Militares cogitam usar boletim impresso de urna para apuração eleitoral paralela
Por Felipe Frazão / o estadão

BRASÍLIA - Representantes das Forças Armadas já discutem como realizar uma contagem paralela de votos nas eleições deste ano – medida que o presidente Jair Bolsonaro (PL) tem cobrado desde abril. Em conversas reservadas, integrantes do Ministério da Defesa admitiram, pela primeira vez, que estão se preparando para a tarefa. O mais provável até agora é que uma contagem patrocinada pelos militares use os boletins impressos pelas urnas eletrônicas após o encerramento da votação
Além dos boletins de urna (BUs), outra alternativa avaliada para a contagem paralela seria ter acesso a dados retransmitidos pelos tribunais regionais ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os boletins de urna são registros do resultado de cada equipamento, impressos ao fim da votação. Indicam a quantidade de votos recebida por candidato e partido, nulos e brancos. Internamente, esses votos ficam registrados digitalmente na mídia das urnas, embaralhados para impedir a identificação do eleitor e criptografados.
Militares lotados no comando da Defesa, que têm acompanhado o processo de fiscalização das urnas junto ao TSE, afirmam que a decisão de realizar a totalização de votos por conta própria ainda não foi oficializada, tampouco comunicada ao TSE. Segundo um general, tudo depende de uma decisão política a ser transmitida pelo ministro da pasta, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira. Comandante supremo das Forças Armadas, Bolsonaro insiste na contagem paralela pela Defesa.
O “acompanhamento da totalização”, como vem sendo chamado na Defesa, seria parte do plano de fiscalização dos militares, que montaram uma equipe própria para a tarefa, formada por dez oficiais da ativa do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. A Defesa afirma que age de forma técnica para contribuir com o aperfeiçoamento da segurança e transparência do sistema. Os argumentos costumam abastecer a campanha política de descrédito das eleições empreendida por Bolsonaro.
A proposta foi sintetizada pelo presidente, em 27 de abril, durante cerimônia oficial no Palácio do Planalto. Na ocasião, ele defendeu pela primeira vez em público que as Forças Armadas contassem os votos paralelamente à Justiça Eleitoral. Segundo o presidente, essa sugestão havia partido dos militares.
A soma de votos pelas Forças Armadas é uma missão não prevista na Constituição nem nas diretrizes de Defesa Nacional. A Corte Eleitoral tem a missão exclusiva de promover as eleições, apurar e proclamar o resultado. Bolsonaro chegou a sugerir que a apuração seja semelhante à da Mega Sena.
O TSE já desmentiu que a apuração seja terceirizada ou realizada numa “sala secreta”. Por recomendação da Polícia Federal, a totalização é feita na sede da Corte, usando um supercomputador fornecido por uma multinacional de tecnologia, instalado na sala-cofre do TSE e operado por funcionários especializados do Judiciário.
Os dados com a parcial de votos apurada em cada urna, registrados em mídias, são transmitidos a Brasília não pela internet comum, mas sim por meio de uma rede dedicada de acesso restrito, com criptografia e uma série de barreiras de segurança. Nunca houve divergências no resultado.
Auditoria
Os militares entendem que a apuração por conta própria, a partir de dados oficiais do TSE, é parte das atividades de auditoria possíveis.
O TSE decidiu publicar todos os boletins de urna online com códigos QR, como forma de ampliar a transparência. Com isso, os militares e outras entidades fiscalizadoras, como partidos e Ministério Público, poderão consultar imediatamente os votos apurados e fazer somatórios independentes. Os militares argumentam que a apuração paralela, com a publicação dos boletins de urna na internet, pode ser feita por qualquer cidadão e se daria dentro das regras de fiscalização estabelecidas pelo TSE.
A resolução da Corte em vigor, aprovada em dezembro de 2021, prevê oito momentos de atuação das entidades. A última etapa é justamente após a totalização das eleições. É facultada então a “verificação da correção da contabilização dos votos, por meio da comparação com os BUs impressos”.
A equipe das Forças Armadas pediu ao TSE cópia das bases de dados dos BUs e seu formato de publicação na internet em eleições de 2014 e 2018, para poder estimar o esforço do desenvolvimento de programas de análise e modelagem dos boletins.
Se optarem por esse caminho, a ideia inicial dos militares é conferir apenas uma amostragem representativa e não todas as zonas eleitorais do País. Durante as discussões na Comissão de Transparência Eleitoral, eles sugeriram a possibilidade de transmissão do conjunto de dados, para processamento da contagem por conta própria em mais de uma zona eleitoral ao mesmo tempo.
Presidente quer Forças envolvidas em contagem
O presidente Jair Bolsonaro já disse publicamente mais de uma vez que deseja ver os militares realizando uma contagem de votos, missão que não é atribuição das Forças Armadas. Atrás de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas de intenção de voto, o presidente promove, mesmo sem provas, uma campanha de desconfiança sobre o Tribunal Superior Eleitoral e o sistema eletrônico de votação.
A Polícia Federal já declarou publicamente que nunca encontrou indícios de fraude envolvendo urnas eletrônicas e que os registros de irregularidades foram detectados quando os votos ainda eram em cédula de papel.
De acordo com Bolsonaro, o método do TSE não tem transparência. Mesmo sem apresentar provas, ele sustenta que houve fraudes nas eleições de 2014 e de 2018.
Além da contagem paralela de votos pelas Forças Armadas, os militares pressionam para que o TSE adote mudanças em duas fases anteriores, relacionadas a testes de segurança das urnas.
Datafolha: em eventual segundo turno, Bolsonaro atrai voto dos mais ricos e Lula avança entre jovens
Por Nicolas Iory, O Globo — São Paulo
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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cresceria entre jovens, moradores do Nordeste e eleitores de baixa renda em uma eventual disputa em segundo turno contra Jair Bolsonaro (PL). O pré-candidato à reeleição, por sua vez, atrairia para si o voto da parcela mais rica da população.
Os dados são da última pesquisa do Datafolha, publicada na semana passada. O levantamento mostra Lula com 47% das intenções de voto no primeiro turno, contra 29% de Bolsonaro. Para o segundo turno, o petista iria a 55% dos votos totais, com o atual chefe do Executivo federal chegando a 35%. O Pulso analisou o crescimento dos dois candidatos em cada estrato social entre o primeiro e o segundo turno de votação.
Lula contaria, em uma disputa direta com Bolsonaro, com o voto de seis em cada dez eleitores de 16 a 24 anos (63%). No primeiro turno a parcela desse grupo que declara a intenção de votar no petista é de 52%.
O ex-presidente supera Bolsonaro em todos os grupos etários num eventual segundo turno. Mas há hoje oscilação numérica favorável ao atual chefe do Executivo quando observado o crescimento entre os eleitores de 60 anos ou mais: sobe sete pontos percentuais do primeiro para o segundo turno, enquanto Lula cresce seis pontos.
A pesquisa do Datafolha, feita de 27 a 28 de julho, tem margem de erro estimada em dois pontos percentuais para mais ou menos. Para cada grupo específico do universo de entrevistados essa margem é diferente, já que eles também têm tamanhos diferentes. Mas a evolução dos candidatos em cada grupo pode dar pistas importantes para as campanhas, segundo afirma o sociólogo Mauro Paulino, ex-diretor do Datafolha e atualmente comentarista da GloboNews.
O entorno de Bolsonaro está ciente das dificuldades do presidente entre o eleitorado jovem. O pré-candidato à reeleição intensificou a presença em redes sociais como o TikTok e passou a fazer discursos mais direcionados a esse público — e também aos pais dos eleitores novatos. Em junho, o PL usou sua primeira propaganda partidária na TV para divulgar vídeo de Bolsonaro em uma roda de conversa com jovens.
Paulino diz haver características diferentes no comportamento dos eleitores em uma disputa em segundo turno, e que há espaço para mudanças entre uma votação e outra. O sociólogo avalia que os apoiadores de Ciro Gomes (PDT) serão o principal grupo a ser disputado em eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro.
— Na grande maioria das vezes, os eleitores já têm na véspera do primeiro turno praticamente a decisão tomada para a disputa em segundo turno. O eleitor, ao decidir seu candidato na primeira votação, acompanhou a campanha e já tem uma ideia muito aproximada de quem escolherá no segundo caso o escolhido dele não passe. Mas há espaço para a persuasão de pequenos grupos do eleitorado. O Aécio passou na frente da Dilma nas primeiras pesquisas pós-primeiro turno em 2014. Neste ano os eleitores do Ciro podem ser o fiel da balança — analisa o comentarista da Globo News e ex-diretor do Datafolha.
VOTO NO NORDESTE
Na região Nordeste, Bolsonaro tem 24% da preferência dos eleitores no primeiro turno e chegaria a 28% em eventual disputa direta com Lula. A oscilação de quatro pontos percentuais indica que o presidente fica praticamente estagnado de um turno para outro. Já Lula sairia de 59% das intenções de votos dos nordestinos no primeiro turno para 67% num cenário contra Bolsonaro em segundo turno.
Os números do Datafolha se assemelham com os captados pela pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana. O levantamento mostra Lula com 67% e Bolsonaro com 26% em um segundo turno só com eleitores nordestinos. No primeiro turno esse placar é de 61% a 20% para o petista.
— Teoricamente, os candidatos do primeiro turno levam para o segundo os seus votos e mais uma parcela razoável dos votos nos candidatos adjacentes no espectro político e ideológico. No campo da esquerda tem também o Ciro Gomes (PDT), que hoje tem 8% ou 9% das intenções de voto. A votação do Lula se expande nesse segmento. Já o Bolsonaro não tem nenhum candidato minimamente adjacente ideologicamente. Com a saída do João Doria (PSDB) da disputa, ele ficou isolado nesse campo — analisa o cientista político Antonio Lavareda, do Ipespe.
VOTO FEMININO E POR FAIXA DE RENDA
Entre as mulheres, Lula salta de 46% de preferência no primeiro turno para 56% na disputa só com Bolsonaro se o segundo turno tivesse acontecido na semana passada. O chefe do Executivo avança menos, indo de 27% para 33% de um turno para o outro.
A preferência das eleitoras pelo petista, no entanto, já foi maior. Na rodada anterior do Datafolha, em julho, 62% das entrevistadas escolhiam Lula, enquanto 27% optavam por Bolsonaro no segundo turno.
Para a professora de ciência política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a preferência das mulheres por Lula reflete os efeitos do discurso de Bolsonaro ao longo de sua trajetória política. Efeitos esses que se reproduzem também em outros estratos demográficos.
— Bolsonaro tem inequivocamente um perfil de candidato que cresce entre os ricos, e que cresce entre aqueles que se percebem vencedores, enquanto Lula tem identificação com os vulnerabilizados. E nisso eu incluo as mulheres, os negros, os pobres, os nordestinos. Esse grupo tem maior rejeição ao voto em Bolsonaro. Se você pega os discursos do Bolsonaro enquanto deputado federal, sua imensa maioria é voltada aos militares e também às camadas médias. Não é dirigido às camadas populares. Ele se constrói como uma liderança política de perfil identitário de classe média e não se dirige aos marginalizados, aos oprimidos — diz a professora.
O eleitorado feminino é outro segmento em que a pré-campanha de Bolsonaro tem direcionado foco. O presidente passou a destacar mais as ações de seu governo que beneficiaram esse grupo, tal como fez a primeira-dama Michelle Bolsonaro na convenção que oficializou a pré-candidatura do marido, no fim do mês passado.
Mayra Goulart avalia que a primeira-dama tem potencial para elevar o percentual de votos de Bolsonaro entre as evangélicas:
— Eu atribuo a variação positiva do Bolsonaro entre as mulheres ao fato de que ele consolidou a preferência dos evangélicos. E isso é atribuído muito às mulheres evangélicas, que é para elas a quem a Michelle fala. O discurso dela é muito dirigido às mulheres conservadoras, com essa ideia de que o homem deve conferir proteção. E as lideranças evangélicas influenciam outros segmentos no campo conservador, inclusive entre outras religiões.
No recorte por renda, o crescimento de Lula é mais expressivo nas camadas mais pobres, que ganham, na família, até dois salários mínimos ou de dois a cinco salários mínimos por mês. O ex-presidente chega a 63% e 50% dos votos nesses grupos num segundo turno com Bolsonaro, respectivamente.
Já o atual presidente cresce mais entre os ricos, que têm rendimentos superiores a dez salários mínimos mensais na família. Bolsonaro superaria Lula nesse grupo, com 50% dos votos contra 35% do petista.
Para Mayra Goulart, a preferência do eleitorado mais rico pode representar um trunfo para Bolsonaro em um eventual segundo turno devido ao poder de influência desse grupo.
— Essa parcela é muito pequena em termos de potencial de voto. Mas esses eleitores são formadores de opinião. Eles têm acesso a mecanismos de formação de opinião, seja pelas mídias tradicionais, seja por outros meios. Eles são influentes e geram identificação entre membros das camadas populares que não se identificam com as camadas populares. Existem segmentos das classes mais baixas que se identificam com os mais ricos, e por isso mimetizam seus comportamentos — diz a professora da UFRJ.
O sociólogo e matemático Vinicius Pinheiro Israel, autor de artigo sobre estratificação social e tendências e padrões de votação, explica que o histórico social dos eleitores também influencia na definição do voto.
— O reconhecimento da mobilidade de classe se aplica aos indivíduos que vieram de famílias das classes trabalhadoras e tiveram ascensão social. Isso pode gerar um viés de voto, e foi o que aconteceu em 2006, quando Lula foi reeleito. Não é só o quanto o indivíduo ganha, mas também de onde ele veio e a percepção de que aquela pessoa melhorou de vida durante determinado governo. Ainda não temos como dizer se isso impactará a tentativa de reeleição de Bolsonaro — diz Israel, que é professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio).
Contratado pela "Folha de S.Paulo", o Datafolha entrevistou, entre 27 e 28 de julho de 2022, 2.556 eleitores em 183 municípios de todas as regiões do país. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-01192/2022. A margem de erro é de dois pontos percentuais, e o índice de confiança é de 95%.
PARTIDOS LANÇAMMULHERES DE ÚLTIMA HORA, POR EXCLUSÃO, COMO COADJUVANTES E QUEBRA GALHOS
Eliane Cantanhêde/ O ESTADÃO

Federações, partidos e campanhas deixaram para a última hora, ou último dia, o lançamento de candidatas, até a presidente da República, mas, ora, ora, principalmente a vices em chapas para presidente e governadores. Mais uma vez, como sempre, são ótimas mulheres, mas entram como coadjuvantes, ou quebra-galhos. As últimas não serão as primeiras.
Depois de meses de brigas e traições, o “centro democrático”, ou “terceira via”, minguou sem o União Brasil, jogou a toalha e rendeu-se à única solução disponível: a senadora Simone Tebet (MDB-MS). Se partidos e caciques estivessem unidos e a candidatura largasse com chances, seria mesmo uma mulher?
Tebet, 52, tem preparo, seriedade, princípios e DNA (seu pai, Ramez Tebet, foi um respeitável presidente do Senado) e brilhou na CPI da Covid. Mas, na verdade, só virou a segunda presidenciável, ao lado de Vera Lúcia, do PSTU, porque os tucanos implodiram a candidatura de João Doria e não construíram a de Eduardo Leite.
Igualmente mulher, senadora, advogada, de Mato Grosso do Sul e quase da mesma idade de Tebet, Soraya Thronicke (49) foi lançada à Presidência aos 45min do 2º tempo, depois que o União Brasil, que tem o maior fundo eleitoral e o maior tempo de TV, desistiu da “terceira via”, tirou Sérgio Moro do Podemos e da disputa presidencial e queimou combustível com Luciano Bivar, o que foi sem nunca ter sido.
Quando ele parou de brincar e foi disputar a reeleição à Câmara, a alternativa era Luiz Henrique Mandetta, demitido do Ministério da Saúde por Bolsonaro, mas ele exigiu a presidência do partido e o controle do fundo e da TV. Nada feito? Ok. Thronicke, senadora em primeiro mandato, ficou na cabeça de chapa e o ex-secretário da Receita Marcos Cintra, na vice, bloqueando a ida do UB para Jair Bolsonaro ou Lula.
Thronicke bate de frente com Tebet e o Estado de ambas só não teve uma candidata a vice porque Bolsonaro desdenhou da ex-ministra Tereza Cristina em favor de outro general, Braga Netto. E quem escolheu uma mulher para sua vice foi Ciro Gomes, a vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, do seu partido, o PDT. Foi por exclusão, depois de esgotadas as tentativas de atrair PSD e UB.
Em São Paulo, com a empresária e professora Lúcia França na vice de Fernando Haddad, a chapa tem dois professores, repete a fórmula PT-PSB de Lula e Geraldo Alckmin e é uma tremenda novidade no principal Estado do País – que já teve 164 governadores e vices, nenhuma mulher –, quando o eleitorado feminino é maioria no País e refratário a Bolsonaro. O que mais pesou, porém, foi o marido de Lúcia, Márcio França. Esse, sim, traz votos
Dos cerca de 200 candidatos a governador no Brasil, apenas 34 são mulheres e só três são favoritas em seus estados
Por Malu Mões — São Paulo
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“Foi preciso cinco mandatos para eu ser candidata a governadora. Talvez se eu fosse um homem, antes disso eu já teria chegado”, diz a ex-prefeita de Boa Vista e pré-candidata em Roraima Teresa Surita (MDB). Ela é uma das três únicas mulheres em todos os 26 estados e no Distrito Federal em condição de favoritismo nas corridas eleitorais para governador. Ao lado dela, estão a deputada Marília Arraes (Solidariedade-PE) e a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT).
As mulheres são maioria do eleitorado (52,6%) e pouco menos da metade das filiações a partidos(46%), segundo dados deste ano do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas só 16 das 32 siglas terão candidatas a governadora.
O PL, partido do presidente Jair Bolsonaro — que tenta atrair o voto feminino para sua campanha de reeleição —, não lançou nenhuma mulher para o comando de Executivos estaduais, tampouco outras siglas da base bolsonarista, como PP, Republicanos e PTB. O PSB, partido que ocupa a vice na chapa do ex-presidente Lula (PT) na eleição presidencial, também não. Completam a lista PSD, Cidadania, Rede, Novo, PV, DC, Avante, Patriota, PRTB e Agir.
Pré-candidatas, líderes políticas, ativistas e pesquisadoras ouvidas pelo GLOBO atribuem o cenário à falta de representação feminina na mesa de decisões dos partidos. Só seis das 32 siglas são comandadas por mulheres: PT, Podemos, Rede, PMB, PCdoB e PRTB.
A maioria das legendas diz haver dificuldade de articular chapas e de encontrar mulheres que queiram concorrer. Dizem que elas preferem os pleitos proporcionais, para deputada estadual ou federal.
Os partidos também afirmam ter pré-candidatas a vice-governadora e senadora. O Cidadania e o PV disseram que, apesar de não terem filiadas na disputa, integram federações com candidatas a governadora. Procurados, PL, Rede, Avante, PTB e Republicanos não se manifestaram.
Representação feminina avança pouco em quatro anos
Entre os cerca de 200 nomes na corrida aos Executivos estaduais, há 34 pré-candidatas até o momento, segundo levantamento preliminar feito pelo GLOBO. Alguns partidos ainda não fecharam se terão candidatos ou quem será o escolhido. A data limite para o registro de candidaturas é 15 de agosto.
O número de pré-candidatas neste ano não mostrou grande avanço frente ao de 2018, quando 30 concorreram a governadora. Desde aquele ano está em vigor a norma de que partidos devem reservar ao menos 30% do fundo eleitoral para mulheres. Mesmo assim, a falta de recursos ainda é citada como a principal dificuldade delas — e campanhas majoritárias costumam ser mais caras que as proporcionais.
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— Essa escolha de quem concorre ao governo é partidária. E nós, mulheres, temos entrada reduzida. Para os partidos, mulher serve para cumprir os 30% (de candidatura feminina obrigatória) ou para ser vice — diz Larissa Alfino, presidente do Instituto Vamos Juntas, grupo que trabalha para ampliar o acesso feminino na política.
A pré-candidata do PDT ao governo do Amazonas, Carol Braz, é uma das que está esperando o seu partido informar o valor que ela terá para decidir se mantém seu nome na disputa.
— Sem o recurso do partido, é impossível manter uma candidatura. Precisamos de apoio para sermos competitivas — disse Braz.
Nas últimas duas eleições, só uma governadora foi eleita em cada pleito: Suely Campos (PP) em 2014, em Roraima, e Fátima Bezerra (PT) em 2018, no Rio Grande do Norte. O máximo foi em 2010, quando três venceram a disputa. O Brasil teve a primeira governadora eleita em 1994: Roseana Sarney (PFL) no Maranhão. Mais de 20 anos depois, oito venceram as disputas estaduais.
— É um retrato de uma sociedade machista. Esses homens (os governadores) não são capazes de construir políticas públicas que protejam as mulheres. Só nós podemos fazer isso — afirma Maísa Diniz, fundadora do Vote Nelas, iniciativa para aumentar o número de eleitas.
No Ceará, a atual governadora, Izolda Cela, foi preterida pelo seu partido, o PDT, que escolheu um homem para representar a sigla. A decisão se baseou em conflitos políticos — devido à proximidade dela com o PT —, mas é a primeira vez desde 2002 que um governador não tenta a reeleição no estado.
O Ceará é um dos 20 estados, além do Distrito Federal, que nunca elegeu uma governadora. Izolda era vice e assumiu em abril. Ela anunciou sua desfiliação do PDT na semana passada. Procurada pelo GLOBO, não quis se manifestar.
A socióloga Jacqueline Quaresemin, professora de opinião pública na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, aponta a dificuldade das mulheres emplacarem seus nomes nas negociações estaduais entre os partidos.
— A questão do poder é mais evidente nas majoritárias. Como são cargos executivos, depende de uma grande articulação política. Há toda uma negociação do poder regional.
Lula terá maior coligação e tempo de TV, com 7 inserções diárias
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou à reta final das convenções partidárias com a coligação mais robusta da disputa, dez partidos, obtendo o maior espaço na propaganda eleitoral na TV e rádio, que começa no dia 26.
Lula deve ter cerca de 3 minutos e 20 segundos a cada bloco de 12min30seg, além de uma média de 7,5 pequenas propagandas diárias de 30 segundos veiculadas nos intervalos comerciais das emissoras, as chamadas "inserções".
O presidente Jair Bolsonaro (PL), que aparece em segundo nas pesquisas eleitorais, reuniu três partidos em sua coligação e terá o segundo maior espaço de propaganda, cerca de 2 minutos e 40 segundos, além de 6 inserções diárias.
Embora tenha perdido parte do protagonismo com a ascensão das redes sociais, a propaganda eleitoral na TV e rádio é peça fundamental de toda a campanha política devido a alguns fatores: em primeiro lugar, o potencial de alcance.
As inserções, em especial, têm potencial de atingir eleitores que não assistem aos blocos fixos na TV e rádio.
Segundo, a propaganda é veiculada na reta final —ela vai de 26 de agosto a 29 de setembro, apenas três dias antes do primeiro turno—, momento de maior atenção da população à disputa.
O material produzido e veiculado, e que geralmente é testado previamente em pesquisas direcionadas com grupos de eleitores, tem histórico de alavancagem de candidatos e, também, de destruição de adversários.
O derretimento de Marina Silva após ser alvo da propaganda petista, em 2014, é um exemplo simbólico nesse sentido.
Em 2018 nada disso adiantou, entretanto, e Bolsonaro foi eleito mesmo tendo tempo de TV de nanico, mas a análise predominante no mundo político é a de que aquela foi uma eleição atípica, cujas circunstâncias dificilmente se repetirão.
Entre outros pontos, aquela disputa abrigou uma onda de direita e antipolítica, além de Bolsonaro ter sofrido um atentado que quase lhe tirou a vida e que lhe colocou por semanas no centro do noticiário político nacional.
O terceiro maior tempo de televisão ficará com Simone Tebet (MDB), que atraiu o apoio de PSDB, Cidadania e, na reta final, do Podemos.
Ela deve ter cerca de 2 minutos e 20 segundos por bloco, além de 5 inserções diárias. A exposição é vista por sua campanha como crucial para que ela cresça eleitoralmente e se desloque do pelotão que gira em torno do traço nas pesquisas.
A senadora Soraya Thronicke (União Brasil) terá um tempo de propaganda também relevante, devido ao tamanho da sigla pela qual é candidata, resultado da fusão do DEM com o PSL. Ela terá cerca de 2 minutos e 10 segundos por bloco e 5 inserções diárias.
Thronicke assumiu a candidatura recentemente, após a desistência do presidente do partido, Luciano Bivar.
Ciro Gomes (PDT), que está em terceiro nas pesquisas, não conseguiu atrair partidos aliados e terá o quinto tempo de propaganda na sua quarta tentativa de chegar à Presidência da República. Cerca de 50 segundos por bloco, e 2 inserções diárias.
Os números são uma projeção da Folha com base na legislação eleitoral. Eles podem mudar caso o número de candidatos se altere devido a decisões judiciais ou se as coligações sofrerem baixas —o prazo para registro dos candidatos e coligações vai até às 19h do dia 15, véspera do início oficial do período de campanha.
Caso se confirme a coligação em torno do nome de Lula, ela igualará o recorde de Dilma Rousseff em 2010, que também reuniu apoio de dez partidos.
Uma das siglas da coligação, porém, o Pros, passa por atribulada disputa judicial que já resultou em três reviravoltas na última semana. Por ora, está no comando a ala que patrocina o apoio a Lula.
Bolsonaro caminhava para ter um tempo de propaganda similar ao de Lula, mas na reta final não conseguiu manter o apoio formal do PTB e do PSC.
A divisão da propaganda, pela lei, é definida proporcionalmente ao peso dos partidos que formam a coligação.
As propagandas no rádio e na TV fizeram a fama de figurões do marketing político como Duda Mendonça, que morreu no ano passado, e João Santana, chefe da propaganda das campanhas vitoriosas de Lula em 2006 e de Dilma em 2010 e 2014.
Após virar alvo da Lava Jato e negociar delação premiada, ele rompeu com o PT e é desde o ano passado o marqueteiro de Ciro Gomes. Até agora, porém, o trabalho feito por ele nas redes sociais não conseguiu alavancar as intenções de voto do pedetista.
Amparado em uma estratégia focada exclusivamente nas redes sociais em 2018 —à exceção do segundo turno, quando teve tempo de TV igual ao do adversário, Fernando Haddad (PT)—, Jair Bolsonaro não teve marqueteiro há quatro anos.
O próprio candidato e seus filhos, em especial o vereador Carlos Bolsonaro (RJ), decidiam a estratégia de comunicação.
Na campanha atual, o centrão fez valer em termos a sua influência na coligação.
Duda Lima —profissional levado pelo presidente do PL, Valdemar da Costa Neto— tem apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), coordenador da campanha do pai, mas enfrenta má vontade e fogo amigo, em especial da ala mais radical próxima ao presidente.
Carlos Bolsonaro segue responsável pelas redes sociais do pai e já chegou a expressar publicamente desdém ao que classificou de "esse papo de profissionais do marketing".
Líder nas pesquisas, Lula trocou de marqueteiro em abril após uma crise interna na comunicação da pré-campanha. No lugar de Augusto Fonseca, que era uma indicação do ex-ministro Franklin Martins, assumiu Sidônio Palmeira, marqueteiro dos governadores petistas da Bahia Jaques Wagner e Rui Costa.
A campanha de marketing de Tebet está a cargo de Felipe Soutello, que tem um histórico dentro do PSDB.

