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A ruína do governo Bolsonaro é um caldeirão em que se misturam mais de 600 mil cadáveres, 14,8 milhões de desempregados, 19 milhões de famintos e uma inflação de dois dígitos. Esses dados deslocam a campanha presidencial de 2022 para a arena econômica.
Até aí, nada de novo sob o Sol, pois a economia sempre foi relevante em qualquer eleição. Desperdiçarão tempo e energia os candidatos que imaginarem que cavarão uma vaga no segundo turno maldizendo o capitão. Ninguém vai eleger um presidente apenas porque ele fala mal de Bolsonaro.
Um pedaço expressivo do eleitorado está à procura de algo que, hoje, parece irrealizável. A grande utopia da sociedade brasileira é a recuperação de uma noção qualquer de bem-estar. Essa sensação não será obtida com a mera substituição do radicalismo do candidato à reeleição pela raiva dos seus opositores. A principal tarefa da oposição é desintoxicar o ambiente e oferecer uma mercadoria que a polarização entre bolsonarismo e petismo tornou escassa na política brasileira: a esperança. A rejeição a Bolsonaro bateu em 59% no último Datafolha porque o presidente consolida-se como um estorvo à sobrevivência das pessoas.
Na área econômica, o capitão dedica-se a destruir um sistema que construído a duras penas, assegurava a estabilidade da moeda. Com o auxílio luxuoso de Paulo Guedes, um ministro da Economia que se autoconverteu em tesoureiro do comitê de campanha, Bolsonaro pisoteia as balizas fiscais do país.
Empurra dívidas judiciais irrecorríveis para dentro de uma contabilidade paralela. Acomoda um Bolsa Reeleição de mais de R$ 80 bilhões num pavimento erguido sobre o teto de gastos. Remunera a fidelidade do centrão com um orçamento paralelo e opaco. Converte um programa social perene numa engrenagem de compra de votos improvisada em cima do joelho.
O assistencialismo populista leva o dólar às alturas, alimentando uma inflação que mastigará o suposto benefício de R$ 400 oferecido a 17 milhões de famílias que frequentam a fila do osso. Correndo atrás do prejuízo, o Banco Central eleva os juros que inibem os investimentos que poderiam diminuir a fila do desemprego.
Na prática, Bolsonaro tornou-se sócio da inflação que atormenta os pobres que ele finge socorrer. Um socorro genuíno dependeria de providências que um presidente da cota do centrão não tem condições de adotar. Por exemplo: o corte do orçamento paralelo que irriga o fisiologismo parlamentar. Ou a eliminação de incentivos tributários que fazem a alegria de empresários com bons amigos no Congresso. Ou ainda a privatização de estatais que servem de cabides para apaniguados políticos ou fardas com fins lucrativos.
A inflação acumulada em 12 meses bateu em 10,25% em setembro. A última vez que a carestia alcançou semelhante patamar foi no governo ruinoso de Dilma Rousseff. O dragão começou a lançar chamas ameaçadoras em 2015. Ultrapassou a marca simbólica dos dois dígitos em 2016.
Hoje, Lula percorre a conjuntura como favorito vendendo a perspectiva de retomar indicadores que o tornaram popular. Como se não tivesse nada a ver com a ruína da gerentona que se empenhou em eleger um par de vezes. Confunde amnésia com consciência limpa.
Bolsonaro tampouco enxerga um culpado na imagem do espelho. Submetido a uma confluência atordoante de crises —fiscal, energética, econômica e ambiental— atribui a derrocada à política de isolamento social que os governadores foram compelidos a adotar para combater o coronavírus.
As conclusões da CPI da Covid retiraram do presidente seu papel predileto: o de culpar os outros pelas crises que fabricou ou ajudou a agravar. O relatório a ser aprovado na próxima terça-feira pela Comissão Parlamentar de Inquérito demonstra, com fartura de provas, que o Brasil seria outro se Bolsonaro tivesse adotado um comportamento de anti-Bolsonaro, coordenando o enfrentamento da pandemia, renegando a cloroquina e comprando por opção as vacinas que comprou tardiamente por pressão.
Desmoralizado, Paulo Guedes mimetiza o chefe, terceirizando o seu fracasso a um hipotético "meteoro" dos precatórios, à leniência do Congresso com as reformas e à pandemia. Lorotas. Em 2019, quando ainda não havia o coronavírus, entregou um pibinho de 1,4%. Promessas como a de arrecadar R$ 1 trilhão em privatizações esbarraram no desinteresse do seu chefe. O excesso de gogó levou às sucessivas debandadas de integrantes da equipe econômica.
Estimava-se que a inflação cairia lentamente, fechando 2021 em algo como 8,5%. A irresponsabilidade fiscal e o dólar irascível ameaçam a previsão. A carestia é maior na gôndola do supermercado, na conta de luz e no botijão de gás. Em condições normais, o desemprego tende a decair neste segundo semestre. Coisa sazonal. Nada que se pareça com um movimento consistente.
O crescimento econômico de 2021 é meramente estatístico. Para o ano eleitoral de 2022 espera-se mais um pibinho nas cercanias de 1%, talvez menos. Os mais pessimistas contemplam a hipótese de recessão.
É contra esse pano de fundo envenenado que os candidatos pedirão votos. A moderação tornou-se um ativo eleitoral. O ódio já elegeu três presidentes no Brasil: Jânio Quadros, Fernando Collor e o próprio Bolsonaro. Eles são muito diferentes um do outro. Mas têm algo em comum: no exercício do poder, revelaram-se impostores. Jânio renunciou. Collor foi escorraçado do Planalto.
Bolsonaro sobrevive graças à blindagem oferecida por duas autoridades que desonram os cargos que ocupam: o procurador-geral da República Augusto Aras e o presidente da Câmara Arthur Lira. Um rumina a expectativa de virar ministro do Supremo. Outro lucra arrancando verbas secretas do desgoverno.
Os escudos oferecidos por Aras e Lira infectaram Bolsonaro com o pior tipo de ilusão que pode acometer um presidente: a ilusão de que preside.
Pacheco e Moro definem filiações e ampliam leque de opções da terceira via II
Moro indeciso
Em outra frente, o ex-juiz da Lava-Jato e ex-ministro da Justiça Sergio Moro decidiu que vai mesmo concorrer às eleições de 2022 e irá ingressar no Podemos. O evento de filiação está previsto para ocorrer no dia 10 de novembro. O ato deve acontecer no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, também na capital federal.
Embora tenha seu nome constantemente cotado para a corrida presidencial, Moro ainda não definiu se concorrerá à Presidência ou ao Senado, o que ocorrerá em breve, de acordo com aliados. A expectativa dentro do partido é que, ao fim, ele opte pelo voo mais alto.
O GLOBO apurou que o ex-ministro tem dito que pretende ocupar um lugar de destaque no palanque de 2022 para rebater ataques, sobretudo disparados por Lula. Alguns presidenciáveis, como o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) trabalham para convencer Moro a brigar por uma vaga no Senado e prometeram ao ex-magistrado defender o legado dele durante os embates da campanha presidencial.
À frente dos processo da Operação Lava-jato no Paraná, Moro foi o juiz responsável pela condenação de Lula. A sentença, contudo, foi anulada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou o ex-magistrado parcial em suas decisões.
Moro bateu o martelo sobre sua filiação quando esteve no Brasil, no mês passado, para uma rodada de conversas sobre seu futuro político. Ele mora nos Estados Unidos há cerca de seis meses. No ato de filiação, o ex-juiz já estará desligado da empresa Alvarez & Marsal, onde trabalha hoje. Até o fim de outubro, no entanto, ele continuará a serviço da companhia. Em novembro de 2016, Moro chegou a dizer que “jamais entraria para a política”.
(Colaborou Rayanderson Guerra) MÓDULO DE PODCASTS PARA MATÉRIAS
Terceira via não forma rede própria de mobilização no Facebook como Lula e Bolsonaro
Marlen Couto / O GLOBO
A menos de um ano das eleições, os pré-candidatos da chamada “terceira via” não são capazes de formar redes próprias de mobilização no Facebook, maior plataforma digital em operação no país. É o que revela um levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV). A análise aponta que o debate sobre possíveis presidenciáveis na rede social, por enquanto, consolida a polarização entre as candidaturas do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Lula.
O relatório considerou 450 mil postagens em mais de 30 mil páginas e grupos públicos do Facebook publicadas em setembro. As redes pró-Bolsonaro e pró-Lula somaram mais de 90% das interações (curtidas, comentários e compartilhamentos) registradas e reuniram 76% dos perfis que participaram do debate. Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) aparecem como atores coadjuvantes na oposição à esquerda, dominada por Lula.
Os pré-candidatos do PSDB, João Doria e Eduardo Leite, não integram nenhum dos principais conjuntos formados. Apesar disso, se deslocaram da rede principal e formaram pequenos grupos de apoio. Já o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta integra um grupo formado por organizações sociais que fazem oposição ao governo Bolsonaro e à esquerda, como Vem Pra Rua. Essa rede somou pouco mais de 3% das interações no período.
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Pacheco e Moro definem filiações e ampliam leque de opções da terceira via
Julia Lindner e Paulo Cappelli / O GLOBO
BRASÍLIA — A um ano das eleições, dois personagens do cenário político decidiram ingressar em partidos de centro, e devem ampliar o leque de opções para a “terceira via”, que segue à procura de um candidato competitivo para disputar o Palácio do Planalto contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Atualmente no DEM, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), confirmou que vai se filiar ao PSD, e o ex-ministro Sérgio Moro decidiu entrar no Podemos, conforme antecipou a colunista do GLOBO Bela Megale.
Leia: Renan e petistas articulam para que Rodrigo Pacheco seja vice de Lula em 2022
Com a mudança de sigla, além de passar a integrar a segunda maior bancada do Senado, Pacheco estará mais perto da corrida presidencial, embora ele não confirme oficialmente sua intenção de disputar o comando do Executivo federal. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, é um dos maiores entusiastas do plano.
— Pacheco torna-se um dos principais quadros do partido. Por ser jovem, ele expressa a renovação que tantos querem no Brasil, e, ao mesmo tempo, tem muita experiência. Ocupou espaço no cenário político em locais que só pessoas preparadas e com talento ocupam, como as presidências do Senado e da Comissão e Constituição e Justiça (CCJ) — elogiou Kassab.
Questionado se é possível garantir a presença do futuro correligionário na lista de adversários de Lula e Bolsonaro, Kassab diz apenas que o convite já foi feito.
— Se depender de todos nós, ele aceitará o convite que fizemos para que seja o nosso candidato em 2022. Nós entendemos que ele efetivamente poderá vencer as eleições.
A proposta de filiação ocorreu há meses, levada pelo próprio Kassab. O senador mineiro, contudo, aguardava uma definição sobre a fusão entre DEM e PSL para bater o martelo. Pacheco também optou pela cautela para não se expor cedo demais. A migração de partido era vista no meio político como a formalização de que Pacheco tentaria se cacifar para o Planalto, algo que já era tratado como certo nos bastidores. Caso não consiga se viabilizar ao páreo no nacional, o parlamentar mira o governo de Minas Gerais.
O evento de filiação de Pacheco está marcado para a próxima quarta-feira, no Memorial JK, em Brasília. A escolha do local foi simbólica. Tem por objetivo homenagear o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que, assim como o senador, era mineiro e filiado a um partido homônimo à sigla fundada por Kassab em 2011.
Antes mesmo de oficializar sua entrada no PSD Pacheco já vinha sendo encarado por Bolsonaro e aliados do presidente como um adversário. Por isso, ele restringiu suas contas em redes sociais no intuito de evitar ataques de bolsonaristas.
Neste sábado, Pacheco vai participar de um evento nacional do PSD no Rio, que contará com a presença de Kassab e do prefeito da cidade, Eduardo Paes. A partir de então, ele deve iniciar uma série de viagens pelo país em uma tentativa de se tonar mais conhecido nacionalmente.
Seus futuros correligionários acreditam que, se por um lado, o senador ainda não é um personagem reconhecido Brasil afora, por outro, isso contribui para que ele tenha um baixo índice de rejeição. Internamente, acredita-se que a viabilidade de sua candidatura vai depender do desempenho dos outros candidatos, principalmente de Bolsonaro. A avaliação é que o eventual sucesso da terceira via depende da queda de popularidade do presidente, que, segundo esses cálculos, precisa chegar a um patamar de aprovação de até 20%, considerado baixíssimo.
Salvaram-se todos no debate dos pré-candidatos do PSDB

Aparentemente, vai ser menos complicado do que se supunha garantir a unidade dos tucanos após as prévias para escolher o candidato do partido à Presidência da República. O que parecia estar caminhando para um confronto aberto sobre as regras da disputa, com o governador paulista João Doria se insurgindo contra possíveis manobras que lhe tirem o favoritismo dentro do PSDB, acabou refluindo, pelo menos neste primeiro momento, para um debate civilizado em que o partido mostrou que ainda tem fôlego para discutir os grandes temas nacionais sem grande divisões.
Os três pré-candidatos - o próprio Doria, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite, e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgilio - defenderam os pontos partidários básicos, como o equilíbrio fiscal e as privatizações, divergiram em pouca coisa, como quanto à reeleição, que também é uma marca do partido. Embora o próprio Fernando Henrique Cardoso já tenha admitido que foi um erro a implantação do sistema de reeleição.
Arthur Virgilio foi o mais ortodoxo dos tucanos, defendeu a reeleição naquele momento, em que era preciso consolidar o Plano Real, e também hoje, quando lembra que será preciso muito tempo para resgatar o país da crise em que vive desde o caos econômico implantado pelo governo Dilma, o último do PT. O governador do Rio Grande do Sul já anunciou que é contra a reeleição e considera que esse desapego facilita acordos políticos com outros partidos na hora de ter que montar um governo de coalizão. E pode ajudá-lo também nas negociações internas do próprio PSDB, pois não será empecilho a projetos de outros políticos do partido.
A seu favor tem a realidade de que abriu mão de se candidatar à reeleição ao governo do Rio Grande do Sul, que seria o passo mais natural na sua bem sucedida carreira política, de vereador a prefeito e governador do estado. Aliás, este parece ser o ponto nevrálgico de suas preocupações, a experiência administrativa e política. Basta que algum de seus oponentes sugira que é inexperiente para que Eduardo Leite se preocupe, tentando desfazer essa imagem.
No final, não houve mortos nem feridos, e o partido saiu fortalecido em suas linhas mestras. O que os dirigentes presentes consideram o maior ganho das prévias. Para Doria, que continua sendo o favorito, o primeiro debate não parece ter limitado sua ambição. Já Eduardo Leite segue perseguindo o governador de São Paulo com mais chances de ganhar hoje do que tinha quando começou a campanha. Ambos aproveitaram a oportunidade para fazerem mea-culpa do apoio que deram a Bolsonaro na eleição de 2018. Virgilio foi o mais cáustico a esse respeito, mas como Doria e Leite é que estão na disputa, esse não será um calcanhar de Aquiles para nenhum dos dois nas prévias. Pode ser, porém, na campanha presidencial.
MERVAL PEREIRA / O GLOBO

