Moro coloca em risco candidatura de Ciro Gomes, avaliam políticos e pedetistas
Para lideranças partidárias, o avanço da possível candidatura de Sergio Moro (Podemos) atinge o núcleo da campanha de Ciro Gomes (PDT) e pode feri-la de morte.
De acordo com essa leitura, compartilhada inclusive por pedetistas ouvidos pelo Painel, o ex-juiz ocupa o espaço que Gomes tenta cavar para si: o de crítico de Lula (PT) e de Jair Bolsonaro.
Se as próximas pesquisas mostrarem Moro à frente, Gomes talvez tenha que mudar de estratégia ou desistir, avaliam políticos.
Como mostrou a coluna em junho, pessoas próximas de Gomes, como o presidente Carlos Lupi, e pedetistas como Túlio Gadêlha, tentaram convencê-lo a concentrar ataques em Bolsonaro e deixar Lula de lado. Até o momento não tiveram sucesso.
Aliados do pré-candidato dizem não concordar que a candidatura de Moro seja prejudicial a ele. O principal prejudicado será Bolsonaro, dizem, que perderá votos para seu ex-ministro da Justiça.
"A candidatura do Sérgio Moro, se ocorrer, prejudica Bolsonaro e ajuda Lula. Aliás, Moro se especializou em ajudar o petista, que teve o processo reiniciado devido à incompetência do pseudo-juiz", diz Antonio Neto, presidente do diretório paulistano do PDT.
Painel
Editado por Camila Mattoso, espaço traz notícias e bastidores da política. Com Fabio Serapião e Guilherme Seto. FOLHA DE SP
A prévia patética do PSDB - J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo
De todas as aberrações que falsificam a democracia brasileira, e transformam numa piada as grandiosas “instituições” formalmente previstas na Constituição, poucas se comparam aos partidos políticos. São 34 – ou seja, não são nada, porque não pode existir nem sinal de política séria com tanto partido assim. Multiplicam-se como ratos não por alguma questão de “diversidade”, mas porque recebem dinheiro vivo do pagador de impostos, através dos “fundos” partidário e eleitoral: R$ 1 bilhão esse ano, mais quase R$ 6 bilhões em 2022, por conta da eleição. (É uma PG: nos últimos 20 anos, essa fortuna dada de presente aos partidos aumentou em 1.000% – isso mesmo: 1.000%). Anos atrás a ex-deputada Heloisa Helena chamou os partidos brasileiros de “gangues partidárias”. Não eram partidos políticos; eram quadrilhas. De lá para cá não surgiu definição melhor.
Confie nos políticos brasileiros, de qualquer forma, quando se trata de transformar o péssimo em mais péssimo. O autor da proeza, desta vez, foi o PSDB, justamente uma das gangues que mais se esforçam para fazer pose de coisa séria. Acredite se quiser: depois de passarem uma eternidade enchendo o noticiário com a história de que iriam fazer uma grande prévia interna para escolher seu candidato a presidente da República, seus chefes e “militantes” não conseguiram, sequer, organizar a votação. O aplicativo “caiu”. As pessoas não conseguiam votar. Sem outra saída, a coisa toda acabou suspensa. Gastaram um dinheirão (que veio dos “fundos”, justamente), para fazer a tal prévia, trocaram enfezadas acusações mútuas de fraude e convenceram a mídia de que o PSDB era o centro da política brasileira e do sistema solar. No fim, não conseguiram nem montar uma eleiçãozinha com 40.000 votantes, ou algo assim. Foi humilhante.
O PSDB, com essa prévia patética, mostra o grau de desrespeito que os seus caciques têm pelo cidadão brasileiro; se não conseguem cuidar nem da própria vida, imagine-se a atenção que podem dar ao público e ao encaminhamento dos seus problemas. Ou seja: tanto faz quem será o candidato presidencial que ainda não tiveram competência para escolher. Todos eles são sócios com partes mais ou menos iguais nessa massa falida. Ao mesmo tempo, fica exposta, mais uma vez, a farsa segundo a qual o PSDB tem mais “qualidade” que as outras 33 gangues partidárias que estão aí, ou coisa que o valha – a desordem é não grande que não se sabe ao certo, sequer, o número exato de partidos que há no Brasil. A prévia furada deixa claro que a falta de seriedade é a mesma; cada um é incompetente ao seu próprio jeito, é claro, mas são todos pinga da mesma pipa.
Lula e PT se amarram a um abacaxi para a campanha de 2022
Se a Alemanha não fosse uma democracia, o grupo de Angela Merkel não teria sido derrotado nas eleições, após 16 anos no poder. Também não teria ocorrido o recente encontro entre Lula e o futuro chanceler alemão, de um partido adversário.
Se a Nicarágua fosse uma democracia, Lula não teria dito, há poucos meses, que as coisas "não andam nada bem por lá". Além disso, o ex-presidente não teria aconselhado Daniel Ortega a defender a liberdade no país, e o PT não teria apagado uma nota que celebrava a vitória governista numa eleição marcada pela prisão de opositores do regime.
Lula conhece essas diferenças, mas encaixou uma comparação descabida numa entrevista ao jornal espanhol El País: "Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder, e Daniel Ortega, não?", questionou.
O petista se referia à permanência de políticos no poder por longos períodos, não ao processo de escolha desses líderes. Uma das entrevistadoras, no entanto, precisou lembrar que, ao contrário da alemã, Ortega havia encarcerado seus potenciais adversários. Lula fez uma emenda e disse que, se isso ocorreu, o nicaraguense "está totalmente errado".
A hesitação contínua do ex-presidente em condenar avanços autoritários pelo mundo não revela nenhuma tentação ditatorial. Mas o episódio mostra que, em nome de seus laços internacionais, Lula e o PT estão dispostos a contratar um problema desnecessário para 2022.
Os petistas sabem que rivais vão explorar as declarações generosas de Lula sobre os regimes de Cuba, Venezuela e Nicarágua para pintar uma falsa imagem de descompromisso com a democracia. O partido diz que os críticos desvirtuam as opiniões do ex-presidente, mas também se recusa a produzir uma mensagem consistente sobre os abusos cometidos nesses países.
Aliados de Lula acreditam que a eleição será definida por questões econômicas, não por um debate sobre a saúde da democracia em outros países. Para não frustrar seus militantes, o PT prefere insistir no erro.
Bruno Boghossian
Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA). o globo
Democrata flexível
Quem tem memória dos 13 anos de governo petista, e da trajetória de mais de quatro décadas do Partido dos Trabalhadores, não estranhou a argumentação escalafobética do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para defender ditaduras amigas da esquerda brasileira.
Questionado pelo jornal espanhol El País sobre a situação da Nicarágua do ditador Daniel Ortega, reconduzido pela terceira vez seguida num processo eleitoral de fancaria, o líder do PT saiu-se com um repisado sofisma: se governantes europeus como a alemã Angela Merkel podem ficar 16 anos no poder, por que Ortega ou o venezuelano Nicolás Maduro não podem?
O brasileiro foi rebatido instantaneamente pelas entrevistadoras, que lembraram que Merkel não prende opositores, como fazem caudilhos em Cuba, Nicarágua e Venezuela. Pego no contrapé —pois não está acostumado a ser contraditado por seu círculo de bajuladores— saiu-se com uma emenda que piorou o soneto.
"Se o Daniel Ortega prendeu a oposição para não disputar a eleição como fizeram no Brasil contra mim, ele está totalmente errado", disse Lula. Outra frase que entra para o bestialógico de quem já afirmou, sobre a Venezuela chavista, que ali há excesso de democracia.
Ditaduras negam aos encarcerados o direito de apelar pela liberdade e a inocência até a última instância perante juízes independentes. Essa é uma prerrogativa exclusiva do Estado democrático de Direito, de que tem usufruído à plenitude o ex-presidente brasileiro.
Outra cortina de fumaça do velho repertório esquerdista lançada por Lula, capaz de despistar apenas os incautos, é a confusão entre os princípios de não ingerência e autodeterminação dos povos, de um lado, e o da defesa dos direitos humanos e da democracia, do outro.
Não há nenhuma contradição entre condenar os abusos cometidos em território estrangeiro e respeitar a autonomia das nações para resolverem elas próprias os seus problemas. Um democrata convicto, e não um flexível como o líder petista, faria exatamente isso.
Tampouco o imperativo de denunciar em foros adequados as violações dos direitos humanos em Cuba colide com a obrigação de criticar o embargo dos EUA, que acaba agravando a precária situação da população da ilha.
Não há, infelizmente, nenhuma evolução na retrógrada posição petista nesse terreno. O partido pensa e age como Lula —vide nota congratulando Ortega e o elogio da ex-presidente Dilma Rousseff à autocracia chinesa— e não vai mudar.
Agrada-se assim à militância fiel e ideológica, correndo-se o risco de suscitar a repulsa dos demais eleitores. De maneira mais tosca, é o que faz Bolsonaro também.
Falas de Lula preocupam aliados que querem petista moderado em 2022
Aliados de Luiz Inácio Lula da Silva que apostam numa versão moderada do petista para a disputa do Planalto em 2022 ligaram os sinais de alerta com as mais recentes falas do ex-presidente.
O mais novo ponto de contenda é a ditadura nicaraguense de Daniel Ortega, que acaba de ganhar um quarto mandato como presidente de fachada, com vários rivais encarcerados no processo.
Em entrevista no fim de semana ao jornal espanhol El País, Lula comparou o tempo de Ortega no poder (13 até aqui) aos termos de Angela Merkel como chanceler alemã.
"Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não? Por que o Felipe González [primeiro-ministro da Espanha de 1982 a 1996] pode ficar 14 anos no poder? Qual é a lógica?", questionou.
Lula está em um giro europeu, no qual buscou estabelecer suas diferenças com Jair Bolsonaro e encontrou-se com o presidente francês Emmanuel Macron, e volta ao Brasil nesta semana.
O caso não é isolado e tem garantido água ao moinho bolsonarista e de outros rivais em redes sociais. A ele se soma a constante defesa de outra ditadura de esquerda, a cubana, particularmente a omissão de Lula em relação aos protestos contra o regime, alvo de dura repressão neste ano.
Há outros temas no pacote, como a questão da regulamentação dos meios de comunicação, que desde seu primeiro mandato é uma obsessão petista como a tentativa de criação do Conselho Federal de Jornalismo em 2004 exemplifica.
A relação do PT, Lula em especial, sempre foi arestosa com a imprensa. Piorou ao longo do processo de impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e na cobertura das descobertas de corrupção em seus governos pela Operação Lava Jato. Os petistas se dizem perseguidos ideologicamente.
Em um artigo publicado na Folha em setembro, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, voltou ao tema com tintas mais técnicas. No mês seguinte, foi a vez de Lula tentar tirar o bode da sala, dizendo que a regulamentação era assunto para o Congresso.
Esses repentes do "velho Lula" político e discurso interno para os setores do PT que ainda adotam a visão de mundo anterior à queda do muro de Berlim.
A fala de Dilma nesta semana defendendo a ditadura chinesa como uma "luz" em meio à "decadência e escuridão" do Ocidente foi outro sinal desse atavismo esquerdista da sigla.
Mas alguns destes aliados se mostram de toda maneira preocupados com o que chamam de amplificação negativa, em particular no mundo virtual que não existia desta forma quando Lula foi presidente de 2003 a 2010.
Para eles, o Lula de 2022 deve ser o que se mostrou em um jantar no dia 30 de outubro na casa do advogado Pedro Serrano, em São Paulo. Ali, ante uma plateia com cerca de 50 estrelas de bancas da capital, o petista discursou como um moderado.
Prometeu lutar pela reunificação do país e disse que irá conversar com empresários e com a imprensa. De forma mais simbólica, disse que seus 580 dias na cadeia foram uma injustiça causada pelo ex-juiz Sergio Moro e a Lava Jato, mas que não poderia pautar seu governo por vingança.
Os ouvintes eram majoritariamente simpáticos ao PT, muitos deles como o anfitrião integrantes do influente grupo de advogados Prerrogativas, ponta de lança no embate com Moro —que, a considerar seu discurso de entrada na disputa de 2022, vai tentar carimbar como uma luta contra defensores da corrupção.
Mas havia também elementos neutros, que relataram a mesma impressão.
O tema Moro é um assunto pontuado em conversas de petistas. Se há os que o consideram na eleição algo bom porque reforçaria o discurso de Lula após o Supremo Tribunal Federal ter julgado o ex-juiz parcial, outros temem o óbvio: o tema dos malfeitos em seus mandatos seria novamente esmiuçado.
Esses petistas mais moderados reconhecem que há um público interno mais radical no PT, mas consideram que as falas de Lula são escorregões de fácil correção.
Ressaltam que, ao El País, ele também disse que Ortega estaria totalmente errado se as prisões de rivais fossem políticas. E que foi Lula quem mandou Gleisi desautorizar nota da Secretaria de Relações Internacionais da sigla que exaltou a vitória eleitoral do ditador.
Sobre Cuba, os argumentos são menos persuasivos e sempre se voltam à desbotada tese de que tudo o que se passa de ruim na ilha caribenha é culpa do embargo imposto pelos americanos há seis décadas.
Por fim, dentro do PT, há as correntes que rechaçam o que consideram concessões para governar. Essa pressão mais radical pode não ser majoritária, mas existe e se ampara no potencial eleitoral do petista.
Tal dinâmica de tensão perpassou os governos federais petistas e remonta às origens do partido como administrador importante, na conturbada gestão na Prefeitura de São Paulo de 1989 a 1992.
Para dois líderes de partidos próximos de Lula, há um ônus desses episódios óbvio, a famosa casca de banana procurada do outro lado da rua, embora achem que haja exagero da imprensa.
Por outro lado, ponderam, é difícil tirar um rótulo em tempos de comunicação imediata, ainda que Lula tenha se esmerado em sair pela tangente acerca de temas complexos desde que ascendeu à condição de favorito para o pleito do ano que vem.
Um deles cita a ambiguidade do petista ante o impeachment de Bolsonaro. Se o PT assinou o pedido de impedimento e Lula sinalizou apoio à ideia, é um segredo de polichinelo que o líder não foi às ruas ou se mobilizou de fato porque compartilha da leitura de que o presidente enfraquecido é seu adversário ideal.
Outro ponto lembrado é o Auxílio Brasil, defendido por Lula apesar de o PT ter votado contra as gambiarras fiscais para custear a transferência de renda na PEC dos Precatórios. Aí, contudo, não há o que fazer retoricamente: o petista é associado ao programa anterior, o Bolsa Família, e economia está no coração da campanha de 2022.


