Prosseguir na queda da pobreza depende da economia
Num quadro de expansão do emprego e de gastos sociais, a taxa de pobreza no Brasil caiu de 21,7% em 2023 para 20,9% no ano passado, o terceiro consecutivo em que o indicador do Banco Mundial mostra redução. Trata-se, obviamente, de uma boa notícia.
É também a segunda melhor marca da série histórica iniciada em 1981, só superada em 2020 em razão das transferências emergenciais durante a pandemia.
Mesmo assim, ainda são 45,8 milhões de pessoas com renda abaixo de US$ 6,85 por dia em paridade de poder de compra das moedas, equivalente a cerca de R$ 50 por dia no Brasil.
Apesar da melhora, a taxa brasileira ainda se mostra alta em comparação com as de países latino-americanos, casos de Chile (4,6%), Argentina (13,3%), Bolívia (14,1%) e Paraguai (16,2%).
Chama a atenção, ademais, que o ritmo do progresso aqui venha caindo —de 5 pontos percentuais em 2022 para 2 em 2023, apenas 0,8 em 2024 e parcos 0,2 esperados neste ano.
É provável que haja perda de vigor nos dois principais fatores para a queda da pobreza: a geração de emprego, de um lado, e a ampliação continuada de despesas sociais, de outro.
No ano passado, com crescimento do PIB de 3,4% e criação de postos, houve alta de 4,8% do salário médio real. A diminuição da pobreza poderia ter sido até maior, não fosse a inflação que abarcou artigos de primeira necessidade, como os alimentos.
Neste 2025, diante de juros elevados e da necessidade de conter a inflação, que como sempre penaliza os mais pobres, espera-se menor geração de empregos, um custo evitável se o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tivesse sido mais previdente.
Também se esgota o segundo vetor, a rapidez de expansão de despesas sociais, dado o quadro de fragilidade orçamentária. O crescimento das rubricas obrigatórias, que muitas vezes não são focalizadas nos que mais necessitam, reduz o espaço para a ampliação de programas sociais que seriam mais eficientes.
O Banco Mundial mostra que houve evolução significativa, mas permanecem desafios.
Depois de cair à metade entre 2003 (48,7%) e 2014 (24,4%), a taxa de pobreza vem progredindo muito pouco nos últimos dez anos. Retomar uma tendência mais clara e sustentável de melhora adiante depende de reformas que impulsionem a produtividade e o emprego.
Há avanços, como a reforma tributária, mas é necessário eliminar as incertezas em relação à capacidade do governo de controlar a dívida pública e assim abrir espaço para juros menores.
O país também precisa de políticas públicas inclusivas, tributação mais progressiva e uma ampla reforma orçamentária que controle gastos obrigatórios.
Para tanto, a instituição recomenda um ajuste fiscal equivalente a 3% do PIB, o que inclui a desvinculação entre benefícios da Previdência Social e o salário mínimo.

A solução para a crise do INSS
Por Míriam Leitão / O GLOBO
A crise do INSS não estancará com a demissão do ex-ministro Carlos Lupi. Esse escândalo é mais real para a população porque a atinge diretamente. É o aposentado e o pensionista que foi roubado em seu parco recebimento mensal. Diferentemente de outros casos como o petrolão, que tirou dinheiro de uma estatal, ou o das joias, que era uma venda de bens da União, este fala diretamente ao bolso. Poderia ter sido evitado. A Polícia Federal estudou durante três anos o assunto e, há mais de um ano, apresentou ao governo a solução que evitaria entre 60% e 70% das fraudes. Implantar um sistema biométrico unificado no país.
Esse roubo, agora investigado, é mais doloroso porque atinge as famílias, mas os cofres públicos são há muito tempo saqueados por variadas fraudes no sistema previdenciário. O que esta investigação mostrou, além da parte criminal, é que há um desarranjo institucional total, um descontrole absoluto. A Previdência é o maior bloco de despesas do orçamento, portanto, é onde há mais riscos. Os fraudadores atacam conseguindo benefícios indevidos e aí sangram os cofres públicos ou o orçamento das famílias.
Funcionaria assim: a Polícia Federal tem na sua estrutura um Instituto Nacional de Identificação. A ideia é implantar isso nacionalmente. Se uma pessoa quisesse fraudar a Previdência tirando vários benefícios em estados diferentes — como acontece — ela seria barrada pelo sistema unificado. Para haver desconto no benefício em favor de algum sindicato ou associação, a pessoa teria que autorizar via reconhecimento facial. Não seria complicado, pode ser feito de casa mesmo, pelo celular, se houvesse um sistema nacional de identificação biométrica. Cofres públicos e o bolso do cidadão estariam mais protegidos.
Há resistência dentro do governo. O Dataprev, por exemplo, não aceita que os dados para efeito do INSS sejam os da Polícia Federal. A PF é o único que tem capacidade técnica de fazer isso nacionalmente até por ter servidores especializados para a correção de erros, os papiloscopistas. O Ministério da Gestão acha que é muito caro e alega que uma base criminal não pode servir para um procedimento civil. Na Polícia Federal esses argumentos são qualificados como “falácia”. Sobre a despesa, a resposta é que teria custado R$ 500 milhões implantar um sistema que poderia ter evitado, só nesse caso, um prejuízo de R$ 6 bilhões para a população.
As investigações começaram a ser feitas em 2023, quando apareceram as primeiras denúncias na imprensa. Hoje, tem um inquérito em Brasília e outros 10, em seis estados diferentes. Foi deflagrada uma operação conjunta e coordenada, em que a PF de cada estado realizou apreensões para confirmar suas linhas de investigação. Não há ainda um prazo para terminar de processar os dados trazidos por mais de 200 mandados de busca e apreensão. A extração do conteúdo dos celulares apreendidos já foi feita e tudo está sendo analisado. Essas informações fazem parte de um grande banco de dados e que, por decisão judicial, pode ser compartilhado nos vários inquéritos. O sistema de perícia é um só no Brasil inteiro.
O que a CGU havia identificado antes é que desde 2019 houve um início mais volumoso desses descontos indevidos e, em 2021 e 2022, houve mais assinatura dos acordos dos sindicatos com a Previdência. O ex-ministro Carlos Lupi tinha mesmo que sair porque foi omisso ao ser alertado. Tivesse agido no início do mandato, quando foi avisado, em janeiro de 2023, pela advogada Tonia Galletti, no Conselho Nacional de Previdência Social, a história seria outra. Ou mesmo em junho de 2023, quando a advogada pediu a inclusão do assunto na pauta do conselho. As oportunidades de interceder foram sendo perdidas e o ataque ao bolso dos aposentados e pensionistas continuou.
É necessário esclarecer a dimensão do esquema de desvios, encontrar todos os responsáveis, desenvolver a engenharia fiscal para a devolução aos aposentados do dinheiro que foi retirado das suas contas e implantar um sistema que evite as fraudes no futuro. As pessoas precisam ser protegidas, os cofres públicos precisam ser defendidos, o governo tem que ter gestão mais eficiente. A crise está instalada, mas é possível implantar soluções de longo prazo, e indispensável ressarcir as vítimas dos erros que, mesmo tendo nascido em outros governos, devem ser corrigidos por quem está agora dirigindo o país.(Com Ana Carolina Diniz)
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Reconduzido ao comando do MDB Ceará, Eunício é citado por presidente da Assembleia: 'Futuro senador'
O deputado federal Eunício Oliveira foi reconduzido ao comando do MDB no Ceará em convenção da sigla realizada no município de Viçosa do Ceará, na noite da última sexta-feira (2). Durante o evento, o presidente da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), Romeu Aldigueri (PSB) defendeu o nome do emedebista como candidato ao Senado no próximo ano.
No grupo governista, a disputa para quem será indicado a disputar as duas vagas do Estado no Senado Federal tem sido acirrada, por isso o apoio recebido por Eunício dá ainda mais peso às declarações de Aldigueri. O emedebista também não esconde o interesse em retornar ao cargo que ocupou entre 2010 e 2018 — quando foi derrotado ao concorrer à reeleição.
"Estamos todos juntos lutando pelo Ceará, por um Ceará que não envolva fofoca, discussão e dúvida. Nós não temos dúvidas, é reeleger Elmano de Freitas aqui no Estado, eu, Camilo (Santana) e todos esses deputados. Essa convenção com certeza será um ponto de partida para elegermos vários deputados estaduais e, se Deus quiser, um senador da República para representar o povo do Ceará”, disse o ex-senador em seu discurso.
Eunício ainda reforçou a aliança que tem com o grupo governista e destacou a liderança do ministro Camilo Santana (PT), que lidera a aliança.
“O MDB se aliou a um projeto que não é um projeto de poder, mas um projeto de desenvolvimento do Ceará. Essa relação próspera de amizade nasceu de dois homens públicos, ele aqui no Ceará candidato a governador — e venceu as eleições — e eu, presidente do Congresso Nacional, mas nós éramos dois homens públicos e tínhamos responsabilidade por esse Estado. Nós fizemos um compromisso mútuo de trazer o interesse do Estado para ser superior às nossas questões”, afirmou Eunício.
“Futuro senador”
Romeu Aldigueri também fez um resgate histórico do período em que o emedebista esteve no Senado Federal para defender o retorno do político à Casa.
“É o futuro senador da República Eunício Oliveira. O Ceará está perdendo muito há sete anos, o Ceará perdeu uma grande oportunidade, não existe, na história moderna do século XX para cá, um homem que tenha trazido mais recursos para o Ceará e para as prefeituras do que Eunício Oliveira”, disse Aldigueri.
“Ele ajudou a todos e a todas, eu era prefeito de Granja e ele ajudou sem olhar a quem, mandou recursos para as 184 cidades do Ceará e ajudou muitissimo o então governador e hoje ministro Camilo Santana. O Ceará deve muito a você e os cearenses vão reparar esse erro histórico, porque colocaram lá uma pessoa que não ajuda o Estado, não trabalha pelo Estado, são sete anos de marasmo. Nós queremos um senador que nos represente e o troco será nas urnas lhe colocando lá no ano que vem”, concluiu.
Disputa acirrada
A mais de um ano do pleito eleitoral, integrantes do grupo de aliados do governador Elmano de Freitas (PT) apontam pelo menos oito nomes cotados para disputar o Senado. Além de Cid Gomes, que disputaria uma reeleição, e Eunício Oliveira, a lista inclui os deputados federais José Guimarães (PT), Júnior Mano (PSB) e Luizianne Lins (PT), o ex-senador Chiquinho Feitosa (Republicanos), o ex-vice-governador Domingos Filhos (PSD) e o chefe da Casa Civil, Chagas Vieira.
No último dia 7 de abril, Luizianne foi lançada por aliados como pré-candidata. Na ocasião, ela disse que "ninguém pode fugir às tarefas que coletivamente estão colocadas".
Atual detentor do cargo, Cid Gomes já disse reiteradas vezes que não pretende disputar a reeleição, contudo seu nome ainda aparece no horizonte de possibilidades do grupo governista. Desde o início deste ano, o político defende a candidatura Júnior Mano para o cargo.
Durante participação na live do PontoPoder, em 10 de abril, foi a vez de Guimarães dar uma fala mais enfática sobre sua pré-candidatura.
“O PT tendo uma vaga para o Senado no Ceará, esqueça, o nome é José Nobre Guimarães. Pode cobrar isso de mim”, disse. O parlamentar também revelou que Lula já “disse na frente do Elmano e do Camilo que o Guimarães é o senador do Ceará”.
Na conversa, o petista também sinalizou para uma candidatura do MDB no Ceará, repetindo a dobradinha que elegeu José Pimentel e o próprio Eunício Oliveira em 2010.
“Quer sinal mais forte de que eu represento o projeto nacional? É claro, o Lula gosta muito do Eunício, então é uma grande possibilidade. Onde vou, todo mundo pergunta, essa é a dupla que vai disputar?”, revelou Guimarães (PT).

Irmãs influencers com mais de 1 milhão de seguidores são assassinadas no Ceará
Por José Maria Tomazela / O ESTADÃO DE SP
Duas irmãs conhecidas como influenciadoras nas redes sociais foram mortas a tiros, na noite da quinta-feira, 1º, em Fortaleza, capital do Ceará. Maria Beatriz dos Santos, de 20 anos, e Bianca dos Santos, de 15, foram atingidas por disparos durante um ataque da facção criminosa Comando Vermelho (CV) a um grupo rival, no bairro Barra do Ceará.
Bianca estava grávida de dois meses. Houve represália e outras cinco pessoas ficaram feridas.
Quem eram Bianca e Maria Beatriz
As irmãs se tornaram populares produzindo e divulgando vídeos curtos em plataformas como Kwai e TikTok, mostrando a rotina da vida na periferia. Elas também divulgavam jogos de azar, como o jogo do Tigrinho.
Nesta sexta-feira, 2, o influenciador Antônio Victor Araújo Ferreira, de 18 anos, o ‘Moskou’, que namorava Bianca, foi preso, suspeito de participar do revide à morte da namorada. Em sua rede social, ele negou qualquer envolvimento na ação.
A reportagem não consegui contato com a defesa de ‘Moskou’.
No Kwai, Bianca tinha cerca de 1,4 milhão de seguidores, enquanto Maria Beatriz estava próxima de 900 mil. As duas costumavam publicar vídeos em sequência, como mini novelas, atuando também como personagens de cenas fictícias.
Como o crime ocorreu
Bianca e Beatriz estavam com um grupo na orla de Fortaleza, no local conhecido como Vila do Mar, quando os suspeitos do ataque sugiram pelo mar, em uma moto aquática e em um barco. Eles fizeram vários disparos em direção ao grupo.
Beatriz morreu no local. Bianca foi socorrida e levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Cristo Redentor, mas não resistiu aos ferimentos.
A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará informou que equipes da Polícia Militar e da Polícia Civil foram acionadas para atender à ocorrência. Os criminosos já haviam fugido pelo mar.
A Perícia Forense também esteve no local e recolheu evidências que devem auxiliar nas investigações, que serão conduzidas pela 8ª Delegacia do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) de Fortaleza. Segundo a polícia, o primeiro confronto que resultou na morte das irmãs teria ocorrido durante um ataque de integrante do Comando Vermelho a membros da facção Guardiões do Estado (GDE).
‘Moskou’ seria o alvo da ação, pois usaria suas redes sociais para fazer “propaganda” da Guardiões. Horas depois desse tiroteio, um novo confronto aconteceu como revide ao ataque, deixando outras cinco pessoas feridas.
As vítimas, três delas em estado grave, foram encaminhadas para unidades médicas. A tentativa de chacina aconteceu em um campo de futebol, próximo ao local do primeiro ataque.
A SSP-CE informou que a 7º Distrito Policial realiza investigações para elucidar o segundo caso. Até o momento, duas pessoas suspeitas de envolvimento nessa ação foram presas.
Com a troca de Lupi por seu braço direito, só falta Lula errar na devolução da grana aos aposentados
Por Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO DE SP
Mais uma decisão incompreensível do presidente Lula. Substituir Carlos Lupi por Wolney Queiroz no Ministério da Previdência foi automaticamente percebido pela opinião pública como trocar seis por meia dúzia. Lula se desgastou ao nomear Lupi, ao demorar a demiti-lo e, por fim, ao por no lugar justamente o braço direito dele.
E o que Lula ganhou em troca? Primeiro, o que já tinha: o apoio do PDT, que é satélite histórico do PT e não tem outra alternativa senão ficar com o governo. Depois, um escândalo de bom tamanho, na pior hora: o roubo de mais de R$ 6 bilhões do INSS. Lupi foi informado em 2023, Queiroz era o número 2 do ministério e soube junto com ele. Nenhum dos dois fez nada.
O escândalo está aí, é um fato, e os efeitos políticos podem ser mais ou menos devastadores para Lula dependendo da evolução das investigações, do surgimento de novos nomes e detalhes e da guerra de narrativas entre governo e bolsonarismo. O seis por meia dúzia não ajuda Lula nem um pouco.
Sua melhor defesa usada foi no pronunciamento da véspera do Primeiro de Maio, ao lembrar que os desvios do INSS vinham desde 2019 (Jair Bolsonaro era presidente) e que foi o seu governo, a sua Polícia Federal e a sua Controladoria-Geral da União que agiram e desbarataram a quadrilha. Apesar dos pesares, é um bom argumento.
Porém, se PF e CGU apuraram e atuaram firmemente, Lula não teve agilidade, ou força política, para entrar no vácuo, demitir rapidamente Lupi, convencer o PDT e nomear para a vaga alguém de boa estatura, fora da política, o mais distante possível do escândalo e capaz de emprestar seu nome e credibilidade às investigações e medidas. Não. Lula optou por um “companheiro” e por manter o PDT sob suas asas. Pensou pequeno.
Pernambucano, deputado federal por seis mandatos, Wolney Queiroz votou contra o impeachment de Dilma Rousseff, a reforma trabalhista e a da Previdência e foi líder da oposição a Bolsonaro na Câmara, que unia PDT, PT, PSOL, Rede e PCdoB. Em 2022, ele defendeu a candidatura Lula contra a do pedetista Ciro Gomes. Ok, currículo muito conveniente a Lula e ao PT. Mas para a função? Para a opinião pública?
Só falta Lula errar na questão central: a devolução do dinheiro de aposentados e pensionistas, usado por criminosos para compra de carrões e ser enviado em malas para paraísos fiscais. O governo está preocupado com as contas, mas a dona Maria e o seu João, que trabalharam muito a vida toda e ganham pouco na velhice, não querem saber de política, contas e companheiragem, só querem seu dinheiro de volta e que isso nunca volte a ocorrer no INSS, aliás, em lugar nenhum.
MEDICINA:Só quatro em cada dez cursos de Medicina atingem as notas mais altas de avaliação do MEC
Por Paula Ferreira / O ESTADÃO DE S
BRASÍLIA- Apenas quatro em cada dez cursos de Medicina do País alcançaram as notas mais altas no Conceito Preliminar de Cursos (CPC), índice do Ministério da Educação (MEC) que avalia a qualidade das graduações. Entre as 309 graduações avaliadas, somente 40,4% obtiveram médias 4 e 5, ideais para cursos da área.
O número de cursos de Medicina aumentou significativamente nos últimos anos. Entre os fatores por trás desse cenário, estão o programa Mais Médicos, que incentivou a abertura de graduações em cidades remotas e o grande retorno financeiro desses cursos. Associações de classe e ligadas ao ensino superior privado têm se mobilizado no Congresso e no Judiciário em defesa de diferentes critérios para liberar mais escolas médicas.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão ligado ao ministério, divulgou nesta sexta-feira, 11, os dados dos indicadores de qualidade do ensino superior. Os números incluem dados do CPC, do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), do Índice Geral de Cursos (IGC) — que avalia as instituições—, e do Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD).
Neste ciclo, o Inep avaliou 9.812 cursos da área de saúde e engenharias. Além medicina, o Inep avaliou carreiras como Arquitetura, Engenharia civil, Fisioterapia, entre outras.
As notas do CPC variam de 1 a 5, sendo as notas 4 e 5 as adequadas para cursos como Medicina. O indicador avalia universidades públicas e privadas. Para construir a nota, o MEC considera o desempenho dos estudantes no Enade, além de outros critérios como dados sobre o corpo docente, infraestrutura e recursos didático-pedagógicos da graduação.
De acordo com os dados, a maior parte das graduações na área têm nota 3 (50,5%), considerada regular. Em seguida, 38,5% dos cursos avaliados têm conceito 4, e somente seis cursos, o que corresponde a 1,9%, chegaram na nota máxima. No ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a criação de novos cursos e vagas na área devem atender ao edital do programa Mais Médicos, que considera a escassez de profissionais de saúde nas regiões do país, além de outras características.
Enade
Um dos componentes do CPC, o Enade avalia o desempenho dos estudantes em sua área. Para isso, é aplicada uma prova com 40 questões, das quais 10 são de conhecimentos gerais e outras 30 de conhecimentos específicos. O conceito também varia de 1 a 5. Neste ciclo, foram avaliados cerca de 31 mil alunos de 309 cursos de Medicina no país.
Conforme os dados do MEC, em 44,9% dos cursos de medicina avaliados o desempenho dos estudantes obteve notas 4 e 5. O nível regular foi a realidade de 33,6% das graduações, e 20% (um em cada cinco cursos) tiveram desempenho ruim, com notas 1 e 2. A prova do Enade é aplicada anualmente, mas a cada ciclo avalia áreas do conhecimento diferentes. As provas são aplicadas nas turmas de estudantes ingressantes e concluintes das áreas sob avaliação.
Diferença entre universidades privadas e públicas
O Enade avaliou 190 cursos de medicina em instituições privadas com e sem fins lucrativos, e confessionais. Desses, 27,3% tiveram baixo desempenho, com nota 1 e 2. Já entre os 113 cursos de universidades públicas, apenas 6,1% tiveram notas mais baixas. No patamar mais alto da avaliação, apenas 28,9% dos cursos de medicina privados tiveram notas 4 e 5. O porcentual é 72,5% entre os cursos de medicina de universidades públicas.
No CPC a diferença também permanece entre públicas e privadas: 36,8% dos cursos privados em medicina ficaram nas faixas 4 e 5. Entre os cursos de universidades públicas, o porcentual foi de 46,9% nesse patamar.
Diretor presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), Celso Niskier, destacou os resultados positivos do setor privado na totalidade de cursos e a abrangência do setor. Segundo ele, “muitos cursos estão concentrados nas faixas mais altas dos indicadores”. Ele afirmou ainda que a partir dos resultados as instituições podem aprimorar o trabalho. “O Enade também cumpre um papel estratégico ao oferecer uma oportunidade concreta para que as instituições que não atingiram conceitos satisfatórios possam aprimorar seus processos formativos e pedagógicos”, disse.
Ministério quer mudar avaliação na área
Aplicado desde 2004, o Enade é alvo de críticas. Em 2019, um estudo feito pela Organização dos Países para Cooperação Econômica (OCDE), afirmou que o Enade tinha falhas e cobrava habilidades genéricas dos estudantes.
Além das críticas ao Enade, o CPC também é alvo de questionamentos. Como não há sanções aos estudantes a partir de seu desempenho no Enade, isso faz com que as universidades desenvolvam mecanismos para engajar o aluno no processo. Na visão de especialistas, essa é uma das características que demonstram a fragilidade das métricas, já que o Enade é uma das notas utilizadas para compor o CPC.
“Usar o CPC para ser medidor de qualidade pode gerar distorções, uma instituição pode ter um curso excelente, mas se os alunos boicotarem o Enade, ela não vai ter um bom CPC”, analisa o advogado Henrique Silveira, especialista no tema e sócio do escritório Matos Filho.
Outros aspectos do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) são alvo de questionamentos, como as inspeções in loco. Uma das críticas é que essas visitas são ultrapassadas e não têm diferenciação de parâmetro entre as áreas do conhecimento, o que, na concepção de especialistas, torna o processo falho.
O Inep realiza cerca de 10 mil visitas para avaliação in loco por ano. As visitas estão entre os critérios para autorização de abertura de novos cursos e renovação de reconhecimento de cursos já em funcionamento.
O CPC, por exemplo, pode ser usado tanto como um indicador para induzir visitas in loco, como um requisito para pontuação em editais de abertura de novas vagas e cursos de medicina por meio dos critérios do Mais Médicos.
Como o Estadão mostrou, o MEC quer mudar a forma como os cursos de Saúde são avaliados in loco. A ideia é que os avaliadores que visitam as faculdades consigam analisar com mais rigor a parte prática da formação.
No caso dos cursos de Medicina, por exemplo, o MEC quer avaliar como é o aprendizado dos estudantes em cada um dos níveis de atuação na rede de saúde: a atenção básica e a especializada.
Nesta sexta-feira, 11, ao apresentar os dados dos indicadores, o diretor de avaliação da educação superior do Inep, Ulysses Teixeira, comentou sobre a possibilidade de mudanças na avaliação de medicina.
Ele destacou que a quantidade de itens específicos no exame é muito pequena, o que faz com que seja difícil avaliar o conteúdo de curso de seis anos.
Um estudo conduzido pelo Inep submeteu os itens específicos a especialistas na área que indicaram qual seria o resultado esperado para cada resposta. Dessa forma, o Inep calculou que 64,2% dos cursos avaliados estavam dentro do esperado; 23% acima do esperado; e 12,8% abaixo do esperado. O diretor destacou no entanto, que a métrica está em teste e ainda não é o parâmetro oficial considerado pelo órgão.
“O Inep fez mudanças na avaliação dos cursos de licenciatura e acreditamos que agora é a hora de pensarmos em alterações na avaliação dos cursos de medicina”, disse.


