nove meses antes da operação da Polícia Federal que mirou os envolvidos do esquema, em abril de 2025.
No dia 23 de julho do ano passado, a diretoria do INSS recebeu uma versão preliminar dos resultados, devido à gravidade da situação. No mês seguinte, em agosto, CGU e INSS se reuniram para buscar soluções. Em setembro, a CGU concluiu o relatório, constatando que o INSS não agiu para acabar com as irregularidades.
“Mesmo conhecendo essa situação, a existência de denúncias recorrentes acerca da realização de descontos associativos não autorizados pelos beneficiários, e a falta de capacidade operacional necessária para acompanhamento dos ACT (acordos de cooperação técnica, assinados com os sindicatos), o INSS não implementou controles suficientes para mitigar os riscos de descontos indevidos, e seguiu assinando ACT após a suspensão ocorrida em 2019, com o crescimento significativo dos descontos a partir de julho de 2023″, diz o documento.
A disparada dos casos ocorreu em 2023, mas as fraudes já haviam começado antes, ou seja, quando o governo Lula assumiu o INSS já sabia do problema. Em julho de 2019, o Ministério Público do Paraná avisou o INSS sobre diversas denúncias de descontos indevidos, o que levou o órgão a suspender os acordos com quatro entidades. Mesmo assim, os pedidos de cancelamento em virtude das fraudes continuaram crescendo.
O ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, foi informado, em junho de 2023, de que havia um aumento de denúncias de descontos sem autorização em aposentadorias e pensões do INSS durante uma reunião do Conselho Nacional de Previdência Social. A informação foi revelada pelo pela TV Globo e confirmada pelo Estadão. Ao Estadão/Broadcast, o ministro afirmou que determinou uma apuração sobre o tema, concluída em 6 de setembro de 2024. “Não me omiti, procurei agir”, declarou Lupi à reportagem.
TCU identificou fraudes e alertou INSS sobre falhas no controle
O TCU também fiscalizou os descontos e realizou diferentes reuniões com o INSS alertando sobre as fraudes, incluindo conversas com os integrantes do órgão nos dias 20 de setembro e 27 de novembro de 2023. A Corte de Contas fez uma inspeção de novembro de 2023 a março de 2024, a pedido do Congresso Nacional, e verificou que os controles mantidos pelo órgão para combater os descontos indevidos eram insuficientes.
Em junho do ano passado, 10 meses antes de a PF deflagrar a operação e o afastamento da cúpula do INSS, o TCU determinou que o governo só autorizasse novos descontos com assinatura eletrônica avançada e biometria. “Os processos atuais para consignação de empréstimos e contribuições para associações e sindicatos nas folhas de pagamento de beneficiários do INSS apresentam falhas de controles que ensejaram a averbação de consignações e descontos indevidos”, concluiu a Corte de Contas.
Esquema desviou até R$ 8 bi de aposentados e pensionistas do INSS desde 2016
Além disso, o tribunal determinou que o INSS tomasse medidas para identificar e responsabilizar os sindicatos e associações suspeitas de fraudes e ressarcir os valores descontados indevidamente. No entendimento do TCU, o INSS poderia responder pelos descontos ilegais.
Em março de 2024, o portal Metrópoles revelou detalhes do esquema, apontando que os sindicados faturaram R$ 2 bilhões com descontos indevidos em um ano. O Ministério Público Federal (MPF) moveu uma ação judicial logo em seguida e pediu a suspensão dos acordos feitos pelo INSS com os sindicatos.
O próprio INSS reconheceu o problema ao editar uma instrução normativa no mesmo mês para atender as recomendações da CGU e do TCU. A portaria exigiu biometria para autorizar os descontos e instituiu o cancelamento automático a pedido dos beneficiários. Conforme o Estadão revelou, o então presidente do órgão usou a mesma norma para eximir o instituto de responsabilidade sobre as fraudes.
Auditoria interna do INSS identificou falta de fiscalização do próprio órgão
Uma auditoria interna do INSS, concluída em setembro 2024, identificou falhas no controle e falta de fiscalização do próprio órgão. Os técnicos apontaram R$ 45,5 milhões em descontos indevidos entre janeiro de 2023 e maio de 2024, erros na avaliação de risco de novas parcerias com sindicatos, falta de verificação da documentação dessas entidades e prejuízo aos cofres públicos.
Os custos operacionais do INSS com os acordos, que deveriam ser bancados pelas entidades, não estavam sendo ressarcidos. Somente nesse período, foram R$ 5,9 milhões em despesas não ressarcidas.
As conclusões foram encaminhadas para o comando do instituto, recomendando a revalidação dos descontos e a imediata exclusão de mensalidades não autorizadas, além de assegurar o ressarcimento dos custos do governo com o sistema e a fiscalização.
“A inserção de descontos indevidos representa impacto direto aos beneficiários, por vezes inseridos em um contexto socioeconômico em que o valor do desconto compromete a renda familiar”, diz a auditoria.
Governo diz que tomou providências, mas não explica por que fraudes aumentaram
O governo Lula alega que tomou providências para excluir as mensalidades descontadas indevidamente, mas não explicou por que as fraudes aumentaram. Procurado nesta segunda-feira, 28, o Ministério da Previdência Social reforçou a nota divulgada em conjunto com o INSS na semana passada listando as medidas adotadas. O INSS não teceu mais comentários.
“Das 11 entidades investigadas pela CGU, somente uma teve acordo assinado em 2023. As demais são de 1994, 2014, 2017 (2), 2021 e 2022 (5). Como é possível observar, esses descontos vinham ocorrendo em governos anteriores. Na atual gestão, ações imediatas foram tomadas”, diz a nota.
Entre as medidas adotadas, a primeira listada pelo governo é de janeiro de 2024, quando o INSS divulgou no site oficial e redes sociais como aposentados e pensionistas podem pedir bloqueio de descontos não reconhecidos no contracheque.
Além disso, o governo alega ter suspendido novos acordos com sindicatos e alterado as regras em março de 2024, com a edição da instrução normativa. A norma determinou que o desconto teria de ser formalizado por termo de adesão, com assinatura eletrônica avançada e biometria (para novos contratos).
O governo aponta o número de mensalidades excluídas para argumentar que agiu. “A diferença de exclusões do governo anterior com o atual é discrepante: em 2022 foram excluídos 115.541 descontos associativos. Em 2023 saltou para 465.061 exclusões. Em 2024 foram canceladas 1.516.500 mensalidades. E em 2025 (até 23 de abril) 374.609 mensalidades foram excluídas (tabela abaixo)“, dizem o ministério e o INSS. O aumento das exclusões, no entanto, se deu justamente com a disparada nas fraudes.
Até o momento, o governo não explicou por que as fraudes aumentaram em 2023 e 2024 apesar das medidas adotadas e dos alertas feitos pelos órgãos de controle. Conforme o Estadão mostrou, os motivos para a explosão dos descontos nesse período — quase todos sem autorização — passam pelo afrouxamento das regras, motivado por lobbies no Congresso Nacional, falhas do INSS no controle e indicações políticas para o órgão.

