Aborto – Cássia Kis versus Lula
30 de maio de 2022 | 03h00
Em recente entrevista no programa de Fátima Bernardes, Cássia Kis, uma das maiores atrizes brasileiras, surpreendeu ao falar da alegria de sua fé católica e ao criticar o aborto com a autenticidade de quem passou por uma transformação sofrida, mas profundamente libertadora.
Não faz muito tempo, outra surpresa: Lula. O político astuto, calculista e com notável capacidade de se posicionar na linha dos ventos favoráveis tem provocado perplexidade entre os seus próprios correligionários.
Falando pelos cotovelos, Lula disse que vai resolver os problemas do Brasil abrindo mais estatais. Anunciou que vai acabar com o teto de gastos. Vai criar o Ministério do Índio. Vai detonar a reforma trabalhista e ressuscitar o Imposto Sindical. Disse que policial, para ele, não é gente. Vai criar a moeda que acabará com o dólar. Mas o que mais surpreendeu – pelo menos a mim – foi sua forte, aberta e declarada defesa do aborto. Lula falou de costas para o Brasil, um país que aceita tudo, menos o aborto. Não dá para entender o que está acontecendo com o ex-presidente. Talvez seja uma estratégia de desconstrução de sua candidatura. Sei lá. Mas aproveito o gancho para conversar com você, amigo leitor, a respeito das sucessivas tentativas de forçar a barra para ampliar o aborto no País.
No Brasil, como sempre, grupos favoráveis ao aborto e muito pouco democráticos já começam a ensaiar um roteiro bem conhecido: contornar o Congresso Nacional e levar a questão ao Supremo Tribunal Federal (STF). A rejeição ao aborto no Brasil é fantástica. As pesquisas estão aí. E são inequívocas. A legalização do aborto é uma agressão à sociedade. Mas a ideologia não está nem aí com o sentimento da maioria. Democracia só vale se estiver alinhada com o pensamento único de uma militância autoritária.
A legalização do aborto sempre foi uma prioridade da esquerda. Contra a vontade expressa da sociedade, e em nome da “democracia” e dos direitos reprodutivos, defende a eliminação do primeiro direito humano fundamental: o direito à vida.
No aborto há duas vítimas: o bebê não nascido e o coração desgarrado da mãe.
No tocante ao inegável sofrimento vivido pela gestante, reproduzo um depoimento emblemático. Trata-se da carta de uma mãe que, não obstante a dor provocada pela morte do feto anencéfalo, justificou a sua decisão de levar a gravidez até o fim. Sua carta, publicada no jornal O Globo, foi um contundente recado aos governantes.
“Fui mãe de uma criança com anencefalia e posso afirmar que durante nove meses de gestação convivi com um ser vivo, que se mexia, que reagia aos estímulos externos como qualquer criança no útero. Afirmo, também, que não existe dano à integridade moral e psicológica da mãe. O problema é que estamos vivendo numa sociedade hedonista e queremos extirpar tudo o que nos cause o mínimo incômodo.” (...) “Se estamos autorizando a morte dos que não conseguirão fazer história de vida, cedo ou tarde autorizaremos a antecipação do fim da vida dos que não conseguem se lembrar da sua história, como os portadores do mal de Alzheimer”, escreveu Ana Lúcia dos Santos Alonso Guimarães.
Trata-se de uma carta impressionante e premonitória. A autora se opunha ao aborto anencefálico. A legalização do aborto, estou certo, é o primeiro elo da imensa cadeia da cultura da morte. Após a implantação do aborto descendente (a eliminação do feto), virão inúmeras manifestações do aborto ascendente (supressão da vida do doente) – a eutanásia já está incorporada ao sistema legal de alguns países –, do idoso e, quem sabe, de todos os que constituem as classes passivas e indesejadas da sociedade.
Aprovar a autorização legal para abortar, como bem comentam os filósofos Robert P. George e Christopher Tollefsen, em seu livro Embryo: A defense of Human Life, é dar licença para matar uma certa classe de seres humanos como meio de beneficiar outros. Defender os direitos de um feto é a mesma coisa que defender uma pessoa contra uma injusta discriminação, a discriminação dos que pensam que existem alguns seres humanos que devem ser sacrificados por um bem maior. Aí está exatamente o cerne da questão, que nada tem que ver com princípios religiosos nem com a eventual crença na existência da alma.
Hoje, o que está sendo questionado não é tanto a realidade biológica, inegável, mas uma coisa muito mais séria: o próprio conceito de “humano” ou de “pessoa”. Trata-se, portanto, de uma pergunta de caráter filosófico e jurídico: quando se pode afirmar sobre um embrião ou um feto que é propriamente humano e, portanto, detentor de direitos, a começar pelo direito à vida?
Fala-se, arbitrariamente, de tantos dias, de tantos meses de gravidez... E se chega até a afirmar, como já foi feito entre nós, que só somos seres humanos quando temos autoconsciência. Antes disso, só material descartável ou útil para laboratório. Mas será que um bebê de dois meses ou de dois anos tem “autoconsciência”?
Não se compreende de que modo obteremos uma sociedade mais justa, democrática e digna para seres humanos (os adultos) com a morte de outros (as crianças não nascidas).
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JORNALISTA
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Paraná Pesquisas diz haver empate técnico entre Bolsonaro e Lula em São Paulo.
Um levantamento do Paraná Pesquisas publicado neste sábado 28 diz haver empate técnico entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL) no eleitorado do estado de São Paulo. O ex-capitão aparece com 39,1%, ante 35% do ex-presidente. O instituto diz que a margem de erro do levantamento é de “aproximadamente 2,3% para os resultados gerais”.
Aparecem a seguir Ciro Gomes (PDT), com 5,4%; João Doria (PSDB), com 3,9%; e André Janones (Avante) e Simone Tebet (MDB), com 1,1% cada. Não chegaram a 1% Pablo Marçal (PROS), Vera Lúcia (PSTU), Eymael (DC), Luiz Felipe D’Ávila (Novo) e Luciano Bivar.
Brancos e nulos somam 8,4%. Não sabem ou não responderam 4,3%.
O Paraná Pesquisas diz ter entrevistado presencialmente 1.880 eleitores em 76 municípios de São Paulo entre 22 e 26 de maio. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o n.º BR-06924/2022..CARTA CAPITAL
Ciro Gomes repetirá o Brizola de 89 ou vai se repetir, indo a Paris?
Karla Monteiro
Jornalista e escritora, publicou os livros "Karmatopia: Uma Viagem à Índia", "Sob Pressão: A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro" (com Marcio Maranhão) e "Samuel Wainer: O Homem que Estava Lá" / FOLHA DE SP

Entre o casamento de Lula e Janja e o debate Ciro Gomes versus Gregorio Duvivier, eu confesso, não tive tempo de ler um novo livro –ou melhor, um livro velho, razão de ser desta coluna. Mas eu li o JB de 27 de novembro de 1989, com a manchete: "Brizola quer atravessar Lula na garganta da elite". Uma capa do Jornal do Brasil, aliás, é um clássico.
Será que o Ciro Gomes de 2022 repetirá o Brizola de 1989? Ou será que vai se repetir, indo a Paris? Olhando o cenário político atual, dificilmente estará no segundo turno, verdade seja dita.
O pecado de Gregorio Duvivier, inclusive, fora este: antecipar-lhe a derrota, propondo aos ciristas o voto útil no primeiro turno. Após ver o Ciro naquele (anti) debate constrangedor, temo que ele escolha, de novo, a saída pelo Galeão.
Em 1989, Brizola perdeu muito mais do que uma eleição. Desde que voltara do exílio, dez anos antes, havia enfrentado o diabo. Primeiro, com a ajuda do general Golbery, roubaram-lhe a sigla do coração, o PTB. Depois, tentaram lhe garfar a eleição para o Governo do Rio de Janeiro. Com a participação do SNI, montou-se um esquema de roubo de votos na apuração, o famoso caso da Proconsult.
Mesmo assim resistira, chegando a 1989 como franco favorito para, ao fim, ficar de fora do segundo turno por míseros 0,67% dos votos.
Não foi fácil digerir a derrota. Confirmado o segundo turno entre os novatos Lula e Fernando Collor, Brizola arrumou as malas e partiu –não para Paris, mas para Montevidéu, cidade que o acolhera em 1964. De acordo com a coluna do Etevaldo Dias, na segunda página do JB, nem sequer ligara para o candidato do PT parabenizando-o pela vitória. Na volta ao Rio, porém, dias depois, recebeu Lula em seu apartamento na avenida Atlântica para selar o apoio do PDT.
Na verdade, antes de bater o martelo, tentara ainda uma cartada: convencer o petista a desistir da corrida. Com Lula fora do páreo, ele próprio abriria mão da vez, deixando o lugar para o quarto colocado, Mário Covas. Na opinião de Brizola, o candidato do PSDB tinha muito mais chances contra Collor no segundo turno. Com a recusa veemente de Lula, Brizola cedeu ao resultado das urnas.
"Lula saiu do encontro sob vaias dos brizolistas e por pouco não levou um cascudo de um exaltado manifestante", contou Etevaldo Dias no artigo intitulado "A arrogância dos vencidos".
SAPO BARBUDO
Mas um líder é um líder. Na tarde de 26 de novembro daquele tumultuado 1989, os brizolistas se reuniram no Riocentro, em Jacarepaguá, para uma "pajelança". Cerca de 2.600 pessoas lotaram o auditório. O clima era beligerante. A militância queria voto nulo, queria beber o sangue de Lula com groselha. Pelo menos até Brizola começar a falar.
"Um velho político do Rio Grande do Sul, o senador Pinheiro Machado, já dizia que a política é a arte de engolir sapos. Não seria fascinante fazer essas elites engolirem o Lula, o sapo barbudo?"
Ao fim do longuíssimo colóquio, a enfurecida plateia já gritava: "O povo unido jamais será vencido". Brizola admitiu que chegara a pensar na possibilidade de se excluir do segundo turno, mas concluiu que os progressistas precisavam se unir em torno de um programa mínimo para evitar a "indianização do povo brasileiro". Collor era "uma farsa, um ator, em torno do qual está se formando a nova Arena".
Como se sabe, Lula perdeu a eleição, mas Brizola ganhou, fazendo uma inédita transferência de votos. Em outubro, Ciro terá a chance (mais uma chance) de entrar para este panteão de homens públicos dados a grandes gestos.
Nos últimos dias, vi muita gente responsabilizando o Duvivier na bolsa de apostas futuras. Caso os eleitores do candidato do PDT optem por boicotar o PT no segundo turno, só de birra, a culpa seria da provocação do humorista. O exemplo do Brizola, fundador do PDT, diz que não.
Num eventual segundo turno entre Lula, o "sapo barbudo", e Jair Bolsonaro, o arruaceiro cuja única meta é golpear a democracia, a responsabilidade de guiar a "turma boa" só caberá a um homem: Ciro Gomes.
Terceira via é ressentida e não consegue se diferenciar de Lula e Bolsonaro
Graziella Testa/Doutora em ciência política e professora da FGV / FOLHA D ESP

[RESUMO] A expressão terceira via é inadequada para descrever candidaturas que não sejam nem Lula nem Bolsonaro, diz cientista política, uma vez que espectro político-partidário brasileiro já comporta outras opções além dessas duas. Fracasso do grupo indica que suas candidaturas estão mais ligadas a personalismos e ressentimentos que a reais demandas do país.
Na semana passada, Ciro Gomes (PDT) e Gregorio Duvivier protagonizaram um longo bate-boca, erroneamente chamado de debate, que bem exemplificou a principal característica dos candidatos que se apresentam como terceira via nas eleições de 2022: o ressentimento.
Apesar das aparentes diferenças, Sergio Moro (União Brasil) e Ciro Gomes, os nomes desse grupo mais bem-colocados em pesquisas de intenção de voto, têm em comum um grande desencanto com os projetos políticos que um dia abraçaram. Ciro foi, por três anos, ministro da Integração Nacional de Lula (PT), e Moro foi ministro da Justiça e Segurança Pública de Jair Bolsonaro (PL), a quem também apoiou eleitoralmente.
Aqui cabe fazer uma diferenciação importante: há o apoio ainda no primeiro turno das eleições e há o papel de composição da coalizão de governo. A distinção importa porque nosso sistema político tem incentivos contraditórios nas arenas eleitoral e legislativa.
Por um lado, o sistema eleitoral proporcional de lista aberta incentiva a competição entre candidatos da mesma legenda e, por consequência, o comportamento personalista. Por outro, toda a estrutura de distribuição de cargos e participação no processo decisório se dá pelo critério partidário.
A chamada terceira via é composta sobretudo por uma longa lista de ex-apoiadores de Bolsonaro. O projeto de candidatura à Presidência de quase todos eles ficou pelo caminho. Ministro da Saúde no início da pandemia, Luiz Henrique Mandetta (União Brasil) agora ensaia uma aproximaçãocom outro ex-aliado de Bolsonaro, Luciano Bivar, para talvez disputar o Senado por seu estado, o Mato Grosso do Sul
Fundador do PSL, Bivar articulou a candidatura de Bolsonaro pelo partido em 2018. Com a saída de Bolsonaro do PSL e a posterior fusão do partido com o Democratas, formando o União Brasil, Bivar, presidente da nova sigla, ocupa o papel da viúva dona do cofre e também tenta uma candidatura pouco animada, visando colher um papel relevante no futuro governo eleito.
No primeiro turno, a solução do União de manter candidatura própria soluciona um possível conflito com ACM Neto, outra liderança do partido, que olha para o eleitorado baiano e seu amplo apoio ao candidato petista. A solução é a velha estratégia de acender uma vela para Deus e outra para o Diabo, enquanto se aguarda o resultado do primeiro turno para reafirmar a velha máxima do centrão: "Hay governo, soy a favor".
Tampouco vingaram nomes com relações menos nítidas com o governo Bolsonaro, como Rodrigo Pacheco (PSD), presidente do Senado de apurado equilíbrio em cima do muro, e Alessandro Vieira (PSDB), ora crítico do governo, ora delegado apoiador da expansão do direito ao porte de armas.
O PSDB, por sinal, respira por aparelhos. Correndo o risco de perder o estado de São Paulo, que governa desde 1995, com exceção de pequenos períodos em que assumiram os vices, o partido parece estar longe de se recuperar dos conflitos internos resultantes do confuso processo de prévias que escolheu João Doria como candidato à Presidência, em detrimento de Eduardo Leite.
A candidatura de Doria nunca contou com adesão total do PSDB, tanto que ele e Leite continuaram a disputa por apoio interno mesmo depois das prévias. O ressentimento os movia. Pressionado por lideranças tucanas por apresentar alta rejeição e baixo potencial de votos, Doria anunciou nesta segunda-feira (23) sua saída da corrida presidencial.
Doria e Leite parecem ter chegado ao ponto de estarem dispostos a renunciar à própria candidatura desde que o outro não seja o escolhido.
A cúpula do PSDB pretende apoiar a senadora Simone Tebet (MDB-MS), consolidando, ao lado também do Cidadania, uma candidatura única da terceira via. Resta saber se tucanos estarão dispostos a investir o fundo eleitoral em uma candidatura de outro partido, em vez de alocar os recursos na disputa pela Câmara do Deputados. Os votos recebidos para a Câmara irão determinar a verba que o partido receberá no futuro.
Há ainda uma ala tucana liderada pelo deputado Aécio Neves, que ainda almeja um nome próprio na eleição, de preferência Eduardo Leite. Não parece haver consenso a curto prazo.
Como unidade e disciplina também nunca foram os pontos fortes do MDB, Tebet sabe que suas chances estão no apoio de PSDB/Cidadania e no eleitorado de direita que não abraçou o bolsonarismo. Caso confirmada, a união dos três partidos em torno de Tebet será mais um resultado do ressentimento entre Doria e Leite.
Ocorre que o ressentimento é um sentimento solitário e com poucos resultados eleitorais. Ciro tem grande dificuldade de explicar as diferenças de sua orientação programática em relação à candidatura do PT para além do ódio à figura de Lula.
Moro também teve dificuldade de comunicar um projeto amplo e ideológico, no melhor sentido da palavra, que justificasse uma candidatura ao Executivo. Trocou de partido, do Podemos para o União Brasil, para tentar se fortalecer, mas esbarrou na resistência do grupo de ACM Neto e no forte apoio a Lula na Bahia. Para além da verborragia, quais as grandes diferenças entre o projeto de Bolsonaro e de Moro?
As pesquisas mais recentes colocam no topo das preocupações dos eleitores as questões econômicas —inflação, desemprego, salário mínimo– e de políticas públicas –educação e saúde. A forte onda anticorrupção que pautou as eleições de 2018 chega a 2022 como uma pequena marola pós-pandemia.
Não à toa, as candidaturas ressentidas não engatam porque não conseguem se diferenciar dos projetos políticos que um dia apoiaram. O próprio termo terceira via parece inadequado para descrever essas candidaturas que não são nem Lula nem Bolsonaro.
O termo foi primeiro utilizado por Anthony Giddens no contexto britânico, descrevendo uma nova ideologia que fugisse à dicotomia neoliberais versus social-democratas, sendo, nessa visão, mais adequada ao contexto de globalização e crescente complexidade das demandas políticas da população. A ideia parecia muito adequada naquele final dos anos 1990, quando as ideologias davam a impressão de estar enfraquecidas e as ideias de fim da história e pós-modernidade pautavam os debates.
O espanhol Vicente Navarro, contudo, criticou a obra de Giddens, acusando-o sobretudo de apontar na Inglaterra uma grande novidade que já seria velha conhecida no resto da Europa. O inglês estaria propondo um local do espectro político que estivesse na metade do caminho entre a tradicional dicotomia trabalhistas/conservadores. A crítica de Navarro a Giddens também se aplica ao caso brasileiro.
Falar da necessidade de uma terceira via no Brasil é o mesmo que dizer que precisamos encontrar algo situado entre o trabalhismo do PT e o conservadorismo de Bolsonaro. Ocorre que nosso espectro político partidário já comporta tantas outras opções além dessas duas.
O presidencialismo de coalizão também gera incentivos para que, independentemente do resultado das urnas, o eleito para a chefia de governo ceda para se adequar ao Congresso, em que são colocadas as demandas de tantas outras correntes políticas.
Se, portanto, esses diferentes pontos do espectro já estão representados no Parlamento, o desejo por um chefe do Executivo que não seja nem Lula nem Bolsonaro parece ser mais um sintoma desse personalismo político que resulta em picuinhas pessoais pouco úteis a um debate político frutífero.
O Brasil não precisa de um candidato que encarne a terceira via. Precisa que as demandas desse eleitorado estejam contempladas, seja qual for o chefe do Executivo, por meio do Congresso e da coalizão de governo. O resto é mágoa e ressentimento.
A eleição não está decidida
29 de maio de 2022 | 03h00
Faltando longos cinco meses até a eleição, o atestado de fracasso do governo de Jair Bolsonaro (PL) é o dado mais concreto que pode ser extraído da última pesquisa Datafolha, divulgada no dia 26 passado. A análise dos recortes socioeconômicos da pesquisa evidencia o alto preço que Bolsonaro, muito provavelmente, pagará por ter decidido ser o líder de um grupo de apoiadores, não o presidente da República.
Cada vez mais brasileiros parecem estar fartos das tentativas do presidente de convencê-los de que os maiores problemas do Brasil são o “ativismo” de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, a “insegurança” das urnas eletrônicas ou, vá saber, as maquinações internacionais para espoliar o País. Os que sofrem as consequências dos problemas reais que Bolsonaro negligencia há quase quatro anos – quando não lhes dá causa – parecem não cair nessas esparrelas.
Entre os beneficiários do programa Auxílio Brasil, 59% declararam voto no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto apenas 20% disseram que pretendem votar em Bolsonaro. Entre os desempregados, a situação não é menos desfavorável ao incumbente: 57% pretendem votar em Lula, ante 16% que tencionam votar em Bolsonaro.
O presidente perde para Lula por margens superiores a 20 pontos porcentuais em todos os recortes da pesquisa, exceto entre os brasileiros que têm renda superior a dez salários mínimos (42% a 31%) e entre empresários (42% a 31%). Rejeitado por 54% dos eleitores, Bolsonaro terá enorme dificuldade para convencer o País de que merece permanecer no cargo por mais quatro anos.
O fracasso de Bolsonaro, no entanto, não autoriza concluir que a eleição já estaria decidida em favor de seu principal adversário no momento. Segundo o Datafolha, Lula conta com 48% das intenções de voto no primeiro turno, ante 27% dos que pretendem votar em Bolsonaro. Sem dúvida alguma, é um resultado muito confortável para o petista, que, com esses números, venceria a disputa no primeiro turno se a eleição fosse hoje. Só há um problema: a eleição não é hoje.
Seguramente, há muitos eleitores que declaram voto em Lula porque repudiam os modos de Bolsonaro e sua maneira de conduzir o País. Hoje, o petista é o único pré-candidato que mostra força eleitoral para evitar o desastre da reeleição do incumbente, o que para alguns analistas reduz as chances de uma alternativa eleitoral ao petista e a Bolsonaro. Mas a campanha eleitoral ainda não começou, ao menos não oficialmente, e toda campanha costuma ser cheia de surpresas e reviravoltas.
A ruína dessa chamada “terceira via”, aliás, já foi decretada um sem-número de vezes nos últimos meses, e, no entanto, como diria Mark Twain, parece que a notícia sobre a morte dessa alternativa eleitoral talvez seja um tanto exagerada.
Não se sabe ainda se a “cara” do centro democrático será, por exemplo, a da senadora Simone Tebet (MDB), nome que ganhou destaque nos últimos dias. Neste momento, contudo, o mais importante é constatar que forças relevantes da sociedade mantêm as esperanças de encontrar um candidato capaz de “unir o País”, como diz o texto do manifesto de um extenso grupo de empresários e economistas de alto nível em apoio a Simone Tebet. Ou seja, o exato oposto da beligerância rancorosa de Lula e da truculência reacionária de Bolsonaro.
O Brasil, portanto, ainda não está condenado a ter de escolher entre Lula e Bolsonaro, como ambos querem fazer crer. São muitos os brasileiros que querem olhar para a frente, que aspiram ao futuro, que anseiam por uma liderança que lhes inspire a esperança de tempos melhores.
Este jornal está ao lado dos milhões de brasileiros que gostariam de ver uma candidatura capaz de livrar o País do populismo que nos condena ao atraso, que resgate a confiança dos cidadãos entre si e nas instituições republicanas, que apresente um plano de governo para reduzir nossa brutal desigualdade social, que trace caminhos para a retomada do crescimento econômico e que promova boas políticas públicas nas áreas de saúde, educação e meio ambiente. E que, enfim, não trate a política como um jogo de soma zero.

