Bolsonaro vincula recriar pastas à vitória de aliados
Às vésperas da disputa que vai escolher os novos presidentes da Câmara e do Senado, o presidente Jair Bolsonaro condicionou a recriação de ministérios a votos em candidatos apoiados pelo governo. Em cerimônia realizada no Palácio do Planalto nesta sexta-feira, 29, Bolsonaro admitiu que poderá recriar os ministérios do Esporte, da Cultura e da Pesca, após a eleição que vai renovar a cúpula do Congresso, na próxima segunda-feira.
As três pastas foram extintas pelo presidente e viraram secretarias. Nesse terceiro ano de mandato, Bolsonaro pretende fazer uma reforma na equipe, mas, tendo o Centrão como aliado, negocia apoio aos seus candidatos – Arthur Lira (Progressistas-AL) para a presidência da Câmara e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para o comando do Senado -, em troca de um atrativo pacote de ofertas.
O Estadão revelou nesta quinta-feira, 27, que o governo liberou R$ 3 bilhões em recursos “extras”, do Ministério do Desenvolvimento Regional, para 250 deputados e 35 senadores destinarem a obras em seus redutos. A iniciativa seguiu o roteiro da disputa: dos contemplados, grande parte declarou apoio aos candidatos do governo no Congresso. Além disso, parlamentares que têm indicação dos partidos para votar em adversários do Planalto, como Baleia Rossi (MDB-SP), estão sendo atraídos com verbas e cargos.
“Se tiver o clima no Parlamento, (porque) ao que tudo indica as duas pessoas que nós temos simpatia devem se eleger (Lira e Pacheco), não vamos ter mais uma pauta travada”, disse o presidente na solenidade em que recebeu os novos atletas embaixadores dos Jogos Escolares Brasileiros, na qual poucos usavam máscara de proteção. “A gente pode levar muita coisa avante e quem sabe até (fazer) ressurgir ministérios.”
A redução de ministérios era uma agenda de campanha do próprio Bolsonaro, em 2018. Por meio de medida provisória, ele diminuiu o número de pastas de 29 para 22. “Alguns podem falar ‘Ah, quer recriar ministério?’. O tamanho do Brasil, pessoal, só a Amazônia é maior que toda a Europa ocidental todinha”, justificou.
No início do governo, Bolsonaro também dizia que não lotearia o governo e que governaria com frentes parlamentares. Nada disso ocorreu. No ano passado, o presidente se aliou ao Centrão, bloco que reúne aproximadamente 200 dos 513 deputados na Câmara. Lira é o principal líder desse grupo.
Ao discursar no Planalto, Bolsonaro deu sinais de que se arrependeu da decisão de não criar mais ministérios e disse que, se formasse sua equipe hoje, teria dado status de ministro aos secretários especiais Mario Frias, de Cultura, Jorge Seif, da Pesca, e Marcelo Magalhães, do Esporte.
Xadrez
O resultado da eleição no Congresso, porém, é que vai definir a extensão da reforma ministerial. O Progressistas, partido de Lira, quer o Ministério da Saúde, hoje comandado pelo general Eduardo Pazuello – desgastado por erros cometidos na condução da pandemia de covid-19 -, e o Republicanos, ligado à Igreja Universal, está de olho em Cidadania, hoje nas mãos de Onyx Lorenzoni.
Cidadania é a pasta que cuida do Bolsa Família, programa que Bolsonaro quer turbinar para servir de vitrine para sua candidatura à reeleição, em 2022. “Pouca gente resiste ou resistiu dois meses de ataques como nós temos resistido há dois anos. E isso eu tenho um sentimento, só um, que é entregar o Brasil em 2023 ou 2027, não sei, melhor do que eu recebi”, disse o presidente.
Na configuração desenhada por Bolsonaro para o pós-eleição, a ideia é que Onyx seja transferido para a Secretaria-Geral da Presidência, atualmente com um interino. Com isso seria aberta uma vaga para o Centrão na pasta da Cidadania, que tanto pode ir para o Republicanos como para outro partido do grupo. O Ministério de Indústria e Comércio também poderá ser recriado. Articulador político do Planalto com o Congresso, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, permanecerá no cargo.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), discutiu com Ramos por telefone, recentemente, pedindo explicações do governo sobre a interferência na disputa do Legislativo. Maia apoia Baleia Rossi. “Eu repudio essas afirmações. A Secretaria de Governo não está fazendo nada disso”, disse Ramos.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. ISTOÉ
Renan diz que MDB virou ‘bando’ e rifou Tebet para receber ‘carguinhos’
29 de janeiro de 2021 | 19h33
BRASÍLIA - "Viramos um bando. Deixamos de ser Partido." Foi assim que o senador Renan Calheiros (AL) definiu a mudança protagonizada pelo MDB, um dia depois da decisão da bancada de abandonar a candidatura de Simone Tebet (MS) à presidência do Senado para apoiar Rodrigo Pacheco (DEM-MG), em troca de cargos. As mensagens de Renan, que era adversário de Simone até há pouco tempo, foram postadas pelo aplicativo WhatsApp no grupo de senadores da sigla.
Na sua avaliação, o MDB “cristianizou” Tebet e virou “pedinte”, com a bancada “mendigando” uma conversa com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), para receber “carguinhos como favor”. “É o fim melancólico para quem liderou a Casa e agora foi rebaixado para Série D”, escreveu Renan, que foi presidente do Senado em uma época na qual o partido também estava à frente da Câmara.
A eleição que vai escolher a nova cúpula do Congresso será realizada na próxima segunda-feira, 1.°. O acordo para “rifar” Tebet, que mantém a candidatura ao comando do Senado como “independente”, foi fechado nesta quinta-feira, 28. Na ocasião, o líder da bancada do MDB, Eduardo Braga (AM), se reuniu com Alcolumbre e negociou com ele a adesão do partido à campanha de Pacheco, candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro.
O acerto prevê que o MDB ficará com a primeira vice-presidência do Senado, a segunda secretaria e o comando de duas comissões. A mais cobiçada é a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas o próprio Alcolumbre quer ocupar essa cadeira, considerada muito importante para o Palácio do Planalto, porque por lá passam todos os projetos de interesse do governo.
“Definitivamente, falta-nos rumo, bandeira e deixar claro que o óbvio esmagamento da proporcionalidade implicará na suspensão da governabilidade do Senado e do Congresso, pelo menos”, afirmou Renan, em uma das mensagens para o grupo de senadores. “Maioria dividida transforma-se em minorias desesperadas, sem rumo, sem condução. Porque jamais haverá um único líder para facções diferentes. Viramos um bando, deixamos de ser Partido”.
Na Câmara, o MDB lançou a candidatura de Baleia Rossi (SP) à sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ). A campanha de Baleia, que é presidente nacional do partido, enfrenta dificuldades diante do assédio do Palácio do Planalto, que tem negociado cargos e emendas com o objetivo de atrair votos para o deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), líder do Centrão. A disputa virou um jogo de “tudo ou nada” para o governo porque Bolsonaro avalia que, se Baleia vencer, será pressionado por aliados, principalmente por Maia e por siglas de esquerda, a aceitar um dos 59 pedidos de impeachment hoje parados na Câmara.
No Senado, o MDB é a maior bancada, com 15 integrantes. Pela tradição da Casa, teria prioridade na escolha de cargos na Mesa e em comissões, independentemente do resultado da disputa. Esse acordo de cavalheiros, porém, foi quebrado em fevereiro de 2019, quando Alcolumbre foi eleito para presidir o Senado.
Tebet era líder do MDB e chegou a travar uma queda de braço com Renan pela indicação do partido para concorrer ao comando da Casa. “Devemos absorver o recado das urnas, que clamou por renovação na política e, consequentemente, no Senado”, disse a senadora, à época, em referência aos inquéritos contra Renan, alvo de delações da Lava Jato, no Supremo Tribunal Federal.
A decisão de Tebet de enfrentar Renan no plenário, naquele ano, mesmo tendo sido derrotada na bancada, foi considerada por ele como o pivô da crise que se abateu sobre o partido. Na ocasião, a senadora só retirou a candidatura na última hora para apoiar Alcolumbre, ganhando depois o comando da CCJ. Isolado, rotulado como “velha política” pelo novo governo, Renan acabou renunciando quando viu que perderia. “Eu voltei para o baixo clero. Sou o 081 do Senado”, disse Renan ao Estadão, naquele 2 de fevereiro de 2019.
De lá para cá, o senador se aproximou de Alcolumbre, mas agora vestiu novamente o figurino da oposição. Inicialmente, Renan achava que o candidato do partido poderia ser Eduardo Braga. Mas, como o líder da bancada desistiu de entrar no páreo depois que o PT declarou apoio a Pacheco, Renan chegou à conclusão de que o MDB deveria “se unir” e pedir votos para Simone, demonstrando sua insatisfação com o Palácio do Planalto. O problema é que, na Casa de Salão Azul, o MDB está dividido e muitos são aliados de Bolsonaro. Atualmente, a bancada do partido abriga dois articuladores do governo. Fernando Bezerra Coelho (PE) é líder no Senado e Eduardo Gomes (TO), no Congresso.
Ele vai mesmo tomar conta desta Casa? ISTOÉ
Jair Bolsonaro vê o risco de impeachment crescer e a popularidade despencar, acossado pela crise na saúde, que se agravou com sua atitude criminosa. Mas pode se fortalecer e conquistar vitórias importantes com a eleição de dois aliados na cúpula do Congresso: Arthur Lira (PP), na Câmara, e Rodrigo Pacheco (DEM), no Senado. O primeiro nome é o mais importante e mais escandaloso. Cabe ao presidente da Câmara decidir sobre a abertura dos processos de impeachment. É ele que determina a pauta legislativa, podendo facilitar os temas da agenda de costumes, a escalada armamentista e também mudanças institucionais que ampliem a interferência do presidente nas forças de segurança. É nesse posto que o mandatário pode instalar seu aliado mais importante.
Uma ficha suja digna de gângsteres é o principal atributo do candidato do presidente. As acusações, processos e investigações contra o deputado Arthur Lira envolvem rachadinhas, movimentações milionárias, formação de quadrilha no seu partido, violência doméstica e corrupção passiva. A trajetória lembra muito a de Eduardo Cunha (MDB-RJ), ex-presidente da Câmara, preso por corrupção na operação Lava Jato. O atual líder do Centrão também foi denunciado pela Procuradoria Geral da República em operação da Lava Jato, em 2020. É acusado de ter recebido propina de R$ 1,6 milhão da empreiteira Queiroz Galvão. Também está envolvido no escândalo do Quadrilhão do PP, esquema que desviou recursos da Petrobras. Dar a ele o comando da Câmara é jogar para debaixo do tapete várias investigações.

Aos 51 anos, Arthur Lira é deputado federal pelo terceiro mandato. O rastro de corrupção vem desde quando ocupava o cargo de deputado estadual na Assembleia Legislativa de Alagoas. De 2001 a 2007, segundo as investigações da PF e do Ministério Público, Lira recebia R$ 500 mil por mês nas suas contas bancárias, que eram irrigadas pelos desvios das rachadinhas. A prática é bem conhecida da família Bolsonaro. No caso de Lira, as investigações apontam que seu grupo desviou pelo menos R$ 254 milhões dos cofres públicos a partir de salários dos servidores, inclusive de funcionários fantasmas. Em 2007, a PF deflagrou a Operação Taturana e constatou que Lira movimentou em suas contas um total de R$ 9,5 milhões, dinheiro que ele teria usado para comprar carros, apartamentos e terrenos. A maior parte do dinheiro foi recebida com o apoio de laranjas, como sua ex-mulher Jullyene Lins. De acordo com ela, o patrimônio não declarado de Lira gira em torno de R$ 40 milhões, embora a declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral registre apenas R$ 1,78 milhão. Mesmo diante de todas as provas, o processo foi arquivado de forma estranha pelo juiz Carlos Henrique Pita Duarte, da 3ª Vara Criminal de Maceió, sob a descabida alegação de que o caso não era de competência da Justiça Estadual, razão pela qual o magistrado anulou todas as fartas provas colhidas pela PF, incluindo os extratos das contas do deputado. O Ministério Público recorreu da decisão em dezembro passado e o caso será julgado novamente no Tribunal de Justiça do Estado.

O currículo do deputado também tem acusações de violência doméstica. Entre tapas, socos e xingamentos, Lira se tornou uma ameaça à ex-mulher Jullyene Lins, que já fez três registros de ocorrência por agressão na Delegacia da Mulher. Também pediu, sem sucesso, ao Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos para ser incluída no cadastro de Proteção a Testemunhas. Desde janeiro de 2019, Jullyene já fez quatro pedidos. Procurada pela reportagem, a pasta comandada por Damares Alves afirmou que “não é possível confirmar, negar ou prestar qualquer esclarecimento sobre a situação mencionada”.
Partidos de esquerda apresentam pedido de impeachment de Bolsonaro
27 de janeiro de 2021 | 16h14
Atualizado 27 de janeiro de 2021 | 17h56
BRASÍLIA – Presidentes e líderes dos cinco partidos de esquerda na Câmara, além da Rede, apresentaram nesta quarta-feira, 27, mais um pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Com este, deve chegar a 59 o número de denúncias protocoladas contra o chefe do Executivo pendentes de análise dos deputados. Cabe ao presidente da Casa analisar e dar início aos processos.
Na peça divulgada nesta quarta, os partidos argumentam que Bolsonaro cometeu “crimes de responsabilidade em série” na condução da pandemia do coronavírus. O pedido cita o colapso da saúde em Manaus, onde pacientes de covid-19 morreram por asfixia após os estoques de oxigênio de hospitais acabarem, e diz já ter passado a hora de o Congresso reagir. O documento é assinado por Rede, PSB, PT, PCdoB, PSOL e PDT, que reúnem 129 deputados.
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“Não tem como desvincular Bolsonaro de (Eduardo) Pazuello (ministro da Saúde)”, afirmou o líder da Minoria na Câmara, José Guimarães (PT-CE), citando que o próprio ministro já admitiu apenas “obedecer” o presidente.
“Não tenho dúvida que a história cobrará caro do presidente que entra janeiro sem auxílio emergencial e gasta milhões com chicletes e leite condensado”, afirmou a deputada Fernanda Melchiona (PSOL-RS). A parlamentar fez referência ao gasto da administração federal, revelado pelo site Metrópoles, de mais de R$ 15 milhões em recursos públicos para comprar o doce em 2020.
“Bolsonaro saiu na rua sem máscara, encorajou as pessoas a se aglomerarem, colocou a economia acima da vida das pessoas, acusou a imprensa muitas vezes, falando de fake news, escondendo dado de mortes, falou que tinha remédio para curar”, disse a líder da Rede na Câmara, deputada Joênia Wapichana (RR), sobre os motivos para o impeachment.
Apesar dos pedidos se acumularem em sua gaveta, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já afirmou que caberá a quem assumir a Casa, a partir de fevereiro, decidir se dará andamento ou não a um processo contra Bolsonaro. Os favoritos são o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), candidato apoiado por Maia, e Arthur Lira (Progressistas-AL), nome do Palácio do Planalto na disputa.
CPI
Os líderes da oposição anunciaram também a coleta de assinaturas para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a conduta do governo durante a pandemia. A criação do colegiado tem sido defendida Maia, que já declarou considerar a conduta Pazuello diante da crise sanitária como criminosa.
Lira (PP-AL), no entanto, resiste à criação da comissão para apurar a conduta do governo durante a pandemia da covid-19. Questionado sobre a medida nesta quarta-feira, 27, ele ponderou que a pandemia não pode ser politizada e que “não há receita de bolo para lidar com o vírus”.
“Esse assunto não pode ser motivo de embates políticos para nós trazermos para discussão traumas de interrupções bruscas democráticas, e isso nós não defendemos”, disse.
A criação de uma CPI precisa da assinatura de 171 deputados e do aval do presidente da Câmara.
Rui Falcão não pode votar de casa na eleição da Câmara, decide Rosa Weber
Por entender que a decisão de fazer votação presencial para eleger a nova mesa diretora da Câmara dos Deputados foi tomada a partir de "um verdadeiro consenso" a respeito da adoção de todas as medidas sanitárias cabíveis, como o uso de máscaras, disponibilidade de álcool em gel e distância entre as urnas eletrônicas, a vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Rosa Weber, no exercício da presidência, negou liminar em mandado de segurança em que o deputado Rui Falcão (PT-SP) pedia que lhe fosse permitido votar de forma remota na eleição, marcada para a próxima segunda-feira (1º/2).

Divulgação
No MS, o parlamentar argumentou que a determinação de votação apenas na modalidade presencial não é razoável e que a possibilidade de votar de maneira remota teria o objetivo salvaguardar a saúde e a incolumidade física dos parlamentares e dos funcionários da Câmara, principalmente os que fazem parte do grupo de risco da Covid-19, como é seu caso, pois o deputado do PT tem 77 anos de idade.
A ministra, porém, reiterou os fundamentos da decisão tomada no último dia 21, quando negou pedido idêntico feito pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) e pelo deputado federal Mário Heringer (PDT-MG). Além de ter argumentado que houve consenso quanto à votação presencial, ela lembrou que a determinação levou em consideração o comparecimento dos eleitores nas eleições municipais do ano passado.
Além disso, Rosa Weber reafirmou não ter verificado, em uma análise preliminar do caso, ameaça ao parâmetro constitucional do direito à saúde dos parlamentares que justifique a intervenção excepcional do Judiciário em assunto de interesse do Legislativo, cuja solução foi dada pelo órgão competente, sem qualquer alegação de mácula procedimental. Com informações da assessoria de imprensa do STF.
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MS 37.651
Revista Consultor Jurídico, 27 de janeiro de 2021, 14h16
Maia manifesta insatisfação com ACM Neto e diz que DEM pode virar 'partido da boquinha'
Em uma reunião fechada ocorrida nesta terça-feira (26), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), manifestou insatisfação com o chefe nacional do seu partido, ACM Neto, em um reflexo da dificuldade interna da legenda de se unir em torno de Baleia Rossi (MDB-SP), nome de Maia para a sua sucessão.
Maia chegou a dizer que o DEM corre o risco de ganhar um apelido dado ao PT no passado, o "partido da boquinha".
A reunião ocorreu pela manhã, no Palácio da Cidade, sede da Prefeitura do Rio de Janeiro, e teve a presença do prefeito Eduardo Paes (DEM) e de deputados federais de vários partidos, da esquerda e da direita.
Maia tenta emplacar Baleia como seu sucessor, mas enfrenta o favoritismo, até agora, de Arthur Lira (PP-AL), candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e que vem conseguindo apoio público inclusive de deputados do DEM.
A eleição para a renovação do comando da Câmara ocorrerá na próxima segunda-feira (1º), às 22h.
De acordo com relatos obtidos pela Folha, Maia demonstrou em sua fala na reunião insatisfação por ACM Neto não ter usado sua influência como presidente do partido e como ex-prefeito de Salvador para impedir as manifestações públicas de apoio a Lira por parte de integrantes do DEM da Bahia.
Ainda de acordo com esses relatos, o presidente da Câmara disse aos parlamentares ter telefonado para ACM Neto e dito que se o partido se render a cargos e emendas ao orçamento oferecidos pelo governo Bolsonaro e por Lira pode virar o "partido da boquinha".
Maia confirmou à Folha ter usado a expressão "partido da boquinha", mas disse que ela não foi uma crítica a ACM Neto.
"O que eu disse é que já tinha gente preocupada que o partido tivesse passando uma imagem de que estava negociando cargo e emenda por voto. Um amigo meu, que é admirador do DEM, falou isso. E eu alertei isso ao presidente do partido. E o Neto me garantiu que o partido vai ficar com o Baleia. E que vamos garantir o [apoio ao] bloco [de Baleia Rossi] e, depois do bloco, vamos garantir os votos do partido, mais de dois terços dos votos", disse Maia.
A expressão foi usada em 1999 pelo então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, (à época no PDT), que disse que o ex-aliado PT deveria mudar de nome no Rio, para PB (Partido da Boquinha). "Eles têm mais de 200 cargos no meu governo e estão querendo mais", disse.
Por ora o DEM está formalmente no bloco de apoio a Baleia, mas Lira tenta ampliar as dissidências para forçar o partido a migrar para o seu bloco. Um dos principais líderes da rebelião interna pró-Lira é Elmar Nascimento (BA), que indicou um nome para a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) e que foi preterido por Maia na escolha do candidato à sua sucessão.
O DEM tem 29 dos 513 deputados. Para vencer a eleição, que é secreta, é preciso de mais da metade dos votos dos presentes.
A reunião desta terça evidencia uma crise na candidatura de Baleia, que tem buscado conter as dissidências em vários dos partidos que o apoiam.
De acordo com a avaliação feita por Maia na reunião, o apoio majoritário da esquerda está garantido ao emedebista. O problema, disse, está no próprio DEM e no PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Como mostrou o Painel, FHC disse em mensagem encaminhada para o grupo de WhatsApp da bancada que trair a decisão da legenda e votar em Lira é dar adeus às expectativas de ganhar a eleição presidencial de 2022. Isso porque, em sua análise, ninguém confiaria mais na palavra dos tucanos. O PSDB tem 33 deputados.
Expoentes da ala que liderou a renovação do DEM (ex-PFL) após o declínio político de figuras como Jorge Bornhausen e Antonio Carlos Magalhães, avô do atual presidente da sigla, ACM Neto e Maia sempre atuaram unidos politicamente.
Nos bastidores, ACM Neto e seus aliados mais próximos têm dito que não interferiram explicitamente para barrar o anúncio público de traições no partido com o objetivo de não prejudicar a candidatura à presidência do Senado de Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que tem o apoio do atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e de Bolsonaro.
Segundo essa tese, o governo e o PP poderiam retaliar Pacheco caso houvesse interferência de ACM.
Maia afirmou ainda na reunião desta terça que o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), cassado em 2016 e hoje em prisão domiciliar, está atuando em favor da candidatura de Lira.
Maia foi aliado de Cunha até 2016, mas se afastou após ser preterido pelo emedebista na indicação para o cargo de líder do governo na Câmara. Lira também foi aliado próximo de Cunha no período em que o emedebista comandou a Casa.
A disputa pela presidência da Câmara tem movimentado intensamente o mundo político, pois o resultado do próximo dia 1º terá o poder de moldar de forma expressiva o cenário político futuro.
Além de definir qual é a pauta de votações, o presidente da Câmara é o segundo na linha sucessória da Presidência da República e, entre seus poderes, tem nas mãos a responsabilidade de definir monocraticamente se dá ou não sequência a um pedido de impeachment contra o chefe do Executivo —há, hoje, 56 deles aguardando análise.
Maia irá encerrar um período de quatro anos e meio como presidente da Câmara, tendo derrotado o centrão em duas das três eleições de que participou. Na última ele teve o apoio do grupo.
Atualmente, o deputado tem adotado uma linha de forte oposição a Bolsonaro. Caso Lira vença, o presidente da República terá, pelo menos nesse início, um aliado no comando da Câmara.
Até dezesseis deputados podem reassumir mandato para votar na eleição na Câmara
26 de janeiro de 2021 | 17h01
Dezesseis deputados licenciados devem reassumir os mandatos para participar da eleição à presidência da Câmara em 1º de fevereiro. Na matemática dos partidos, o retorno dos titulares pode, em tese, favorecer Baleia Rossi (MDB-SP) na disputa contra Arthur Lira (PP-AL) com sete votos extras.
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Na prática, no entanto, conforme mostra o placar do Estadão, há deputados que priorizam alianças locais e não partidárias quando o assunto é a escolha da Mesa Diretora. Além disso, alguns parlamentares de legendas “fechadas” com Baleia mantêm cargos e até ministérios no governo de Jair Bolsonaro – caso, por exemplo, de Tereza Cristina (Agricultura) e Onyx Lorenzoni (Cidadania), ambos do DEM. Ainda assim, Baleia deve ganhar o apoio de ao menos mais dois deputados do PT, dois do PCdoB, de um representante do MDB e de outro do Cidadania. Também são esperados mais um voto cada do PSB e do PDT.
Nesta lista a favor de Baleia estão os deputados Márcio Jerry e Rubens Pereira Júnior, ambos representantes do Maranhão pelo PCdoB. Jerry já afirmou à reportagem que reassume seu mandato no dia da eleição para votar em Baleia. Atualmente, quem está em exercício em seu lugar é o deputado Gastão Vieira, do PROS, partido aliado a Lira.
A seis dias da eleição, Baleia e Lira disputam cada voto e já projetam uma disputa em segundo turno. Para se tornar presidente da Câmara será necessário obter 257 votos. O placar do Estadão mostra nesta terça-feira, 26, vantagem para Lira, que soma 199 votos declarados à reportagem. Baleia tem 123 e um total de 155 deputados não aceitaram abrir o voto – a eleição é secreta.
Nas contas de Lira, a exoneração dos suplentes pode prejudicá-lo com votos a menos do Patriota, Republicanos, PL, Pros e PTB. Esses partidos perdem representantes com os titulares dos mandatos de volta. Por outro lado, o DEM, que já está rachado na disputa com Baleia, pode compensá-lo com votos dos ministros Lorenzoni e Tereza Cristina. Fábio Faria (PSD-RN), que comanda a pasta de Comunicações, também retorna ao plenário para assegurar um voto a mais a Lira.
Além de Lira e de Baleia, outros seis parlamentares se apresentaram como candidatos: Alexandre Frota (PSDB-SP), Luiza Erundina (PSOL-SP), Capitão Augusto (PL-SP), Marcel Van Hattem (Novo-RS), Fábio Ramalho (MDB-MG) e André Janones (Avante-MG).
O Por que Rodrigo Maia não pautou nenhum dos 56 pedidos de impeachment pendentes?
Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo
Dos mais de 60 pedidos de impeachment do presidente Jair Bolsonaro já entregues à Presidência da Câmara, 56 ainda não foram apreciados (os demais foram arquivados por questões burocráticas). Agora, porém, a aceitação de qualquer uma das representações só acontecerá a reboque da eleição para o novo presidente da Câmara. Se juristas têm apontado fartas evidências de que Bolsonaro cometeu crimes de responsabilidade, por que nenhum dos processos foi aberto pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia?
A resposta está nas condições políticas necessárias para que qualquer pedido do tipo prospere, de acordo com fontes ouvidas pelo Estadão. Uma vez que qualquer pedido é autorizado a tramitar pelo presidente da Câmara, a Casa constitui uma comissão especial para apurar se houve o cometimento de crimes e o relatório dessa comissão – contrário ou a favor do impedimento – vai a plenário e precisa de 342 votos a favor. Apenas se for aprovado, na Câmara, o processo vai para o Senado, onde é julgado.
O Estadão apurou que, atualmente, prevalece o entendimento de que a oposição não tem número suficiente sequer para influenciar os rumos da comissão especial que elabora o relatório, que é composta de 65 deputados, mas mantém a mesma proporção das bancadas atuais.
A situação foi diferente no caso do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que reuniu as condições políticas necessárias para que o processo seguisse. Na ocasião, houve um acordo prévio entre 13 partidos – PP, PR, PTB, PSD, PSC, PHS, PRB (atual Republicanos), PSB, PSDB, DEM, PPS, PV e SD – para decidir quem seriam o presidente e o relator da comissão do impeachment na Câmara. Como resultado do acordo, foram eleitos em votação aberta Rogério Rosso (líder do PSD) e Jovair Arantes (líder do PTB) para os cargos de presidente e relator, respectivamente, propiciando condições para um parecer favorável ao impedimento e sua posterior aprovação por mais de 342 deputados no plenário.
Por que Rodrigo Maia não pautou nenhum dos 56 pedidos de impeachment pendentes?
Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo
Dos mais de 60 pedidos de impeachment do presidente Jair Bolsonaro já entregues à Presidência da Câmara, 56 ainda não foram apreciados (os demais foram arquivados por questões burocráticas). Agora, porém, a aceitação de qualquer uma das representações só acontecerá a reboque da eleição para o novo presidente da Câmara. Se juristas têm apontado fartas evidências de que Bolsonaro cometeu crimes de responsabilidade, por que nenhum dos processos foi aberto pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia?
A resposta está nas condições políticas necessárias para que qualquer pedido do tipo prospere, de acordo com fontes ouvidas pelo Estadão. Uma vez que qualquer pedido é autorizado a tramitar pelo presidente da Câmara, a Casa constitui uma comissão especial para apurar se houve o cometimento de crimes e o relatório dessa comissão – contrário ou a favor do impedimento – vai a plenário e precisa de 342 votos a favor. Apenas se for aprovado, na Câmara, o processo vai para o Senado, onde é julgado.







