Por que Lula e Bolsonaro querem Moro como terceira via em 2022
Lula e Bolsonaro têm algo em comum. Ambos dizem a interlocutores que Sergio Moro é o nome que gostariam de ver como “a terceira via” nas eleições de 2022.
Bolsonaro costuma afirmar que deseja a candidatura do ex-juiz à presidência para Moro “ver o tamanho que realmente tem”. O presidente diz que seu ex-ministro iria angariar menos votos do que ele acredita ter.
Já os interlocutores de Lula afirmam que o petista deixa claro que gostaria de encarar um debate político com seu algoz na Lava-Jato. Analistas de pesquisas que trabalham para o PT também traçaram um cenário positivo para Lula no caso de Moro se confirmar como terceira via. Apontam o ex-juiz como único candidato que não ganha votos com a desidratação de Bolsonaro. A avaliação feita é que Moro, por ser mais conhecido, deslancharia com uma cifra boa de intenções de voto, mas teria teto baixo.
O ex-juiz ainda não decidiu se vai se lançar ao Palácio do Planalto. Em conversas com o Podemos, Moro baterá o martelo sobre seu futuro político em novembro.
Pandemia e falta de artistas: por que protestos pelo impeachment têm baixa adesão?
Sérgio Roxo / O GLOBO
SÃO PAULO — Políticos de esquerda e especialistas ainda tentam encontrar razões para a adesão abaixo do esperado ao protesto do último dia 2. Embora 56% da população defenda o impeachment do presidente Jair Bolsonaro, segundo o Datafolha, as ruas não ficaram cheias. Pandemia, falta de mobilização “fora da bolha”, ausência de artistas e até uma espécie de “trauma” por causa das manifestações que levaram a afastamentos anteriores de presidentes são citados como motivos por políticos e acadêmicos ouvidos pelo GLOBO.
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Pablo Ortellado, professor de gestão de Políticas Públicas na USP, coordenou pesquisas com participantes da manifestação do dia 2 na Avenida Paulista convocada pela esquerda e do ato de 12 de setembro organizado no mesmo local pelos movimentos de direita MBL e Vem Pra Rua. Ele acredita que os ressentimentos do processo de impeachment de Dilma Rousseff e a dinâmica eleitoral de 2022 estão impedindo que os protestos ganhem amplitude.
— Nessas duas manifestações, os organizadores tentaram dar um caráter amplo, mas as nossas pesquisas mostraram que as pessoas que estavam ali não engolem uma frente ampla. A polarização que se instalou no país nos últimos anos está funcionando como um bloqueio e está impactando na mobilização.
Ortellado também ressalta que mobilização de rua é “uma coisa enigmática”.
— Mobilização de rua e opinião pública são coisas diferentes. É possível ter uma posição que é majoritária na sociedade, mas que não gera mobilização — diz o professor da USP ao explicar a diferença entre o apoio majoritário ao impeachment e a presença tímida na manifestação.
Presidente do PDT, Carlos Lupi acredita que uma parte da população, principalmente os “simpatizantes do campo popular”, ainda tem receio de ir às ruas por causa da pandemia do novo coronavírus. O dirigente, que esteve nos atos do Rio e de São Paulo no dia 2, também vê um trauma da população com os impeachments de Fernando Collor em 1992 e de Dilma em 2016 porque os problemas brasileiros não foram solucionados após esses processos.
Caráter mais amplo
O presidente do partido de Ciro Gomes acredita, porém, que a situação pode mudar conforme a situação econômica se agrava.
— Temos descontrole da inflação, com preços de produtos essenciais em alta, crise hídrica. Isso tende a se agravar e pode causar uma explosão.
Lupi lembra ainda que no passado artistas foram fundamentais para as grandes mobilizações.
— O que atrai o povão é artista. A campanha das Diretas tinha Fafá de Belém, tinha Gil, Caetano, Chico.
A participação de artistas é um das inovações que está sendo discutida para a próxima manifestação, marcada para 15 de novembro. A ideia é que esse ato tenha um caráter mais amplo desde a organização e não fique vinculado à esquerda.
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Sábado na Paulista, houve dezenas de discursos de várias lideranças, muitas delas desconhecidas. Esse formato é alvo de críticas, por ser considerado pouco agregador. A participação do PCO, partido radical de extrema-esquerda, também foi questionada. Militantes da legenda não seguiram o pacto definido de evitar defesa de candidaturas e de não atacar os demais participantes.
— Só estaremos presentes em uma construção que agregue apenas os que têm compromisso com a frente ampla — afirma Fernando Guimarães, coordenador do Direitos Já, movimento de defesa à democracia que une políticos da centro-esquerda à centro-direita.
As manifestações do último sábado tiveram uma adesão menor do que os atos de apoio a Bolsonaro no dia 7 de setembro, apesar de as pesquisas apontarem uma queda de popularidade do presidente ao longo do ano. Para a cientista política Esther Solano, professora da Unifesp, que faz pesquisas com apoiadores de Bolsonaro desde 2017, não há uma contradição entre esses dois fenômenos:
— São dois movimentos que acontecem em paralelo. Ao mesmo tempo em que Bolsonaro joga o seu jogo com a base mais fiel e a mobiliza, ele vai perdendo a sua base mais moderada, que, como mostram as pesquisas, fica incomodada com o discurso mais agressivo. Não é incoerente o fato de estar perdendo seguidores e ter ocorrido uma grande manifestação em setembro.
Várias ambições na falta de uma estratégia
06 de outubro de 2021 | 03h00
Estamos numa democracia representativa, e o cidadão é o único portador da soberania do Estado. Melhor dizendo: ainda estamos numa democracia e o Estado de Direito funciona, mas a insegurança jurídica é a única certeza. As instituições operam de maneira disfuncional. Os privilégios e as desigualdades crescem ou se consolidam. E a autoridade do cidadão sobre seus representantes sofre a ameaça de uma reforma eleitoral que esvazia, ainda mais, o papel do eleitor. Como se não bastasse, um golpe de Estado está em andamento desde 2019, ante a omissão dos Poderes da República.
Além dos desafios sanitários, econômicos e sociais que ameaçam nossa sobrevivência como nação livre, enfrentar a ameaça golpista é a condição necessária para enfrentar as demais. Encarar tal ameaça exige definir um objetivo, isto é, enfrentar, contornar ou adaptar-se a ela. Exige, também, mobilizar recursos para atingir esse objetivo inescapável: recursos de poder, econômicos, institucionais, políticos, de capacidade de gestão pública, de liderança, etc. Ou seja, confrontar-se com uma ameaça letal implica responder a esses elementos básicos de uma estratégia.
Falta um movimento decidido das instituições e de suas lideranças para cumprir tais requisitos. Em primeiro lugar, não há convergência, nem muito menos consenso, sobre a ameaça letal à Nação provocada pelo golpe em andamento.
Para alguns, o que deve ser combatido, acima de tudo, é a ameaça de perder as eleições, como é o caso de Lula, do PT, e de parte dos partidos de esquerda – e também de Ciro Gomes e João Doria, embora não necessariamente de seus respectivos partidos. A prioridade máxima do objetivo eleitoral obriga esses candidatos a adotarem uma estratégia ambivalente em face da ameaça de golpe. Para todos eles, é vital garantir Bolsonaro nas urnas e, para isso, é preciso mantê-lo no poder.
Para Bolsonaro, perder a reeleição, sofrer impeachment, ter sua eleição anulada, perder a guerra da pandemia, descumprir sua promessa de deixar um legado de pai dos pobres e desproteger sua família de denúncias criminais são obstáculos secundários. E decorrem da ameaça imaginária de usurpação definitiva de um alucinatório poder absoluto, que lhe teria sido conferido pela divindade que o fez “mito”.
Tal multiplicidade de alvos o força a empregar uma metralhadora giratória, provocando baixas em sua própria retaguarda. O caráter fragmentado de seus objetivos o impede de manter o foco na eliminação dos usurpadores de seu direito ao poder absoluto, o que demandaria alguma forma de golpe de Estado.
Como podemos observar, a cantilena da inevitabilidade de uma polarização radicalizada entre Lula e Bolsonaro nada é senão uma narrativa tendenciosa de ambos para desmoralizar a inclinação majoritária da opinião pública para a moderação, desacreditando os candidatos, os partidos e as políticas sociais e econômicas que precisam ser debatidos na campanha, para serem adotados num próximo governo.
Alternativas, como Arthur Lira e seus seguidores, não faltam. Para estes, as principais ameaças são o impeachment do atual presidente e sua sucessão por Mourão, o que eliminaria a possibilidade de este setor do Centrão controlar, simultaneamente, o Executivo e o Congresso. Para outros setores do Centrão, que parecem aproximar-se do vice-presidente, a ameaça vital seria o oposto, isto é, a cassação da chapa Bolsonaro/Mourão pelo Tribunal Superior Eleitoral, que os tiraria do jogo.
Por falta de uma estratégia de poder que o unifique, o Centrão confirma o que venho observando neste mesmo espaço: que este grupo de pressão opera como uma minoria de veto, capaz de unir-se para derrotar governo ou oposição, mas incapaz de convergir sobre agendas positivas. Essa fragmentação é útil para uma minoria de veto. Mas inviabiliza o governo de franquia – hoje exercido pela dupla Ciro/Lira – e também eventuais ambições presidenciais. O descolamento do PSD de Kassab e a possível criação de um grande partido de direita, resultante da fusão entre o DEM e o PSL, reforçam os obstáculos para a adoção de uma estratégia comum para o Centrão.
Um grupo de quatro possíveis candidatos – que chamarei de políticos novos, porque se empenham numa via independente, não são velhas raposas, não se deixam acorrentar ao passado, não são aventureiros nem extremistas – tem um alvo comum, que é enfrentar a ameaça representada hoje pela tentativa de golpe ainda em andamento. No comício do dia 12 de setembro, todos – Simone Tebet, Alessandro Vieira, Eduardo Leite e Luiz Henrique Mandetta – convergiram sobre a inevitabilidade do impedimento do atual presidente, que é o primeiro passo para adotar uma estratégia comum, pois é indispensável para garantir uma eleição livre em 2022.
Sobre esses “políticos novos” recai hoje a responsabilidade de negociar a mobilização dos recursos econômicos, institucionais, políticos, de capacidade de gestão pública e de liderança, necessários para garantir a presença e a competitividade de candidatos da terceira via.
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PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP
DEM e PSL aprovam fusão e criam o maior partido da Câmara
06 de outubro de 2021 | 12h36
BRASÍLIA - Os diretórios nacionais do DEM e do PSL decidiram nesta quarta-feira, 6, aprovar a fusão entre as duas legendas. O novo partido, que vai se chamar União Brasil, terá a maior bancada da Câmara, com 82 deputados, além de quatro governadores, oito senadores e as maiores fatias dos fundos eleitoral e partidário. Será a primeira vez, em 20 anos, que a direita reúne tantos parlamentares em uma única agremiação. A última vez foi no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, quando o PFL (atual DEM) elegeu 105 representantes.
Ataques em manifestação anti-Bolsonaro fazem não-petistas reavaliarem participação em novos atos
O presidenciável do PDT, Ciro Gomes, não foi o único político hostilizado na Avenida Paulista durante a manifestação pelo impeachment de Jair Bolsonaro, no último sábado (2). O ataque contra o pedetista, com paus e pedras, foi mais grave. Mas sobraram vaias também para a ex-petista Heloísa Helena, hoje na Rede Sustentabilidade, para o presidente do PSB, Carlos Siqueira, e até para a presidente da UNE, Marianna Dias, que é do PC do B.
Na hora, a opção de todos foi não chamar a atenção para a situação, mas o mal-estar provocado pelas agressões está levando os líderes de oposição não-petistas a reavaliar sua presença e até o formato dos próximos atos contra Jair Bolsonaro.
"No meu caso nem foi o PT, foi o PCO (Partido da Causa Operária), esse partido sem voto e que nem vereador tem", contou Siqueira, do PSB, que lamentou principalmente as agressões contra Ciro Gomes. "Nos entristece isso acontecer num momento em que buscamos a unidade. Temos que refletir se vale a pena continuar dessa forma.”
Siqueira é um dos dirigentes de esquerda que estará com Lula em reunião em Brasília nesta terça-feira para discutir, entre outros assuntos, a composição de alianças para 2022.
Não que o PSB pense em abandonar o "Fora Bolsonaro". Mas o partido considera que talvez seja mais proveitoso se concentrar na busca de aliados para 2022 nos estados.
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No PDT, os ataques com paus e pedras a Ciro Gomes estão fortalecendo a ideia de descentralizar as manifestações, criando palanques próprios fora da Paulista, onde tanto Ciro quanto líderes de outras agremiações possam discursar sem serem alvos de petistas e lulistas e, principalmente, sem ter de se submeter ao monopólio do PT sobre os atos.
Também no caso de Ciro os ataques partiram do PCO. O presidente da sigla, Rui Costa Pimenta, chamou o candidato do PDT de canalha pouco antes de ele subir ao palanque. Mas não só. Vestidos com camisas da CUT e gritando “vai para Paris!” militantes petistas cercaram o carro do pedetista e agrediram assessores, seguranças e aliados.
“Eles não gostam quando a gente denuncia que o PT adotou o mesmo modelo econômico do PSDB e o mesmo presidencialismo de coalizão, que levou ao mensalão e ao petrolão. Mas uma coisa é o Fora Bolsonaro, outra coisa é a eleição”, diz o presidente do PDT paulistano, Antônio Neto. No domingo, depois dos ataques, Ciro deu uma entrevista coletiva em que pediu aos petistas uma "trégua de Natal" entre para derrubarem Bolsonaro.
Ao responder a Ciro, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, ironizou. "O PT está em trégua há muito tempo", disse ela à colunista Mônica Bergamo, da "Folha de S. Paulo". Gleisi ainda disse estar feliz porque Ciro, que tem feito ataques ao PT, concorda com ela.
O PT se queixa, por exemplo, das peças publicitárias críticas a Luiz Inácio Lula da Silva feitas pelo marqueteiro de Ciro, João Santana. Em uma delas, ele provoca Lula ao dizer que faltam propostas ao ex-presidente, que só promete picanha e cerveja ao eleitor.
Mas, apesar do pedido de trégua, não há sinal de que o PDT vá mudar de estratégia eleitoral. Para o partido, o que está em jogo é a vaga de quem vai enfrentar Lula no segundo turno em 2022, dado o desgaste de Bolsonaro com a pandemia e a inflação. Por isso, os pedetistas acham que fazer uma aliança que contemple também os setores de centro que estão sendo expulsos dos atos Fora Bolsonaro é questão de sobrevivência.
Na mesma linha vai o PSB, que tenta separar a mobilização contra Bolsonaro das discussões eleitorais. Para Carlos Siqueira, o partido precisa de alianças amplas para eleger seus principais candidatos a governador no ano que vem.
No Rio, por exemplo, ele considera que a aliança prioritária para eleger Marcelo Freixo é com o PSD, de Eduardo Paes e Gilberto Kassab. Em Pernambuco, onde a petista Marília Arraes pleiteia se candidatar ao governo, não há chance de a sigla abrir mão da cabeça de chapa na sucessão do governador Paulo Câmara (PSB). “Aliança se faz com os diferentes. Não se vence uma eleição sem buscar o centro político”, diz Siqueira.


