Lula entra em ação, e PT tenta atrair PDT para o seu arco de alianças
Camila Zarur / O GLOBO
BRASÍLIA - Mesmo com a pré-candidatura à Presidência de Ciro Gomes posta no páreo, o PDT tem sido alvo de investidas do PT, que ainda nutre a esperança de atrair a sigla para o arco de alianças do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O próprio Lula vem atuando para conquistar o apoio almejado e tem telefonado para o presidente do PDT, Carlos Lupi, na tentativa de manter a porta aberta ao diálogo entre as duas legendas de esquerda.
Em uma outra frente de ação, petistas acenaram a representantes do PDT com a possibilidade de apoiar candidaturas pedetistas nos estados, em troca da promessa de adesão à chapa encabeçada por Lula no plano nacional. Quem está à frente dessas articulações é o deputado federal José Guimarães (PT-CE), que cuida das alianças estaduais na campanha presidencial petista.
Até aqui, Lula fez ao menos três ligações para o Carlos Lupi. A interlocutores, o cacique pedetista fala sobre o poder de persuasão do ex-presidente e afirma que resiste a se reunir pessoalmente com ele para não ser “seduzido”.
Ao GLOBO, Lupi confirmou as conversas com Lula e não rechaçou uma reunião presencial entre os dois antes das eleições. O presidente do PDT, contudo, nega qualquer chance de seu partido abrir mão da candidatura de Ciro Gomes para subir no palanque petista.
— Conversamos por telefone algumas vezes, tenho um carinho por Lula. Não rechaço um encontro. Mas Lula é elegante, ele respeita a candidatura de Ciro — diz Lupi, que foi ministro no governo de Dilma Roussef (PT), sucessora de Lula.
Uma das ligações de Lula para Lupi foi intermediada pelo senador pedetista Weverton Rocha (MA), pré-candidato ao governo do Maranhão. O parlamentar já fez diversos acenos públicos ao ex-presidente, embora o candidato oficial do PT no estado seja Carlos Brandão (PSB), que assumiu o governo de Flávio Dino (PSB).
Na prática, contudo, a tendência é que Lula tenha dois palanques no Maranhão — e Weverton já informou isso à Executiva do PDT.
É apostando em situações parecidas com a do maranhense que o PT vem assediando membros do PDT, em busca de apoios para Lula. De acordo com uma fonte ligada ao PT, não é preciso sequer que Ciro saia da disputa. Basta que, nos bastidores, parte dos pedetistas trabalhe por Lula.
Nas pesquisas de intenção de voto, Lula aparece em primeiro lugar, seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). O pedetista fica em terceiro, com mais de dez pontos percentuais de diferença para os primeiros no ranking.
Entre os petistas, há a avaliação de que os eleitores de Ciro migrariam para Lula na medida em que o ex-ministro perder força na disputa. Com os votos de Ciro, segundo a análise do partido, o ex-presidente teria mais folego contra Bolsonaro ou poderia derrotá-lo no primeiro turno. De acordo com a última pesquisa Datafolha, Lula tem 43% das intenções de voto, enquanto Ciro tem 6%. Bolsonaro, por sua vez, aparece com 26%.
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que o partido gostaria de ter o PDT na aliança pró Lula. Ela argumenta que as demais siglas do campo político da esquerda já firmaram o apoio ao ex-presidente. A dirigente, porém, nega que haja uma ofensiva para atrair os pedetistas.
— Gostaríamos muito de ter o PDT na nossa coligação. É do nosso campo político. Todos os demais partidos desse campo se uniram em torno de Lula. Mas não estamos fazendo nenhuma ofensiva política em relação ao PDT. Eles têm candidato, e respeitamos esse direito e legitimidade do PDT — disse.
O Rio é outro exemplo onde o PDT terá um palanque duplo, com Lula e Ciro. O pré-candidato pedetista é o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves, que já foi do PT e que se reuniu algumas vezes com o ex-presidente desde que anunciou sua pré-candidatura.
Em seu próprio estado, o Ceará, onde PT e PDT mantém uma aliança longeva, Ciro também pode perder apoio do seu partido. Pelo acordo, os pedetistas indicarão o candidato que sucederá o petista Camilo Santana, ex-governador do estado que renunciou para concorrer ao Senado. O grupo de Ciro quer fazer candidato o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, mas o nome dele sofre resistência do PT cearense. O partido prefere que a indicada seja a atual governadora Izolda Cela, que, mesmo sendo do PDT, não é próxima do clã Gomes e tem laços mais estreitos com o PT.
Sobre os entraves em seu estado, Ciro disse em entrevista à rádio Jornal Jangadeiro que pode enfrentar o PT se o acordo virar um “negócio de conchavo”. Completou ainda que há “um lado corrupto” no PT cearense.
— É bom que todo mundo saiba que esse acordo vai acontecer se o interesse do Ceará estiver acima. Se for com negócio de conchavo, picaretagem, eu topo enfrentar o PT também — disse Ciro, que completou: — Eu não vou me submeter a um lado corrupto do PT que também existe no Ceará.
Não seria a primeira vez que Ciro sofre perdas para Lula. O senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) chegou a ser apontado como candidato do PDT ao governo do Amapá. Hoje, o parlamentar é um dos coordenadores da campanha do ex-presidente. E o deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ), antes de disputar o Executivo fluminense como candidato oficial do Lula no estado, foi cotado para concorrer ao lado do pedetista.
Em meio ao assédio do PT, cresce um sentimento entre pedetistas para que Ciro se mantenha com dois dígitos nas pesquisas para ser considerado competitivo. A esperança de alguns líderes do partido é que o ex-ministro cresça à medida que a aliança da terceira via derreta.
— O que a gente vê agora é que não existe uma terceira via. Existe uma tentativa de compor uma alternativa às candidaturas de Bolsonaro e Lula. Mas essa via não se viabiliza. Não adianta quem não tem votos apoiar que também não tem voto. O Ciro é a única via provável, porque ele tem uma militância, já tem uma quantidade de voto estabelecida. Imagino que esse deva ser o caminho dos partidos que querem uma mudança realmente no Brasil — afirma o deputado federal Mário Heringer (PDT-MG), presidente do diretório pedetista mineiro.
Voto sem idade
Esta Folha é contrária ao voto obrigatório, o que não significa que considere desimportante uma ampla participação —voluntária— do eleitorado nos pleitos. Um interesse disseminado pela política, que não deve se limitar ao comparecimento às urnas, contribui para a vitalidade da democracia.
Nesse sentido, parecem positivos os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a respeito do alistamento recente de jovens aptos a votar. Segundo a corte, 2 milhões de brasileiros de 16 a 18 anos de idade, cerca de 20% da população nessa faixa etária, obtiveram o título de eleitor entre janeiro e abril deste ano.
Trata-se de número superior aos verificados em 2014 (1,3 milhão) e 2018 (1,4 milhão), mas não é o bastante para concluir que esse estrato terá maior peso na disputa deste ano. Falta conhecer a composição total do eleitorado e o impacto da pandemia na emissão de títulos.
Houve mobilização nas redes sociais para estimular jovens a buscarem o título de eleitor, particularmente entre setores com preferências à esquerda. De acordo com pesquisa Datafolha de abril, 65% dos entrevistados de 16 a 24 anos consideram o governo Jair Bolsonaro (PL) ruim ou péssimo, ante 48% no conjunto da população.
Como se sabe, no Brasil o voto é facultativo para os menores de idade, assim como para os analfabetos e os idosos acima de 70 anos. A mesma norma deveria valer para toda a população. Não é a obrigatoriedade, afinal, que vai levar cidadãos a darem maior importância aos candidatos e aos mandatários.
Na prática, aliás, o eleitorado vai percebendo que é possível não comparecer às urnas —por falta de informação ou de interesse na disputa— sem arcar com maiores sanções, como mostra o aumento dos índices de abstenção.
Quanto a um desprestígio da política e, por vezes, da própria democracia, estudos e discussões sobre o fenômeno não são recentes, muito menos se limitam ao Brasil.
As hipóteses para explicá-lo vão de desigualdades sociais crescentes a um descompasso entre aspirações crescentes da sociedade e resultados dos governos; as consequências, mais aparentes, incluem a ascensão de lideranças populistas, quando não autoritárias.
Fato é que a atratividade da política depende necessariamente das palavras e das atitudes de políticos e seus partidos. Eles não terão sucesso em delegar a terceiros a tarefa de atrair o eleitor à urna.
SOBRE NATURAL DA SILVA
J R GUZO/ JORNALISTA / O ESTDO DE SP
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O ex-presidente Lula armou em torno de sua imagem internacional o que pode estar sendo o maior embuste da história política deste País. Aqui dentro, onde a população tem a oportunidade de saber melhor quem ele é, principalmente porque experimentou na própria pele as consequências de suas passagens pelo governo, sua vida não é tão fácil – entre outras coisas, no momento, precisa ganhar uma eleição para presidente da República. Lá fora, porém, vive em estado de graça. Graças à lavagem cerebral operada pela mídia do Primeiro Mundo, as elites “globalistas” e a militância mundial de esquerda, Lula se transformou numa pessoa que não existe. Virou um mártir das “causas progressistas”, um resumo de tudo o que há de mais sublime no ser humano – e, segundo a imprensa, “está de volta do exílio”, para reassumir o governo e livrar os 200 milhões de brasileiros do “pesadelo” que estariam vivendo hoje.
Lula nunca esteve no exílio. Esteve na cadeia, pela prática dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, condenado em terceira e última instância por nove juízes diferentes. É mentira, também, que tenha sido absolvido e que a “Justiça brasileira” tenha reconhecido “erros judiciais” ao condená-lo. Lula não foi inocentado de nada. O que houve foi uma decisão demente do STF, que anulou as quatro ações penais existentes contra ele com uma justificativa reconhecidamente fútil, sem dizer uma sílaba sobre culpa ou inocência. Pior ainda é a ficção de que foi “absolvido pela ONU” – uma vigarice que Lula está usando como prova mundial de sua inocência. Um desses comitês controlados pela esquerda e que aprova qualquer coisa declarou, há pouco, que Lula foi “injustiçado” – mas e daí? O comitê central do PT, a CUT e a associação dos bispos também disseram. Fazem de conta, aí, que “a ONU” pode, de fato, absolver alguém; não pode, assim como não poderiam a Fifa ou o júri do Miss Universo, porque não é um tribunal de Justiça. A “absolvição da ONU”, porém, está aí; é um dos argumentos-chave do seu marketing internacional.
O curioso, nisso tudo, é que Lula parece acreditar, realmente, que é a entidade sobrenatural criada na mídia estrangeira; fala cada vez mais, aqui no Brasil, com a arrogância de quem vive uma paixão incontrolável por si mesmo. Já disse que, por causa da inocência que lhe foi conferida “pela ONU”, o Brasil teria de anular as eleições de 2018 e que ele, Lula, deveria ser nomeado presidente da República. Recusa-se a revelar seu programa para a economia; diz que o eleitor tem de votar nele sem saber disso. Garante que resolveria a guerra da Ucrânia com “uma cerveja”. Não dá sinais de que vá parar.
A livre escolha
Não há nenhuma razão para quem não é lulista votar no ex-presidente no primeiro turno, nem mesmo dizer nas pesquisas que votará nele. Mesmo que se queira impedir a reeleição de Bolsonaro, e essa é uma tarefa dos democratas, não é preciso apressar o passo, pois a eleição tem dois turnos exatamente para evitar que um presidente seja eleito pela minoria dos eleitores. O raciocínio vale para os antipetistas que escolherão Bolsonaro, apesar de tudo.
Não dá mais para mudar a legislação eleitoral, mas uma medida a ser estudada, menos traumática do que a implantação do parlamentarismo ou do semipresidencialismo, seria fazer um segundo turno com os três mais votados no primeiro, desde que o terceiro colocado tenha tido um número mínimo de votos, a ser definido na regulamentação. A proposta foi feita pelo então deputado federal Miro Teixeira, no inicio de 2013, mas não foi à frente.
Em 2018, Bolsonaro teve 46,03% dos votos, Fernando Haddad 29,28% e Ciro Gomes 12,47%. Se o número mínimo fosse 10% dos votos, Ciro estaria no segundo turno, se fosse 20%, não. Há quem entenda que o vencedor só seria eleito com 50% dos votos mais um, como é hoje. Outros, que quem tiver mais votos, leva. A possibilidade de ter três disputando o segundo turno, de qualquer maneira, seria uma maneira de quebrar a polarização, dar chance a que uma terceira via se apresentasse ao eleitor em situação de competitividade em uma nova eleição.
O voto útil poderia ser mais eficiente do que hoje, quando o eleitor só tem dois a escolher no segundo turno, mesmo que nenhum dos dois sirva a seus propósitos. Deixaríamos de escolher o “menos ruim”, como fazemos há tempos, para escolher “o melhor” dos três. Mas, como temos uma legislação eleitoral a ser obedecida, o primeiro turno pode ser um momento de exercer seu voto no candidato que mais o agrada, mesmo que seja minoritário, mesmo que não tenha chance de chegar ao segundo turno.
Antecipar o voto útil para o primeiro turno, como querem muitos petistas, para erradicar de vez a ameaça bolsonarista, é dar ao ex-presidente Lula um cheque em branco que ele não necessariamente merece para boa parte dos que, a esta altura, dizem que votarão nele. A campanha existe para isso, para que os candidatos se mostrem, para o bem ou para mal.
Bolsonaro, por exemplo, se mostra a cada dia mais reacionário, mais anacrônico, mais odiento, prepara um golpe antidemocrático a olhos vistos. Lula continua na frente das pesquisas, tem cometido muitos erros primários, que indicam não estar ele nos melhores momentos, mas tem a vantagem inigualável de ser um democrata, embora tão populista quanto Bolsonaro.
Mesmo que o PT não tenha retirado o termo “socialista” de seu regimentos, ou que demonstre ter uma inclinação esquerdista que impede de ter uma visão crítica de governos como os de Cuba ou Venezuela, ou que permita comparar a alemã Ângela Merkel com o protoditador sandinista Daniel Ortega, não houve nos governos petistas tentativas tão claras de golpe contra a democracia quanto agora.
A tendência autoritária dos dois lideres populistas é marca registrada desse tipo de político, seja de direita ou de esquerda. Mas Lula nunca abusou de seus poderes constitucionais como abusa Bolsonaro, nunca afrontou os poderes constitucionais. Mesmo no caso do indulto ao terrorista Cesare Batistti, naquela ocasião o Supremo Tribunal Federal dera ao presidente o direito de seguir sua decisão ou não, não foi uma afronta ao STF, apenas a explicitação de uma tendência ideológica que desculpa os crimes dos aliados. Lamentável, criticável, mas não golpista, como no caso do deputado federal (ainda?) Daniel Silveira.
Houve tentativas de controle social da mídia, rechaçadas pela opinião pública e pelo Congresso. Mas em nenhum momento se chegou tão perto da ruptura democrática quanto agora. Talvez no governo Dilma, quando a presidente, para evitar o impeachment, fez uma consulta aos militares para implantar o estado de emergência. Essa é outra diferença básica entre os dois: nunca os militares tentarão dar um golpe a favor de Lula. Resta-nos evitar que dêem o golpe a favor de Bolsonaro, antes ou depois da eleição.
Mesmo a terceira via tendo se desintegrado devido a interesses pessoais de seus membros, os candidatos estarão nas campanhas se mostrando ao público. Se João Doria conseguir ser homologado na convenção do PSDB, o que ainda não está garantido, terá tempo de televisão para reverter a rejeição que tem no eleitorado. Também Simone Tebet, que talvez seja a candidata do PMDB porque parece não ter chance de vencer, pode se impor ao seu próprio partido. Ciro Gomes, que continua em terceiro lugar com a saída de Moro, terá mais chance de vender suas idéias.
Não há sentido em votar em quem não se quer logo no primeiro turno, dando um voto de confiança a candidatos que não merecem. No segundo turno, se o candidato “menos ruim” tiver risco de perder para o que você considera “o pior”, vote no menos ruim. Se não houver esse risco, votar em branco, nulo ou se abster é uma opção perfeitamente válida.
Lula lança Bolsonaro como seu cabo eleitoral.
Lula inaugurou formalmente sua campanha pelo terceiro mandato num evento em que o verde-amarelo desbotou o vermelho do PT. Antes de discursar, ouviu o hino nacional, entoado à capela pela cantora Tereza Cristina. Falou por 46 minutos contra um pano de fundo em que cintilava uma enorme bandeira do Brasil. Trocou o improviso por um texto escrito. Fez três movimentos. Num, lançou Bolsonaro como candidato a seu principal cabo eleitoral. Noutro, dedicou-se a industrializar a esperança. No terceiro, exercitou seu hábito predileto: falar bem de si próprio.
Bolsonaro tornou as coisas mais fáceis para Lula. O nome do presidente não foi mencionado nenhuma vez. Mas esteve onipresente num discurso em que Lula falou em "restaurar a democracia", "reconstruir o Brasil", restabelecer a "paz", restituir a "concórdia" e desobstruir os canais de diálogo do governo com a sociedade: "Quando governamos o país, o diálogo foi a nossa marca registrada", disse o orador.
Ao aprisionar a língua de Lula dentro das quatro linhas da folha de papel, os redatores da campanha petista evitaram que o candidato disparasse novos tiros contra o próprio pé. E acomodaram nos seus lábios mensagens direcionadas não apenas aos convertidos, mas a nichos da sociedade marcados pela presença de eleitores que não rezam pelo catecismo lulista. Entre eles, por exemplo, militares, evangélicos e empresários.
Lula mencionou 24 vezes a palavra "soberania", muito cara às Forças Armadas. Somando-se as cinco vezes em que citou "soberano", o conceito que traduz a noção de poder político supremo do Estado dentro do seu próprio território e nas suas relações com outros países apareceu no discurso 29 vezes. Sempre associado à ideia de que a gestão Bolsonaro especializou-se na demolição.
Na versão de Lula, o Brasil não será soberano sem refazer o que Bolsonaro desfez em áreas como saúde, educação, política externa, meio ambiente, proteção às comunidades indígenas, às mulheres e aos negros..
"A nossa soberania e a nossa democracia vêm sendo constantemente atacadas pela política irresponsável e criminosa do atual governo", disse Lula a alturas tantas. Numa referência à submissão de parte das Forças Armadas à cruzada de Bolsonaro contra o Poder Judiciário e o sistema eleitoral, o candidato petista disse considerar "imperioso que cada um volte a tratar dos assuntos de sua competência. Sem exorbitar, sem extrapolar, sem interferir nas atribuições alheias"..
Lula prosseguiu: "Chega de ameaças, chega de suspeições absurdas, chega de chantagens verbais, chega de tensões artificiais. O Brasil precisa de calma e tranquilidade para trabalhar e vencer as dificuldades atuais. E decidirá livremente, no momento que a lei determina, quem deve governá-lo".
Noutro trecho, o discurso lido por Lula anotou: "Não faremos jamais como o nosso adversário, que tenta mascarar a sua incompetência brigando o tempo todo com todo mundo, e mentindo sete vezes por dia. A verdade liberta, e o Brasil p.recisa de paz para progredir" Foi como se os redatores do discurso desejassem falar para o eleitorado evangélico, realçando que Bolsonaro está preso por grilhões de barbante ao versículo multiuso que extraiu do Evangelho de João —"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".
Lula soou ainda mais explícito quando disse que "pode até se dizer cristão, mas não tem amor ao próximo" um governante que se mostrou "incapaz de verter uma única lágrima diante de seres humanos revirando caminhões de lixo em busca de comida, ou dos mais de 660 mil brasileiros e brasileiras mortos pela Covid.".
Rendido à dinâmica da marquetagem, Lula expurgou as polêmicas de sua oratória. Absteve-se de mencionar, por exemplo, a ideia de revogar a reforma trabalhista. Evitou citar até mesmo a versão mais branda da proposta, que falava em "reformulação". Preferiu equiparar num discurso anódino a defesa dos direitos trabalhistas com a pregação em favor da retomada do crescimento econômico..
Declarou: "Vamos provar que o Brasil pode voltar a ser um país que cresce, que se industrializa, que gera emprego. Criar um ambiente de estabilidade política, econômica e institucional que incentive os empresários a investirem outra vez no Brasil, com garantia de retorno seguro e justo, para eles e para o país".
Num dos trechos em que se dedicou ao autoelogio, Lula disse: "Nós fomos capazes de gerar mais de 20 milhões de empregos com carteira assinada e todos os direitos garantidos. Enquanto eles destruíram direitos trabalhistas e geraram mais desemprego".
O candidato apagou da memória a gestão empregocida de sua criatura Dilma. No período da doutora, a economia encolheu 6,8%. O desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua algo como 12 milhões de trabalhadores.
Dilma compareceu ao ato de lançamento da nova candidatura do seu criador. Não constava do discurso escrito. Mas Lula injetou-a num improviso maroto feito no finalzinho de sua fala. A pretexto de elogiar a pupila, Lula misturou o nome dela ao de José Dirceu para informar que ambos não participarão do governo caso seja eleito.
"As pessoas perguntam: você vai levar a Dilma para o ministério, vai levar o Zé Dirceu? Não vou levar, mas jamais a Dilma caberia no ministério porque a Dilma tem a grandeza de ter sido a primeira mulher a ser presidenta do Brasil", afirmou Lula. Esse trecho não foi incluído na íntegra do discurso, divulgada no site do PT..

