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Atos anti-Bolsonaro puxados pela esquerda têm adesões tímidas e nova ausência de Lula

SÃO PAULO

As manifestações pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo e diversas cidades pelo país, neste sábado (2), foram lideradas por movimentos e partidos de esquerda e contaram com adesões tímidas à direita, apesar dos esforços de organizadores para que os atos tivessem amplitude ideológica.

Estiveram ausentes tanto presidenciáveis da chamada terceira via como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nome que lidera a disputa para 2022 e que foi exaltado pelos manifestantes nas ruas, mas até o momento não compareceu a um protesto da Campanha Nacional Fora Bolsonaro.

O ato na avenida Paulista reuniu 8.000 pessoas, segundo estimativa da Secretaria de Segurança Pública do Governo de São Paulo, pouco acima dos 6.000 participantes medidos no ato de 12 de setembro, promovido pela direita, mas bem abaixo dos 125 mil estimados no protesto bolsonarista do 7 de Setembro —todos ocorridos na avenida Paulista.

Segundo a Campanha Nacional Fora Bolsonaro, ao todo houve 314 manifestações em 304 municípios brasileiros e em 18 países.

Em São Paulo, onde os organizadores concentram esforços para exibir uma versão nacional da manifestação, apenas Ciro Gomes (PDT) compareceu entre os pré-candidatos ao Planalto. Mais cedo, ele esteve no ato realizado no centro do Rio de Janeiro.

A dificuldade em furar a bolha de esquerda petista e promover um ato amplo ficou evidente pelas vaias a Ciro durante sua fala na avenida Paulista. O pedetista deixou o local com seu carro sob ataques de pedaços de pau.

No palco, ao ser vaiado, Ciro afirmou que "meia dúzia de bandidos travestidos de esquerda acham-se donos da verdade". "O povo brasileiro é maior do que o fascismo de vermelho ou de verde e amarelo."

Ciro, que tem sido crítico ao PT, defendeu o impeachment de Bolsonaro e disse que a medida é necessária para evitar um golpe. Seus apoiadores aplaudiam, enquanto os opositores vaiavam e xingavam —chegou a haver uma briga entre os manifestantes.

Líderes da esquerda alinhados a Lula, como Guilherme Boulos (PSOL) e Fernando Haddad (PT), que pretendem se candidatar ao Governo de São Paulo, foram aplaudidos pelo público.

"A gente não pode recuar. Depois do dia de hoje, é momento de avançar, e não de recuar", afirmou Boulos.

"Não vamos nos iludir por cartinha escrita por Bolsonaro com Michel Temer [MDB]", disse, em referência ao texto divulgado pelo presidente após os atos de raiz golpista de 7 de Setembro.

A rodada de protestos contra Bolsonaro neste sábado foi a sexta organizada majoritariamente pela esquerda desde maio. Como nas edições anteriores, predominou a cor vermelha, mas, desta vez, houve algumas adesões de políticos da direita —antes basicamente limitadas a alas do PSDB, PSL, Cidadania e Solidariedade.

Depois dos atos de Bolsonaro no 7 de Setembro, tanto a oposição à direita como à esquerda buscaram expandir o escopo ideológico das suas ações e conseguiram alguma diversidade —porém longe de promover uma “reedição das Diretas Já” ou de fazer frente à multidão verde e amarela na avenida Paulista no feriado da Independência.

Entidades que organizaram os atos deste sábado ressaltaram sua importância pela união de políticos de 21 partidos, mas alguns representantes, devido a outros compromissos pessoais, enviaram apenas vídeos exibidos no palco em frente ao Masp —o que os poupou de vaias.

O deputado Paulinho da Força (SP), presidente do Solidariedade, por exemplo, foi chamado de golpista por alguns. Ele apoiou o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.

Militantes atribuíram os gritos a integrantes do PCO, que abertamente foram contra a presença de críticos de Lula na manifestação.

Em sua fala, Paulinho criticou o crescimento do desemprego e disse que é preciso "se livrar" de Bolsonaro.

O vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM), a senadora Simone Tebet (MDB-MS) e o ex-senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) enviaram vídeos em que saúdam a união de forças diferentes para combater Bolsonaro.

O protesto pelo impeachment organizado por MBL (Movimento Brasil Livre) e VPR (Vem Pra Rua), no último dia 12, não teve a adesão do PT ou de movimentos sociais próximos ao petismo, mas reuniu mais nomes da terceira via —que foram ausências neste sábado.

Naquele dia estiveram presentes em São Paulo Ciro, Tebet, João Doria (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Alessandro Vieira (Cidadania-SE) entre os presidenciáveis, além de João Amoêdo (Novo). O governador do Rio Grande do Sul, também presidenciável, Eduardo Leite (PSDB), participou do ato em Porto Alegre. FOLHA DE SP

 

Limitados também na esquerda, protestos viram test-drive para 2022

Igor Gielow / FOLHA DE SP
SÃO PAULO

Após o fracasso esperado das manifestações anti-Bolsonaro convocadas pelo que sobrou dos movimentos de direita que ajudaram a derrubar Dilma Rousseff (PT) em 2016, a esquerda sonhava com um ato que provasse sua força contra Jair Bolsonaro.

Afinal de contas, os protestos liderados pelo campo que gosta de se chamar de progressista haviam comandado manifestações robustas contra o presidente em maio e junho, comparáveis pelo maior escopo nacional ao grande 7 de Setembro golpista do inquilino do Alvorada.

Claro, a fotografia dos atos pelos quais Bolsonaro foi forçado a fazer um ato de contrição psicografado por Michel Temer é mais favorável ao presidente pela concentração pontual de Brasília e São Paulo, mas o fato é que a disputa pelas ruas seguia aberta.

Nesse sentido, o protesto deste sábado (2) foi mais um fracasso, ainda que bem relativo. Obviamente, havia bastante gente na avenida Paulista, e bem menos em qualquer dos pontos aferíveis pelo país. Mas o espraiamento das manifestações comprova o que já se sabia: o Fora, Bolsonaro seguirá vivo até a eleição.

O desejo mais puro de quem foi se arriscar em aglomerações, o de um impedimento, é hoje um cadáver insepulto. Como o 7 de Setembro mostrou, há diversos doutores Frankenstein dispostos a tentar reanimá-lo se a oportunidade se colocar, mas a realidade hoje aponta para um Bolsonaro no cargo até a eleição.

Ponto para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-presidente que quer retomar a cadeira em 2022. Como seu empenho inexistente em engajar-se numa campanha politicamente destinada ao fracasso, a do impeachment, mostra, o melhor dos mundos para si é que exista um presidente sob questionamento.

Por outro lado, a falta de tração dos atos também remete ao aparente teto atingido por Lula nas mais recentes pesquisas eleitorais, como a do Datafolha, acerca da corrida eleitoral. Ele está em posição privilegiada, mas a idealizada vitória em primeiro turno parece mais distante, abrindo possibilidades de reação amparadas no antipetismo

O resto, no cálculo petista, é a gravidade: os desmandos da pandemia, o desmoronamento da governabilidade, os crescentes problemas econômicos, a paralisia parlamentar. Uma implosão prematura do governo permite, em tese, uma quebra da entropia e o rearranjo real da centro-direita.

Assim, por ora, atos como o deste sábado servem mais como um test-drive de estratégias para a campanha do ano que vem, que começa exatamente pelos itens da lista de lavandeira de Bolsonaro.

A presença dos lúdicos botijões de gás da "Ultraguedez", símbolo da rediviva inflação, é uma adição bastante eficaz do ponto de vista de marketing eleitoral às já decantadas acusações de "genocida" e "corrupto" impingidas ao governo nos atos anteriores.

Apesar de a pandemia estar pendurada no pescoço do Planalto, com suas quase 600 mil mortes e a inépcia diária de seu manejo da parte federal, há uma percepção clara na oposição de que os problemas econômicos tenderão a dominar boa parte da discussão em 2022.

Mas é só. Lula, como sempre, desapareceu do mapa no intuito de manter a sangria de Bolsonaro ativa, mas não fatal. É seu seguro: o maior risco que hoje o ex-presidente corre, pela leitura de pesquisas, é de que o eleitorado conservador se una em torno de um outro nome que não o do presidente para disputar o segundo turno contra o petista.

Isso é, como se sabe, uma tarefa quimérica para os proponentes da dita terceira via. Que eles não estariam todos abraçados no carro de som da CUT, ao lado do estande que abriga talvez a totalidade dos militantes do PCO lá no vão do Masp, isso foi apenas previsível.

As expectativas de união ventiladas pela esquerda nos últimos dias em nada diferiam daquelas vendidas pelo MBL (Movimento Brasil Livre) antes do protesto esvaziado de 12 de setembro. Fatos são fatos: salvo imprevistos, cada um vai correr na sua raia até o primeiro turno.

Partidos resistem a unir oposição em atos; leia o que dizem 14 líderes políticos

Bruno Ribeiro e Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 05h00

A uma semana do próximo ato nacional que deve levar manifestantes às ruas das principais cidades brasileiras pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro, marcado para o dia 2 de outubro, lideranças políticas à esquerda e à direita ainda debatem se é possível coordenar os esforços de antigos rivais na campanha. 

Estadão questionou o comando de 14 legendas dos mais variados espectros políticos que declaram oposição ao atual governo, do PT ao Novo, sobre quais são os entraves que dificultam uma eventual união em torno da bandeira do “Fora Bolsonaro”. Os principais motivos informados pelos partidos vão de falta de consenso interno sobre a abertura de um processo contra o presidente a questões relativas a interesses que têm como norte a eleição presidencial de 2022

12 de outubro
Ato contra Bolsonaro do dia 12 de setembro na Paulista: com diferenças entre lideranças oposicionistas, impeachment não avança Foto: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Em comum, todos os partidos integram o fórum Direitos Já!, que se tornou um dos polos de oposição que tentam construir uma frente ampla para pressionar o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (Progressistas-AL) a abrir o processo de impeachment de Bolsonaro. Algumas dessas siglas, no entanto, não têm ainda posição sobre o assunto. 

Parte das lideranças argumenta que o ambiente para a formação de uma ampla coalizão se construiu a partir das manifestações do último 7 de Setembro. Na ocasião, ao discursar em Brasília e em São Paulo, Bolsonaro ameaçou descumprir ordens judiciais do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) – o que em tese configura crime de responsabilidade –, e seus apoiadores pediram uma intervenção militar no País e o fechamento da Corte. 

Outros líderes partidários ponderam que seriam necessários gestos no sentido de uma clara suspensão da pré-campanha de 2022 para que todos os partidos e seus pré-candidatos pudessem se concentrar na abertura do processo de deposição do presidente. 

Para alguns partidos de centro, no entanto, entrar de vez no bloco do impeachment ainda é uma incerteza. Siglas como o PSD e MDB ensaiaram uma mudança de posição nos dias seguintes aos atos do Dia da Independência, mas, com o recuo na forma de uma carta à Nação divulgada por Bolsonaro nas redes em tom de desculpas a Moraes, os dirigentes partidários agora sinalizam uma acomodação. Uma grande mobilização popular nas ruas das principais cidades brasileiras em oposição a Bolsonaro é citada por todos como uma condição essencial para a mobilização conjunta, sem a qual o cenário não deve mudar. 

Para o coordenador do Direitos Já, Fernando Guimarães, é preciso deixar de lado as diferenças e se unir em torno de um objetivo comum. “Quem tiver compromisso com a democracia vai colocá-la acima de tudo”, disse Guimarães, que tem se esforçado para juntar no mesmo palco representantes de correntes divergentes e até rivais políticos. “Este é um momento em que precisamos estar preocupados em mobilizar a sociedade, e somar na rua todos aqueles que tenham a clareza da sua responsabilidade histórica, para deixar de lado as questões eleitorais e os projetos políticos.” PSDB, PDT, Cidadania e PV devem estar no ato do dia 2 pelo impeachment de Bolsonaro com os partidos de esquerda na Avenida Paulista. 

Leia mais:Partidos resistem a unir oposição em atos; leia o que dizem 14 líderes políticos

Impeachment sem centrão e Mourão é empulhação de oposição sem agenda... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2021/10/02/impeachment-sem-centrao-e-mourao-e-empulhacao-de-oposicao-sem-agenda.

Josias de Souza
 

Colunista do UOL

02/10/2021 02h15

Levado às ruas pela sexta vez neste sábado, o "Fora, Bolsonaro" tornou-se mero adorno de faixas e camisetas de uma oposição à procura de agenda. Sem a adesão do centrão e do Mourão, o slogan conduz apenas a uma rima pobre: empulhação.

O ingrediente mais notável da atual conjuntura não é a debilidade de Bolsonaro nas pesquisas, e sim a incapacidade dos adversários do presidente de articular a abertura de um processo de impeachment. O capitão revelou-se um presidente precário. Com a pilha de mortos por Covid roçando a marca de 600 mil, ele continua receitando cloroquina e questionando a eficácia das vacinas. Num instante em que brasileiros fazem fila para obter ossos descartados por supermercados, Bolsonaro desafia a paciência alheia. Afirma que quem compara sua obsessão por armas com a fome deveria dar "um tiro de feijão" quando tiver a casa invadida. Embora Bolsonaro conspire contra a estabilidade do próprio governo, a hipótese de o impeachment avançar é pequena, mínima, quase inexistente. Por quatro razões:

1) Falta base legislativa. A instabilidade política do governo é lucrativa para o centrão,  que controla a chave do cofre na Casa Civil e a distribuição de nacos do Orçamento na presidência da Câmara;.

2) Falta unidade social. A impopularidade de Bolsonaro bateu em 53%. Mas ele ainda é considerado um presidente bom ou ótimo por 22% do eleitorado;

3) Falta articulação com o gabinete da vice-presidência. Quem clama pelo "fora, Bolsonaro" ainda não se animou a gritar "viva o general Mourão"

4) Falta sinceridade ao pedaço da oposição mais bem-posto nas sondagens eleitorais. Lula e o PT não querem derrubar, mas polarizar com Bolsonaro.

Excetuando-se os devotos do presidente, que aprovam incondicionalmente a sua atuação, os brasileiros enxergam o governo de duas maneiras. Uma parte avalia que falta rumo à gestão Bolsonaro. Outra parte acha que o capitão tomou o rumo da crise.

Entretanto, a menos que um meteoro caia sobre o Planalto, todos terão de se conformar com a ideia de que Bolsonaro, eleito como solução por 57,8 milhões de brasileiros, permanecerá no trono até o último dia do mandato —mesmo contra a vontade de quem enxerga nele um problema.

Esposas e filhas de políticos são apostas de partidos cearenses para as eleições de 2022 2

Patricia, inclusive, foi eleita deputada estadual em 2018 – cargo hoje almejado pela filha – e só renunciou à vaga para ocupar o comando do Executivo no berço político da família.

 

Para Domingos Filho, o interesse familiar, seja de homens ou de mulheres, é natural na política. Ele ressalta que, atualmente, há mais oportunidades para candidaturas femininas, o que historicamente não era comum. 

 

“Política é vocação e paixão. Por isso, é comum que a convivência estimule parentes de políticos a se encaminharem, tradicionalmente, para a vida pública. As novas regras eleitorais privilegiam a inserção das mulheres nas disputas eleitorais e o PSD incentiva essa tendência”, argumenta. 

 

EXPERIÊNCIA FAMILIAR

A primeira-dama de Horizonte, Jô Farias, diz ser uma prova de como a convivência estimula a participação política. Ela conta que há 30 anos está, ao lado do esposo, Nezinho Farias (PDT), na vida pública. Em 2005, viu nascer o interesse de atuar na Câmara Municipal, onde exerceu um mandato. Agora, planeja um voo mais alto, rumo à Assembleia Legislativa, onde o marido foi eleito em 2018 – e renunciou para ocupar o cargo de prefeito.

“Tenho interesse em ser candidata por estar preparada para contribuir com as políticas públicas do meu Estado, além de encorajar outras mulheres através da minha experiência. Acredito que nós, mulheres, precisamos ocupar espaços de tomada de decisão, gerando representatividade para que possamos inspirar mais mulheres a participar”, afirma. 

Com vida pública mais curta, mas igualmente influenciada pela trajetória familiar, a advogada Juliana Lucena também tem pretensões por uma vaga no Legislativo estadual. “Minha mãe, Arivan Lucena, foi a primeira prefeita de Limoeiro do Norte, em 2001. Ela e meu pai, José Maria Lucena – atual prefeito de Limoeiro –, foram e são as grandes inspirações para o surgimento desse meu desejo de ser candidata”, conta.

CAMINHO DAS PEDRAS

A ideia das pré-candidatas é repetir o feito de outras mulheres parlamentares cearenses, que também chegaram à vida pública através da família, conseguiram vagas no Legislativo e, agora, planejam disputar a reeleição. 

As cinco deputadas estaduais do Ceará integram famílias com histórico político. Em seus perfis de apresentação na Assembleia Legislativa, Aderlânia Noronha (SD), Dra. Silvana (PL), Érika Amorim (PSD) e Fernanda Pessoa (PSDB) ressaltam a importância que os respectivos maridos e o pai – no caso da tucana – tiveram para inspirar na trajetória política. 

Completa a lista a deputada Augusta Brito (PCdoB), casada com o ex-prefeito de São Benedito, Gadyel Gonçalves, político influente na região de Ibiapaba. Augusta e as colegas parlamentares, no entanto, ressaltam o papel que desempenham para inspirar que outras mulheres também se engajem na política.

OBSTÁCULOS CULTURAIS

Historicamente, a ligação familiar de novas lideranças com políticos mais tradicionais gera debates, seja nos parlamentos, seja entre os eleitores. Porém, a cientista política Monalisa Soares, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem), ressalta que essas discussões são mais frequentes quando envolvem mulheres iniciando a trajetória política. 

“Isso tem a ver com a incursão delas nesses espaços e o que homens e mulheres representam no espaço público. Os homens, mesmo quando surgem da herança política familiar, encontram no espaço público um ambiente mais socialmente reconhecido pela presença masculina. Já quando é uma mulher que é eleita, sob a égide do pai, do avô ou do marido, ela terá a autonomia, a imagem e o capital político questionados”, avalia. 

A socióloga Paula Vieira, também pesquisadora do Lepem, aponta que o foco dos questionamentos deveria ser o porquê de algumas famílias terem tanto poder concentrado por várias gerações. “Isso faz parte da formação sócio-histórica brasileira, que tem a permanência de poder na mão de uma elite predominante”, analisa. 

“No Ceará, por exemplo, temos algumas famílias que já têm essa inserção política e vão reproduzindo ao longo de gerações, indicando seus familiares. Se pensarmos em famílias que não são dessa tradição política, quem é que se propõe a ir para essa vida? É como se fosse um caminho natural para esses grupos e seus integrantes, que herdam a profissão política”, diz Paula. 

ESTRATÉGIAS ELEITORAIS

As pesquisadoras acrescentam ainda que a motivação política para se chegar a um nome que disputará as eleições envolve uma série de estratégias. Segundo Monalisa Soares, as análises partidárias incluem a efetividade e as chances de vitória, o que favorece nomes que carregam consigo uma longa tradição política na família. 

Paula Vieira enumera também a agenda política do País e como alguns nomes podem trazer ganhos em certas discussões. “As candidaturas femininas, por exemplo, vêm sendo pauta há alguns anos, e a população vem cada vez mais aderindo, então é natural utilizá-las como um recurso estratégico para maximizar as chances na competição”, afirma. 

“Além disso, ainda têm os estímulos das regras eleitorais, como as cotas. Então existe essa primeira ideia de se ter candidaturas competitivas, depois tem esses desdobramentos”, conclui. Pelas regras eleitorais vigentes, os partidos precisam formar chapas para o Poder Legislativo com ao menos 30% de mulheres. 

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também estabeleceu que as agremiações devem destinar ao menos 30% dos recursos do Fundo Partidário para financiar as campanhas de candidatas. 

ESTÍMULO À PARTICIPAÇÃO

No Congresso, tramitam propostas que tentam ampliar esse estímulo à participação feminina. No texto-base do Novo Código Eleitoral, os deputados estabeleceram que, para fins de distribuição de recursos do Fundo Partidário, os votos destinados a candidaturas femininas devem ser contabilizados em dobro. 

Em julho deste ano, o Senado aprovou um projeto determinando uma porcentagem mínima de 30% das cadeiras legislativas (em todas as instâncias) para ser preenchida por mulheres, convocando-se as suplentes caso não sejam eleitas em número suficiente para cumprir esse percentual.

Em outra frente, a Justiça Eleitoral tem intensificado a punição contra partidos que tentam burlar as regras de estímulo às candidaturas femininas. No Ceará, chapas inteiras de vereadores em 2020 foram cassadas em CroatáNova RussasPacatubaBarbalha e Potengi

O OUTRO LADO DA DISPUTA

Diante desse cenário, a pesquisadora Monalisa Soares aponta ainda a dificuldade que mulheres sem tradição familiar na política encontram para chegar aos espaços de poder. 

“Evidentemente, tudo isso coloca em questão esse debate sobre a participação das mulheres na política e o papel dos partidos na formação de novas lideranças, no sentido de que as legendas buscam candidaturas que são muito oportunas e, portanto, são dessas mulheres que naturalmente já têm mais chances de serem competitivas”, argumenta. 

“Temos que nos perguntar sobre as outras mulheres, aquelas que não têm esse capital familiar, em que medida os partidos vão ou não estimular essas candidaturas? Estudos mostram que é mais difícil para todo esse universo de outras mulheres”, conclui a cientista política. COM DIARIONORDESTE

 

 

 

 

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