Ministro do TSE dá dez dias para PSDB explicar suspensão das prévias
Eduardo Gonçalves e Mariana Muniz / O GLOBO
BRASÍLIA — O ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Benedito Gonçalves deu um prazo de dez dias para que o PSDB explique a suspensão das prévias ocorrida no último domingo. O aplicativo de votação virtual do partido emperrou por falhas técnicas e impediu que cerca de 40 mil filiados registrassem o seu voto.
A decisão foi dada em um processo movido pelo advogado Gustavo Futagami, que é filiado ao PSDB em Mato Grosso. Ele entrou com um pedido de liminar para que as eleições fossem suspensas até que os programas no aplicativo fossem resolvidos.
Segundo o advogado, as falhas técnicas “ferem direito líquido e certo do filiado de escolher, através do voto, o próximo presidenciável do PSDB”. Disputam a indicação o governador de São Paulo, João Doria; o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite; e o ex-senador Arthur Virgílio.
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A direção nacional do PSDB e os representantes dos três candidatos se reuniram nesta quarta-feira para definir qual empresa reiniciará o processo de votação. A que está em fase mais avançada de negociação é a BeeVoter, que disponibilizou a sua plataforma para passar pelo teste de segurança cibernética. Outras duas companhias já foram descartadas.
O plano do presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, é fechar o contrato com a empresa hoje para retomar as prévias nesta quinta-feira.
Moro coloca em risco candidatura de Ciro Gomes, avaliam políticos e pedetistas
Para lideranças partidárias, o avanço da possível candidatura de Sergio Moro (Podemos) atinge o núcleo da campanha de Ciro Gomes (PDT) e pode feri-la de morte.
De acordo com essa leitura, compartilhada inclusive por pedetistas ouvidos pelo Painel, o ex-juiz ocupa o espaço que Gomes tenta cavar para si: o de crítico de Lula (PT) e de Jair Bolsonaro.
Se as próximas pesquisas mostrarem Moro à frente, Gomes talvez tenha que mudar de estratégia ou desistir, avaliam políticos.
Como mostrou a coluna em junho, pessoas próximas de Gomes, como o presidente Carlos Lupi, e pedetistas como Túlio Gadêlha, tentaram convencê-lo a concentrar ataques em Bolsonaro e deixar Lula de lado. Até o momento não tiveram sucesso.
Aliados do pré-candidato dizem não concordar que a candidatura de Moro seja prejudicial a ele. O principal prejudicado será Bolsonaro, dizem, que perderá votos para seu ex-ministro da Justiça.
"A candidatura do Sérgio Moro, se ocorrer, prejudica Bolsonaro e ajuda Lula. Aliás, Moro se especializou em ajudar o petista, que teve o processo reiniciado devido à incompetência do pseudo-juiz", diz Antonio Neto, presidente do diretório paulistano do PDT.
Painel
Editado por Camila Mattoso, espaço traz notícias e bastidores da política. Com Fabio Serapião e Guilherme Seto. FOLHA DE SP
Democrata flexível
Quem tem memória dos 13 anos de governo petista, e da trajetória de mais de quatro décadas do Partido dos Trabalhadores, não estranhou a argumentação escalafobética do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para defender ditaduras amigas da esquerda brasileira.
Questionado pelo jornal espanhol El País sobre a situação da Nicarágua do ditador Daniel Ortega, reconduzido pela terceira vez seguida num processo eleitoral de fancaria, o líder do PT saiu-se com um repisado sofisma: se governantes europeus como a alemã Angela Merkel podem ficar 16 anos no poder, por que Ortega ou o venezuelano Nicolás Maduro não podem?
O brasileiro foi rebatido instantaneamente pelas entrevistadoras, que lembraram que Merkel não prende opositores, como fazem caudilhos em Cuba, Nicarágua e Venezuela. Pego no contrapé —pois não está acostumado a ser contraditado por seu círculo de bajuladores— saiu-se com uma emenda que piorou o soneto.
"Se o Daniel Ortega prendeu a oposição para não disputar a eleição como fizeram no Brasil contra mim, ele está totalmente errado", disse Lula. Outra frase que entra para o bestialógico de quem já afirmou, sobre a Venezuela chavista, que ali há excesso de democracia.
Ditaduras negam aos encarcerados o direito de apelar pela liberdade e a inocência até a última instância perante juízes independentes. Essa é uma prerrogativa exclusiva do Estado democrático de Direito, de que tem usufruído à plenitude o ex-presidente brasileiro.
Outra cortina de fumaça do velho repertório esquerdista lançada por Lula, capaz de despistar apenas os incautos, é a confusão entre os princípios de não ingerência e autodeterminação dos povos, de um lado, e o da defesa dos direitos humanos e da democracia, do outro.
Não há nenhuma contradição entre condenar os abusos cometidos em território estrangeiro e respeitar a autonomia das nações para resolverem elas próprias os seus problemas. Um democrata convicto, e não um flexível como o líder petista, faria exatamente isso.
Tampouco o imperativo de denunciar em foros adequados as violações dos direitos humanos em Cuba colide com a obrigação de criticar o embargo dos EUA, que acaba agravando a precária situação da população da ilha.
Não há, infelizmente, nenhuma evolução na retrógrada posição petista nesse terreno. O partido pensa e age como Lula —vide nota congratulando Ortega e o elogio da ex-presidente Dilma Rousseff à autocracia chinesa— e não vai mudar.
Agrada-se assim à militância fiel e ideológica, correndo-se o risco de suscitar a repulsa dos demais eleitores. De maneira mais tosca, é o que faz Bolsonaro também.
A prévia patética do PSDB - J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo
De todas as aberrações que falsificam a democracia brasileira, e transformam numa piada as grandiosas “instituições” formalmente previstas na Constituição, poucas se comparam aos partidos políticos. São 34 – ou seja, não são nada, porque não pode existir nem sinal de política séria com tanto partido assim. Multiplicam-se como ratos não por alguma questão de “diversidade”, mas porque recebem dinheiro vivo do pagador de impostos, através dos “fundos” partidário e eleitoral: R$ 1 bilhão esse ano, mais quase R$ 6 bilhões em 2022, por conta da eleição. (É uma PG: nos últimos 20 anos, essa fortuna dada de presente aos partidos aumentou em 1.000% – isso mesmo: 1.000%). Anos atrás a ex-deputada Heloisa Helena chamou os partidos brasileiros de “gangues partidárias”. Não eram partidos políticos; eram quadrilhas. De lá para cá não surgiu definição melhor.
Confie nos políticos brasileiros, de qualquer forma, quando se trata de transformar o péssimo em mais péssimo. O autor da proeza, desta vez, foi o PSDB, justamente uma das gangues que mais se esforçam para fazer pose de coisa séria. Acredite se quiser: depois de passarem uma eternidade enchendo o noticiário com a história de que iriam fazer uma grande prévia interna para escolher seu candidato a presidente da República, seus chefes e “militantes” não conseguiram, sequer, organizar a votação. O aplicativo “caiu”. As pessoas não conseguiam votar. Sem outra saída, a coisa toda acabou suspensa. Gastaram um dinheirão (que veio dos “fundos”, justamente), para fazer a tal prévia, trocaram enfezadas acusações mútuas de fraude e convenceram a mídia de que o PSDB era o centro da política brasileira e do sistema solar. No fim, não conseguiram nem montar uma eleiçãozinha com 40.000 votantes, ou algo assim. Foi humilhante.
O PSDB, com essa prévia patética, mostra o grau de desrespeito que os seus caciques têm pelo cidadão brasileiro; se não conseguem cuidar nem da própria vida, imagine-se a atenção que podem dar ao público e ao encaminhamento dos seus problemas. Ou seja: tanto faz quem será o candidato presidencial que ainda não tiveram competência para escolher. Todos eles são sócios com partes mais ou menos iguais nessa massa falida. Ao mesmo tempo, fica exposta, mais uma vez, a farsa segundo a qual o PSDB tem mais “qualidade” que as outras 33 gangues partidárias que estão aí, ou coisa que o valha – a desordem é não grande que não se sabe ao certo, sequer, o número exato de partidos que há no Brasil. A prévia furada deixa claro que a falta de seriedade é a mesma; cada um é incompetente ao seu próprio jeito, é claro, mas são todos pinga da mesma pipa.
Lula e PT se amarram a um abacaxi para a campanha de 2022
Se a Alemanha não fosse uma democracia, o grupo de Angela Merkel não teria sido derrotado nas eleições, após 16 anos no poder. Também não teria ocorrido o recente encontro entre Lula e o futuro chanceler alemão, de um partido adversário.
Se a Nicarágua fosse uma democracia, Lula não teria dito, há poucos meses, que as coisas "não andam nada bem por lá". Além disso, o ex-presidente não teria aconselhado Daniel Ortega a defender a liberdade no país, e o PT não teria apagado uma nota que celebrava a vitória governista numa eleição marcada pela prisão de opositores do regime.
Lula conhece essas diferenças, mas encaixou uma comparação descabida numa entrevista ao jornal espanhol El País: "Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder, e Daniel Ortega, não?", questionou.
O petista se referia à permanência de políticos no poder por longos períodos, não ao processo de escolha desses líderes. Uma das entrevistadoras, no entanto, precisou lembrar que, ao contrário da alemã, Ortega havia encarcerado seus potenciais adversários. Lula fez uma emenda e disse que, se isso ocorreu, o nicaraguense "está totalmente errado".
A hesitação contínua do ex-presidente em condenar avanços autoritários pelo mundo não revela nenhuma tentação ditatorial. Mas o episódio mostra que, em nome de seus laços internacionais, Lula e o PT estão dispostos a contratar um problema desnecessário para 2022.
Os petistas sabem que rivais vão explorar as declarações generosas de Lula sobre os regimes de Cuba, Venezuela e Nicarágua para pintar uma falsa imagem de descompromisso com a democracia. O partido diz que os críticos desvirtuam as opiniões do ex-presidente, mas também se recusa a produzir uma mensagem consistente sobre os abusos cometidos nesses países.
Aliados de Lula acreditam que a eleição será definida por questões econômicas, não por um debate sobre a saúde da democracia em outros países. Para não frustrar seus militantes, o PT prefere insistir no erro.
Bruno Boghossian
Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA). o globo


