Lula desce rampa do Planalto ao lado de governadores, caminha até STF e diz que não vai ter golpe
Por Eduardo Gayer, Amanda Pupo e Isadora Duarte / O ESTADÃO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desceu a rampa do Palácio do Planalto, na noite desta segunda-feira, 9, ao lado de governadores, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e parlamentares, atravessou a Praça dos Três Poderes e caminhou até a Corte. O ato simbólico em defesa da democracia ocorreu após a invasão do Planalto, do Congresso e da sede do STF por bolsonaristas radicais, que depredaram as instalações dos prédios públicos neste domingo, 8. Mais cedo, os chefes dos Poderes já haviam publicado uma carta conjunta na qual classificaram a violência praticada em Brasília como de “atos de terrorismo”.
“Eles querem é golpe e golpe não vai ter. Não vamos permitir que a democracia escape das nossas mãos”, disse Lula, durante a reunião com representantes dos 26 Estados e do Distrito Federal. Em entrevista ao chegar à sede do STF, Lula disse que o caos na capital da República foi promovido por “um bando de vândalos”. “Não vamos dar trégua até descobrir quem financiou isso”, afirmou.
O encontro de Lula com governadores contou também com a participação dos presidentes do STF, Rosa Weber; da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do presidente em exercício do Senado, Vital do Rêgo (MDB-PB), além do procurador-geral da República, Augusto Aras.
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“O que vimos ontem foi coisa que já estava prevista. Isso tinha sido anunciado há algum tempo atrás porque pessoas que estavam nas ruas na frente de quartéis não tinham pauta de reivindicação”, afirmou Lula. Mesmo assim, de acordo com ele, “todos foram pegos de surpresa” com os atos criminosos.
Lula dirigiu críticas a integrantes do Exército ao afirmar que “nenhum quartel” ou “nenhum general” se moveu para dizer a quem protestava ser proibido pedir a destituição de quem foi eleito. “Pessoas estão livremente reivindicando o golpe, na frente dos quartéis, e não foi feito nada por nenhum quartel. Nenhum general se moveu para dizer ‘Não pode acontecer isso’, ‘É proibido pedir isso’”, afirmou o presidente.
No Planalto, Rosa Weber afirmou que as atividades na Corte será retomada na data prevista. “O STF foi duramente atacado. Nosso prédio histórico foi praticamente destruído. Essa simbologia a mim entristeceu de maneira enorme, mas quero assegurar a todos que vamos reconstruí-lo e no dia 1.º de fevereiro daremos início ao ano judiciário como se impõe ao Poder Judiciário independente e guardião da Constituição Federal”, disse a ministra.
Na abertura da reunião, o governador do Pará, Hélder Barbalho (MDB), fez um discurso no qual afirmou o compromisso dos Estados com a democracia e disse que as polícias militares já haviam iniciado a desmobilização dos acampamentos golpistas. “Entendemos a importância de não apenas emitirmos um manifesto, mas estarmos aqui presencialmente para reafirmar o compromisso com a democracia e nos colocar ao lado dos Poderes constituídos deste País, neste momento sensível que a Nação vive”, disse Hélder.
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Cada governador falou em nome de uma região do País. “Nossa solidariedade aos Poderes agredidos e nosso compromisso da região Sul pela manutenção da ordem democrática e da ordem constitucional. O respeito ao resultado das urnas ultrapassa qualquer divergência política”, afirmou Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul. Pelo Sudeste, discursou o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Carta
Na carta conjunta, os chefes dos três Poderes afirmaram “rejeitar os atos de terrorismo, vandalismo, criminosos e golpistas” e pediram à população a “defesa da paz e da democracia”. O documento foi assinado por Lula, Lira, Vital do Rêgo e Rosa Weber. “Estamos unidos para que as providências institucionais sejam tomadas, nos termos das leis brasileiras”, diz um trecho do documento.
As autoridades pediram a normalidade no País. “Conclamamos a sociedade a manter a serenidade, em defesa da paz e da democracia em nossa Pátria. O País precisa de normalidade, respeito e trabalho para o progresso e justiça social da Nação”, destaca o texto divulgado após reunião no Planalto, pela manhã.
Dino diz que financiadores de ‘Capitólio brasileiro’ foram identificados em 10 Estados
Por Felipe Frazão / O ESTADÃO
BRASÍLIA - A Polícia Federal já identificou, em dez Estados, suspeitos de elo econômico com a tentativa de golpe de Estado em Brasília neste domingo, dia 8. A informação é do ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino. Os nomes não foram divulgados pelo ministro, mas eles começaram a ser vinculados aos atos de ataque aos Três Poderes por meio das caravanas bolsonaristas. Os suspeitos teriam financiado a contratação de ônibus e material para levar extremistas à capital federal e devem agora ser alvo de medidas cautelares, requisitadas pela Polícia Federal.
Dino afirmou que a responsabilização penal precisa alcançar quem não estava presencialmente nos atos e chegar aos financiadores e organizadores. Ele revelou que já existem mandados de prisão já expedidos e que outros pedidos de prisão temporária ou preventiva devem ser enviados à Justiça pela PF.
Em balanço apresentado, o ministro afirmou que ainda no domingo 209 pessoas foram presas em flagrante e que, nesta segunda-feira, foram efetuadas 1,5 mil prisões ao todo, sendo a grande maioria de bolsonaristas que acampavam no entorno do Quartel-General do Exército. Eles ficarão detidos na Academia Nacional de Polícia Federal. Cinquenta equipes da PF identificam e ouvem os detidos.
Dino afirmou que eles poderão ser enquadrados de forma múltipla em crimes, entre eles: golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado, associação criminosa e lesão corporal.
A investigação foi dividida ma PF em três inquéritos sobre os ataques: um dedicado ao Planalto, um ao Congresso e um ao Supremo. Os financiadores, incentivadores e mentores serão investigados nas três frentes.
Dino afirmou que os atos eram financiados e que os ônibus contratados são um dos meios de investigar os responsáveis. Ele afirmou que a polícia já tem a lista de contratantes dos coletivos que formaram caravanas e que o objetivo delas não era uma “excursão turística”. Q
uarenta ônibus foram apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal, alguns tentando escapar de Brasília por rodovias federais. Ao menos uma arma de fogo foi apreendida. A PRF desbloqueou na noite deste domingo, sem que houvesse resistência, nove estradas que haviam sido parcialmente obstruídas, em sequência aos atos.
O ministro disse que o “pior passou”, menos de 24 horas depois dos ataques às sedes dos Três Poderes do Brasil. “O País caminha para absoluta normalização institucional com muita velocidade. Tanto entre instituições civis quanto militares reina a plena compreensão quanto à importância da proteção da democracia. Golpistas e criminosos em geral não obtiveram êxito na ruptura da legalidade”, disse Dino. “Vivemos ontem o Capitólio brasileiro, com duas diferenças, não tivemos óbitos e temos muito mais presos aqui do que lá. Mas não tenham dúvida de que vivemos o Capitólio brasileiro. As instituições sobreviveram a este vil ataque político.”
A comparação com o episódio de 8 de janeiro em Brasília é direta com o ataque ao Capitólio, o Congresso dos EUA, em 6 de janeiro de 2021, para impedir a posse de Joe Biden na Casa Branca. Dino afirmou que o objetivo dos atos golpistas era “gerar um efeito dominó” para produzir um “quadro de anomia” que propiciasse “novas aventuras”.
“As Forças Armadas brasileiras até aqui se mantiveram fiéis à legalidade democrática. Esse é um fato que deve ser saudado. De um modo geral, eu diria que o pior passou”, disse Dino.
Apesar disso, o ministro reconheceu que houve um choque na noite anterior entre tropas da Polícia Militar e o Exército. Unidades motorizadas da PM distrital se deslocaram ao Setor Militar Urbano para efetuar prisões, mas a Polícia do Exército barrou a entrada, formando um cordão de isolamento duplo, inclusive, com uso de dois blindados de guerra Guarani. A PM acabou por deixar o local sem atuar. E golpistas voltaram sem dificuldades ao acampamento.
Foi necessária uma reunião entre ministros de Lula e o comandante-geral do Exército, no QG, quase simultânea, para combinar ações de prisão e desmobilização do acampamento, que seriam realizadas apenas na manhã desta segunda.
“Havia um problema de jurisdição, porque é uma área sob servidão militar. É algo próprio de um momento de dificuldade, de crise. Consideramos o episódio superado. Foi necessário um ajustamento entre a instituição civil e a militar”, justificou o ministro.
Dino saiu em defesa do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e afirmou que o colega de Esplanada não deve ser “martirizado”. Múcio tem sido criticado dentro e fora do governo. Ele discordava de Dino e pregava a necessidade de conduzir uma retirada negociada e não à força de grupos bolsonaristas, entre eles extremistas e defensores de intervenção militar, que ocuparam o entorno de quartéis no País em rechaço à eleição de Lula. “Não pode ser posta em dúvida a sinceridade, a lealdade e a correção de Múcio”, afirmou o ministro Dino.
O ministro afirmou, novamente, que autoridades políticas têm responsabilidade sobre os atos de agressão aos poderes. Referia-se ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele disse que o objetivo dos grupos era promover um “golpe de Estado”. “Palavras têm poder e essas palavras se transformaram em ódio e destruição”, afirmou. “Vivemos um stress institucional inédito na democracia brasileira, mas foi ultrapassado.”
Dino afirmou que, em tese, não se pode descartar um futuro pedido de extradição de Bolsonaro, recolhido nos Estados Unidos. Ele negou, porém, que a medida tenha sido solicitada ao governo Joe Biden. O ministro tem repetido que a responsabilidade jurídica do ex-presidente não foi apurada.
O ministro disse que o discurso de ódio das redes sociais ganhou no domingo braços, pernas, pedras, tiros e bombas. Dino afirmou que o extremismo foi derrotado, embora não “cabalmente varrido” da cena política brasileira, mas deverá ficar “latente” e esperar a eleição de 2026.
A Polícia Federal já realizou perícias no Palácio do Planalto, no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal, para instrução de inquéritos civis e criminais. Segundo o ministro, a Advocacia-Geral da União (AGU) vai promover ações para reparação de danos ao patrimônio público. Essas perícias vão dimensionar os danos e prejuízos “para que a AGU cobre indenização de quem perpetrou danos materiais, alguns irreparáveis, ao edifício-sede (da Presidência) e ao patrimônio histórico tombado”.
O governo federal recebeu enviou de policiais militares de 10 Estados, um reforço no contingente da Força Nacional de 500 homens, para proteção da Esplanada dos Ministérios e Praça dos Três Poderes.
“Vai ficar muito nítido que há união nacional”, disse o ministro, que relatou ter conversado com os governadores de oposição Cláudio Castro (PL), do Rio, e Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo.
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam o recebimento de 13 mil denúncias após os atos, que estão em processo de triagem.
Covid-19: Brasil registra mais 21,2 mil casos e 11 mortes em 24 horas
O Brasil registrou, em 24 horas, 21.236 novos casos de covid-19 e mais 11 mortes causadas pela doença. Os dados estão no boletim epidemiológico divulgado nesta segunda-feira (9) pelo Ministério da Saúde. O boletim de hoje não traz os dados atualizados dos estados de Mato Grosso do Sul e do Piauí.

Desde o início da pandemia, 694.917 pessoas morreram em consequência da covid-19 no país. O número total de casos confirmados da doença está em 36.511.286.
Segundo o boletim do Ministério da Saúde, 35.368.526 pessoas recuperaram-se da doença e há 447.843 casos em acompanhamento.
Estados
De acordo com os dados disponíveis, o estado de São Paulo lidera o número de casos, com 6,34 milhões, seguido por Minas Gerais (4,10 milhões) e Rio Grande do Sul (2,92 milhões).
O menor número de casos é registrado no Acre (159,6 mil). Em seguida, aparecem os estados de Roraima (181,4 mil) e do Amapá (183 mil).
Quanto às mortes em consequência da doença, de acordo com os dados mais recentes disponíveis, São Paulo apresenta o maior número (177.740), seguido de Rio de Janeiro (76.553) e Minas Gerais (64.590).
O menor número de mortes é registrado nos estados do Acre (2.041), dp Amapá (2.166) e de Roraima (2.180).
Vacinação
Até hoje, foram aplicadas 499,1 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, sendo 181,6 milhões com a primeira dose e 164,1 milhões com a segunda dose. A dose única foi aplicada em 5 milhões de pessoas.
Já receberam a primeira dose de reforço da vacina contra a doença 102,7 milhões de pessoas. Até o momento, a segunda dose de reforço foi aplicada em 40,6 milhões de pessoas.
Edição: Nádia Franco / agência brasil
Interventor e Exército dizem que não permitirão volta de manifestantes
Nomeado interventor federal para a área de segurança pública do Distrito Federal, o secretário-executivo do Ministério da Justiça, Ricardo Cappelli, assegurou que as forças federais e distritais não permitirão que a área em frente ao Quartel General do Exército volte a ser ocupada.

Esta manhã, policiais militares e efetivos do Exército começaram a desocupar o amplo espaço verde localizado a cerca de 6 quilômetros da Esplanada dos Ministérios. Até por volta de meio-dia, cerca de 1,2 mil pessoas já tinham sido detidas no local e conduzidas para a Superintendência da Polícia Federal, onde está sendo feita uma triagem.
“Desativamos o acampamento que funcionou como QG dos atos antidemocráticos inaceitáveis de ontem [8]”, escreveu Cappelli em sua conta pessoal no Twitter, referindo-se à invasão, neste domingo, ao Palácio do Planalto (sede do Poder Executivo federal), ao Congresso Nacional e ao prédio do Supremo Tribunal Federal (STF).
“Todas as barracas serão retiradas. A área foi retomada e não será permitida a volta de "manifestantes"”, acrescentou Cappelli, confirmando que todas as pessoas retiradas da frente do quartel do Exército estão sendo encaminhadas à Superintendência da PF.
Ao menos 40 ônibus foram usados para transportar os manifestantes antidemocráticos detidos até perto de meio-dia. Segundo o Exército, até aquele momento, havia ainda pelo menos 500 pessoas no local. Os pertences pessoais não retirados, como barracas, roupas e outros objetos, ficarão sob a guarda do Exército.
Segundo a assessoria do Exército, apesar da área ocupada há cerca de 60 dias ser muito ampla e bastante visitada por turistas e moradores do Distrito Federal, a Força adotará as medidas necessárias para impedir o retorno de grupos que rejeitam o resultado das eleições e fazem uma série de pedidos golpistas, como uma ação militar para impedir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de governar.
Edição: Claudia Felczak / AGÊNCIA BRASIL
UM TOQUE DE LUCIDEZ NO GOVERNO LULA
Por Notas & Informações / O ESTADÃO
Em seu discurso de posse, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, demonstrou ter compreensão dos desafios que terá à frente da função. Ao reconhecer publicamente a existência de divergências a respeito da condução da economia entre os membros do governo, a ministra marcou posição, deixando claro de que lado está desde o primeiro dia, o que é um alento depois de uma semana em que até o incontestável déficit da Previdência foi posto em dúvida por um ministro doidivanas.
A trajetória política da senadora é surpreendente. Filha de uma das maiores lideranças do MDB e vinculada ao agronegócio, ela enfrentou a resistência do próprio partido para conseguir se candidatar à Presidência da República. Mesmo presente em todos os municípios do País, o MDB muitas vezes se recusou a lhe dar palanque. Diante de tantos obstáculos e em meio a uma disputa tão polarizada, conquistar a terceira colocação e quase 5 milhões de votos é um feito nada desprezível.
Ao aderir à campanha de Lula da Silva de forma incondicional, Simone Tebet enfrentou correligionários e sua base de apoio. Reconheceu o custo político de sua decisão, admitindo, em um vídeo que circula nas redes sociais, que hoje não seria mais eleita para qualquer função pública em seu Estado. Por outro lado, é inegável que a atitude da senadora conferiu ao petista a oportunidade que ele mais almejava: apresentar-se como líder de uma frente ampla em defesa da democracia. “O que me moveu foi a certeza de que tudo o que nos une é infinitamente maior do que aquilo que nos separa”, disse ela, ao assumir a pasta.
Antes mesmo da eleição, Lula deixou claro que queria Simone Tebet em sua equipe de ministros. Ela nunca escondeu ter preferência pelas áreas de educação e assistência social, e o fato de que o PT não abriu mão dessas áreas expressa a solidez do cacoete hegemônico do partido, que vai de encontro ao discurso da pretensa frente ampla. Ela já havia rejeitado a pasta, antes oferecida pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), com o argumento, relembrado no discurso de posse, de que tem uma visão liberal na economia, razão pela qual não compartilha muitas das ideias defendidas pelos petistas.
A senadora mudou de ideia depois de um bilhete escrito de próprio punho por Lula, no qual ele pediu a ela que aceitasse o Ministério do Planejamento. Não era o cargo que Simone Tebet queria, mas talvez seja aquele de que o País mais precisava. Afinal, é onde a visão da senadora pode fazer a maior diferença. “O nosso papel, do Ministério do Planejamento, sem descuidar, em nenhum momento, da responsabilidade fiscal, dos gastos públicos e da qualidade deles, é colocar os brasileiros no Orçamento público”, afirmou.
Ao seu lado na mesma trincheira, Simone Tebet terá o vice-presidente Geraldo Alckmin, também ministro de Indústria, Desenvolvimento, Comércio e Serviços. As divergências com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e a ministra da Gestão, Esther Dweck, não tardarão a aparecer, e logo chegarão a outras pastas. Seu Ministério é responsável pela elaboração do Orçamento, cujos recursos são disputados a tapa por todo o governo. Quando o dinheiro é curto, deter a prerrogativa sobre sua destinação final se torna um ativo ainda mais valioso. É um poder que pode levar carreiras políticas para outro patamar – para cima ou para baixo.
Simone Tebet já não teria vida fácil, mas, já de início, escolheu uma tarefa espinhosa: avaliar e monitorar as políticas públicas. Se bem executado, o plano pode melhorar a alocação e a qualidade dos gastos, mas requer, também, propor o fim de alguns programas, algo que tem o potencial de gerar novos inimigos e de submetê-la ao processo de fritura política tão comum em Brasília. O que se espera é que a ministra tenha habilidade para cumprir essa necessária missão, bem como para moderar as ações do governo de que fará parte, trazendo racionalidade a um debate que muitas vezes é pautado pelo pensamento mágico da gastança sem limites. Que tenha sucesso nessa tarefa inglória.
Covid-19: Brasil registra 1,6 mil casos e 11 mortes em 24 horas
O Brasil registrou, em 24 horas, 1.664 novos casos de covid-19 e 11 óbitos em consequência da doença. Os números estão no boletim divulgado no fim da tarde deste domingo (8) pelo Ministério da Saúde.

Desde o início da pandemia, o país acumula 36,4 milhões de casos confirmados de covid-19 e 694,8 mil mortes registradas. O número de pacientes recuperados soma 35,3 milhões.
O estado de São Paulo tem o maior número de registros de covid-19 e de mortes em consequência da doença – 6,3 milhões de casos e 177,6 mil óbitos. Em seguida, aparecem Minas Gerais (4,1 milhões de casos e 64,5 mil óbitos); Rio Grande do Sul (2,9 milhões de casos e 41,5 mil óbitos) e Paraná (2,8 milhões de casos e 45,8 mil óbitos).
O estado que registra menor número de mortes por covid-19 é o Acre (2.041), seguido por Amapá (2.166) e Roraima (2.180).
Edição: Aécio Amado / AGÊNCIA BRASIL
Decisão de Lula de fatiar Economia abre caminho para lentidão e divergências
A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de fatiar o Ministério da Economia em quatro pastas ajudou o novo governo a acomodar a coalizão vencedora nas eleições, mas deve gerar divergências nas discussões de políticas e maior lentidão no funcionamento da máquina pública.
Áreas que precisam se comunicar para tocar as finanças do país voltarão a ficar separadas e sob comandos distintos. O Tesouro Nacional, por exemplo, está no Ministério da Fazenda, de Fernando Haddad (PT). Já a SOF (Secretaria de Orçamento Federal), área relacionada, responde ao Planejamento e Orçamento, de Simone Tebet (MDB) —que concorreu à Presidência e, no segundo turno, apoiou Lula nas urnas.
O Tesouro é responsável pela gestão da dívida pública e do caixa da União, cuidando do fluxo de pagamentos dos compromissos do governo federal, bem como do cumprimento das regras fiscais. A SOF, por sua vez, cuida da formulação do Orçamento e da gestão dos créditos, administrando demandas das pastas e apontando quanto cada uma pode gastar.
Além de mudanças de ordem prática, a cisão da Economia pode ajudar a gerar embates entre Fazenda e Planejamento, ou entre Fazenda e a pasta voltada à indústria, relembrando episódios que perpassam a história econômica do Brasil. Discordâncias sobre tamanho das despesas, políticas de abertura comercial, entre outras, foram frequentes nos anos em que essas pastas ficaram sob diferentes comandos.
Apesar das possíveis divergências, a divisão foi exaltada pelo ministro da Fazenda em seu discurso de posse na última segunda (2). Segundo ele, agora há uma rede de postos para pensar a agenda econômica, não mais um único "posto Ipiranga" —como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) se referia ao ex-ministro Paulo Guedes, em alusão à campanha publicitária da marca que pregava ter todos os itens buscados por clientes.
Em 2018, Guedes colocou como condição para embarcar na campanha de Bolsonaro a fusão das diversas pastas econômicas sob seu comando, o que acabou lhe conferindo o apelido de "superministro".
A junção dos órgãos patinou no começo, com as dificuldades de gerir o transatlântico que havia se tornado a área econômica do governo. Relatos de diferentes integrantes da antiga Economia, porém, são de que houve ganho gradual de agilidade nos trabalhos, sobretudo pela maior facilidade nas discussões.
No superministério de Guedes, antigos ministérios viraram secretarias especiais, todas seguindo a mesma política econômica —a agenda liberal que almejava reduzir o tamanho do Estado e abrir a economia para o resto do mundo. Eventuais discordâncias entre esses órgãos eram resolvidas pelo próprio ministro.
Lula, por sua vez, costuma dizer a aliados que gosta de divergências —uma forma de demonstrar que prefere ouvir diversas opiniões antes de ele próprio tomar a decisão final.
Sob o petista, o Ministério da Economia foi dividido em Fazenda, comandada por Haddad; Planejamento e Orçamento, sob Tebet; Gestão e Inovação em Serviços Públicos, com Esther Dweck; e Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (tradicionalmente chamado de Mdic), sob a gestão do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
O Ministério do Trabalho e Previdência também foi fatiado, originando duas novas pastas, mas a estrutura já não estava sob o guarda-chuva da Economia desde julho de 2021.
No núcleo duro da área econômica, Haddad e Dweck são quadros mais alinhados ao PT. Já Tebet e Alckmin têm como conselheiros economistas identificados com uma linha mais liberal.
Na tentativa de evitar especulações sobre possíveis embates, o discurso nos bastidores tem sido o de que Tebet e Haddad trabalharão alinhados para formular uma nova proposta de regra fiscal para o país, bem como para amplificar o trabalho de avaliação de políticas públicas, com possibilidade de revisão e aprimoramento dos programas.
Ao ter seu nome anunciado, no fim de dezembro, Tebet inclusive chamou Haddad para a fotografia com Lula, num gesto que indicou a tentativa de mostrar sintonia entre as duas pastas.
No entanto, a potencial discordância entre os dois foi citada pela própria ministra em seu discurso de posse, na quinta-feira (5). Ela disse ter ficado surpresa pelo convite porque atuaria em uma área em que tem "alguma divergência" com os demais titulares. "Um presidente democrata não quer apenas os iguais, quer os diferentes para se somar", acrescentou.
A economista Elena Landau, que integrou a equipe de Tebet durante a campanha, afirmou que o trabalho da ministra envolverá parceria. "O trabalho conjunto ficou claro", afirmou.
Outro ponto de atenção será a recriação do Mdic sob a chefia de Alckmin. A pasta costuma ser mais sensível aos anseios do empresariado, que buscam incentivos à produção e resistem a uma maior abertura comercial. Parte dessa visão tende a se opor aos objetivos da Fazenda, sobretudo em medidas que afetam as contas públicas.
Além das diferenças políticas, o fatiamento dos ministérios pode gerar redundâncias ou problemas de ordem prática. Dos quatro ministérios, três devem contar com uma secretaria voltada à área internacional.
Na Fazenda, o foco na área internacional deve ser a discussão de acordos como Mercosul-União Europeia e da adesão à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). No Planejamento, segundo membros do governo, a função será mais de relacionamento com organismos multilaterais. No Mdic, o eixo deve se voltar às discussões ligadas ao comércio exterior, e eventuais medidas contra práticas de abuso econômico na relação com outros países.
As pastas também precisaram recriar órgãos de assessoramento jurídico. Por esses motivos, a divisão das pastas inclusive dificultou a resolução do quebra-cabeça de cargos e funções a serem distribuídos na Esplanada dos Ministérios.
Em termos de eficiência, um estudo feito pelo Tesouro Nacional, em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e o Instituto Publix, analisou a arquitetura organizacional do Orçamento e do Tesouro de outros países para comparar os arranjos adotados. A conclusão foi a de que, entre dez países analisados, seis adotavam o modelo centralizado —com Tesouro e Orçamento sob um mesmo órgão ou ministério.
Na OCDE, 29 de 35 países têm as duas estruturas sob uma mesma pasta. Segundo o estudo, esse modelo tem vantagens como a integração entre as áreas e a existência de uma liderança unificada, capaz de alinhar a política a ser implementada e mediar eventuais divergências. Na prática, diz o texto, o chamado "ciclo da despesa" fica todo num mesmo órgão, facilitando decisões e processos.
Na experiência brasileira, em que Tesouro e Orçamento ficaram centralizados entre 2019 e 2022, os relatos são de que até mesmo a proximidade física ajudou na integração das equipes. Antes, os prédios ficavam a dez quilômetros de distância.
Já o modelo descentralizado proporciona maior independência de atuação e possibilidade de "pesos e contrapesos" nas decisões. Técnicos que trabalharam no estudo afirmam que "não há certo ou errado", embora reconheçam que o ganho de eficiência nos processos durante o período de integração entre Tesouro e SOF foi significativo.
O risco de perda de eficiência é justamente uma das críticas de Paulo Uebel, ex-secretário especial de Gestão do antigo Ministério da Economia. Ele elenca também a maior burocracia e o inchaço da máquina na lista de problemas. "Os processos são mais demorados, mais lentos, tem que mudar de ministério, manda para um, manda para outro."
"Por causa disso, tem uma tendência natural a aumento de estrutura, com cada um querendo mais orçamento, mais cargos e mais concursos", afirma. Para ele e outros ex-integrantes da cúpula da equipe, dificilmente o novo governo conseguirá operar sem ampliar seus custos.
Uebel pondera que, apesar dos problemas listados, a presença de mais ministros pode dividir o volume de trabalho e unir forças em prol dos objetivos do governo.
Carlos da Costa, ex-secretário especial de Guedes e atual chefe do escritório do Ministério da Economia em Washington, corrobora a visão afirmando que os trabalhos unificados eram rápidos sobretudo na etapa de formulação de políticas da pasta, mas que a agilidade se perdia quando se buscava um alinhamento com outras áreas do governo.
"O desenho dos programas era muito ágil. Foi assim que a gente conseguiu ser rápido em políticas como lei da liberdade econômica, marco das startups, reforma da Previdência e na pandemia, quando fizemos 600 medidas em quatro meses. Agora, quando envolvia outros ministérios nesse momento de alinhamento posterior, às vezes demorava mais", diz.
Costa diz que havia divergências entre sua secretaria especial, que tinha estrutura análoga à do Mdic, e a Receita Federal —mas que os temas eram debatidos até um consenso e que o mesmo deve ocorrer no novo governo.
"A Fazenda é sempre aquela que explicita a restrição orçamentária. É um conflito saudável que acontece em todos os países do mundo", diz. "Eles [Receita] sempre querem fazer com que não haja exceções, enquanto a gente, que tem contato mais com o setor produtivo, explicava que tinha que ter exceções, como na indústria química e em semicondutores, por isso e aquilo. A gente discutia em harmonia e aprovava muito, e acho que é o que vai acontecer agora", afirma.
No modelo pré-Guedes, Fazenda e Mdic entraram em embate, por exemplo, na criação do Rota 2030, programa de subsídios ao setor automotivo criado no governo de Michel Temer. O então ministro Henrique Meirelles (Fazenda) discordava do formato exigido pelo então ministro Marcos Pereira (Indústria) e a Casa Civil precisou intervir para resolver o impasse.
Carla Beni, mestre em história econômica e professora de economia na FGV (Fundação Getulio Vargas), lembra que os ministérios da área já foram palco de outros desentendimentos históricos, entre Mário Henrique Simonsen (Fazenda) e Delfim Netto (Planejamento), ou Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento).
Apesar disso, ela diz que o maior número de pastas pode trazer vantagens. "Fica melhor para o público, porque de fora você pode acompanhar melhor os resultados", diz.
Para ela, o fato de três dos quatro ministérios do núcleo duro da equipe econômica (Haddad, Tebet e Alckmin) serem potenciais presidenciáveis pode gerar conflitos e vontade de um querer "abafar" o outro, mas também pode fazê-los querer mostrar resultados para a sociedade. "Quanto mais eficiente cada um for na sua pasta, melhor para cada um em 2026."
Leis sancionadas no fim do ano elevam ICMS de bebidas a joias
Painel S.A. / FOLHA DE SP
Para compensar a perda de arrecadação com a redução do ICMS sobre combustíveis, 13 estados sancionaram no final do ano passado leis que permitem o aumento nas alíquotas padrão (chamadas de modal no jargão tributário), segundo levantamento da Patri, entidade de políticas públicas e governamentais.
Os governadores seguiram orientação do Comsefaz (Comitê Nacional dos Secretários da Fazenda), que calculou perdas em torno de R$ 33 bilhões com a redução do ICMS promovida por Bolsonaro antes das eleições.
O estudo apontava que, para recompor o dinheiro, o aumento deveria ser de até 2 pontos percentuais, chegando a alíquotas de no máximo 22%.
Estados como Acre, Alagoas, Amazonas, Bahia, Pará, Piauí e Tocantins aproveitaram o aumento nas alíquotas modais para turbinar a cobrança de impostos em outros produtos. Bebidas alcoólicas, refrigerantes, água, joias, perfumes, cosméticos e itens de higiene são alguns dos itens que vão ficar mais caros a partir de março.
Ainda segundo a Patri, deputados de Minas Gerais e Rio de Janeiro ainda discutem o aumento tributário.
Romeu Zema (Novo) sinalizou que não tem interesse em aumentar a alíquota do imposto e o projeto não deve avançar na ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais). No Rio, os deputados da Alerj apontaram vício de iniciativa no texto e devem retomar as discussões na volta do recesso parlamentar.
Joana Cunha com Paulo Ricardo Martins e Diego Felix
Fome, falta de saneamento e déficit habitacional: como as desigualdades sociais aparecem no Ceará
“Se você é filho de pobre, há uma probabilidade muito alta de ser pobre também”, conclui Alesandra Benevides, doutora em Economia, sobre a realidade cearense difícil de mudar. Quem está nessa situação, convive com incertezas que ameaçam a sobrevivência: falta comida, emprego e moradia digna. Feridas há muito tempo abertas pela desigualdade.
O termo, inclusive, carrega variantes assim como a doença pandêmica. Há desigualdade de renda, de acesso à educação e saúde, mas uma parece ser a mais cruel. A desigualdade de oportunidades, que desfaz as perspectivas de futuro. O problema é uma ferida no Brasil. Tanto que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o combate à desigualdade será a prioridade em seu terceiro mandato.
"Desempregados (estão) exibindo no semáforo cartazes de papelão que envergonham a todos: 'Por favor, me ajuda'”, disse em meio a lágrimas. Lula contextualizou o período em que há pobres em filas por ossos para aliviar a fome e ricos esperando a compra de carros importados.
Entre cearenses, isso varia em intensidade de acordo com o território, como explica Lauro Chaves Neto, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e presidente da Academia
Saiba por que 98 cidades do CE desrespeitam a lei há 24 anos e seguem sem municipalizar o trânsito
Falta de capacidade financeira para arregimentar uma estrutura capaz de manter um órgão de trânsito; frota de veículos reduzida e, consequentemente, baixa arrecadação com multas e taxas; receio de impopularidade política. São estes, segundo Renato Campestrini, especialista em trânsito, alguns dos gargalos que podem ajudar a explicar a morosidade no processo de municipalização do trânsito, conforme preconizado há 24 anos pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB).
Das 184 cidades cearenses, ao menos 98 ainda não possuem o trânsito municipalizado. Ou seja, não há qualquer equipamento que aplique as normativas previstas no Código de Trânsito. Sem fiscalização, não há aplicação da lei. Sem aplicação da lei, condutores trafegam livremente sem capacete, habilitação e, por vezes, excedendo a capacidade do veículo. Medidas que põem os próprios condutores em risco e levam perigo também à terceiros.
O artigo 24 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabeleceu a municipalização do trânsito, em 1998, que significa a integração do município ao Sistema Nacional de Trânsito (SNT). O objetivo é tornar as questões de trânsito responsabilidade de cada cidade.
No entanto, essa problemática que se arrasta há mais de duas décadas pode ter uma resolubilidade no horizonte. O presidente do Conselho Estadual de Trânsito (Cetran), Luiz Pimentel, apresenta pontos que contrapõem os gargalos acima mencionados. Conforme sua avaliação, é possível e palpável as cidades cearenses – mesmo aquelas menores, com frota reduzida – instituírem a municipalização do trânsito e se adequarem à lei.

IMPOPULARIDADE
Ele inicia observando que o temor de alguns gestores em serem vistos como impopulares ao municipalizarem o trânsito não se sustenta. Pimentel ressalta que os pontos positivos com a adequação são inúmeros e podem ser sentidos, a um curto prazo, pelos munícipes.
“Municipalizar o trânsito impacta diretamente na redução dos acidentes. Quando há a aplicação da lei, o trânsito passa a ficar ordenado. Motociclistas, que são aqueles que mais se acidentam, passam a utilizar capacete o que reduz os danos em um possível acidente. Enfim, essa redução, atestada em cidades que já municipalizaram, é uma das consequências mais importantes”, descreve o presidente do Cetran.
A cidade de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), municipalizou o trânsito um ano após a normatização do CTB. À época, a média de acidentes automobilístico era de 4 por dias, segundo dados da Prefeitura. Após a implantação, caiu para dois. Uma redução de 50%.
Essa queda significativa no índice de acidentes pode, na visão do especialista Campestrini, ser publicizada de modo a modificar "a cultura da população em relação a gestão do trânsito".
"As pessoas estão acostumadas a pensar trânsito como uma forma de arrecadação, todavia, ela só advém do desrespeito às regras de trânsito por parte dos condutores", pontua Renato Campestrini.
Portanto, municipalizar, realizar um bom trabalho de conscientização dos comportamentos adequados, seguros e posteriormente fiscalizar o cumprimento das normas, é algo a se pensar por parte dos gestores para que a Municipalização seja vista com outros olhos por parte da população.RENATO CAMPESTRINIEspecialista em trânsito
REDUÇÃO DOS CUSTOS
Municipalizar o trânsito requer um investimento por parte da gestão municipal. É necessário contratação de profissionais que atuarão na fiscalização, disponibilização de prédio físico, veículos, instalação de semáforos, placas e outras sinalizações nas vias. Um custo que, para cidades menores, pode não caber no orçamento.
Contudo, para esta questão, o Cetran vislumbra uma alternativa: a modalidade consórcio. Este método unificaria os custos de mais de uma cidade da mesma região, criando um só órgão fiscalizador. "A intenção é garantir meios de que, mesmo os pequenos municípios, consigam se integrar”, destaca Pimentel.
O plano, ainda segundo Luiz, é criar uma autarquia regional que atue como guarda-chuva em uma determinada região. “No lugar de criar várias autarquias, uma só responderia, de forma consorciada, às cidades limítrofes. Os moldes são semelhantes ao Consórcio de Saúde e o do Resíduos Sólidos", completa o presidente do Cetran.
Pimentel lembra ainda que o dinheiro investido na implantação do equipamento e contratação de servidores é revertido à medida que o trânsito municipalizado passe a gerar receita. “De início, os gestores têm gastos, mas esse valor é revertido no futuro, com recursos oriundos de multas, regulamentação dos estacionamentos [como o Zona Azul], emplacamento dos veículos, dentre outros”, detalha.
Para Renato Campestrini "a modalidade consórcio é uma alternativa válida, já colocada em prática em algumas regiões do país, e surtem efeitos positivos, a medida que com a percepção da fiscalização, as pessoas, os condutores tendem a respeitar os princípios normativos do Código de Trânsito".
Contemplar, com essa modalidade, cidades pequenas, é essencial, acrescenta o especialista. "Mais que viável [a municipalização por parte dos municípios pequenos] e necessária, ela é uma obrigação legal e deve ser cumprida por todos os Municípios, independentemente do porte", acrescenta Campestrini.
AUSÊNCIA DE SANÇÕES

Mesmo com 24 anos em desalinhamento com a lei, nenhum gestor das quase 100 cidades que não possuem ainda o trânsito municipalizado sofreu qualquer tipo de punição e/ou sanção. A atribuição de aplicar estas punições cabe a promotoria, que pode entrar com ações ou recomendações aos prefeitos.
Dentre as irregularidades que podem ser atribuídas aos gestores, estão o ato de improbidade e, em casos mais extremos, até dano moral coletivo.
Mas, diante dessa ausência de responsabilização aos gestores, os processos tendem a seguir com maior morosidade e outros tantos nem sequer são iniciados. Essa 'impunidade' "pode de fato ser um dos motivos pelos quais não se tem uma maior integração dos Municípios do país ao Sistema Nacional de Trânsito", considera Renato Campestrini.
Em julho de 2022, eram 85 com o trânsito integrado, 99 sem municipalização e outros 12 em processo de integração. Passados seis meses, Ipaumirim avançou e concretizou os trâmites. Já Aiuaba e Solonópole estão com agendas para, em janeiro, receber inspeção técnica do Cetran onde será feito a verificação in loco do cumprimento da legislação.

