Previsões otimistas para a indústria
28 de dezembro de 2019 | 04h00
Causaram surpresa as estimativas otimistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) quanto ao comportamento do setor secundário em 2019 e em 2020. Em vez de um período fraco para a indústria, a que se refere a maioria dos analistas, a edição especial de dezembro do Informe Conjuntural da CNI aponta a perspectiva de crescimento do setor de 0,7% em 2019 e de 2,8% em 2020.
Se os economistas da entidade estiverem corretos, a indústria poderá liderar o crescimento econômico em 2020. Para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,5%, a produção industrial deverá aumentar 2,8% relativamente a 2019. Com a exceção das estimativas sobre a situação presente e futura da indústria, a avaliação da CNI acerca dos problemas passados parece bem dosada.
O primeiro semestre deste ano “foi caracterizado pela frustração”, segundo a CNI, pois não se confirmaram as expectativas favoráveis advindas da chegada de um novo governo. As exportações caíram, principalmente pela derrocada do mercado argentino, não se devendo esperar uma alteração mais profunda dessa situação em 2020. O PIB per capita ficou estagnado no triênio 2017/2019. A recessão de 2015/2016 fez o País retroceder uma década.
A situação atual da indústria justifica, segundo o Informe Conjuntural, os bons augúrios para 2020, pois “os estoques estão ajustados, a ociosidade, ainda que lentamente, mostra queda e a situação financeira dos agentes (econômicos) está menos debilitada”. A demanda de bens de consumo foi decisiva para a retomada industrial no semestre em curso.
Os fatores que mais contribuíram para a recuperação da indústria foram a liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), a redução dos juros e a maior disponibilidade de crédito.
A CNI ainda qualifica como “gradual” a recuperação industrial. Esta será movida, em 2020, pela construção civil e pela indústria extrativa.
A entidade prevê a retomada de investimentos em 2020, com aumento da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) de 6,5%, acima dos 2,8% estimados para 2019. Mas outras análises, como as da Fundação Getúlio Vargas (FGV), são menos otimistas quanto à economia e quanto à indústria. A recuperação recente dependeu mais do consumo do que do investimento, disse Cláudio Considera, da FGV.
Dívida pública cresce, mas o custo se reduz
29 de dezembro de 2019 | 05h00
A dívida mobiliária da União aumentou 2% (quase R$ 85 bilhões) entre outubro e novembro, atingiu o recorde de R$ 4,2 trilhões e continuará crescendo por causa da incorporação mensal dos juros ao saldo do endividamento e à necessidade de cobrir o déficit público primário. O que mudou – para melhor – é o fato de que o ritmo de crescimento da dívida tende a ser mais lento, porque o conjunto das contas públicas começa a melhorar.
Como têm afirmado as autoridades fiscais, a redução do juro já permitiu uma queda expressiva do custo da dívida pública neste ano e é previsível que esta diminuição persista no ano que vem. O resultado é que o ritmo de crescimento do endividamento será mais lento do que se previa.
Entre outubro e novembro, as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs) – que são o principal papel da dívida pública e representam quase 40% do total de títulos emitidos – apresentaram queda do custo médio acumulado em 12 meses de 6,22% para 6,10% ao ano.
Esse custo guarda relação direta com o do juro básico da economia, reduzido na última reunião do Copom de 5% para 4,5%. Em dezembro de 2018, o custo médio das LFTs era de 6,44% ao ano.
O custo médio do total da dívida só cresceu (de 8,61% para 8,67% ao ano entre outubro e novembro) em razão da valorização do dólar, que impacta a dívida em moeda estrangeira. Mas esta dívida tem peso de apenas 4% no total do endividamento.
Em novembro, os fundos de investimento, com uma carteira de títulos públicos de R$ 1,07 trilhão, e as entidades de Previdência, com R$ 1,026 trilhão, foram os principais detentores de papéis da dívida. Mas o maior crescimento entre outubro e novembro foi verificado nas carteiras das instituições financeiras (+R$ 46 bilhões, para R$ 957 bilhões ou 23,73% do total da dívida). Houve pequena redução da participação dos estrangeiros, de 11,33% para 11,11% da dívida – o que não justifica maior preocupação, devendo se explicar pela queda dos juros do País, que não são tão atraentes como já o foram.
Os montantes dos diversos papéis da dívida do Tesouro – prefixados, corrigidos pela inflação ou pela taxa Selic – estão dentro dos limites do Plano Anual de Financiamento (PAF). O que incomoda não é a administração da dívida, mas seu vulto. Felizmente, espera-se crescimento lento.
Exportações de café alcançam novo recorde
31 de dezembro de 2019 | 05h00
As exportações de café pelo Brasil registrarão em 2019 um volume recorde. No período de janeiro a novembro, os embarques totalizaram 37,4 milhões de sacas, com aumento de 18,4% em relação ao resultado dos 11 primeiros meses de 2018. Mais ainda, é um volume maior do que o recorde anual anterior, de 37,02 milhões de sacas, registrado em 2015. No período de 12 meses encerrado em novembro, o total das exportações foi de 41,4 milhões de sacas, de acordo com Relatório Mensal Novembro 2019, elaborado pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
“Os volumes recordes embarcados até novembro e as expectativas positivas para dezembro demonstram que o Brasil, por meio de eficiência e organização do setor exportador, bem como da alta qualidade e sustentabilidade da cadeia produtiva, está preparado e estruturado para atender ao crescimento do consumo e elevar a sua participação global nas exportações de café”, diz o presidente do Cecafé, Nelson Carvalhaes.
Fundado em 1999, 0 Cecafé reúne exportadores, produtores, associações e cooperativas que correspondem, segundo a entidade, a 96% dos agentes do mercado cafeeiro no País. Na sua avaliação, o bom desempenho de novembro, quando as exportações alcançaram 3,1 milhões de sacas, “sinaliza a sólida participação e contínua demanda do café brasileiro no consumo mundial da bebida”.
Nos 11 primeiros meses do ano, a receita cambial gerada pelas exportações de café somou US$ 4,7 bilhões, 2% mais do que a auferida em igual período de 2018. Ao longo do ano, outros países produtores, como Indonésia, Vietnã, Colômbia e Peru, enfrentaram dificuldades provocadas por fatores climáticos e pelos baixos ciclos de preços. Mas o mercado mundial se recuperou nas últimas semanas e “trouxe novos ânimos para os cafeicultores brasileiros com o novo patamar de preços”, avalia o Cecafé.
Os cinco principais países importadores do café brasileiro são Estados Unidos (7,2 milhões de sacas, ou 19,2% das exportações), Alemanha (16,5%), Itália (9,1%), Japão (6,4%) e Bélgica (6,2%). Neste ano, o México, com aumento de 205% nas suas compras, entrou na lista dos dez maiores importadores.
O café arábica respondeu por 80,5% das exportações; o café solúvel, por 9,8%; e o café robusta (conilon), por 9,7%.
Melhora sensível das contas fiscais
03 de janeiro de 2020 | 05h00
Houve expressiva redução do déficit primário das contas públicas nos primeiros 11 meses de 2019. O déficit caiu de R$ 67,1 bilhões em 2018 para R$ 48,4 bilhões em 2019. Falta computar o peso da cessão onerosa de campos do pré-sal no resultado primário, mas fica claro que a operação com petróleo não invalida a tendência positiva de melhora fiscal observada ao longo do ano. Estimativas privadas de déficit primário de R$ 70 bilhões em 2019 tornaram-se verossímeis após os dados de novembro, ainda que seja mais difícil manter os resultados em 2020 sem novas receitas não recorrentes que ajudem a cortar o déficit.
Há um conjunto de fatores que permitem esses ganhos. Um deles é a queda dos juros nominais pagos pelo governo federal, de R$ 363,1 bilhões nos primeiros 11 meses de 2018 para R$ 294,1 bilhões em igual período do ano passado. Como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), o recuo foi de 1,33 ponto porcentual, de 5,78% para 4,45% do produto.
Caiu não só o déficit primário do período janeiro a novembro, mas também o déficit nominal, que é a melhor forma de comparação com as contas de outros países. O desequilíbrio nominal recuou de 6,67% do PIB em 2018 para 5,91% do PIB em 2019.
O Brasil ainda tem enormes problemas fiscais para enfrentar. O déficit da Previdência Social de R$ 201,1 bilhões em 11 meses de 2019 (R$ 186,3 bilhões em igual período de 2018) evoluiu mais lentamente do que em anos anteriores, mas ainda é o maior fator de desequilíbrio fiscal do governo central. É mais lento o aumento dos dispêndios com a folha dos servidores, mas falta avançar nas medidas de economia, visíveis em grandes e pequenos fatos, como o auxílio-alimentação pago pelo Poder Judiciário até a quem atingiu o topo da carreira.
São inegáveis os esforços do governo para diminuir o rombo fiscal. Estes já se refletem no item mais crítico de avaliação das contas federais: a dívida pública. A dívida líquida total apresentou ligeira queda, de 55,2% do PIB em julho para 54,8% do PIB em novembro. Trata-se de tendência de longo prazo: nos primeiros 11 meses de 2016, a taxa implícita de juros foi de 16,4% do PIB, chegando a 9,3% em 2019. A dívida bruta de 77,7% do PIB em novembro não chegou aos 80% previstos no início do ano e deverá cair no longo prazo.
O desafio é manter a tendência de queda do déficit em 2020.
Desigualdade aumenta e Nordeste e Norte ficam ainda mais distantes das outras regiões do País
Douglas Gavras
10 de dezembro de 2019 | 11h38
Laércio Matias, de 53 anos, se esforça para empurrar o carrinho que usa para coletar papelão, no centro de São Paulo. Em um dia de sorte, ele ganha R$ 50 com a venda de 130 quilos do material. Ao caminhar pelas ruas da cidade, porém, não deixa de pensar no quanto a sua vida mudou nos últimos anos.
Operário experiente, ele era empregado na construção de grandes edifícios comerciais da capital paulista. Não faltava emprego. Até que veio a crise e a família teve de aprender a se virar com menos. “Com o tempo, até as reformas sumiram e fui trabalhar na rua. A situação é difícil, mas tem gente pior. No trajeto, passo por tantas famílias morando na rua que fico até sem graça de reclamar.”
Laércio é uma das muitas vítimas da recessão que assolou o Brasil entre 2014 e 2016, que deixou no seu rastro um aumento da desigualdade que o País ainda está longe de conseguir mitigar. E esse fenômeno da desigualdade atingiu ainda de forma mais forte as regiões menos desenvolvidas.
Um estudo de pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que a distância entre as regiões brasileiras aumentou nos últimos cinco anos, como consequência da recessão: enquanto a desigualdade da renda do trabalho cresceu quase 5% no Nordeste e no Norte, nas demais regiões, ela cresceu na casa dos 3%, pelo coeficiente de Gini.
Esse índice mede o grau de concentração de renda em um grupo, apontando a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e mais ricos. Ele varia de 0 a 1. Quanto maior o número, maior a desigualdade.
O economista Daniel Duque, um dos responsáveis pelo estudo, aponta que, dos cinco Estados que ficaram mais desiguais nos últimos cinco anos, todos são nordestinos. Nesse ponto, os últimos anos foram mais cruéis na Paraíba, no Maranhão e em Alagoas.
Desempregado e tendo de pedir esmolas em um cruzamento da capital alagoana, Maceió, Gilson dos Santos, de 38 anos, pede comida para os três filhos enquanto espera por um milagre. Antes da crise, ele chegou a investir os poucos recursos que tinha na compra de uma bicicleta e de produtos para vender lanches na rua. Veio a recessão e ele perdeu tudo. “O desemprego era tão alto que os clientes sumiram.”
A volta do crescimento da desigualdade é reflexo direto da falta de trabalho formal, que afetou a renda das famílias. Nos últimos cinco anos, só 2 dos 27 Estados brasileiros, mais o Distrito Federal, não ficaram mais desiguais — Sergipe e Pernambuco, que já tinham índices elevados.
É importante levar em conta que os Estados mais pobres também têm um mercado de trabalho mais frágil, com mais pessoas com acesso irregular às oportunidades”Daniel Duque, economista
Retrocesso
O Brasil tem um longo histórico de desigualdade de renda, mas havia entre a maior parte dos economistas, até 2014, um entendimento de que esse cenário iria melhorar e a desigualdade cairia continuamente, diz o superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques. “O sinal de alerta veio quando essa tendência foi revertida.”
Desde a crise, a parte mais rica dos brasileiros se distancia cada vez mais da parcela mais pobre. No começo deste ano, a renda da metade mais pobre caiu cerca de 18%, e o 1% mais rico teve quase 10% de alta no poder de compra, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Para reverter esse quadro, Henriques lembra que é preciso ter uma agenda de recuperação econômica, que enfrente de forma eficiente a questão do desemprego. “O Brasil precisa retomar a tendência de construir políticas sociais mais articuladas, pegar os instrumentos que existem e podem ser repensados. E um ícone disso é o Bolsa Família.”
A maioria dos economistas ouvidos pelo Estado citou o programa para famílias de baixa renda como exemplo de política social bem-sucedida voltada para a extrema pobreza. Apesar de ele, por si só, não combater a concentração de renda, uma das ideias é que ele seja revisto e ampliado.
Apesar de a desigualdade ter piorado justamente nas regiões mais pobres do País, os economistas lembram que pobreza e desigualdade não são o mesmo conceito. Um país pobre pode ser mais igualitário do que um rico. Um relatório do Banco Mundial aponta, contudo, que a pobreza também aumentou no Brasil de 2014 a 2017, atingindo 21% da população, ou 43,5 milhões de pessoas.
O pesquisador Pedro Herculano de Souza, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ganhador do Prêmio Jabuti com o livro Uma História da Desigualdade, avalia que o desemprego e a informalidade atingiram em cheio os grupos mais vulneráveis, o que contribuiu para o aumento tanto da pobreza quanto da desigualdade.
No passado, o que fez esses índices caírem foi o aquecimento do mercado de trabalho, com formalização e demanda por trabalhadores menos qualificados, que são a maioria dos brasileiros”Pedro Herculano de Souza, pesquisador do Ipea
Ele completa que uma saída para a redução desses problemas seria transpor os obstáculos que ainda estão travando a recuperação da economia, fazendo reformas para criar mais espaço fiscal que estimule investimentos em programas sociais e geração de empregos. “E, no longo prazo, não há como substituir o investimento em educação, que deve ser maior e mais eficiente, com o objetivo de formar no País uma força de trabalho mais preparada.”
Carlos Nealdo, Especial para o Estado
O alagoano Gilson Célio dos Santos, 38 anos, chega a uma avenida de Maceió às seis da manhã e espera o semáforo fechar. Antes da crise, ele tinha um carrinho de lanches. Veio a recessão, os clientes sumiram e ficaram as dívidas. Com três filhos, só resta a ele pedir na rua um emprego, um pacote de leite ou de fraldas. "Qualquer ajuda serve."
FOTO: CARLOS NEALDO
Fábio Bispo, Especial para o Estado
Há três anos desempregada, Kelly da Silva Lopes, de 30 anos, passa o dia entregando currículos para dar conta de manter as três filhas que vivem com ela de favor com uma amiga, em Florianópolis. Desde a crise, ela nunca mais conseguiu outro emprego fixo. “Falta dinheiro para tudo. Para comida, para contas, até para pagar um aluguel.”
FOTO: FÁBIO BISPO
Fábio Bispo, Especial para o Estado
Odilo Borgmann, 52 anos, está desde 2013 sem carteira assinada e viu a situação se agravar no último ano, quando perdeu o trabalho como motorista no litoral norte de Santa Catarina. "Desde agosto de 2018 não exerço nenhuma outra atividade remunerada." Atualmente, estuda para um concurso anunciado pela prefeitura de Florianópolis.
FOTO: FÁBIO BISPO
Douglas Gavras
Laércio Viera Matias, de 53 anos, estaciona o carrinho que usa para coletar papelão pelas ruas de São Paulo. Antes da recessão, ele trabalhava construindo prédios e pontes. Até que tudo mudou. O trabalho, que era farto, sumiu. "Apesar de tudo, sou feliz. Passo por tantas famílias morando na rua que fico até sem graça de reclamar."
FOTO: DOUGLAS GAVRAS
Douglas Gavras
Luís da Silva trabalha há 32 anos nas ruas de São Paulo recolhendo material reciclável. "Estou com 55 anos hoje. Com esse dinheiro, criei a minha família. É um trabalho honesto, mas a concorrência aumentou. Desde a crise, tem mais gente catando lixo." O dinheiro agora mal dá para pagar o aluguel. "Espero que 2020 seja melhor."
FOTO: DOUGLAS GAVRAS
Douglas Gavras
Oscar Benevides, de 57 anos, espera o início da noite para montar uma barraca junto ao carrinho que usa para recolher entulho ao lado do Mosteiro de São Bento, no centro de São Paulo. "Aquele mosteiro é do papa, mas este aqui é o meu templo. Com esforço, criei quatro filhos adotivos. Queria uma vida melhor para eles, só não sei como."
FOTO: DOUGLAS GAVRAS
ENTREVISTA
Ricardo Paes de Barros, economista

'BOLSA FAMÍLIA DEVE SER REVISTO E AMPLIADO'
Não há solução para reduzir a pobreza e a desigualdade sem a retomada do crescimento robusto do País, analisa o economista Ricardo Paes de Barros. Ele avalia, no entanto, que mesmo com os recursos escassos, o governo não deve deixar de investir em programas de transferência de renda para a população mais carente.
Um dos idealizadores do Bolsa Família, o professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e economista-chefe do Instituto Ayrton Senna avalia que o programa é ainda mais necessário agora e deveria ser ampliado, dado o de baixo crescimento econômico e o aumento do número de brasileiros que passaram a depender de programas de transferência de renda.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Como resolver a pobreza, em um contexto de baixo crescimento econômico, como o que o País vem registrando nos últimos anos?
No longo prazo, não há solução para reduzir a pobreza de maneira sustentável sem retomar o crescimento do País. Infelizmente, a perspectiva que se tem é de um crescimento modesto também este ano, o que deve fazer de 2019 o terceiro ano seguido de crescimento baixo desde o fim da recessão.
Há espaço para frear o aumento da pobreza e da desigualdade, mesmo com falta de recursos?
Sim, certamente é possível reduzir a pobreza e a desigualdade, mesmo em um contexto de baixo crescimento. Esses são temas que não devem sair de pauta. Uma política social arrojada, na verdade, será aquela que permitir que os mais pobres consigam aproveitar o crescimento do País, dando assistência técnica, capacitação e crédito. O governo deve direcionar os gastos públicos para atender aos mais pobres, não há contradição entre fazer isso e reduzir a dívida pública.
Nos últimos anos, a pobreza aumentou, mas não chegou a explodir. Em partes, isso mostra que as políticas sociais atuais têm uma capacidade bastante considerável de segurar o aumento da pobreza. Por outro lado, é claro que toda política que é feita hoje, incluindo o Bolsa Família, pode e deve ser melhorada o tempo todo. Achar que os programas que estão funcionando hoje são perfeitos é maluquice.
Aversão da esquerda à reforma da Previdência não passou de teatro
Enquanto a proposta de modificar as regras das aposentadorias estava apenas na esfera federal, os grupos oposicionistas empreenderam um espalhafatoso movimento de antagonismo ao projeto, supostamente em defesa dos interesses do trabalhador. Até aí, nada demais. Só oposição sendo oposição e, de forma conveniente, escolhendo seu lado numa pauta bastante impopular.
Mas, neste fim de ano, surgiu uma ironia daquelas. Estados governados pela esquerda/centro-esquerda encaminharam em velocidade impressionante suas próprias reformas previdenciárias. No Ceará, por exemplo, bastaram nove dias para aprovar as novas regras que regem a aposentadoria dos servidores.
Piauí e Maranhão, cujas lideranças também se inclinam à esquerda, levaram ainda menos tempo. No primeiro, governado por Wellington Dias (PT), uma ampla reforma passou em seis dias; no segundo, de Flávio Dino (PCdoB), um dia foi suficiente para aumentar a alíquota de contribuição do servidor.
Confortavelmente, esses estados jogam um pouco da responsabilidade para o Governo Federal, afinal, a PEC paralela, que os inclui no bojo das mudanças, deve ser finalizada em meados do primeiro semestre de 2020. Mas esperar pra quê? 1) Há um custo muito maior em mexer com um assunto dessa natureza em ano de eleição. 2) Mesmo as gestões de esquerda sabem que precisam equilibrar as contas - algo que, aliás, o Ceará vem fazendo com responsabilidade nos últimos anos.
Mas a lição que fica nesse paradoxo é a de que esquerda e direita farão o que for necessário para salvar suas próprias peles. Em situações críticas, administrações de esquerda vão acenar para medidas austeras e punitivas ao cidadão; assim como governos de direita flertarão com o populismo perdulário em busca de aprovação.
Na Hora H, não há espaço para romantismo ideológico. Diante da frieza dos números, um governo, seja de qual partido for, fará simplesmente o que precisa ser feito para sobreviver, por mais que isso machuque quem o elegeu. E como seria bom se as pessoas aprendessem, com episódios assim, a não idealizar cegamente seus escolhidos. Ao invés disso, deveriam ser críticos contumazes dos políticos em que votam, apesar das compreensíveis simpatias.








