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Tarcísio cruzou o Rubicão

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

É difícil medir o impacto de um discurso na trajetória de um político no Brasil. Aqui, um cenário que parece consolidado hoje pode ser outro diametralmente oposto amanhã. Que dirá em pouco mais de um ano. Mas há momentos em que a palavra proferida torna-se tão eloquente por sua clareza que a eventual intenção de desdizê-la é muito difícil, se não impossível. Foi o que ocorreu no Sete de Setembro, na Av. Paulista. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, topou sujar sua imagem de moderado em troca de uma incerta bênção do réu Jair Bolsonaro à sua aventada candidatura à Presidência no ano que vem. Ao desferir ataques tão virulentos contra o Supremo Tribunal Federal (STF), e em particular o ministro Alexandre de Moraes, Tarcísio cruzou o Rubicão.

 

Em cima do carro de som, diante de uma plateia orgulhosa por desfraldar uma enorme bandeira dos EUA em plena data nacional brasileira, Tarcísio ecoou o infame discurso que Bolsonaro proferira naqueles mesmos dia e local quatro anos antes, quando o então presidente chamou Moraes de “canalha” e declarou que não cumpriria mais suas decisões. Com mais modos que seu padrinho boquirroto, Tarcísio fez o mesmo, dizendo que “ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes”, acusando o STF de perseguir seu padrinho político e defendendo uma anistia “ampla e irrestrita” para os golpistas. A coroar esse discurso afinado para soar como música aos ouvidos de Bolsonaro, o governador paulista teve a audácia de dizer que não se pode mais “aceitar que nenhum ditador diga o que temos de fazer”, referindo-se, por óbvio, a Moraes.

 

Não foi um arroubo isolado. Dias antes, Tarcísio já havia dito que “não confia” na Justiça, um evidente ataque à institucionalidade democrática. O governador parece ignorar o fato de que, se há uma ação penal em curso contra Bolsonaro, por mais que alguns aspectos do processo possam ser criticados, é porque, antes, houve uma escalada golpista liderada pelo ex-presidente.

 

Bolsonaro não estaria sendo processado se tivesse conclamado seus seguidores acampados em frente aos quartéis a voltarem para casa; se não tivesse duvidado sistematicamente do processo eleitoral, sugerindo que sua derrota só poderia decorrer de fraude; se tivesse aceitado o resultado da eleição e passado a faixa a seu sucessor, Lula da Silva; e se não tivesse tentado envolver chefes militares numa trama de ruptura da ordem democrática “dentro das quatro linhas” da Constituição. E mais: caso se comportasse com um mínimo de respeito pelas regras democráticas, Bolsonaro não só não estaria preso e inelegível, como seria favorito na eleição presidencial de 2026. E ninguém estaria falando da “tirania” de Alexandre de Moraes.

 

Ao inverter a ordem lógica dos fatores, Tarcísio põe em xeque sua capacidade de dialogar com o Supremo, com os partidos que integram o centro político, com o setor produtivo nacional e, principalmente, com os eleitores moderados – justamente os que têm decidido as eleições presidenciais no País há pelo menos 30 anos.

 

A moderação, nesse sentido, era o capital político mais valioso de Tarcísio por seu potencial de reunir as forças de oposição ao lulopetismo – seja dos moderados, seja dos próprios bolsonaristas, que jamais deixarão de votar no candidato capaz de derrotar Lula. Mas, desde o domingo passado, o governador provavelmente terá de fazer um esforço redobrado para convencer parte considerável do eleitorado – supondo que queira fazê-lo – de que não disse o que disse em português cristalino.

 

Não era inevitável que fosse assim. O governador poderia ter alegado algum impedimento médico, como fez em outra ocasião, e faltado ao evento golpista da Av. Paulista. Uma vez que teve a imprudência de comparecer, poderia ter feito um discurso anódino, defendendo o que chama de “pacificação”, mas sem endossar as teses estapafúrdias de Bolsonaro nem muito menos atacar de forma antirrepublicana o STF. Ao optar pela via incendiária, Tarcísio deu a dimensão de sua aposta: humilhar-se para conquistar o coração do “mito” a qualquer preço.

 

Em política, até a reputação mais enxovalhada pode ser restaurada. Mas Tarcísio terá de se esforçar muito para se dizer democrata depois de seu discurso na Av. Paulista.

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