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Crise no PDT não é apenas sobre eleições de 2022, mas também sobre futuro dos Ferreira Gomes

Escrito por  / DIARIONORDESTE

 

Por mais que lideranças do PDT apostem no discurso de que o partido está unido, na prática, os desgastes ficam cada vez mais evidentes e mostram que o que está em jogo é muito mais do que a escolha de um nome para disputar o Governo. A sucessão de 2022 põe em jogo a manutenção do papel de liderança política absoluta dos irmãos Cid e Ciro Gomes no Ceará. 

Outros momentos sucessórios já geraram fim de alianças e intrigas políticas para o grupo desde 2006. Desde então, os irmãos souberam equilibrar interesses diversos e descartar aliados que ameaçavam desestabilizar o sistema. Mas nem tudo é passível de controle. 

 

Agora, o grupo político precisa lidar com o novo papel de liderança do ex-governador Camilo Santana que, apesar da relação com o PDT, pertence a outro partido; com uma oposição que entrará na disputa montando o melhor cenário em 15 anos; e com o fortalecimento interno de partidos aliados que cobram voz e espaço na mesa de decisão.

FATOR CAMILO

O foco do impasse interno no PDT é a polarização entre as pré-candidaturas da governadora Izolda Cela e do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio. Os outros dois pré-candidatos, o presidente da Assembleia Legislativa, Evandro Leitão, e o deputado federal Mauro Filho correm por fora nessa disputa.

 

Evandro Leitão, Roberto Cláudio, Ciro Gomes, Izolda Cela e Carlos Lupi em encontro regional do PDT em Fortaleza no dia 15 de junho
Legenda: Evandro Leitão, Roberto Cláudio, Ciro Gomes, Izolda Cela e Carlos Lupi em encontro regional do PDT em Fortaleza no dia 15 de junho
Foto: Fabiane de Paula

O "Time Izolda" tem como principal cabo eleitoral justamente o ex-governador. Já o "Time Roberto Cláudio" conta com o pré-candidato a presidente da República Ciro Gomes. Os demais aliados vão se somando a cada lado, alguns, no entanto, sem muito alarde público. Afinal, toda manifestação de apoio tem suas implicações. 

Foi justamente a declaração pública de apoio a Roberto Cláudio pelo prefeito de Fortaleza, José Sarto, que expôs esse acirramento que já se percebia internamente.

Dentro do PDT, a ala cirista e mais fortemente ligada aos irmãos Cid e Ciro Gomes tem se mobilizado entorno de Roberto Cláudio, o que inclui fortemente a base de vereadores da Capital. O ex-prefeito também recebeu apoio do presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, com direito à música com trocadilho pró-Roberto Cláudio: "o melhor prefeito do Brasil vai virar governador". O apoio efusivo não pegou bem e gerou mais desgaste para o partido.

 

O movimento pró-Izolda, no entanto, vem principalmente de fora do partido, encabeçado por lideranças de partidos como MDB, PP e PT, mas, com as estratégias de gestão de governo, tem tido simpatia também de deputados estaduais e prefeitos.

Percebe-se também que muitos do grupo "apoio se a candidata for Izolda" são forte aliados de Camilo Santana, gente que fez parte do Governo dele ou que foi atraída para a base por ele.

Ciro Gomes, Zezinho Albuquerque e Camilo Santana
Legenda: Zezinho Albuquerque deixou o PDT neste ano para se filiar ao PP, presidido por seu filho, AJ Albuquerque, e já declarou apoio a Izolda em discurso na Assembleia Legislativa
Foto: Kleber A Gonçalves

Para além de decidir sobre Izolda ou Roberto Cláudio, agora, a questão tem se encaminhado para mostrar qual padrinho político vai ter mais força.

Ao que os impasses indicam, não se contava com um apoio tão engajado de Camilo Santana à governadora, afinal o ex-prefeito também era próximo a Camilo e chegou a ser cotado como seu "sucessor natural".

Cid Gomes e Luizianne Lins, em 2006, antes de romperem aliança
Legenda: Cid Gomes e Luizianne Lins, em 2006, antes de romperem aliança
Foto: André Lima

Em 2012, a ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins tentou usar seu capital político pós-gestão para emplacar candidato dentro da aliança. Não funcionou: os irmãos Ferreira Gomes racharam a parceria para lançar Roberto Cláudio, derrotaram Luizianne e minaram a força política da então prefeita na Capital. 

O cenário de Camilo não parece o mesmo, mas é preciso ver o desenrolar da queda de braço para tirar conclusões. 

Fato é que lançar Izolda é fortalecer a figura de Camilo como líder, é também abrir mão de parte de um poderio político para um nome de outro partido, o que, até hoje, não aconteceu. 

Todos os nomes lançados pelos Ferreira Gomes nos últimos anos para cargos de maior relevância mantêm-se sob comando de Cid e Ciro.

Aliados de outros partidos que tentaram faturar parte da liderança do grupo, como Eunício Oliveira, do MDB, e Domingos Filho, do PSD, chegaram a ir para a oposição após serem preteridos por escolhidos dos irmãos Cid e Ciro.

OPOSIÇÃO FORTALECIDA

E quem está de olho na decisão do PDT e no que vai sobrar dela é a oposição, encabeçada pelo deputado federal licenciado Capitão Wagner (União Brasil), pré-candidato ao governo.

Ciente das manifestações de preferência por Izolda Cela e das sinalizações pró-Roberto Cláudio, ele tenta atrair partidos como MDB, PP e PSD para a base, sem descartar, inclusive, oferecer o cargo de vice para o PSD, cujo presidente, Domingos Filho, tem cruzado o Ceará em eventos partidários reivindicando a vaga na base governista.

 

O União Brasil, comandando por Wagner no Ceará, terá a maior fatia de verba pública na campanha de 2022 e mais tempo destinado à propaganda eleitoral gratuita nas TVs e rádios. É uma oferta atrativa na mesa de negociação, que inclui ainda tratativas com o PL de Jair Bolsonaro.

Além dessa estrutura material, Wagner saiu fortalecido na disputa pela Prefeitura de Fortaleza em 2020, contra José Sarto (PDT), com uma pequena diferença no percentual de votos; e conta ainda com a "fadiga do poder", ou seja, os desgastes acumulados pelo grupo governista ao longo de 16 anos de gestão, o que é natural na lógica política.

E COMO FICAM OS ALIADOS?

Nesse desgaste da base e nos atrativos da oposição, a pouco mais de um mês do prazo para definições partidárias, as alianças estão em aberto. 

O PT, fortalecido com o nome de Camilo Santana, e com o desempenho do ex-presidente Lula nas pesquisas de intenção de voto para a presidência da República, marcou para o dia 2 de julho o encontro que vai definir se fica ou não na aliança com PDT. Boa parte do partido, seguindo o líder, Camilo Santana, é pró-Izolda.

No PDT, apesar dos discursos de que "a aliança é importante" e "não haverá ruptura", o PT tem sido alfinetado com frases do tipo "quem escolhe candidato do PDT é o PDT" e "que seja feliz", caso opte por uma candidatura própria. Entrelinhas, não parecem discursos de quem quer realmente manter um aliado perto.

Eunício Oliveira e Domingos Filho
Legenda: Eunício Oliveira e Domingos Filho já atuaram na oposição à base governista após disputa por espaço na sucessão estadual de Cid Gomes
Foto: Fabiane de Paula

MDB de Eunício Oliveira é declarado opositor de Ciro Gomes e Roberto Cláudio e é mais um que segue os sinais de Camilo Santana. 

PSD de Domingos Filho tem insistido na vice, mas nada garante que, se for preterido em meio à queda de braço entre PT e PDT, não aceite as investidas de Capitão Wagner. No cenário atual, Domingos Filho lidera um partido bem mais robusto, com o filho deputado federal influente e prefeitos.

Os frequentes eventos regionais nos últimos meses também têm a intenção de demonstrar essa força. Isso muda (ou deveria mudar) os espaços de diálogo.

Numa aliança, não se pode cobrar que apenas um lado ceda nessa ou naquela decisão, mas é preciso também perceber as mudanças que o tempo traz e os novos jogos de força que se estabelecem. Contra o tempo e seus desgastes, quase ninguém pode. 

O principal grupo político do Estado vive um momento singular em que terá de pôr à prova o discurso de que defende um projeto e não nomes. Não se trata apenas de escolher um nome entre quatro importantes figuras políticas. Comandar um grupo amplo sempre requer estratégias para muito além do que está à primeira vista.

 

Rede companheira

Merece atenção das autoridades a iniciativa da Central Única dos Trabalhadores de organizar uma rede de apoiadores para aumentar seu alcance nas redes sociais na campanha eleitoral deste ano.

Como a entidade sindical anunciou, serão criadas "brigadas digitais", com a missão de disseminar conteúdos produzidos por sua área de comunicação em grupos de mensagens no WhatsApp.

Historicamente ligada ao PT, a central afirma não ter intenção de usar a ferramenta para pedir votos ou distribuir propaganda eleitoral, o que seria ilegal, e diz prezar sua autonomia ante os partidos.

Mas dirigentes da CUT não fazem mistério sobre sua motivação em eventos organizados para expor o plano, que foi apresentado em abril ao próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), num encontro na sede da entidade.

A central contratou agências especializadas em comunicação digital para organizar suas brigadas e diz que nada será feito em desacordo com a legislação eleitoral. Afirma que sua prioridade será combater a desinformação nas redes sociais, distribuindo notícias de veracidade comprovada para combater a propagação de falsidades.

Ainda que se aceitem os bons propósitos, restará sempre a dúvida sobre a capacidade que os sindicalistas terão de separar verdades e mentiras do que muitas vezes é apenas propaganda disfarçada.

A legislação brasileira proíbe empresas e sindicatos de financiar campanhas eleitorais, numa tentativa de inibir a influência de seu poder econômico na disputa política e assegurar que os pleitos sejam competitivos.

Na reta final das eleições presidenciais de 2018, empresários que apoiavam Jair Bolsonaro financiaram uma operação que usou o WhatsApp para disparar em massa mensagens contrárias a seus adversários, como esta Folha revelou.

Em julgamento realizado no ano passado, o Tribunal Superior Eleitoral concluiu que um esquema ilícito tinha sido organizado para tal, mas considerou as provas reunidas insuficientes para cassação da chapa do presidente.

Ainda assim, a corte apontou os riscos criados por ferramentas como o WhatsApp para o processo eleitoral e definiu critérios para avaliar a gravidade de abusos que vierem a ser praticados neste ano.

A capacidade de conter a desinformação nas eleições está por ser testada. Iniciativas como a da CUT indicam o tamanho do desafio.

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Apesar de Alckmin, agronegócio resiste a Lula e comemora ganhos sob Bolsonaro

Thiago Resende / FOLHA DE SP
 
BOLSONARO E O AGRTONEGOCIO
BRASÍLIA

Alinhados com o presidente Jair Bolsonaro (PL), representantes do setor agropecuário avaliam que a articulação do ex-governador Geraldo Alckmin (PSB) não reduzirá a resistência do segmento à candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Alckmin, candidato a vice na chapa com o petista, foi escalado para fazer a ponte com ruralistas e atrair votos no terreno de forte tendência bolsonarista.

 

estratégia da chapa é explorar a ligação de Lula com o ex-senador e ex-ministro Blairo Maggi, um dos maiores produtores de soja do mundo. Em outra frente, usar a relação de Alckmin com o ex-deputado Nilson Leitão, presidente do Instituto Pensar Agropecuária e consultor da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

Como governador de São Paulo, Alckmin se manteve próximo do agronegócio e, em 2018, concorreu à presidência da República pelo PSDB numa chapa com a ex-senadora Ana Amélia (atualmente no PSD), que tem interlocução com o segmento rural.

 

A investida pró-petista, até o momento, vem sendo considerada tímida por interlocutores dos ruralistas. Mas, mesmo em caso de um esforço maior para atrair o segmento do agronegócio, líderes descartam o apoio do setor à candidatura de Lula-Alckmin.

Membros da bancada ruralista e empresários listam uma série de medidas adotadas no governo Bolsonaro que ampliaram a avaliação positiva da atual gestão no campo, apesar dos percalços relacionados à imagem do país no exterior devido à questão ambiental.

 

O aumento nos recursos públicos disponíveis para crédito ao setor é um desses fatores. E a tendência é continuar em alta.

O Ministério da Agricultura e ministros do Palácio do Planalto tentam emplacar um plano Safra 2022/23, a ser anunciado neste mês, de R$ 330 bilhões –o impacto disso no Orçamento federal ficaria em torno de R$ 22 bilhões, usados para equalização de juros. No Plano Safra anterior, esses valores foram de R$ 251 bilhões e R$ 13 bilhões.

Além disso, a Caixa também tem reforçado a atuação na área de crédito rural e o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) atingiu um recorde em 2021, com quase 218 mil apólices de seguro contratadas.

O presidente colhe ainda os dividendos da alta nas commodities agrícolas, que elevam o valor das vendas para o exterior. Neste ano, por exemplo, as exportações do agronegócio atingiram o patamar recorde de US$ 14,53 bilhões para meses de março.

As mudanças na legislação ambiental também impulsionam o desempenho de Bolsonaro entre os ruralistas.

Nesse quesito, nem mesmo o fato de Alckmin ter sido responsável por alçar Ricardo Salles ao comando do Ministério do Meio Ambiente no governo Bolsonaro tem servido como atenuante para o segmento migrar seu apoio à chapa petista.

Salles chefiou a Secretaria do Meio Ambiente em São Paulo no governo de Alckmin. Em reunião ministerial de Bolsonaro em 2020, ele foi o autor da expressão "passar a boiada", em referência à intenção de afrouxar regras ambientais em favor da agenda ruralista.

"O Alckmin tem mais diálogo [no agronegócio do] que muitos ali. Mas, na nossa opinião, o Alckmin não leva voto pro Lula e nem tira votos do outro lado", disse o deputado Sérgio Souza (MDB-PR), presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária).

bancada ruralista, uma das mais influentes no Congresso e que reúne cerca de 300 parlamentares, faz parte da base de apoio de Bolsonaro.

"O agro [agronegócio] nunca teve tanto dinheiro", completou Souza ao justificar o apoio reeleição do presidente.

"Tem a questão dos recursos e também o período Bolsonaro retirou uma série de amarras que eram ideológicas. O próprio discurso com relação à questão ambiental ficou distensionado. O Brasil é um país que preserva o meio ambiente. Temos dados disso", disse o deputado Alceu Moreira (MDB-RS), que liderou a bancada ruralista nos primeiros anos do governo Bolsonaro.

Para ruralistas, a resistência atual à chapa petista foca principalmente a figura de Lula e seus discursos voltados à militância, mas extrapolam para o entorno radical do ex-presidente —como PSOL e Rede—, que emite duras críticas ao setor.

"É um risco é ele [Lula] querer fazer um governo ideológico, diferente de como foram os dois mandatos dele", declarou Moreira.

Em contraponto a Bolsonaro, a campanha petista tem ressaltado promessas na área ambiental. Em discurso na semana passada, Lula defendeu que órgãos de proteção ambiental esvaziados no governo Bolsonaro passem por um processo de recuperação e disse que, se eleito, não fará concessões em temas de proteção de áreas demarcadas, como reservas indígenas e florestais.

"O setor agropecuário e a bancada são de direita, agenda liberal. Temos pautas que, no nosso ver, destravam [a economia]. No caso da demarcação de terras indígenas, não queremos tirar direito dos índios, queremos que o índio tenha capacidade de produzir, gerar emprego e renda", afirmou Souza.

Apesar de enaltecerem a carreira política de Alckmin, ruralistas lembram do histórico de atritos e embates entre o ex-governador e Lula. "Eles trocavam declarações e acusações. Como confiar numa relação dessa?", questionou o líder do PL no Senado, Wellington Fagundes (MT).

Membros da bancada da agropecuária no Congresso avaliam que o grupo conseguirá manter o mesmo patamar de 300 parlamentares ou até mesmo ampliar esse número após a eleição de outubro.

Apesar de Lula liderar as pesquisas de intenção de voto, os ruralistas apostam que o cenário agora é diferente do visto em 2018, quando a onda de renovação derrubou integrantes influentes do setor, como Nilson Leitão, que passou a atuar na interligação da política com o setor privado.

"Achamos que o momento político, com o eleitor mais politizado, favorece mais essa ala conservadora do que o cenário de quatro anos atrás", prevê o presidente da FPA.

Para o deputado Pedro Lupion (PP-PR), a base ruralista está, em ampla maioria, decidida pelo apoio a Bolsonaro. "Não vejo como o PT conseguir reverter isso".

​No entanto, no caso de um eventual governo Lula-Alckmin, representantes do agronegócio afirmam que o setor vai se mover em direção ao poder e buscar o apoio do Palácio do Planalto ao segmento.

Alckmin foi procurado, mas não quis comentar a reportagem.

Na hora de eleger mulheres e negros, a esquerda lembra a direita

Michael França

Ciclista, doutor em teoria econômica pela Universidade de São Paulo; foi pesquisador visitante na Universidade Columbia e é pesquisador do Inspe / FOLHA DE SP

 

Na mais recente eleição para Câmara, o percentual de candidatos negros que conseguiram se eleger pelos partidos de direita foi de 9,3%. Na esquerda, esse número foi de apenas 3,7%. Nesse contexto, parte da explicação para a taxa de sucesso da direita em eleger negros ser mais que o dobro do que aquela observada pela esquerda vem da diferença do número de candidatos lançados por um e outro lado.

A esquerda lançou mais candidatos negros do que a direita nas últimas duas mais recentes eleições gerais. Em 2018, ela teve 1.088 postulantes a deputado federal e elegeu somente 40. Já a direita elegeu 69 dos 747 candidatos negros.

Nas eleições de 2014, o número de candidatos lançados por ambos os campos político foi menor, mas a taxa de sucesso de cada um não foi muito diferente da observada em 2018.

Esses e outros resultados fazem parte de um amplo estudo que conduzi conjuntamente com os pesquisadores Sergio Firpo, Alysson Portella e Rafael Tavares, associados ao Núcleo de Estudos Raciais do Insper. O relatório "Desigualdade Racial nas Eleições Brasileiras" foi veiculado por esta Folha e outros veículos, e traz interessantes contribuições para o debate em torno da falta de representatividade na política.

Existe considerável avanço da esquerda no que se refere à oferta de candidatos negros. O percentual de postulantes à Câmara dos Deputados em cada região do país está próximo de refletir a população local.

Isso faz com que o desequilíbrio racial das candidaturas da esquerda seja menor do que a da direita. Entretanto, na hora de oferecer reais chances para negros e mulheres, a esquerda não é muito diferente da direita.

Quando olhamos para o desequilíbrio racial e de gênero dos deputados eleitos em 2018, percebemos que o desempenho da esquerda foi equivalente ao da direita.

Nesse mesmo ano, o desequilíbrio racial dos deputados eleitos pelo PT foi próximo ao do PSDB. O grande destaque positivo foi o PSOL, partido que alcançou equilíbrio racial em seu quadro de deputados estaduais. Do lado negativo, chama a atenção a dominância branca do NOVO. O partido foi o único da direita que não elegeu nenhum deputado negro.

Com isso, os resultados do estudo reforçam a ideia de que, independentemente da posição ideológica, os partidos políticos brasileiros tendem a ser apenas um reflexo da desigualdade social, racial e de gênero presente na sociedade. Olhar para a distribuição dos recursos da campanha ajuda a ilustrar um pouco o mecanismo desigual dos bastidores do jogo político.

Cerca de 80% dos candidatos a deputado receberam menos que 20% do total de recursos. Na prática, isso significa que um grupo muito pequeno terá condições financeiras para montar uma campanha que gere visibilidade e, consequentemente, ter possibilidades concretas de se eleger.

Com o recorte de raça e gênero, percebemos qual grupo representa a grande aposta dos partidos políticos. Em 2018, enquanto as mulheres negras receberam, em média, R$ 83 mil, os homens brancos receberam R$ 265 mil.

A desigualdade brasileira e as regras do jogo contribuem para isso. Homens brancos de alta renda tendem a ocupar espaços que geram visibilidade e contatos. Quando entram na política, eles costumam ser vistos como mais competitivos. Dado que um dos objetivos dos partidos é eleger o maior número de candidatos, eles tendem a apostar no grupo dominante.

Deste modo, apesar de mulheres, negros e indivíduos com origens desfavorecidas estarem se lançando mais na política, muitos deles são desconhecidos para os eleitores e não têm as condições necessárias para ter maior visibilidade. Assim, no final, temos uma curiosa democracia no Brasil, em que uma pequena parte da sociedade acaba sempre tendo muito mais voz do que deveria.

O texto é uma homenagem à música "Política voz", de Roberto Frejat e Jorge Dias Salomão, interpretada por Barão Vermelho.

Lula quer imprensa encabrestada

O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2022 | 03h00

O PT é obcecado pela ideia de uma imprensa encabrestada. O partido jamais lidou bem com a liberdade – assegurada pela Constituição – que permitiu ao jornalismo profissional e independente revelar ao País os muitos erros administrativos e os crimes cometidos por seus próceres e apaniguados ao longo dos 14 anos em que esteve no poder. Se durante todo esse tempo o PT não conseguiu moldar a imprensa à sua maneira, que fique claro que não foi por convicção democrática, mas sim por falta de apoio na sociedade e no Congresso. Fosse a imprensa “regulada” àquela época, talvez os brasileiros não tivessem tomado conhecimento de esquemas como o mensalão e o petrolão, apenas para citar dois grandes marcos da passagem do PT pela administração federal. Ao menos não com a extensão e a riqueza de detalhes com que esses escândalos ganharam a luz do dia.

A campanha eleitoral de 2022 trouxe o tema novamente ao debate público. Em entrevista ao portal Metrópoles, no dia 8 passado, Lula da Silva, atual líder nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, tornou a ameaçar o País com um projeto de “regulação da mídia” caso vença a eleição em outubro. Todo mundo sabe muito bem do que se trata quando o ex-presidente fala em “regulação da mídia”: um eufemismo pouco sutil para a sujeição dos meios de comunicação ao tacão estatal.

“Ninguém quer censura”, disse Lula. “O que a gente quer”, prosseguiu o petista, “é que os meios de comunicação sejam efetivamente democratizados, que as pessoas possam ouvir a oposição, que tenha sempre o outro lado falando. Não pode ser um meio de comunicação que fala só um lado.”

É um tanto peculiar essa ideia que Lula faz de “democratização” dos meios de comunicação. Ora, nos regimes democráticos as empresas de comunicação são totalmente livres para decidir o que e como publicar, e há múltiplos veículos de comunicação, que, a depender de seus valores e interesses empresariais, abordam os fatos sob diferentes ângulos. A escolha do “lado”, como disse Lula, que essas empresas decidem focalizar, tanto em coberturas jornalísticas como em editoriais ou artigos de opinião, é uma decisão legítima que diz respeito única e exclusivamente ao veículo e à sua audiência, não ao governo de turno. Não é concebível, numa democracia, que um veículo de comunicação tenha que tomar suas decisões editoriais não conforme os padrões jornalísticos, e sim segundo um modelo estatal de “equilíbrio editorial”.

Ademais, já há limites, éticos e legais para o trabalho dos veículos de comunicação profissionais e independentes. Os jornalistas profissionais são responsáveis pelo que publicam, e as empresas jornalísticas podem ser contestadas na Justiça e ter de responder por eventuais erros ou crimes contra a honra cometidos por seus funcionários. Logo, se Lula, de fato, estivesse preocupado com uma “regulação da mídia que interesse à sociedade”, nem deveria pugnar pela proposta. Os interesses da sociedade já são resguardados pelas leis e pela Constituição. O que Lula quer é outra coisa. Quer subjugar veículos para que deixem de publicar o que ele não quer que seja publicado.

O petista ainda afirmou que as mídias sociais digitais não podem “permitir que mentiras, inverdades, grosserias e ofensas façam parte da cultura brasileira”. É legítima a cobrança por maior responsabilização das chamadas big techs, mas Lula não é o mais indicado para encampar essa agenda. Há quem não se lembre, mas foi o PT que alçou a destruição de reputações por meio das redes sociais à categoria de arma política. O 4.º Congresso do PT, em 2011, marcado por ataques à imprensa, decidiu criar um núcleo de treinamento para a militância nas redes sociais, o que ajudou a abrir esse bueiro do qual saíram extremistas que hoje atacam adversários e turvam o debate público por meio de mentiras e distorções da realidade.

No ideal de uma imprensa subserviente e aduladora e na hostilidade que estimulam contra os jornalistas que ousam publicar o que não lhes convém, Lula e o presidente Jair Bolsonaro são irmãos siameses. 

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