Os sem-sem
EDITORIAL DE O GLOBO
A eleição presidencial dentro de dois meses parece mais uma etapa da travessia política para 2030 do que a possibilidade de renovação que dê ao brasileiro esperança de quatro anos iniciais de uma retomada do crescimento econômico e melhoria social. Nada de “50 anos em 5”, como o slogan de JK em 1955. Nada parecido com o Plano Real de 1994. Nada comparável à vitória de Lula em 2002, depois de três derrotas seguidas. Nessas e noutras ocasiões, a maioria votou com o olho no futuro imediato, com a sensação de que as coisas melhorariam. Agora, vota-se para impedir a continuação de Lula ou Bolsonaro.
O futuro está distante. Será preciso atravessar um próximo governo que não empolga ninguém para chegar a 2030, quando realmente as coisas poderão mudar pelo esgotamento dos modelos anteriores. Quando acabou o prazo do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, havia à espreita o ciclo de Lula. O próprio FH estava orgulhoso de passar a faixa presidencial a um líder operário que pela primeira vez subiria a rampa do Planalto. Não foi exatamente a reeleição que estragou a sucessão presidencial, mas a ambição de permanecer no poder. A Presidência de Dilma nasceu desse equívoco de Lula — ele achava que poderia manipulá-la à vontade. Foi surpreendido pela recusa dela de dar lugar a ele na própria sucessão, como estava tacitamente combinado.
Seguidos governos de vices que ascenderam ao estrelato — “Vice é um nada às vésperas de tudo”, já dizia Golbery — deram conta do recado. Sarney garantindo a democracia, Itamar abrindo caminho para o Plano Real, Temer elaborando a reforma previdenciária aprovada no governo Bolsonaro — todos acabaram transformando o cargo em jogo decisivo para a chapa presidencial. FH contou com a sorte para escolher Marco Maciel, que passou a ser modelo de vice. O país contou com a sorte de Collor ter escolhido Itamar, seu oposto. Temer mostrou-se mais capaz de governar que Dilma. Lula adotou, entre outras coisas, o modelo de FH com a escolha de José Alencar e Geraldo Alckmin, ambas com finalidade: Alencar representando o capital unido ao trabalho; Alckmin juntando a social-democracia à gestão de um ministério fundamental, da Indústria e Comércio, especialmente durante a crise que vivemos com o governo Trump.
Pois hoje temos vários candidatos sem vice, denotando não apenas a falta de acordo partidário, como o esvaziamento político do cargo. Vice não dá voto, mas dá prestígio, dá credibilidade, dá margem a acordos eleitorais. Entre os da direita, Flávio ampliou seu próprio prazo até 15 de agosto para tentar tirar uma coelha da cartola (quer uma vice mulher). Caiado teve de se contentar com o presidente de seu partido, Gilberto Kassab, chapa pura que denota fragilidade da candidatura. Zema ainda procura um sentido para sua candidatura. Renan Santos escolheu um militar para seu vice, ele que se define como uma mistura de Bukele, o ditador de El Salvador, com o argentino Milei, que não sabe se comportar em público.
Festa de Posse do Presidente Fernando Henrique Cardoso - Ao seu lado o vice-presidente Marco Maciel - Rolls Royce presidencial — Foto: Cezar Loureiro / Agência O Globo

