PSDB foca em Bolsonaro, esquece Lula e quer a centro-direita contra PT
14 de novembro de 2021 | 03h00
O presidente do PSDB, Bruno Araújo, aproveitou o debate dos candidatos às prévias do partido, no Estadão, para dizer a mais pura, e melancólica, verdade: “Todos os partidos perderam controle na relação direta com as suas bancadas”. Tradução: o bolsonarismo produziu, ou aprofundou, um estouro da boiada no Congresso.
Os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS), candidatos às prévias tucanas, faziam malabarismo para se descolar do fato de que 22 dos 31 deputados federais tucanos votaram a favor da PEC dos Precatórios, ou “PEC da Reeleição” (do presidente Jair Bolsonaro, óbvio).
ACM Neto, presidente do DEM e futuro secretário-geral do União Brasil (DEM-PSL), poderia dizer: “Viram? Não fui só eu”. Exemplo da perda de controle das bancadas, ele não conseguiu manter os votos democratas no deputado Baleia Rossi para a presidência da Câmara.
Quando ACM e Rodrigo Maia, padrinho da candidatura de Baleia, abriram os olhos, era tarde demais. A maioria da bancada já tinha se bandeado para Arthur Lira, candidato de Bolsonaro. Foi assim nas demais bancadas e deu no que deu: a Câmara de Lira está a serviço de Bolsonaro, além de cuidar bem de seus próprios interesses e emendas e mal dos interesses nacionais.
No debate de Doria, Leite e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio – o único com passagem por Brasília e Congresso –, Bolsonaro virou batata quente, que Doria e Leite empurravam um para o outro. O sujo falando do mal lavado, porque ambos o apoiaram no segundo turno de 2018.
Suave na forma, ácido no conteúdo, Virgílio provocou: “Não deixe que lhe preguem na face a fama de bolsonarista. Isso não é justo nem digno de você”. Dirigia-se a Leite, mas poderia ser para Doria, que carrega o fardo do “Bolsodoria”.
Os dois viraram críticos do presidente, sobretudo Doria, mas ele ouviu quem entende de comunicação: os craques na “política de esgoto” são Bolsonaro e o gabinete do ódio. Quando entra na deles, Doria sai perdendo.
No debate, os tucanos se esqueceram de Lula, líder inconteste das pesquisas. O PSDB digladiou com PT em todas as eleições, até 2018, e agora aposta no confronto com Bolsonaro para ocupar a centro-direita e voltar à tradição do segundo turno entre PT e PSDB.
Hoje, o PT lidera, o PSDB disputa uma terceira via congestionada, Sérgio Moro é interrogação e Bolsonaro trocou Moro por Valdemar Costa Neto, condenado e preso no mensalão. A eleição está como o diabo e os jornalistas gostam.
Entrada de Moro na política divide partidos da terceira via e provoca desconfiança
11 de novembro de 2021 | 05h00
BRASÍLIA — A filiação do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro ao Podemos, com discurso de candidato à Presidência, mudou o xadrez da terceira via. Na lista dos partidos que querem fugir da polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022, não são poucos os que veem com desconfiança a entrada do ex-juiz da Lava Jato na política.
“A candidatura de Moro só vai agravar sua crise de identidade. Ele vivia disfarçado de juiz e agora quer se disfarçar de político para resolver suas enormes contradições. Nenhuma das vestes lhe cabe”, provocou o pré-candidato do PDT, Ciro Gomes. O senador Cid Gomes (PDT-CE), irmão dele, foi na mesma linha. “Se tem mais gente para dividir, é claro que isso atrapalha e faz o jogo do Bolsonaro”, disse Cid.
Na semana passada, Ciro havia suspendido a candidatura depois que a maioria da bancada do PDT votou a favor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos precatórios. Nesta terça-feira, 9, porém, o partido mudou de posição, conforme queria Ciro, e decidiu se posicionar contra a PEC. A proposta fura o teto de gastos públicos, com o objetivo de abrir espaço fiscal para o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 400 até o fim de 2022, de emendas parlamentares e do fundo eleitoral destinado às campanhas.
O presidente do PSD, Gilberto Kassab, descartou de antemão uma aliança com Moro e disse não vê-lo como o nome mais agregador. “Eu acho que o perfil vencedor será aquele que representa a união do País, a pacificação, o compromisso com a solução dos problemas da saúde, em especial com essa questão da pandemia, e a melhoria na educação pública”, afirmou Kassab, que defende a candidatura do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Crescimento. Pesquisa da Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, 10, mostra que Moro está em terceiro lugar na disputa ao Palácio do Planalto, com 8% das intenções de voto, despontando como potencial nome da terceira via na polarização entre Bolsonaro e Lula. Na prática, Moro aparece empatado, na margem de erro, com Ciro Gomes, que tem 7%. Bolsonaro alcança 21% e Lula continua na dianteira, com 48%.
Congestionado, o campo da terceira apresenta atualmente outros dez nomes, incluindo três tucanos que vão disputar as prévias do PSDB para escolha do candidato, no próximo dia 21 — os governadores João Doria (São Paulo), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio.
Na semana passada, o presidente do PSDB, Bruno Araújo, conversou com Moro por telefone. O tucano disse que o Podemos “sempre foi um parceiro” da terceira via, que o ideal é ter o menor número possível de candidatos nesse campo, mas evitou prever uma aliança. "Nosso foco agora são as prévias do PSDB, daqui a poucos dias", insistiu Araújo.
O deputado Luciano Bivar (PE), presidente do PSL e futuro comandante do União Brasil – fusão do partido com o DEM –, adotou o mesmo tom de cautela. “O MDB, o PSDB e o União Brasil estão juntos para montar uma candidatura de terceira via. Se o Sérgio Moro quiser entrar nesse bloco também, a gente vai discutir em conjunto", argumentou Bivar. “Não existe veto.”
Na avaliação do presidente do Cidadania, Roberto Freire, o ex-juiz da Lava Jato pode ser uma opção. "É mais um componente de alternativa à polarização Lula e Bolsonaro. Como o Cidadania desde sempre afirma que nós não podemos ter veto algum, vamos dialogar com essa candidatura. Vamos ver o que vai acontecer", disse ele.
Freire observou, porém, que a dianteira do ex-juiz em relação a outros nomes do grupo da terceira via não necessariamente vai se manter no ano que vem. "Qual o cenário de 2022? Pesquisa agora é uma fotografia de um processo que mal se iniciou".
O Cidadania lançou o senador Alessandro Vieira (SE) como pré-candidato ao Planalto, mas ele mesmo admite que pode desistir, caso surja um nome que una o campo. "Eu não tenho nenhuma exigência de ter meu nome em chapa ou nominata. Quero ver as ideias bem representadas e a gente só sabe disso mais adiante", argumentou Vieira. "Ele (Moro) está começando agora essa caminhada e desejo boa sorte. Quanto mais nomes surgirem, mais ideias", ponderou o senador.
Não é o que diz seu colega Cid Gomes. “Para mim, o Lula tem um lugar no segundo turno e um terceiro nome disputa o lugar com Bolsonaro", previu. “Se o Moro não quer ajudar o Bolsonaro, acaba ajudando.”
Bolsonaro se reúne com Valdemar, e PL anuncia filiação para dia 22

Após uma reunião com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o chefe do PL, Valdemar Costa Neto, confirmou a filiação do mandatário ao partido em um ato em 22 de novembro, em Brasília.
Valdemar e Bolsonaro se encontraram nesta quarta-feira (10) no Palácio do Planalto para fechar os últimos detalhes da entrada do presidente no PL. Além de Bolsonaro, políticos aliados devem migrar para a mesma legenda.
Bolsonaro está sem partido desde que rompeu com o PSL no final de 2019. Sem conseguir estruturar uma nova legenda, o Aliança pelo Brasil, Bolsonaro iniciou conversas com partidos do centrão, entre eles o PL e o PP.
Seu filho Flávio Bolsonaro chegou a se filiar a outros dois partidos enquanto tentavam negociar a filiação do presidente: Republicanos e Patriota.
De acordo com o próprio Bolsonaro, na manhã desta quarta, a ida para o PL estava 99,9% confirmada e depende de detalhes.
Em entrevista a uma rádio do Espírito Santo, na manhã desta quarta-feira (10), ele disse que pretendia concluir algumas negociações sobre São Paulo para bater o martelo.
"Se eu vier a disputar a reeleição, eu quero ter um candidato ao governo do estado em São Paulo, um candidato ao Senado e uma boa bancada de indicados", disse. "Está faltando acertar esse pequeno detalhe com o Valdemar, que eu acredito que a gente acerte no dia de hoje."
Tanto o PP quanto o PL são aliados do governador João Doria (PSDB), em São Paulo. Mas havia ainda uma movimentação, em especial do partido de Ciro Nogueira (Casa Civil), para lançar o ministro Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) para o Senado, numa chapa com Geraldo Alckmin.
O ex-governador está bem posicionado nas pesquisas de intenção de voto, mas é adversário político de Bolsonaro. O presidente quer lançar Tarcísio para o governo de São Paulo, mas o ministro resiste à ideia e prefere sair para o Senado.
Além disso, experientes lideranças do centrão acham que as chances de uma candidatura de Tarcísio prosperar para o governo do Estado são baixas.
Bolsonaro quer um candidato a governo para ter palanque no maior colégio eleitoral do País.
Também participaram do encontro no Planalto na manhã desta quarta o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), o líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), e Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência).
O ministro foi um dos principais fiadores da ida do presidente para a legenda —ele também deve se filiar para concorrer ao governo do Rio Grande do Sul.
Um dos principais temas discutido na reunião foi eleger o maior número de senadores possível. Auxiliares palacianos entendem ser essencial para um eventual segundo mandato consolidar uma bancada no Senado.
Hoje Bolsonaro não consegue aprovar propostas na Casa, que é presidida por um possível adversário em 2022, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG)
A ideia de aliados do presidente é que a entrada de Bolsonaro no PL consolide uma chapa à reeleição que também deve ter o PP e o Republicanos como pilares de sustentação. O plano é que o PP indique o vice de Bolsonaro.
Auxiliares palacianos dizem acreditar que a filiação ao PL é a forma mais garantida de amarrar a sigla com o presidente em 2022, evitando uma eventual neutralidade ou, pior, debandada para apoiar outro candidato, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Aliados também veem certa dose de pragmatismo na escolha do partido. A avaliação é que o tempo de televisão será crucial na disputa e o PP já é dado como certo na coligação. Assim, com o PL, Bolsonaro teria ainda mais exposição no horário eleitoral.
A provável filiação de Bolsonaro e seus apoiadores ao partido consolida ainda mais a mudança de postura do presidente, eleito com a promessa de acabar com o que chama de "velha política", moldada no toma lá dá cá.
O "toma lá" são os vários cargos de segundo e terceiro escalão da máquina federal, postos cobiçados por caciques partidários para manter seu grau de influência em Brasília e nos estados.
O "dá cá" é uma base de apoio mínima no Congresso para, mais do que aprovar projetos de seu interesse, evitar a abertura de um possível processo de impeachment.
O general Augusto Heleno (GSI), na campanha de 2018, cantou: "Se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão". O PL e o PP ocupam as principais cadeiras no Palácio do Planalto: Casa Civil, com Ciro Nogueira, e Secretaria de Governo, com Flávia Arruda.
TCU manda procuradores da Lava-Jato devolverem diárias e pode tornar Dallagnol e Janot inelegíveis
Natália Portinari / O GLOBO
BRASÍLIA - O ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União (TCU), determinou que procuradores da Operação Lava-Jato devolvam gastos considerados irregulares com diárias e passagens. A Corte considerou que o modelo de força tarefa, em que havia o pagamento de diárias pela permanência dos profissionais em Curitiba, gerou dano aos cofres públicos. A ação pode tornar os procuradores inelegíveis.
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A decisão foi provocada por um pedido do subprocurador-geral do Tribunal de Contas da União junto ao Ministério Público, Lucas Furtado. Com base em um levantamento da revista "Veja", Furtado questionou o pagamento de R$ 5,7 milhões em diárias e passagens em 7 anos de operação. Desta soma, R$ 3 milhões foram pagos para apenas cinco procuradores, como se estivessem temporariamente em Curitiba.
Estão na mira os gastos com diárias e passagens dos procuradores Antonio Carlos Welter, Carlos Fernando dos Santos Lima, Diogo Castor de Mattos, Januário Paludo e Orlando Martello Junior. O ex-procurador Geral da República Rodrigo Janot e Deltan Dallagnol, coordenador da força tarefa, podem ser condenados a reembolsar os gastos solidariamente, já que são os responsáveis pelo modelo da operação.
Pesquisa: Lula lidera seguido por Bolsonaro; Moro aparece em terceiro empatado com Ciro Gomes
O valor exato que deverá ser ressarcido será apurado pela área técnica do TCU com base na diferença dos valores que seriam gastos caso esses profissionais tivessem sido deslocados para Curitiba durante o trabalho da Operação Lava-Jato, sem que tivessem direito a diárias e passagens, como ocorreu.
O ministro Bruno Dantas determinou a "apuração do dano exato e a identificação dos agentes responsáveis pelos atos irregulares, bem como daqueles que deles se beneficiaram de maneira imprópria". O plenário da Corte ainda irá decidir se confirma a decisão.
Os procuradores podem apresentar ainda uma defesa dos gastos, mas caso as despesas sejam reprovadas pelo TCU, podem ser considerados inelegíveis pela Justiça Eleitoral pelos próximos oito anos.
A Lei da Ficha Limpa determina que "os que tiverem suas contas relativas ao exercício de cargos ou funções públicas rejeitadas por irregularidade insanável" sejam tornados inelegíveis por oito anos a partir da data da decisão. Tanto Dallagnol quanto Janot estudam uma candidatura nas próximas eleições.
"Vislumbrou-se num modelo que deveria ser aplicado a situações eventuais e excepcionais a chance de dar aparência de legalidade a uma prática antieconômica, imoral, ímproba, lesiva aos cofres públicos e, por tudo isso, manifestamente irregular", escreveu Bruno Dantas sobre o modelo de gastos da Operação Lava-Jato.
Na decisão, Dantas critica o argumento de que o modelo da Lava-Jato teria sido benéfico à sociedade mesmo com gastos dispendiosos. "Trata-se de argumento utilitarista a um só tempo desonesto tanto com a instituição quanto com o pagador de tributos, que arca com o custo da máquina administrativa", escreveu.
Moro se filia ao Podemos, ataca Bolsonaro e PT e defende Lava Jato em discurso de candidato
O ex-juiz federal e ex-ministro Sergio Moro anunciou nesta quarta-feira (10) sua filiação ao Podemos, e, em um discurso com tom de candidato à Presidência, defendeu o legado da Lava Jato e atacou Jair Bolsonaro, de quem teria sofrido boicote, além do ex-presidente Lula, a quem condenou e prendeu, o retirando da corrida presidencial de 2018.
"Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de petrolão, chega de rachadinha, chega de orçamento secreto. Chega de querer levar vantagem em tudo e enganar o povo brasileiro", discursou Moro para um auditório com cerca de 700 pessoas.
Moro, que sempre repetiu que nunca entraria na política e cuja filiação serve para reavivar o lava-jatismo, dessa vez foi direto em assumir o figurino de político e candidato à Presidência.
"Esse não é um projeto pessoal de poder, mas sim um projeto de país. (...) Se, para tanto, for necessário assumir a liderança nesse projeto, meu nome sempre estará à disposição do povo brasileiro. Não fugirei dessa luta, embora saiba que será difícil."
Apesar de tentar passar a imagem de que sua candidatura não terá como foco único o combate à corrupção, a maior parte da fala do ex-juiz e as peças de publicidade apresentadas no evento seguem a linha de tentar recuperar a credibilidade da extinta operação. Sugeriu a criação e uma corte nacional anticorrupção, a exemplo de outros países, e mirou a classe política, defendendo o fim do foro privilegiado e da reeleição.
O ex-juiz demonstrou certo nervosismo no início de seu discurso, lido em um teleprompter, e arrancou risos ao dizer que muitos criticam a sua voz. "Não sou bom para discursar, mas sou alguém em que vocês podem confiar."
Para além das questões de corrupção, o ex-ministro de Bolsonaro esboçou algumas propostas: criticou a gestão da pandemia, defendeu liberalismo na economia, com privatizações de estatais ineficientes, expansão do ensino integral, mas também abordou questões caras à esquerda, como a pobreza e o meio ambiente.
O ex-juiz propôs, por exemplo, em analogia à Lava Jato, a sua primeira "operação especial", a criação de uma "Força-Tarefa de Erradicação da Pobreza".
Ao mesmo tempo em que reconheceu a relevância de programas de transferência de renda, condenou o furo do teto de gastos.
"Mesmo quando se quer uma coisa boa, como esse aumento do Auxílio-Brasil ou do Bolsa-Família, que são importantes para combater a pobreza, vem alguma coisa ruim junto, como o calote de dívidas, o furo no teto de gastos e o aumento de recursos para outras coisas que não são prioridades."
Moro também falou em bandeiras do bolsonarismo, pregando ser preciso "proteger a família brasileira" contra a violência, a desagregação e as drogas, e defendeu a valorização dos militares. "As Forças Armadas pertencem ao povo brasileiro, não ao governo."
Visto como incógnita por partidos, ele defendeu ainda o livre mercado, a reforma do "nosso sistema confuso de impostos", a privatização de "estatais ineficientes".
Também em contraposição a palavras e ações de Bolsonaro e Lula, defendeu o trabalho dos jornalistas e disse que jamais tentará impor controle sobre a imprensa —apesar de não ter se manifestado sobre isso nos inúmeros episódios de ataque à imprensa profissional durante sua participação no governo Bolsonaro.
Moro fez questão de dizer que só saiu do governo por ter sofrido nas ações do Ministério da Justiça, o qual comadava.
"Queria combater a corrupção, mas, para isso, eu precisava do apoio do governo e esse apoio me foi negado", disse. "Quando vi meu trabalho boicotado e quando foi quebrada a promessa de que o governo combateria a corrupção, sem proteger quem quer que seja, continuar como ministro seria apenas uma farsa."
A fala de Moro foi precedida por um vídeo profissional, com tom de campanha, no qual o ex-ministro aparece andando em frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) com uma faixa escrito "justiça" e com foco na sua atuação na Lava Jato.
"Moro quer escrever uma história que todos queremos, um país que quer caminhar com justiça, ter escola em universidade, de ter um teto para morar. Justiça para este homem não é luz no fim do túnel", disse o narrador do vídeo.
Neste ano, o STF considerou Moro parcial nos processos em que atuou como juiz federal contra Lula. Com isso, foram anuladas ações dos casos tríplex, sítio de Atibaia e Instituto Lula pela Lava Jato.
Diferentes pontos levantados pela defesa do petista levaram à declaração de parcialidade, como condução coercitiva sem prévia intimação para oitiva, interceptações telefônicas do ex-presidente, familiares e advogados antes de adotadas outras medidas investigativas e divulgação de grampos.
A ida para uma cadeira no ministério de Bolsonaro também pesou, assim como os diálogos entre integrantes da Lava Jato obtidos pelo site The Intercept Brasil e publicados por outros veículos de imprensa, como a Folha, que expuseram a proximidade entre o juiz e os procuradores da Lava Jato.
Em resumo, Moro indicou testemunha que poderia colaborar para a apuração sobre Lula, orientou a inclusão de prova contra um réu em denúncia que já havia sido oferecida pelo Ministério Público Federal, sugeriu alterar a ordem de fases da Lava Jato e antecipou ao menos uma decisão judicial.
O ex-magistrado sempre repetiu que não reconhece a autenticidade das mensagens, mas que, ainda que fossem verdadeiras, não contêm ilegalidades.
O evento foi realizado no centro de convenções Ulysses Guimarães e foi marcado por certa desorganização, atraso e ausência de atores políticos relevantes.
Presidentes dos principais partidos de centro e centro-direita, por exemplo, não compareceram. PSDB e MDB enviaram representantes.
Entre as figuras de mais destaque, estavam o pré-candidato à Presidência Luiz Henrique Mandetta (DEM), o general Santos Cruz —ex-aliado de Bolsonaro e hoje desafeto—, líderes do Movimento Brasil Livre —os deputados federal Kim Kataguiri (DEM-SP) e estadual Arthur do Val (Patriota-SP)—, os deputados federais Joice Hasselman (PSDB-SP), Marcel van Hattem (Novo-RS) e Luís Miranda (DEM-DF), além do empresário Paulo Marinho (PSDB), que atuou na campanha de Bolsonaro em 2018 e hoje também está rompido.
"Vim prestigiar, importante a presença do ex-ministro nesse cenário de eleição. Ele traz a mensagem de combate à corrupção, deixada de lado pelo capitão [Bolsonaro]", disse Marinho, que ponderou, entretanto, que seu candidato a presidente é o governador João Doria (PSDB-SP).
"Está todo mundo colocando os cavalinhos na pista, vamos ver quem vai se destacar mais", afirmou Arthur do Val. Miranda disse que Moro é o seu candidato.
Santos Cruz disse que deve se filiar também ao Podemos no futuro e que ainda não sabe se sairá candidato a algum cargo. Mas pregou a necessidade de rompimento da polarização eleitoral entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro, que caminha para se filiar ao PL.
"Continuar qualquer um dos dois é continuar com os mensalões, orçamentos secretos e shows na avenida paulista", afirmou.
Da equipe que participou da Lava Jato, compareceu o procurador aposentado Carlos Fernando dos Santos Lima, hoje advogado e consultor em compliance. Deltan Dallagnol, coordenador da operação e que anunciou sua saída do Ministério Público no último dia 4, não foi visto.
Até entre integrantes do Podemos, Moro terá que vencer obstáculos. O deputado federal Bacelar (BA), da base de apoio do governo do PT na Bahia, que compareceu ao evento, disse que ainda é cedo para falar em candidatura presidencial do partido, mas que seguirá a orientação da legenda.
Falaram antes de Moro o senador Álvaro Dias (Podemos-PR), candidato à Presidência do partido em 2018 (ficou na nona colocação), e a presidente do Podemos, Renata Abreu.
"Os barões da corrupção querem sequestrar a narrativa dizendo que o Moro julgou por interesses políticos. Não venham dizer que Sergio Moro julgou por interesses políticos. Julgou pelo país, pela democracia, julgou e condenou aqueles que roubaram não apenas os recursos públicos, mas os sonhos e esperanças de vida melhor do povo brasileiro", discursou o senador.
"A mudança do nosso país depende de cada um de nós. Não adianta mais votar no rouba, mas faz, no poulismo barato", discursou Renata.
A filiação de Moro ao Podemos representa a formalização do pontapé inicial de uma possível candidatura presidencial e mais um degrau de sua migração do mundo jurídico para a política —trajetória que, segundo seus inúmeros críticos, começou ainda sob a toga de juiz.
Moro foi o responsável pelo julgamento dos casos da Lava Jato na 13ª Vara de Curitiba, incluindo a condenação que acabaria por levar à prisão e barrar a candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Pouco mais de um ano após essa decisão, Moro aderiu formalmente ao grupo que derrotou o PT na disputa eleitoral, trocando a magistratura pelo Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro.
A aceitação do convite foi tornada pública no dia 1º de novembro de 2018, apenas quatro dias depois da vitória eleitoral do futuro chefe.
Em entrevista dias após aceitar o convite, Moro rebateu as críticas dizendo não pautar sua vida com base na "fantasia" de que perseguiu Lula politicamente.
"Sei que alguns eventualmente interpretaram a minha ida como uma espécie de recompensa. É algo absolutamente equivocado, porque minha decisão [que condenou Lula] foi tomada em 2017, sem qualquer perspectiva de que o então deputado federal [Bolsonaro] fosse eleito presidente da República."
O ex-xerife da Lava Jato assumiu a nova função com fama de superministro indemissível, mas com o decorrer do tempo acumulou recuos e derrotas.
Seu pacote de mudanças na legislação com o objetivo declarado de coibir a corrupção e o crime, por exemplo, foi desfigurado pelo Congresso, com o aval de Bolsonaro. Ao sancionar a lei, o presidente ignorou a maioria dos pedidos de veto de Moro.
O Em Frente Brasil, programa de tentativa de redução da criminalidade que pretendia tornar bandeira de sua passagem pelo ministério, acabou em fracasso.
Após um processo de desgaste contínuo, o ex-juiz acabou pedindo demissão em abril de 2020, em meio a acusações de que Bolsonaro tentava interferir indevidamente na Polícia Federal.
No final de 2020 a empresa de consultoria global de gestão de empresas Alvarez & Marsal, administradora judicial do processo de recuperação do Grupo Odebrecht, um dos principais alvos da Lava Jato, anunciou a contratação do ex-juiz como sócio-diretor para atuar na área de disputas e investigações.
Na última vez em que teve seu nome testado pelo Datafolha, em maio, o ex-juiz atingiu 7% de intenções de voto para presidente. Lula tinha 41% e Bolsonaro, 23%.



