No Ceará, governistas e opositores travam batalha nos bastidores pelo União Brasil
Escrito por Inácio Aguiar, O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
A pouco menos de um ano da Eleição 2022, membros dos dois principais grupos políticos com atuação no Ceará, que devem disputar o governo do Estado, travam uma batalha nos bastidores para conseguir o controle do diretório estadual do União Brasil – gigante partido que surge da fusão entre DEM e PSL.
Todos que acompanham a política cearense devem estar atentos às definições da nova legenda no Ceará, pois será parte significativa das definições com vistas ao próximo pleito.
No mês passado, o comando nacional dos dois partidos anunciou a fusão das duas siglas, formando o maior partido em atuação na Câmara dos Deputados, inicialmente, com 82 deputados federais. Para se ter uma ideia do tamanho do novo conglomerado, a segunda bancada passa a ser a do PT, com 52, atualmente.
Na onda do bolsonarismo em 2018, o PSL acabou fazendo a segunda maior bancada na Câmara, com 52 parlamentares eleitos. Atrás apenas do PT, com 54 membros eleitos então.
Mas porque estamos falando sobre as bancadas eleitas à Câmara Federal? É fácil de entender. Este é o critério de distribuição de fundo eleitoral e também do tempo de propaganda no rádio e na TV, ativos estratégicos para as próximas eleições, o que aumentam ainda mais o peso do União Brasil no cenário nacional e nas disputas pelos governos estaduais.
SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS
Nacionalmente, PSL e DEM mantém uma linha de atuação semelhante, do ponto de vista ideológico. São partidos do campo político de direita. Entretanto, a realidade das legendas nos estados é heterodoxa. Caso do Ceará.

Por aqui, o DEM, comandado pelo ex-deputado Chiquinho Feitosa, é aliado do grupo governista comandado pelo PDT. Já o PSL, faz frontal oposição aos governistas, estando controlado por adversários de Camilo Santana e Cid Gomes, como deputado federal Capitão Wagner.
Está aí o ponto central da disputa. A nova legenda será comandada por Chiquinho Feitosa ou por Wagner? Os dois atuam, nos bastidores, com as armas que têm para manter o comando do Partido. E com ajuda dos respectivos aliados.
Naturalmente, as tratativas de Wagner ocorrem mais pelo lado do PSL, com Luciano Bivar. Antes da fusão, havia um compromisso de Wagner – hoje no Pros – migrar para a legenda.
Feitosa, por sua vez, se movimenta com mais desenvoltura do lado do Democratas, junto ao presidente nacional ACM Neto.

Esta coluna apurou que o deputado Capitão Wagner já formalizou o pedido para ficar com o diretório local da legenda e apresentou o projeto que envolve uma candidatura competitiva ao governo do Estado no próximo ano e também a filiação de deputados federais com mandado à nova legenda, União Brasil.
Chiquinho Feitosa, por sua vez, está em negociações e diz ter um tipo de acerto sobre o assunto. O mais novo trunfo dele é a posse no mandato de senador, em substituição a Tasso Jereissati (PSDB), que se licencia por quatro meses. Assim, Chiquinho ganha envergadura para a disputa interna na nova legenda.
ESTRATÉGIA GOVERNISTA
Esta coluna ouviu de interlocutores de Feitosa que há previsão de um próximo encontro no dia 4 de novembro, quinta-feira, data em que ele já estará no cargo de senador. Essa reunião poderá ser decisiva.
Lideranças do grupo governista já trabalham para montar a estratégia de migração de parlamentares federais com mandato para a nova legenda.
Pelas contas dos aliados cearenses do grupo governista, o partido, sozinho, deverá ter 1 minuto e 40 segundos de tempo, no bolo de 10 minutos.
A propaganda e o fundo eleitoral gordo são motivos da disputa acirrada entre os grupos.
CENÁRIO DA OPOSIÇÃO
Se para os governistas trazer o União Brasil pode ser estratégico, mais ainda será para a oposição. Garantir o gigante do partidarismo brasileiro poderá dar uma nova condição a Capitão Wagner e seus aliados, o que pode ser vital para as pretensões de candidatura ao governo do Estado.
Assim como ocorreu na Eleição 2020 para a Prefeitura de Fortaleza, também haverá dificuldade para o Capitão atrair mais partidos de peso para sua empreitada. Até porque o grupo governista local tem feito novas investidas para atrair lideranças e partidos para a base que já tem um bolo com mais de 10 legendas.
Nos próximos dias, as disputas terão novos capítulos.
Como a junção de partidos em federações pode impactar legendas no Ceará
Dirigentes partidários cearenses apontam que, com a aprovação das federações partidárias para a eleição de 2022, ainda existem muitos obstáculos para a definição dessas uniões temporárias entre as legendas. Entre os elementos que atrapalham, está o caráter nacional da federação, que ignora as conjunturas e alianças estaduais.

Ao Diário do Nordeste, lideranças políticas ressaltaram que outro elemento a ser levado em consideração são as eleições de 2024. Como as federações têm duração mínima de quatro anos, siglas que optarem por essa união, também irão marchar juntas na disputa municipal - o que nem sempre é vantajoso para todas os partidos.
Por conta disso, apesar das conversas já terem se iniciado - principalmente, entre as Executivas nacionais -, os cearenses apontam que qualquer definição deve ficar para o início de 2022.
Ainda assim, as federações são consideradas alternativas após o fim das coligações para as eleições proporcionais. Com a cláusula de barreira ameaçando partidos que não conseguirem um bom desempenho nas disputas proporcionais de 2022, as federações são vistas como forma de fortalecer as chapas de deputado federal e estadual para o próximo ano.
"É uma válvula de escape, agora que se tirou as coligações", afirma o deputado federal e presidente estadual do Solidariedade, Genecias Noronha. Outro ponto que atrai as legendas, é que cada partido mantém a ideologia e identidade própria, apesar da união.
IMPASSE PARA UNIÃO
Uma das conversas iniciadas, em Brasília, envolve MDB, Avante e Solidariedade. Dirigentes dos três partidos conversam sobre a possibilidade de união temporária por meio da federação.
"Está bem adiantado (o processo)", afirma o ex-senador e presidente do MDB no Ceará, Eunício Oliveira. "É importante porque aumenta o tamanho do partido, você vai somar à sua legenda outros dois partidos que não são partidos que criam problemas com o MDB".
Genecias Noronha confirma as conversas, mas garante que a definição deve sair apenas "no último minuto do segundo tempo". Isto porque, tanto para o Solidariedade como para o Avante, existem algumas preocupações quanto uma federação junto ao MDB.
Noronha explica que um dos problemas em vista é a disputa municipal, inclusive para o Ceará. "O que pode dar ruim é a eleição de prefeito. O MDB é um partido maior, que tem mais candidatos e pode confrontar com o nosso", afirma.
Antes de bater o martelo, o Solidariedade tem realizado pesquisas sobre os cenários estaduais de cada partido. Diálogos com outros partidos, como o PCdoB, também estão sendo feitos, completa Noronha.
DISPUTA PRESIDENCIAL
Outra dificuldade encontrada é quanto ao apoio na disputa presidencial em 2022. Partidos têm a opção de liberar os diretórios de cada estado para apoiar o candidato mais bem posicionado naquela região, por exemplo.
O mesmo não pode ser feito em partidos que resolverem se unir em uma federação: a abrangência nacional desse mecanismo impõe posicionamento único quanto à candidatura presidencial.
Isso deve ter um peso ainda maior na negociação entre o PP, o PL e o Republicanos para união em uma federação. Isto porque o presidente Jair Bolsonaro vem afirmando a aliados que tem 99% de chances de acertar sua filiação ao PP para a disputa de 2022.
Além disso, os três partidos também estão em lados opostos no Ceará. Enquanto PP e PL fazem parte da base aliada ao governador Camilo Santana, o Republicanos integra a oposição e deve apoiar a pré-candidatura do deputado federal Capitão Wagner (Pros) ao Palácio da Abolição.
Presidente do Republicanos no Ceará, o vereador Ronaldo Martins considera baixas as chances do partidos se unir em uma federação para 2022. Embora admita que a legenda tem sido procurada para diálogos sobre assunto, ele não confirma por quais partidos.
"O partido está se estruturando para sair com chapas puras em todos os estados", afirma o parlamentar. Qualquer definição sobre uma união temporária deve ficar para o próximo ano, mas ele afirma que para o Ceará, o melhor cenário é não formar federação.
"Aqui para a gente, o melhor é chapa pura. Porque, o que pode ser bom para o Sul, não é bom pra cá. Um partido que é bom no Ceará (para fazer federação), não é bom em outro estado. É ruim a federação sendo de cima para baixo, porque cada estado tem uma realidade".Ronaldo MartinsPresidente do Republicanos no Ceará
A reportagem também procurou o presidente do PP no Ceará, o deputado federal AJ Albuquerque, e o presidente do PL, Acilon Gonçalves, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.
SOBREVIVÊNCIA DOS PARTIDOS
Outras siglas de centro e esquerda também iniciaram as conversas sobre a formação de federações em 2022. Presidente do Cidadania em Fortaleza, Michel Lins afirma que a conversa com o PV está bastante avançada, mas não descarta união com outros partidos.
"Com o rumo mais encaminhado está a construção com o PV, mas estão havendo outras definições. Têm conversas com a Rede e com outros partidos, mas ainda está muito no começo, muito superficiais".Michel LinsPresidente do Cidadania Fortaleza
Segundo ele, não existe nenhuma preocupação quanto a uma união temporária, mas a definição deve sair apenas no começo do próximo ano.
O presidente do PV no Ceará, Marcelo Carvalho, afirma que ainda há resistências à formação da federação dentro do partido. "Não estamos muito simpáticos, existem muitas dúvidas. Mas a nossa perspectiva é tomar uma decisão em que seja assegurada a sobrevivência do partido", ressalta.
Um dos pontos que deve ser levado em consideração, completa, é o apoio ao ex-presidente Lula (PT) na disputa presidencial - que tem sido defendido por ala do PV a nível nacional.
Apesar dos diálogos entre Cidadania, Rede e PV - para a formação de uma federação - já terem sido citados pelos dirigentes nacionais do Cidadania e do PV, o porta-voz nacional da Rede, Wesley Diógenes explica que ainda não ocorreram conversas oficiais.
"Ainda vai ser discutido internamente, talvez no começo do próximo ano. A tendência do partido é que não faça federação", afirma. Segundo ele, a meta da legenda tem sido "tentar sobreviver só" à cláusula de barreira na eleição do ano que vem. Ele cita como principal obstáculo os cenários estaduais.
"Do ponto de vista da teoria, as federações foram um avanço, porque possibilita partidos mais identitários manterem a autonomia e apresentarem projeto conjunto no país. Mas, do ponto de vista da vida prática, temos as realidades de cada estado. E a correlação de forças nos estados é diferentes".Wesley DiógenesPorta-voz do Rede Sustentabilidade
DIÁLOGOS NA ESQUERDA
Um dos maiores apoiadores da proposta que instituiu as federações partidárias, o PCdoB também iniciou conversas com partidos sobre essa união temporária. O presidente da legenda no Ceará, Luis Carlos Paes, diz que não há dúvidas de que a sigla irá integrar uma federação.
"Não é apenas para beneficiar pequenos partidos que correm risco com a cláusula de barreira - o que também é verdade. A federação é mais ampla que isso", ressalta. "Não vai ser um partido sozinho que vai poder construir um novo projeto de desenvolvimento, é uma tarefa para diversos partidos políticos".
Segundo ele, o PCdoB iniciou os diálogos com todas as siglas com semelhanças no projeto político - como PSB, Rede, PDT, PV, dentre outras. A definição, contudo, deve ficar para janeiro ou fevereiro do próximo ano, completa. COM DIARIONORDESTE
Auxílio Brasil de Bolsonaro também é ‘Auxílio Centrão’; leia análise
23 de outubro de 2021 | 05h00
Conforme avança o processo de corrosão (lento, porém contínuo) de seu governo, Jair Bolsonaro observa o surgimento de obstáculos adicionais na corrida com barreiras que o separa da verdade das urnas.
O mais recente deles é convencer o Centrão de que ainda possui “capacidade eleitoral”, termo usado por um dos líderes do bloco parlamentar para explicar a desconfiança quanto ao futuro do presidente. Trocando em miúdos, a pergunta é: Bolsonaro ainda tem chances de ser reeleito em 2022?
A reposta, em política, muitas vezes interessa menos do que a pergunta. Fragilizado, o presidente torna-se ainda mais refém do Centrão, seja porque Arthur Lira (Progressistas-AL) possui o poder de abrir um processo de impeachment, seja porque a partir de agora, sem o Auxílio Brasil turbinado, Bolsonaro corre o risco de ver o Centrão na campanha de seus adversários.
Qual a “solução” encontrada pelo Centrão e pelo Planalto para incrementar a “capacidade eleitoral” de Bolsonaro? Distribuir dinheiro, ideia nada criativa e de fortes efeitos colaterais nas contas públicas, mas que, no imaginário político, está para os moribundos eleitorais como a poção mágica do druida Panoramix para Asterix. Porém, diferentemente do mundo das HQs, nada garante que Bolsonaro conseguirá esmagar seus inimigos. Com o preço da gasolina beirando R$ 7,50 em várias regiões do País e com 600 mil mortes por covid-19 no seu lombo, o presidente precisará de muito mais do que distribuir dinheiro. Certo, por enquanto, é que o Centrão fará bom uso do auxílio (pois já o fez nos governos petistas) em suas “bases” para, no futuro, quem sabe, barganhar apoio a outro presidente.
O diabo não desiste - O ESTADO DE SP
24 de outubro de 2021 | 03h00
Desde que o PT precipitou a maior crise econômica, política e moral da Nova República, a população esperou em vão por um mísero mea culpa. Após o impeachment de Dilma Rousseff, a única bandeira a unificar seus correligionários foi a denúncia ao “golpe”, logo substituída pelo slogan “Lula Livre”. O PT se opôs a reformas modernizantes como a da Previdência, opõe-se a outras, como a administrativa, e não oferece alternativas construtivas aos desmandos que acusa. Em campanha eleitoral, o partido se mostra incapaz de propor uma agenda positiva para o futuro, muito menos de reconhecer os erros do passado. Ao contrário, afirma que vai repeti-los, por exemplo, implodindo o teto de gastos que estancou a hemorragia fiscal deflagrada no governo Dilma Rousseff.
Ainda pior, o PT não só pretende repetir seus erros de gestão, como julga ter poder de apagar os crimes dos quais foi cúmplice. Em entrevista coletiva, a sua presidente, Gleisi Hoffmann, afirmou que nunca houve “corrupção sistêmica”, superfaturamento ou desvio de dinheiro na Petrobras.
Boa parte desses delitos foi confessada pelos próprios delinquentes, que devolveram bilhões desviados à Petrobras. Com base em uma auditoria da PriceWaterhouseCoopers, a própria Petrobras admitiu no balanço de 2014 que US$ 2,5 bilhões foram pagos a mais a “um conjunto de empresas que, entre 2004 e abril de 2012, se organizaram em cartel para obter contratos com a Petrobras, impondo gastos adicionais nestes contratos e utilizando estes valores adicionais para financiar pagamentos indevidos a partidos políticos, políticos eleitos ou outros agentes políticos, empregados de empreiteiras e fornecedores, ex-empregados da Petrobras e outros envolvidos no esquema de pagamentos indevidos”.
Segundo Gleisi Hoffmann, a PriceWaterhouse foi obrigada pela Lava Jato a atestar as perdas. Não há evidências disso. Por outro lado, é notório que à época o PT pressionou a diretoria da Petrobras comandada por Maria das Graças Foster, executiva de confiança de Dilma Rousseff, a não publicar os dados auditados, levando a um impasse e finalmente à renúncia de Foster e outros diretores. Depois, a Petrobras participou dos processos judiciais como assistente de acusação do Ministério Público, recuperando mais de R$ 6 bilhões superfaturados pelos cartéis.
O Tribunal de Contas da União (TCU), atuando independentemente da Lava Jato, expôs uma série de ilicitudes nos contratos da Petrobras. Na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, por exemplo, o TCU identificou que o orçamento inicial de US$ 13,4 bilhões foi majorado para US$ 26,3 bilhões. Ao mesmo tempo que o custo final foi dobrado, a refinaria produz apenas metade dos 230 mil barris de petróleo inicialmente previstos. O TCU estimou que as perdas da Petrobras apenas em Abreu e Lima acumularam US$ 19 bilhões.
Similarmente, o TCU verificou que a torre Pirituba, em Salvador, inicialmente orçada em R$ 320 milhões, foi construída pela OAS e a Odebrecht por R$ 1,3 bilhão, e que a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – jamais concluída – gerou perdas de US$ 12,5 bilhões.
É conhecida a candura com que a ex-presidente Dilma Rousseff expôs os métodos petistas: “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”. Ironicamente, o PT, ciente de que ninguém fez mais do que Dilma para arruinar o suposto legado de Lula, a incluiu no rol dos erros a serem esquecidos. O ex-poste de Lula é hoje uma ausência garantida nos discursos e comícios do demiurgo de Garanhuns.
Lula, por sinal, afetou melindres em suas redes sociais: “Eu sou de um tempo onde a disputa era apenas eleitoral. Você não estava numa guerra. Seu adversário não era um inimigo”. Que o diga a ex-petista Marina Silva, sordidamente vilanizada pelos marqueteiros do PT nas campanhas de 2014, ou todos os brasileiros vilipendiados como “fascistas” simplesmente por recusarem o culto a Lula da Silva.
O despudor com que o PT tenta reescrever a história do País para edulcorar sua trágica passagem pelo poder rivaliza com o sistemático embuste bolsonarista, o que permite prever que a campanha de 2022, mantido o favoritismo de Lula e Bolsonaro, fará corar o próprio Pinóquio.
Sem mea-culpa, PT pode derrotar Bolsonaro, mas não o bolsonarismo
O PT está se organizando para enfrentar as acusações de corrupção que recaem sobre o partido mirando as eleições de 2022. Seus políticos estão sendo treinados para rebater as acusações, e o partido recentemente publicou um manual para treinar os militantes.
Se, por um lado, se trata apenas de uma estratégia (legítima) para disputar a opinião pública em período pré-eleitoral, nos seus efeitos a iniciativa dará sobrevida a um antipetismo radicalizado. O PT está olhando demais para os resultados eleitorais de curto prazo e muito pouco para como sua postura de não assumir os erros políticos alimenta a intolerância e radicaliza a direita.
O partido tem todo o direito de denunciar a perseguição judicial de que foi vítima, muito bem documentada na série de reportagens conhecida como Vaza Jato. Não foi à toa que as condenações do ex-presidente Lula foram anuladas. Mas também não há sombra de dúvida de que, durante as administrações petistas, houve conluio entre a Petrobras e um pool de empreiteiras que desviou bilhões de reais para políticos.
Não foi provado que Lula organizou ou mesmo que tinha ciência do desvio, mas seguramente o ex-presidente tem responsabilidade política por um ato de corrupção dessa magnitude ter acontecido durante seu governo.
A estratégia argumentativa que o PT está adotando é embaralhar os fatos, usando a perseguição judicial para jogar fumaça sobre a montanha de evidências de corrupção na Petrobras. Essa estratégia pode reduzir as resistências a Lula junto a alguns eleitores hesitantes, mas também enfurecerá e radicalizará bolsonaristas e outros antipetistas que já sentem que a anulação das condenações de Lula representa uma vitória da impunidade.
Por um lado, a estratégia ajuda o PT nas eleições de 2022; por outro, consolida a polarização política que envenena o país.
A polarização tem efeitos eleitorais relevantes, mas não é um fenômeno eleitoral. É uma dinâmica que toma a sociedade civil e faz com que dois segmentos do público se radicalizem, se fanatizem e se tornem intolerantes um com o outro. Nem sempre a polarização é simétrica, com os dois lados adotando posturas políticas antidemocráticas —mas ela sempre é relacional. Cada movimento de um campo repercute no outro. É por isso que as ações do PT têm enorme impacto na estruturação da extrema direita.
A postura que o PT decidiu adotar para as eleições de 2022 não é o único caminho —e certamente não é o melhor. O partido poderia reconhecer que houve corrupção grave durante seu governo e se comprometer a não deixar que isso volte a acontecer. Um mea-culpa honesto como esse não ganharia um único voto governista, mas distensionaria o ambiente e esmoreceria o antagonismo antipetista.
É preciso lembrar que a oposição tem uma dupla tarefa, uma eleitoral, outra com a sociedade civil. Não basta derrotar eleitoralmente Bolsonaro; é preciso também desmontar as condições políticas que fizeram a extrema direita emergir como força política relevante.

Por Pablo Ortellado / O GLOBO


