Drible no Orçamento
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o Orçamento Geral da União apontou problemas cuja solução o governo Lula da Silva tem empurrado com a barriga. Não recolhimento de receitas à conta única do Tesouro, uso de fundos privados ou entidades para execução de políticas públicas, utilização de fundos para concessão de crédito e falta de transparência na gestão de fundos públicos e privados foram alguns dos achados preliminares de técnicos da Corte de Contas, de acordo com reportagem publicada pelo Estadão.
Em conjunto, essas práticas, classificadas como “heterodoxas” por tramitarem fora do Orçamento, ameaçam a integridade, a transparência e a sustentabilidade do regime fiscal brasileiro e podem trazer riscos à sustentabilidade da dívida pública e à credibilidade das contas públicas. Não é, portanto, assunto de menor importância, mas o governo não parece estar preocupado nem ter pressa para equacionar os problemas mencionados pelo TCU.
Afinal, faz oito meses que o País aguarda uma solução para financiar o novo Auxílio Gás. Em agosto, o Executivo anunciou uma proposta para quadruplicar o programa por meio de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Ao todo, R$ 13,6 bilhões seriam transferidos diretamente à Caixa e, do banco, para os revendedores de botijões que atendessem aos beneficiários do Bolsa Família. Trata-se de clara burla às regras fiscais, segundo as quais todas as receitas e despesas devem transitar pelo Orçamento. E, diante das críticas, o Ministério da Fazenda disse que enviaria um novo projeto para corrigir essas falhas, o que ainda não ocorreu.
Outro problema identificado pelo TCU diz respeito ao Pé-de-Meia, que concede bolsas para incentivar estudantes de baixa renda a concluírem o ensino médio. O programa tampouco conta com reserva suficiente de recursos no Orçamento e tem sido custeado por meio de fundos privados. Não é a primeira vez que a Corte de Contas cobra ajustes no programa. Bloqueado pelo TCU em janeiro, o pagamento das bolsas foi liberado no mês seguinte com o compromisso de que governo e Congresso encontrariam uma maneira definitiva de incluir o programa no Orçamento. Até agora, nada.
Os exemplos evidenciam que a heterodoxia não configura uma exceção. Ao contrário: sem essas práticas fiscais controversas, duas das principais bandeiras eleitorais do governo Lula da Silva simplesmente não teriam condições de existir. E a experiência mostra que, aos poucos, aquilo que deveria ser uma saída temporária pode se tornar uma solução definitiva. Os R$ 14,9 bilhões em honorários pagos a advogados públicos em causas ganhas em defesa do governo, por exemplo, têm recebido tratamento extraorçamentário desde 2017, ou seja, desde o governo Michel Temer.
Lamentavelmente, os alertas do TCU não têm sido muito efetivos. Anunciados em outubro do ano passado, os R$ 29,75 bilhões em recursos do Fundo Rio Doce, pagos como compensação pelo rompimento da barragem de Mariana (MG), servirão para financiar políticas públicas. No entanto, não vão transitar pela conta única do Tesouro. Na semana passada, o governo confirmou que enviará R$ 15 bilhões do Fundo Social do Pré-Sal para o Minha Casa Minha Vida, que agora financiará também a classe média – outro caso de medida parafiscal.
Bem se sabe que o Orçamento está engessado por despesas obrigatórias há anos e tem um espaço cada vez menor para gastos discricionários, mas práticas como essas enfraquecem ainda mais uma peça que deveria refletir com clareza as escolhas da sociedade.
Transformar o Orçamento num documento protocolar e sem amparo na realidade pode ser o caminho mais fácil, mas não é algo inofensivo. As consequências mais palpáveis são o aumento dos juros, a desvalorização da moeda, a alta da inflação e a fuga de investimentos.
No médio e no longo prazos, isso se materializa em crescimento econômico baixo e errático, infraestrutura insuficiente, produtividade pífia, indicadores educacionais ruins, mão de obra pouco qualificada e empregos de baixa remuneração. E é sintomático que ninguém no setor público pareça incomodado com isso.
Sobreposições no cadastro rural exigem política permanente de fiscalização
Por Editorial / O GLOBO
O Cadastro Ambiental Rural (CAR), criado em 2014, trouxe avanço inegável por permitir um registro oficial de propriedades, necessário tanto para a obtenção de crédito em bancos quanto de licenças ambientais junto ao governo. Na Amazônia, contudo, fraudes têm se tornado frequentes. Proprietários de terras têm registrado áreas sobrepostas para esconder desmatamentos ilegais e têm ocultado identidade usando laranjas e CPFs falsos. Uma pesquisa nos registros do CAR feita pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), a pedido do GLOBO, revelou 139,6 milhões de hectares com sobreposição. É como se, à extensão territorial do Brasil, fosse acrescida uma área equivalente ao Pará.
Um exemplo ilustrativo do que tem acontecido na Amazônia é a fazenda Terra Roxa, do tamanho da cidade do Rio, situada entre os municípios de São Félix do Xingu e Altamira, no sul do Pará. Surpreendeu técnicos do Ibama a velocidade com que surgiram na propriedade pastos, estradas e uma pista de pouso. As obras foram embargadas, e as multas chegaram a R$ 5 milhões, mas a punição jamais foi aplicada. A fazenda está em nome de um aposentado de Salvador que jamais saiu da cidade. Os técnicos descobriram outros 50 imóveis empilhados na mesma área nos arquivos do CAR.
Falsificações desse tipo foram constatadas por um estudo do Center for Climate Crime Analysis (CCCA), organização não governamental que rastreia crimes ambientais. Mais de 9 mil imóveis rurais foram deslocados ou mudaram de tamanho no CAR entre 2019 e 2024, para tentar esconder sinais de desmatamentos ou sobreposição com áreas protegidas. Além de fraudadores preencherem o cadastro com dados inconsistentes ou mesmo falsos, o tamanho da propriedade costuma ser reduzido para esconder desmatamento. Em 480 casos, fazendas foram parar em rios e lagos distantes.
A Fazenda Jatobá, em Altamira (PA), é outro desses casos. O Ibama constatou desmatamento e verificou que o proprietário alterara os dados no CAR, transferindo a propriedade para dentro do Rio Xingu, a mais de 300 quilômetros. O engenheiro florestal Rodolfo Gadelha de Sousa, do CCCA, chama casos assim de “fazendas voadoras”.
“O CAR não pode ser vilanizado. Ele é uma tomografia, um raio X do caos que há no Brasil”, afirma o engenheiro agrônomo Raimundo Deusdará, ex-presidente do SFB responsável por ter colocado o sistema em operação. É o cadastro que permite comprovar a sobreposição de terras na Amazônia. Falta, porém, fiscalização sistemática dos dados do CAR autodeclarados pelos proprietários. É uma responsabilidade que cabe aos estados. As informações estão lá, à espera de um trabalho consistente. O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, relator de ação exigindo suspensão imediata do cadastro de imóveis rurais em que tenha sido constatado desmatamento, determinou que os estados da Amazônia Legal e a União elaborem um plano para cancelar registros irregulares no CAR. É uma ação bem-vinda, que precisa ser posta em prática.
Sistema anticheias, reforma de diques, entrega de casas: promessas não saem do papel um ano após a tragédia no RS
Por Paulo Assad, Luis Felipe Azevedo e Pâmela Dias— Rio / O GLOBO
Na pior catástrofe climática do Rio Grande do Sul, mais de 2 milhões de pessoas em quase 500 municípios sofreram com chuvas intensas apenas entre o fim de abril e o início de maio. No conserto dos estragos, o ritmo é mais vagaroso. Um ano depois, algumas obras ainda não saíram do papel. A demora está ligada na maioria das vezes às diversas etapas necessárias para os serviços e à necessidade de novos estudos para se prevenir de uma situação nunca vivida antes. Mas também há obstáculos fora dos cronogramas, como a remoção de famílias que moram em cima de um dique em Porto Alegre.
Foi apenas ontem que o governo gaúcho publicou o edital para contratar a atualização do projeto de engenharia do sistema de proteção contra as cheias em Eldorado do Sul, com custo previsto de R$ 531 milhões, a serem pagos com recursos federais. A concorrência será em 13 de maio, a empresa vencedora terá 180 dias para entregar o trabalho e a etapa seguinte serão os projetos de engenharia e elaboração dos estudos ambientais antes das obras. Apesar da demora de quase um ano, o projeto está adiante da construção de outros sistemas similares, nas bacias de rios como o Gravataí, Taquari-Antas, Caí, dos Sinos e do Arroio Feijó.
— Os projetos são complexos. Têm impacto ambiental. Os estudos já feitos seriam superados pela enchente que aconteceu — justificou o governador Eduardo Leite (PSDB) na quinta-feira, ao apresentar um balanço das ações do estado. — Encaminhamos os que já tínhamos para o comitê científico (criado para auxiliar no trabalho de recuperação das áreas destruídas), que alertou: “Esses projetos precisam ser atualizados”.
Até agora, o investimento estadual na reconstrução ultrapassa R$ 6,7 bilhões. O governo federal destinou R$ 111,6 bilhões para o Rio Grande do Sul e executou, por enquanto, mais de R$ 89 bilhões.
Em Porto Alegre, onde o prefeito Sebastião Mello (MDB) fez uma série de promessas em relação à infraestrutura do município em sua campanha de reeleição, o Dique do Sarandi, que leva o nome do bairro mais devastado pelas águas, teve sua primeira fase concluída em janeiro. Mas as obras foram paralisadas pela Justiça, devido à necessidade de remover 57 famílias que moram junto ou sobre a construção. Destas, 32 aceitaram deixar o local. Remoções também terão de ser feitas nos diques de Asa Branca e Vila Dique.
Comportas
Outra obra necessária é o fechamento de comportas do sistema, para reduzir a possibilidade de infiltrações. O Departamento Municipal de Águas e Esgotos (Dmae) diz já ter fechado três comportas, mas ainda faltam serviços em quatro. Também são necessárias as substituições de outras três. O resultado dos editais dessas obras foram publicados na quarta-feira e na sexta-feira da semana passada. Somado, o investimento é de R$ 11,3 milhões.
— A comporta 14, que foi o principal fator de inundação, ainda está aberta. Ela foi destruída e levada metros adiante. Outras foram abalroadas. Muitas casas de bomba ainda não estão operando plenamente e funcionam com geradores — alerta o professor e engenheiro Fernando Dornelles, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, que costuma levar alunos em visitas ao sistema anticheias.
A prefeitura encomendou um estudo para avaliar os defeitos da estrutura e quais as mudanças são necessárias. Mas a análise só deve ficar pronta no próximo ano.
— Tudo o que está sendo feito agora era o que deveria ter sido feito 15, 20 anos atrás, de forma periódica — diz Dornelles. — O que o estudo vai apontar é a necessidade de obras que levarão até mais de 10 anos para serem concluídas.
Em duas estações de bombeamento, são construídas chaminés de equilíbrio, um sistema que impede o Guaíba de avançar por meio de poços. Iniciadas em agosto, devem estar prontos nas próximas semanas.
Bloqueios nas estradas
Trechos de rodovias alagadas seguem danificados e com o trânsito prejudicado. Sete bloqueios totais do período das enchentes por queda de ponte ou erosão do asfalto estão mantidos, em municípios como Ivorá, Relvado, Dilermando Aguiar e Bento Gonçalves. Outras seis estradas ainda estão bloqueadas parcialmente, de acordo com o Comando Rodoviário da Brigada Militar. Mas o governo do estado diz que 94% das rodovias impactadas já foram desbloqueadas. Os trabalhos de remoção de barreiras, reparo de aterros, contenção de erosões e manutenção do pavimento consumiram mais de R$ 432 milhões.
O trecho da estrada RS-348 entre Dona Francisca e Agudo, destruído nas cheias, está no pacote de R$ 1,2 bilhão de serviços anunciado pelo governo gaúcho em janeiro. Mas a obra deve ficar pronta apenas no primeiro semestre de 2026.
Uma das principais iniciativas do governo federal, o Minha Casa Minha Vida – Reconstrução tem 10.601 unidades habitacionais entregues, contratadas ou estão em construção. O número, no entanto, não chega à metade das 24,8 mil unidades previstas. Foram destinados R$ 3,4 bilhões em créditos extraordinários para casas em áreas urbanas e rurais. O Ministério das Cidades informou que nos próximos dias lançará editais para a contratação de mais 4 mil unidades.
O governo gaúcho criou o programa A Casa é Sua – Calamidade, uma contrapartida estadual voltada também para resolver a falta de moradias. Inicialmente voltado a distribuir a casas temporárias, a iniciativa foi expandida para a construção de unidades permanentes. Segundo a Secretaria de Habitação e Regularização Fundiária, estão previstas 2.235 unidades em 40 municípios. Mas até o momento, apenas 422 casas estão sendo erguidas em 11 cidades. A pasta já investiu R$ 58,7 milhões no programa.
— Os programas implementados dependem muito de que as vítimas busquem as melhores soluções, tarefa que exige um entendimento sobre financiamento e setor imobiliário que não é acessível a todos os públicos — recomenda acordo o professor de planejamento urbano Eber Marzulo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. — A primeira medida dos governos deveria ser localizar essas famílias necessitadas fora dos abrigos e ajudá-las no acesso aos programas.
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Entenda a costura entre Alcolumbre, Motta e STF por lei que reduz a pena de participantes e aumenta a dos líderes do 8/1
Por Jeniffer Gularte e Lauriberto Pompeu— Brasília / O GLOBO
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), deve apresentar no próximo mês uma proposta alternativa ao projeto de lei da anistia aosenvolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Empenhado em esvaziar a iniciativa que já tramita na Câmara, Alcolumbre negocia com o presidente da Casavizinha, Hugo Motta (Republicanos-PB), e integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) um texto de consenso para alterar a legislação sobre golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito. Isso seria feito sem a concessão de um “perdão” a quem participou da intentona na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
A ideia é agravar a pena para quem lidera ou comanda uma tentativa de golpe e atenuar a punição a quem serviu como “massa de manobra” para atacar as instituições. Também é possível que seja esclarecido na legislação que uma pessoa não pode responder aos crimes de tentativa de golpe e abolição do Estado Democrático ao mesmo tempo, já que essa seria uma forma de punir duas vezes um infrator pela mesma conduta. Esse tem sido um dos pontos abordados por críticos às punições já definidas.
Alívio da pressão
Com o novo texto, parte dos golpistas presos durante os atos pode ser solta ou cumprir pena em regime semiaberto ou domiciliar. A estratégia é diminuir a pressão pela votação do texto da Câmara, cujo requerimento de urgência foi apresentado à Mesa, mas não foi pautado por Hugo Motta.
Além de isentar de qualquer punição todos os que se envolveram em atos golpistas, o projeto da Câmara dá margem para reverter as possíveis condenações contra Jair Bolsonaro. O ex-presidente é réu por supostamente liderar uma tentativa de golpe para se manter no poder, mesmo após a vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.
A redação do texto da Câmara é tão ampla que poderia até mesmo reverter a inelegibilidade do ex-presidente imposta após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) condená-lo por atacar as urnas eletrônicas.
Com a versão de Alcolumbre, porém, não haveria risco de que Bolsonaro, caso condenado, tenha uma pena insignificante. No seu caso, o agravante por liderar o golpe também não seria levado em conta, já que a lei só retroage para beneficiar um réu.
O texto do presidente do Senado, portanto, beneficiaria as pessoas que participaram do quebra-quebra do 8 de Janeiro sem qualquer liderança na trama golpista.
Ministros do STF ouvidos pelo GLOBO, porém, dizem reservadamente que a Corte ainda não chegou a um acordo sobre o assunto. Segundo eles, várias alternativas estão sendo estudadas.
Em entrevista ao GLOBO no último domingo, o presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, demonstrou estar aberto para conversas e admitiu que uma mudança legislativa poderia afetar os casos já julgados.
Apesar de dizer que o que aconteceu no 8 de Janeiro é “imperdoável”, o magistrado ponderou:
— Se a lei disser que não se acumulam (os crimes de) golpe de Estado com a abolição violenta do Estado de Direito, ou, em vez de tratar como crimes distintos, prever apenas um aumento de pena, isso importaria em uma redução. E teria incidência imediata. Estou dizendo uma possibilidade. Não cabe a mim essa decisão, e sim ao Congresso.
Ainda na entrevista, Barroso afirmou que o Supremo está “aberto a conversar sobre todas as questões que ele (Hugo Mota) considera importantes”: — O que eu tenho ouvido, que é um sentimento em alguns segmentos, é que as penas são pesadas. Portanto, se a ideia for ter penas mais leves, é o caso de modificar a legislação.
Liderada por Alcolumbre, a discussão ainda está em um núcleo restrito do Congresso. Além de Motta, participam os senadores Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e os líderes do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), e no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
Defensores da iniciativa alegam que se trata de um caminho para a pacificação nacional, penalizando quem de fato foi articulador e mentor da tentativa de golpe, ao mesmo tempo em que se reduz as penas para o grupo de “menor potencial ofensivo”.
O principal objetivo é desarmar o argumento de que o STF está punindo de forma severa “os pequenos, como a cabeleireira e o pipoqueiro”. Governistas deverão encaminhar o apoio da base ao texto, que poderá ter autoria do próprio Alcolumbre.
Na Câmara e no Senado, a oposição é contra a alternativa. Líder do PL, o deputado Sóstenes Cavalcante (RJ) afirma que já nasce errado um texto que surge da articulação do Senado com o STF:
— Quando há exagero e erro de um outro Poder, nesse caso o Poder Judiciário, cabe constitucionalmente ao Congresso Nacional só uma coisa: anistia. Não cabe a gente ficar modulando pena.
Novo ato pela anistia
Da cama do hospital onde está internado há mais de duas semanas, Bolsonaro convocou na segunda-feira apoiadores para uma manifestação, em Brasília, pela anistia. O evento está programado para 7 de maio.
Apesar da concertação, alas do governo veem a iniciativa de Alcolumbre com certo ceticismo. Para auxiliares de Lula, qualquer revisão do tema deve necessariamente passar pelo STF com a participação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Lula também deve ser aconselhado a não se manifestar publicamente de forma favorável ao texto. Na avaliação dessa ala do governo, beneficiar os “baderneiros” do 8 de Janeiro poderia sinalizar um aval para que novas tramas golpistas e dar novo gás para o próprio PL da Anistia.
Na sexta-feira da semana passada, a Primeira Turma do Supremo condenou a 14 anos de reclusão a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, que pichou “perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, que fica em frente à Corte. Embora todos os ministros do colegiado tenham votado para condenar a mulher, houve divergência em relação à dosimetria da pena. Enquanto Alexandre de Moraes propôs 14 anos de pena, Cristiano Zanin votou por uma punição de 11 anos e Luiz Fux votou para aplicar uma pena de um ano e seis meses de prisão.
O caso de Débora virou uma bandeira para o bolsonarismo, que deve fazer referência a ela na próxima manifestação em Brasília. Aliados do ex-presidente também devem fazer um desagravo a Fux pela posição no julgamento da cabeleireira e exigir que o texto da Câmara seja votado pelo Congresso, com um amplo perdão aos envolvidos nos ataques aos Poderes.
Servidores do INSS receberam propina? Veja o que se sabe até agora sobre a investigação das fraudes
Por Patrik Camporez, Sarah Teófilo, Ivan Martínez-Vargas e Geralda Doca— Brasília / O GLOBO
Menos de uma semana após ser deflagrada a Operação Sem Desconto, da Polícia Federal (PF) e da Controladoria Geral da União (CGU), novos detalhes revelam os laços entre integrantes do INSS e associações investigadas pelo desvio de até R$ 6,3 bilhões em recursos de aposentados e pensionistas do instituto.
As vítimas da fraude tiveram descontos não autorizados em seus benefícios. Segundo a PF, ex-diretores e pessoas relacionadas a eles receberam, ao todo, mais de R$ 17 milhões em transferências de indivíduos apontados como intermediários das associações.
A PF também identificou que um dos integrantes do INSS teria sido beneficiado com um carro de luxo que custa pelo menos meio milhão de reais. O veículo, segundo a PF, teria sido transferido para a esposa do procurador do INSS Virgílio Oliveira Filho — afastado do cargo por decisão da Justiça na semana passada.
Segundo a investigação, pessoas e empresas relacionadas ao ex-diretor de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão do INSS André Paulo Félix Fidelis receberam R$ 5,1 milhões “das empresas intermediárias relacionadas às entidades associativas”.
‘Careca do INSS’
O ex-diretor de Governança, Planejamento e Inovação do INSS Alexandre Guimarães teria recebido R$ 313 mil diretamente ou por meio de pessoa jurídica vinculada a ele.
Pessoa e empresas relacionadas a Virgílio receberam R$ 11.997.602,70 de empresas intermediárias relacionadas às entidades associativas.
A figura central apontada pela PF nesse suposto esquema é Antonio Carlos Camilo Antunes, citado como “Careca do INSS”. “Com efeito, verificou-se que as empresas de Antonio Carlos Camilo Antunes operaram como intermediárias financeiras para as entidades associativas e, em razão disso, receberam recursos de diversas associações que, em parte, foram destinados a servidores do INSS”, diz trecho do documento da PF.
Segundo representação da PF entregue à Justiça, o “Careca do INSS”, movimentou R$ 53,5 milhões provenientes de entidades sindicais e de empresas relacionadas às associações. Deste total, R$ 48,1 milhões diretamente de entidades associativas e R$ 5,4 milhões de intermediárias ligadas a essas entidades.
Além disso, segundo a PF, Antônio Carlos declara sua ocupação profissional como “gerente”, com renda mensal de R$ 24.458,23. A PF aponta, porém, movimentações bancárias “muito superiores à sua hipotética renda”.
“Antônio Carlos realizava repasses no mesmo dia do recebimento, mantendo saldo pouco significativo disponível em conta, indicando possível urgência em dificultar o rastreamento dos valores”, aponta o relatório.
Procurado, Alexandre Guimarães negou que tenha recebido dinheiro de Antônio Carlos Camilo Antunes. Ele disse que abriu empresa em janeiro de 2023 e fez um contrato de prestação de serviço. Alegou que o dinheiro recebido se deve ao serviço realizado como consultor e disse ter todas as notas fiscais para comprovar:
— Nunca tive nada com a área de Benefícios do INSS.
A defesa de André Fidélis disse que ainda não teve acesso aos autos do processo e, portanto, não irá se manifestar sobre o mérito das investigações. “Reafirmamos o compromisso com a transparência, o respeito às instituições e o esclarecimento integral dos fatos”.
Os demais citados na investigação da PF foram procurados pelo GLOBO, mas não responderam até o fechamento desta edição.
Atuação de stefanutto
Na última quarta-feira, quando a Operação Sem Desconto foi deflagrada, o então presidente do INSS, Alexandre Stefanutto, foi afastado do cargo e demitido pelo presidente Lula. Segundo o relatório da PF, ele atuou para liberar descontos em massa em aposentadorias em favor da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). A entidade disse, na semana passada, que “sempre atuou com ética e responsabilidade”.
Segundo o relatório, a decisão liberou ao menos 34 mil descontos e “foi tomada com base em justificativas que se mostraram infundadas e contrárias à legislação”.
Documentos internos do INSS citam que “foi esboçada uma solução pelo presidente do INSS” para o pedido da Contag, em reunião em junho de 2023 entre representantes da entidade e Stefanutto. A autorização ocorreu mesmo após parecer inicial da Procuradoria do órgão contra a liberação. Procurado, Stefanutto não se manifestou.
Depois da reunião, a Contag fez pedido oficial em 14 de julho de 2023 e disse que “os beneficiários estavam enfrentando dificuldades para desbloquear seus benefícios a fim de permitir os descontos associativos, resultando em um grande volume de solicitações não processadas por falhas técnicas do INSS”.
Em 25 de outubro de 2023, a Coordenação-Geral de Pagamento de Benefícios do INSS emitiu nota técnica “sugerindo que o desbloqueio dos benefícios fosse autorizado”.
Essa orientação contraria decreto de junho de 2020, segundo o qual “os benefícios previdenciários devem permanecer bloqueados após a sua concessão para os descontos de mensalidades associativas, exigindo-se autorização prévia, pessoal e específica por parte do beneficiário para o desbloqueio”.
Em novembro de 2023, o INSS autorizou o desbloqueio em lote de descontos de 34.487 benefícios.
O relatório da PF mostra que houve vários sinais de irregularidades. Entre 2019 e 2023, houve salto de 2.011% no volume de contribuições para oito associações analisadas, enquanto o conjunto de descontos de todas as associações aumentou 115% no mesmo período.
Relatórios de inteligência financeira analisados pela PF apontam movimentações atípicas que superam R$ 26 milhões na Contag, com repasses fracionados para pessoas físicas e jurídicas ligadas a setores de turismo, alimentação e eventos.
Integrantes do Palácio do Planalto reconhecem que o desgaste com a revelação do esquema de fraudes colocou o ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, em situação ruim. Até o momento, contudo, auxiliares não veem motivos para uma demissão.
Aliados do presidente Lula afirmam que o conjunto de informações não implica Lupi diretamente. Um ministro diz que, por enquanto, “não há nada contra ele”. Afirma que as medidas estão sendo tomadas e que não é possível agir por impulso nesses casos.
Os múltiplos sinais de alerta
Salto nas contribuições
- Houve salto de 2.011% no volume de contribuições para oito associações, de 2019 a 2023. No total de associações, a alta foi de 115%.
Associações sem qualquer estrutura
- Visitas a sedes e entrevistas revelaram associações sem estrutura física para captar, filiar e atender o total de beneficiários registrados.
Aposentados por incapacidade no comando
- Associações chefiadas por alguns beneficiários de aposentadoria por incapacidade permanente ou sem experiência formal de trabalho.
Falta de capacidade operacional
- Ausência ou número reduzido de empregados mostra falta de capacidade para processar filiações e prestar serviços.
Procurações para chefiar entidades
- Consulta ao Sistema do Colégio Notarial do Brasil mostrou que há procurações dando poderes a terceiros para chefiar entidades.
Concentração de descontos em cidades pobres
- Em cidades de Maranhão, Piauí e Pernambuco, mais de 60% dos segurados tiveram descontos associativos em benefícios.
Empresas ficam com desvio
A PF apura, ainda, se empresas de viagens, eventos e buffet receberam recursos de entidades investigadas. Segundo a investigação, parte do dinheiro foi transferido a prestadores de serviço sem vínculo com atividades sindicais.
Acordo político
Por Merval Pereira / O GLOBO
Está em andamento uma negociação política que permitirá superar a campanha pela anistia aos rebelados do 8 de Janeiro e proporcionará a possibilidade de revisão das penas já decretadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sem que seja criado um impasse entre os Poderes da República. O governo petista, por intermédio de seus líderes no Congresso, sob a coordenação da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, está à frente das negociações, com o conhecimento do STF.
O presidente do Supremo, ministro Luís Roberto Barroso, evidentemente mandou um recado ao Congresso ao afirmar que o ocorrido no 8 de Janeiro é imperdoável, mas, ao mesmo tempo, abriu uma brecha para reduzir as penas. É um ponto delicado, porque até o momento considerava-se uma afronta ao STF que o Congresso reduzisse as penas já definidas aos condenados do 8 de Janeiro.
Com a fala de Barroso, é possível fazer um acordo, esquecendo a anistia — que sabemos não ser para os bagrinhos de 8 de Janeiro, mas sim para os generais e Bolsonaro — e fazendo no Congresso um projeto para reduzir penas como a da cabeleireira condenada a 14 anos. Desde o início dos debates, Barroso tem dito que não faz sentido condenar pelo mesmo crime — tentativa de golpe e abolição de Estado de Direito. Ao retirar uma das acusações, a condenação já se reduz em cinco anos. Ele deu um caminho para negociação, que pode acalmar os ânimos no Congresso.
Não é possível unir os dois crimes, pois a legislação os separa claramente. Só o Congresso pode fazer uma lei nova com esse enfoque. Mas Barroso foi além do que deveria como presidente do Supremo porque, mesmo não fazendo parte da turma que julga, parece tentar conduzir a sua votação, criando mais um pretexto para que o julgamento seja contestado.
O presidente do Supremo, ou outro ministro qualquer, ser contra a anistia é antecipação de julgamento, pois o caso, se concretizado, provavelmente será colocado perante o tribunal. Será um problema para nossa mais alta Corte, pois conceder anistia é prerrogativa do Congresso pela Constituição. Como considerar inconstitucional um projeto de lei nesse sentido? Ao mesmo tempo, dizer que os acontecimentos do 8 de Janeiro são “imperdoáveis” é outra escorregadela de Barroso. Significa que ninguém será absolvido no julgamento em curso.
De qualquer maneira, a negociação política parece bem adiantada, retirando a aparência de revanche das penas excessivas já determinadas, mas mantendo o rigor com os financiadores e organizadores da tentativa de golpe, nisso incluídos os generais e Bolsonaro. Esse acordo desarmará também os líderes do PL preocupados mais com o destino dele que com os inocentes úteis arregimentados para criar o ambiente propício ao golpe. A pressão política que o líder do PL, Sóstenes Cavalcante, faz para que o presidente da Câmara, Hugo Motta, ponha em votação o projeto de anistia mostra como ele e seus seguidores não estão interessados em resolver o caso dos “bagrinhos”.
A manobra rasteira de tentar chantagear o governo ameaçando romper um acordo sobre as emendas para forçar a votação da anistia só explicita como o líder do partido do ex-presidente da República está nervoso com a probabilidade de a anistia não vir a ser colocada em plenário para votação. Por seu lado, o governo terá uma vitória política como há muito não tinha se der certo a negociação para reduzir as penas dos condenados menos importantes na tentativa de golpe e reforçar a dos organizadores e financiadores. Essa é a essência de um acordo político elevado.

