Flávio vira negociador eleitoral de Bolsonaro com União pelo Brasil e Pros
07 de dezembro de 2021 | 05h00
BRASÍLIA – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) virou uma espécie de negociador eleitoral do pai, o presidente Jair Bolsonaro, nas costuras de alianças para a eleição de 2022. Nesse papel, Flávio participou das discussões mais detalhadas e reservadas com o Partido Liberal (PL) e agora vai avançar com outros partidos. Um dos que está na mira de Flávio é o PROS. O senador também quer destravar a relação com o União Brasil, junção do DEM com o PSL.
Na diplomacia, a função precursora desempenhada por Flávio é conhecida pelo jargão de “sherpa”. O termo deriva dos guias que conduzem alpinistas em escaladas nas montanhas no Nepal e que abrem os caminhos e carregam a carga de expedições.
Flávio se aproximou de Eurípedes Júnior, o presidente nacional do PROS. Num telefonema, convidou o cacique do PROS para a cerimônia de filiação de Bolsonaro ao PL, mas ele disse que estava fora de Brasília e não chegaria a tempo.
O partido é uma das legendas que costuma se comportar como parte do Centrão no Congresso, mas se aliou a candidaturas do PT nas últimas duas eleições presidenciais. Em 2014, apoiou a então presidente Dilma Rousseff e, em 2018, o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.
“O PROS é um partido que está votando tudo com a gente”, disse Flávio.
Flávio também quer rediscutir as chances de aliança com o União Brasil. Próceres da legenda, como o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, rejeitam em público apoiar Bolsonaro e discutem uma candidatura própria ou alternativa na terceira via, mas a maioria dos parlamentares admite apoiar Bolsonaro, como mostrou o Estadão.
“Agora é a política, vamos sentar para conversar. A gente tem candidatos em todos os Estados, mas essa aliança vai fazer com que a gente discuta um por um para ver, onde puder caminhar juntos vamos estar. O Neto sempre teve essa boa vontade do presidente, mas nunca foi recíproca, explícita essa boa vontade de caminhar juntos”, afirmou o senador.
A cúpula do Centrão estava à mesa na cerimônia de filiação do presidente ao PL, com os caciques do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), e do Progressistas, ministro Ciro Nogueira (Casa Civil). A presença é um esboço do que seria o núcleo duro da aliança rumo a 2022, mas há pendências a serem resolvidas, como a disputa pelo cargo de vice.
Pessoas com acesso às conversas dizem que Flávio encaminha discussões como montagem de palanques e de chapas regionais, para candidaturas a deputado, senador e governador. Também cuida de interesses como o controle de diretórios. É o presidente Bolsonaro, porém, quem bate o martelo.
Flávio fez conversas prévias com Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. Ele levou projeções de cálculos votos, para verificar as chances de reeleição de deputados que ingressarão no PL e dos que já estão na sigla, por exemplo.
O senador disse ao Estadão que ainda não há acordo sobre o rateio do fundo eleitoral entre parlamentares do PL e os que ingressarão na legenda pelas mãos de Bolsonaro. A chefe do cofre, pela lei, é da direção nacional, controlada por Costa Neto.
A legenda deve ter cerca de R$ 120 milhões do fundão à disposição. A tendência, segundo Flávio, é que o comando do PL privilegie os que demonstrarem mais chances de se eleger. “Não tem dinheiro para todo mundo”, disse o senador.
Também parte de Flávio a linha mestra dos discursos para a base bolsonarista. Ele foi o responsável pelo tom mais agressivo contra pré-candidatos rivais, como Sérgio Moro (Podemos) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Flávio chamou Moro de “traidor” e Lula de “ladrão” e “ex-presidiário”, quando estava no palco ao lado de Valdemar Costa Neto, que foi condenado e preso no mensalão quando era base do governo petista. Ao Estadão, porém, Flávio já havia antecipado que considera o passado do mandachuva do PL somente uma “cicatriz”.
Incógnitas eleitorais
À medida que nos aproximamos das eleições de 2022, alguns pontos vão se tornando mais claros. Uma definição importante recente foi a decisão do ex-juiz Sergio Moro de se filiar ao Podemos. Com isso, ele confirma sua disposição para concorrer ao Palácio do Planalto no próximo ano. Outras questões permanecerão em aberto por algum tempo. Uma delas diz respeito à capacidade do presidente Jair Bolsonaro de recuperar parte da popularidade perdida. O índice que considera sua administração “ruim” ou “péssima” supera a casa dos 60%. É um percentual alto para quem busca a reeleição. Essa recuperação dependerá, em grande parte, da economia. O comportamento da inflação, o desemprego, os preços dos combustíveis influenciarão a avaliação do governo como um todo.
Outro aspecto que pode ser significativo é a escolha do vice do ex-presidente Lula (PT). Em 2002, Lula fez um revelador aceno ao setor empresarial quando escolheu para o posto o empresário José de Alencar, o que ajudou a reduzir sua rejeição junto ao establishment. Neste momento, Lula busca atrair o eleitor de centro. O nome do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin tem sido cogitado como uma possibilidade. Outros nomes aventados foram o de Henrique Meirelles e o de Luiza Trajano, que já declarou não pretender entrar na política. Como o vice de Lula, o vice de Jair Bolsonaro será um fator que poderá ter influência na corrida sucessória. Lula admitiu que seu vice pode ser alguém do Nordeste (região onde ele apresenta melhor desempenho nas pesquisas de intenção de voto) ou de Minas Gerais (segundo maior colégio eleitoral do País). Ainda há chance de ser Hamilton Mourão, mas a probabilidade é cada dia mais baixa.
O apoio de partidos que integram o chamado centrão também é incerto e pode pesar na corrida sucessória. Em 2018, o apoio do bloco, muito associado à Operação Lava-Jato, foi considerado extremamente negativo para Alckmin, que obteve menos de 5% dos votos válidos. A tendência é de que a maior parte do Centrão (PL, PP e Republicanos) apoie Bolsonaro. Mas ainda não há clareza sobre a intensidade desse apoio. Vale ressaltar a viabilidade de uma terceira via. Moro, depois de sua filiação ao Podemos, atingiu em torno de 12% das intenções de voto, de acordo com trackings disponíveis. A grande dúvida, porém, é se a terceira via conseguirá superar Lula e/ou Bolsonaro a ponto de garantir uma vaga em um quase certo segundo turno. O tumultuado processo de escolha do candidato presidencial do PSDB gera uma grande incerteza sobre o grau de unidade do partido em 2022, o que pode, pela sexta vez, resultar em mais uma derrota para a legenda no plano federal.
Cristiano Noronha / ISTOÉ
Com votos decisivos, oposição garante sobrevida ao governo Bolsonaro
Danielle Brant / FOLHA DE SP
São quase 36 meses de Bolsonaro no Palácio do Planalto, o que significa quase 75% do mandato para o qual o presidente foi eleito. Com exceção da CPI da Covid, a oposição teve poucos momentos de protagonismo no atual governo.
Pior. Recorrentemente, partidos de esquerda ajudam a salvar o governo do precipício. Para pegar um exemplo recente, a PEC (proposta de emenda à Constituição) dos Precatórios foi aprovada no Senado com votos de cinco dos seis integrantes da bancada do PT.
O episódio levou o presidenciável Ciro Gomes (CE), do PDT, a dar declarações curiosas à coluna Painel. Ciro, que busca se vender como opção à polarização entre Lula e Bolsonaro, acusou o petista de dar força "para a candidatura moribunda do Bolsonaro se manter acesa".
Seria uma leitura política válida —sem entrar no mérito da miopia que é defender a rejeição de uma PEC que libera recursos para famílias pobres só para prejudicar o governo. Seria, não fosse o PDT de Ciro o partido que deu os votos decisivos na Câmara para que a proposta chegasse ao Senado.
Na votação do primeiro turno, o partido deu 15 votos favoráveis ao texto. A PEC foi aprovada por 312 votos, só quatro a mais que o mínimo necessário. O que permite dizer com segurança que a proposta cuja aprovação Ciro atribui agora ao PT foi, na verdade, viabilizada pelo seu PDT.
No outro tiro que deu, quando acusou o partido de Lula de ter dado o "voto decisivo para o absurdo orçamento secreto", o pedetista acertou. Afinal, o voto do senador Rogério Carvalho (SE) efetivamente desempatou a votação que regulamentou as emendas de relator, moedas de troca do governo.
De resto, é de se fazer coro ao presidenciável do PDT e se perguntar até que ponto essa "ajuda amiga" do PT não seria uma estratégia para levar Bolsonaro ao segundo turno, cenário em que uma vitória da oposição é tida como mais segura do que com o ex-juiz Sergio Moro, recém-filiado ao Podemos.

ANÁLISE DA VOTAÇÃO EM CIRO GOMES NO 1º TURNO DE 2018
Por Miguel do Rosário / O CAFEZINHO

Uma avaliação objetiva da força dos candidatos a presidente da república deve olhar sobretudo para seu desempenho no 1º turno, quando os eleitores puderam votar de maneira propositiva, de olho nas propostas específicas de cada um, e não tanto como cálculo para evitar a vitória do candidato que rejeita.
A força de Bolsonaro é incontestável. O candidato quase venceu no primeiro turno, quando obteve 49 milhões de votos, 46% do total.
Haddad, herdeiro do lulismo, recebeu 31,3 milhões de votos, ou 29% do total.
Entretanto, o foco deste post é analisar o tamanho e a diversidade do eleitorado de Ciro Gomes, terceiro colocado, a partir de alguns segmentos geográficos e sócio-econômicos onde ele obteve resultados relevantes.
Os dados mais importantes, naturalmente, são os números do TSE, estratificados por município e estado. Mas também vamos olhar a pesquisa eleitoral mais recente, do Ibope, para termos uma noção da segmentação por renda, escolaridade e faixa etária.
Ciro obteve 13,3 milhões de votos no primeiro turno, ou 12% do total. Numericamente, é uma votação expressiva, sobretudo num ambiente tão polarizado como foi a eleição deste ano, onde candidatos com enorme tempo de tv, quantidade gigantesca de recursos financeiros, como Geraldo Alckmin, tiveram resultados pífios (menos de 5%). Marina Silva, que participou recentemente de outras eleições presidenciais, quando obteve números bem mais encorpados, terminou o primeiro turno com apenas 1 milhão de votos, ou 1% do total.
Guilherme Boulos, do PSOL, obteve uma votação nacional muito ruim, com apenas 617 mil votos, ou 0,58% do total; a culpa, no entanto, volto a dizer, foi menos de Boulos do que do ambiente radicalmente polarizado entre petismo x antipetismo que caracterizou o pleito.
A votação de Ciro, nessas circunstâncias, foi razoável; mesmo assim, foi menos da metade do que os 31 milhões de votos de Haddad, e muito distante dos 49 milhões de votos de Bolsonaro.
Mas o Brasil é muito grande e diverso. Uma análise política consistente só faz sentido se se debruçar pacientemente sobre os números estratificados.
Vamos começar pelo lugar onde Ciro obteve o seu melhor desempenho, Sobral, sua cidade natal, onde o candidato obteve 60% dos votos válidos no primeiro turno, ou 66 mil votos, contra 21% de Jair Bolsonaro e 16% de Haddad.
Em Fortaleza, capital do Ceará, o candidato também ganhou com tranquilidade no primeiro turno, com 40% dos votos válidos, ou 546 mil votos, contra 34% de Bolsonaro e 19% de Haddad.
Uma curiosidade. Em Fortaleza, Cabo Daciolo, com 24 mil votos, ficou à frente de Geraldo Alckmin, que teve apenas 15 mil votos; Boulos teve 7,7 mil votos na cidade.
O desempenho de Ciro também foi muito relevante no Rio de Janeiro, capital, onde obteve 19,5% dos votos, correspondentes a 646 mil votos. Nada perto de Bolsonaro, fenômeno popular incontestável no Rio, que ficou com 58% dos votos cariocas no primeiro turno, mas bem à frente de Haddad, que pontuou 12% na cidade. Boulos ficou com 0,84% dos votos cariocas.
Lembrarei sempre o voto de Boulos que é para termos uma noção do tamanho do eleitorado de esquerda nas cidades e regiões que analisamos.
No estado do Rio, Ciro também ficou em segundo lugar, com 15,2% dos votos válidos, mas praticamente empatado com Haddad, que obteve 14,7%. Bolsonaro fechou o primeiro turno com quase 60% dos votos fluminenses.
De maneira geral, o pedetista obteve uma votação razoável em algumas capitais importantes. Em Belo Horizonte, por exemplo, Ciro também ultrapassou o candidato petista e terminou o primeiro turno com 17,4% dos votos, contra 14,5% de Haddad; Bolsonaro obteve 55% em BH; Boulos, 0,68%.
Em São Paulo, capital, Ciro ficou em terceiro lugar, com 15% dos votos, contra 19,7% de Haddad e 44% de Bolsonaro, mas bem à frente de candidatos muito conhecidos no município, como Alckmin, que obteve 8,8% dos votos paulistanos, e Boulos, com 1,21%.
Em Brasília, Bolsonaro venceu o primeiro turno com 58,4% dos votos, seguido de Ciro, com 17% e Haddad, com 12%.
Em Curitiba, mais uma vez Ciro passou a frente do PT, e obteve 12% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais deste ano, contra 9% de Haddad; Bolsonaro ficou com 62% em Curitiba; Boulos, com 0,57%. Alvaro Dias, muito conhecido na capital do Paraná, obteve apenas 4% dos votos.
Em Porto Alegre, capital que o PT já governou mais de uma vez, e onde sempre obteve votação relevante, desta vez teve que dividir o eleitorado de esquerda meio a meio com Ciro, o qual obteve 19,37% dos votos na cidade, contra 20% de Haddad; Bolsonaro abocanhou 45% do eleitorado portoalegrense; Boulos, 1,36%.
Na bela e serena Florianópolis, Ciro Gomes novamente superou o candidato petista, obtendo 16% dos votos, contra 13% de Haddad; Bolsonaro ficou com 53%. Boulos, 1,83%.
Voltemos ao nordeste. Em Recife, Bolsonaro ganhou no primeiro turno, com 43% dos votos, seguido de Haddad, com 30% e Ciro, com 17%; Boulos recebeu 0,82% dos votos recifenses.
Em Natal, Bolsonaro venceu o primeiro turno com 44% dos votos. Reparem que a direita entrou com força no nordeste a partir de capitais como Recife e Natal. Ciro ficou em segundo, com 23,6%, seguido de Haddad, com 22,8%; Boulos ficou com 0,7%.
A força do lulopetismo é muito concentrada no interior do nordeste, onde, em muitas cidades, Haddad pontuou mais de 70% no primeiro turno.
Mais uma curiosidade. No Maranhão, por exemplo, há uma pequena cidade chamada Nova Iorque (!), onde Haddad obteve 77% no primeiro turno.
Em Vitória, capital do Espírito Santo, Haddad e Ciro ficaram com 18% e 15% dos votos no primeiro turno, respectivamente, contra 53% de Bolsonaro e 0,58% de Boulos.
Vamos olhar algumas cidades médias.
Em Juiz de Fora, o resultado no primeiro turno para Bolsonaro, Haddad e Ciro ficou em 45%, 23% e 20%.
Em Nova Friburgo, Bolsonaro teve votação arrasadora no primeiro turno, 63%; Ciro ficou em segundo, com 16%; Haddad, 10%; Boulos, 1%.
Em Niteroi, Bolsonaro venceu com 53%, seguido de Ciro, com 21%, e Haddad, com 14%.
Agora vamos passar para uma análises sócio-econômica, com base nos números da pesquisa boca de urna do Ibope, realizada em 7 de outubro, dia da votação. O Ibope chegou bem perto dos números reais: Bolsonaro ficou com 45%, Haddad 28%, Ciro 14% dos votos válidos. Os números oficiais do TSE para esses candidatos, quando as urnas foram contabilizadas, conforme lembramos acima, ficaram em 46%, 29% e 12%.
Nas estratificações abaixo, os números não se referem a votos válidos, e sim a votos totais.
Na estratificação por faixa etária, o melhor desempenho de Ciro Gomes se deu entre jovens até 24 anos, onde ele obteve 21%, praticamente empatado com Haddad, que ficou com 23%; nessa mesma faixa, Bolsonaro pontuou 37%.
Na estratificação por renda, Ciro Gomes venceu o segundo lugar entre eleitores com renda familiar acima de 5 salários, com 17% dos votos, contra 12% de Haddad. Bolsonaro pontuou 55% dos votos válidos nessa faixa. Isso explica um clima de “virada” que se alastrou entre eleitores de Ciro nos últimos dias antes do primeiro turno: era um movimento majoritariamente de classe média.
Na faixa de renda logo abaixo, de 2 a 5 salários, Ciro também teve um bom desempenho, ficando com 14% dos votos, quase empatando com Haddad, que pontuou 16%. Foi nessa faixa que Bolsonaro experimentou um crescimento expressivo às vésperas da votação, terminando com 52% dos votos totais.
Bolsonaro também se descolou de Haddad e avançou muito rapidamente nos últimos dias, antes do primeiro turno, entre eleitores com renda entre 1 e 2 salários, pontuando 42%, contra 26% de Haddad e 11% de Ciro.
A força de Haddad ficou muito concentrada no eleitorado com renda familiar até 1 salário, onde ele se distanciou no primeiro turno, com 44% dos votos, contra 26% de Bolsonaro e 10% de Ciro.
Na estratificação por escolaridade, o melhor desempenho de Ciro ficou entre os mais instruídos, com ensino superior, onde ele se descolou de Haddad e fechou em segundo lugar, com 21% dos votos totais. O petista ficou com 14% nesse segmento. Isso também explicaria o clima de “virada” às vésperas da votação. Nesta faixa, Bolsonaro ficou com 47%.
MIGUEL DO ROSÁRIO
Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
Entre duas armadilhas
04 de dezembro de 2021 | 03h00
O Brasil deve ser o único país onde duas armadilhas se engalfinham, cada uma querendo se sobrepor à outra.
O leitor está cansado de saber quais são as duas armadilhas a que me refiro; sou forçado a falar delas, embora minha preferência fosse escrever sobre alguma opereta. Falo, evidentemente, da “armadilha do baixo crescimento” e da polarização política que se configurou a partir da eleição presidencial de 2018.
Suponhamos que nossa renda anual por habitante ande pela casa dos US$ 10 mil anuais. O fato de estarmos aprisionados na “armadilha do baixo crescimento” significa que, mesmo crescendo 3% ao ano (hipótese remota), levaremos algo como 23,3 anos para duplicarmos essa renda ridícula e atingir o nível ainda ridículo de US$ 20 mil anuais. Com o sistema institucional, a máquina de Estado e a classe política que nos subjugam, é assaz duvidoso que tal milagre possa acontecer. Mas essa primeira parte da história já lhes contei uma dúzia de vezes. Passo à segunda, para evitar a monotonia.
Nosso sistema econômico permanece anêmico, incapaz de dar um passo substancial à frente. Robustez, no Brasil, existe é na miséria. Essa, sim, caminha a passos largos, só que, infelizmente, para trás. Pobre e brutalmente desigual nosso país sempre foi, mas, salvo se eu for um desmemoriado, certas coisas não me lembro de ter presenciado. Semanas atrás, em Araçatuba, grande e próspera cidade do oeste paulista, várias quadrilhas até então independentes associaram-se para assaltar a cidade, mantendo-a aterrorizada durante várias horas. Não me lembro de ter visto miseráveis comprando ossos que lhes sirvam como alimento na sopa da noite. No dia 29 de novembro, o canal UOL trouxe uma informação provavelmente mais corriqueira, mas que não posso deixar de mencionar no presente contexto: pessoas famintas desmaiando na fila enquanto esperam atendimento em postos de saúde.
São muitos os fatores que nos mantêm aprisionados na “armadilha do baixo crescimento”, mas não há dúvida de que outra armadilha entrou em cena, ao que tudo indica fazendo questão de nos garrotear com a mesma força da primeira. Refiro-me, aqui, à estrábica polarização política que se instalou entre nós desde a eleição presidencial de 2018, contrapondo, de um lado, um populista para quem esperteza é tudo o de que se necessita para governar um país e, do outro, um estulto que vive numa condição de permanente desnorteio. Volto a pedir desculpas por trafegar sobre o óbvio: falo, naturalmente, de um país que até o momento não descortinou uma saída para um desastre de muitos anos, na hipótese de o ringue de 2022 ser novamente ocupado por Bolsonaro e pelo PT (agora personificado por seu chefe, o sr. Luiz Inácio Lula da Silva). Se Bolsonaro for derrotado no primeiro turno e o restante da classe política se unir para afastar Lula no segundo, pode ser que nos qualifiquemos para grandes investimentos a partir de 2023. Pode ser.
Bruxas talvez não existam, mas retrocessos eu lhes asseguro que são uma ocorrência frequente nos cantos do mundo. As causas variam de um país a outro, mas os resultados são sempre muito parecidos: queda quase sempre abrupta no nível de vida da população, anarquia política, conflitos se multiplicando, violência e ditaduras. Essa história será, aliás, abundantemente relatada nas próximas semanas. O cenário será a Venezuela, outrora um dos países mais ricos da América Latina. O enredo, a revolução “bolivariana” deflagrada por Hugo Chávez e ainda hoje personificada por Nicolás Maduro. Pois bem, a história que vamos ouvir é a de que a outrora pujante Venezuela fechará o ano com a renda per capita mais baixa do hemisfério, atrás até do Haiti, que todos julgávamos imbatível nesse quesito.
As causas do desastre venezuelano são bem conhecidas. A perda de rumo dos dois principais partidos abriu o caminho para a eleição (em 1998) de um militar destrambelhado. Daí em diante, presenciamos o habitual cortejo de anarquia e liquidação das instituições políticas, o suficiente para a ascensão de Nicolás Maduro e seus fidelíssimos generais.
A destruição dos partidos políticos é uma parte invariável em tais tragédias, mas em nossa história ela sempre se apresentou com traços singulares. É que, em nosso caso, cada golpe levou de roldão todo o sistema partidário existente, não um ou dois partidos, mas todos eles. Assim foi na passagem do Império para a República e da República democrática para o ciclo militar iniciado em 1964, para ficarmos só nesses dois casos. A singularidade do presente quatriênio é que agora, sob a ação combinada da polarização política com a desfaçatez da maior parte da classe política, atingimos um patamar de ridículo que não julgávamos possível. Estamos com mais de 30 partidos registrados, número que certamente continuará subindo, e o impulso para tal vem dos próprios parlamentares: daqueles que elegemos para conferir coerência às ações do Estado e para exercer por nós o direito de representação, que só a nós pertence.
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SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS


