Tropas do Exército já estão de prontidão para atuar no Ceará após Camilo pedir Garantia da Lei e da Ordem
Diante do motim dos policiais militares no Ceará, que entra hoje no terceiro dia, o governador do Estado, Camilo Santana, formalizou ao presidente da República, Jair Bolsonaro, o pedido para uso de tropas das Forças Armadas para a Garantia da Lei e da Ordem (GLO).
Na solicitação, através do ofício nº 58/2020, Camilo argumenta que no momento "há insuficiência das forças estaduais para cumprimento regular de sua missão constitucional".
Somente a Presidência da República pode confirmar a instauração de GLO, através de decreto.
O POVO apurou que o Exército, através do Comando Militar do Nordeste (CMNE), já acionou os chamados pelotões de prontoemprego, com militares de unidades da Bahia e Pernambuco. "Eles já estão aquartelados, aguardando a confirmação. Estão de prontidão", confirmou uma fonte militar à reportagem.
O quantitativo não seria disponibilizado por questão estratégica.
O documento enviado pelo governador cearense alega que "faz-se imperioso, nesse momento, o envio e auxílio das tropas federais".
Na manhã desta quinta-feira, cerca de 300 homens da Força Nacional, tropa federal formada por agentes especiais das polícias militares chegaram a Fortaleza para atuar na proteção das ruas.
O POVO procurou a assessoria de imprensa do Governo do Estado e aguarda retorno.
Democracia não se faz com capuz e retroescavadeira... - JOSIAS DE SOUZA
O que aconteceu na cidade cearense de Sobral foi uma apoteose da insensatez. Fala-se que há uma greve da Polícia Militar no Ceará. Não há greve nenhuma. O que há é um motim. Diz-se que o senador Cid Gomes praticou um ato político. Não houve política no ato do senador. O que houve, ao contrário, foi um gesto de truculência. Policial que troca a farda pelo capuz equipara-se a bandido. Senador que substitui o argumento pela retroescavadeira iguala-se aos velhos coronéis arcaicos.
A polícia do Ceará não está em greve porque a Constituição proíbe greves de corporações armadas. Essa proibição foi confirmada em julgamento realizado em 2017 no Supremo Tribunal Federal. Ainda que alguém, por suprema licenciosidade, desejasse dar à policia um inexistente direito à paralisação, isso não incluiria uma licença para ocupar quarteis, de armas na mão e capuz na cabeça. Policial encapuzado é o triunfo da baderna sobre as forças da lei e da ordem.
O senador Cid Gomes não fez política em Sobral porque a lógica desautoriza a política que enxerga a truculência como um meio adequado para se atingir um determinado fim. Numa democracia, a única força que um senador está autorizado a utilizar é a força do argumento. Os chefões políticos que adotam a prepotência como estilo podem questionar os princípios democráticos. Mas precisam informar o que desejam colocar no lugar. A retroescavadeira é equiparável ao tanque de uma ditadura.
Quando policial vira fora da lei e o político se transforma em parte do problema, produz-se um tipo de briga em que o contribuinte brasileiro entra com a vergonha e com a cara. Ou com o bolso. Na pseudo-democracia do capuz e do trator, o Tesouro Nacional faz sempre o papel de coadjuvante da lambança, ao financiar o envio da cavalaria da Força Nacional de Segurança, como ocorre agora, novamente, no Ceará.
Não há caminhos alternativos: ou imperam a lei e a lógica ou prevalecerá sempre a insensatez, que é o caminho mais curto para a balbúrdia.
Banco Central dá 'empurrão' de R$ 135 bilhões para sacudir a economia
A decisão de liberar parte dos recursos que os bancos são obrigados a deixar depositados no BC faz parte de uma agenda que Roberto Campos Neto e sua equipe estão tocando para melhorar a eficiência do sistema financeiro brasileiro. Mas deixar R$ 135 bilhões nas mãos da turma que faz dinheiro é um empurrão no mercado de crédito, fundamental para o aumento da atividade econômica.
O Banco Central não fica muito satisfeito quando vê esse tipo de associação entre sua agenda de longo prazo e a conjuntura atual da economia brasileira. Bruno Serra, diretor de Política Monetária do BC, frisou isso na entrevista na manhã desta quinta-feira, quando deu detalhes sobre a medida.
– O objetivo aqui é melhorar a eficiência do sistema financeiro nacional. Para estimular a economia a gente tem outros instrumentos – disse Serra, lembrando que a grande arma do BC para manter a inflação sob controle e estimular a economia é a taxa básica de juros. Aquela que o mesmo Serra e demais integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC jogaram, ainda neste mês, para 4,25% ao ano, novo piso histórico.
A diretoria do BC decidiu encostar, por enquanto, seu principal instrumento de estímulo econômico. Por isso, a liberação de recursos terá efeito sim sobre a atividade econômica. Não há possibilidade de R$ 135 bilhões ficarem no caixa das instituições. É plausível imaginar que emprestar o dinheiro é um caminho que deverá ser percorrido por todos. Até mesmo Bruno Serra admitiu:
– É natural que neste ambiente se espere que uma parte desses recursos vá para o crédito, senão em sua totalidade – afirmou o diretor do BC.
O governo Jair Bolsonaro usa o que tem à disposição para evitar que o país acumule mais um ano de atividade fraca. É a Selic em patamar historicamente baixo, mais dinheiro na mão dos bancos para emprestar e nova linha de crédito da Caixa com juros fixos.
Leia outras análises do Analítico / O GLOBO
Humano precisa ser capaz de tomar o controle de mecanismos autônomos
Diferente de um ser humano, uma tecnologia não tem a capacidade de tomar decisões por si só. Por mais que pareçam funcionar sozinhos, equipamentos autônomos precisam ser previamente programados para agir e, para isso, é necessário tomar uma série de decisões ainda no desenvolvimento dos produtos.
Essa escolha de como uma máquina vai reagir frente a desafios é um dos principais temas em debate sobre IA (inteligência artificial). E especialistas defendem que, quando a coisa ficar feia, melhor devolver o controle para um humano.
"Um risco evidente [da IA] é o excesso de confiança nesses sistemas", diz Konstantinos Karachalios, diretor-geral do IEEE (Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos). "Temos que sempre manter um olhar crítico e poder remover os mecanismos de IA do controle quando necessário."
Karachalios cita um exemplo da Guerra Fria (1947-1991) para mostrar o quão importante pode ser um humano tomar as rédeas e não deixar tudo nas "mãos" de máquinas.
Em 1983, o oficial soviético Stanislav Petrov (1939-2017) optou por ignorar alarmes de um sistema que identificava, por satélite, mísseis nucleares disparados pelos americanos. A detecção estava equivocada. A atitude de Petrov impediu que seus superiores iniciassem ataques de retaliação e, com isso, uma possível guerra nuclear.
Para os dias atuais, um dos principais dilemas sobre sistemas que funcionam sozinhos está nos carros autônomos –que já circulam, em testes, por algumas cidades.
"Você está viajando por uma via de mão única numa montanha, dentro de um carro autônomo que está se aproximando rapidamente de um túnel estreito. Logo antes de entrar no túnel, uma criança tenta atravessar a rua, mas tropeça no meio da estrada, bloqueando a entrada. O carro tem duas opções: atingir e matar a criança, ou virar em direção a um dos lados do túnel, matando você. Como o carro deve reagir?"
O exemplo foi criado por Jason Millar, pesquisador da Universidade de Ottawa, no Canadá, e publicado no site Robohub.
Nesse caso, as duas saídas vão necessariamente resultar em um mal. Moralmente, não há opção certa.
De qualquer forma, carros autônomos precisam ser programados para agir nessas situações. Quem precisa tomar as decisões: o designer do carro, o usuário, legisladores?
Para Millar, a área médica, que lida com decisões de vida ou morte o tempo todo, pode ajudar na resposta. "Geralmente se deixa ao indivíduo a quem a questão tem implicações morais diretas decidir qual a melhor opção [fazer ou não um tratamento agressivo, por exemplo]." No caso, o próprio motorista.
"Um motorista mais velho pode preferir se sacrificar. Pode até ser que um defensor dos animais preferiria se chocar contra o muro mesmo que fosse um veado no caminho. Ou pode ser que a maioria de nós escolheria não virar o carro", escreve. "É nessa escolha que mantemos nossa autonomia pessoal."
Mesmo em casos menos extremos, máquinas podem dar problema. E se as coisas fugirem do controle? Para permanecer no exemplo do veículo autônomo: num acidente de trânsito, a culpa vai para o fabricante, para o motorista?
Segundo o filósofo Luciano Floridi, da Universidade Oxford, nessas situações, é necessário distribuir a responsabilidade entre todos os agentes, a menos que eles provem não ter culpa no acidente.
Se a pessoa está num carro autônomo que não permite dirigir, é como ser o passageiro de um trem, compara. Em caso de acidente, não há como culpá-lo. Caso exista a possibilidade de assumir o controle, a responsabilidade pode ser compartilhada.
Reportagem: Raphael Hernandes/ Edição: Camila Marques, Eduardo Sodré, Roberto Dias / Ilustrações e infografia: Carolina Daffara
Gigantes de tec criam suas próprias regras, mas pedem regulação para IA
A expansão da IA (inteligência artificial) provoca um movimento pouco comum entre empresas como Amazon, Facebook, Google, IBM e Microsoft: pedidos por regulação, acompanhados pela divulgação de regras próprias para o uso da tecnologia.
Com empresas de tecnologia sob os holofotes após múltiplos escândalos envolvendo privacidade, conquistar a confiança do público para a IA aparece como um motivador para tentar compartilhar a responsabilidade de regular a área.
"Se as pessoas não confiarem na IA, então corremos riscos tremendos de todos os benefícios que ela pode trazer serem prejudicados", diz Michael Philips, que chefia o desenvolvimento de políticas para essa tecnologia na Microsoft.
Para o italiano Luciano Floridi, professor de filosofia e ética da informação na Universidade de Oxford, o interesse das gigantes de tecnologia por regulação no setor pode ser motivado pelo desejo de se ter clareza sobre o que é certo e errado. A presença de regras comuns, avalia, é o que permite a competição.
Reportagem publicada em janeiro no jornal "Wall Street Journal" compara a movimentação à de outras indústrias no passado, particularmente seguros e petróleo. Ao ver que a regulação é inevitável, as empresas apoiam a criação de regras publicamente enquanto atuam nos bastidores para influenciar como elas são feitas.
No discurso, embora as abordagens e regras das gigantes tecnológicas variem um pouco, o que elas têm em comum é pregar uma IA justa e transparente.
"Nós tomamos muitas decisões e não devemos tomar tantas decisões sozinhos sem a presença do debate público", avalia Norberto Andrade, líder global para políticas de ética digital e em IA no Facebook. "As questões éticas não têm que ser respondidas apenas pelas empresas. Precisamos chegar a um consenso como sociedade."
Swami Sivasubramanian, vice-presidente de IA da AWS (empresa de computação em nuvem da Amazon) faz coro a Andrade. "É muito fácil dizer "tal pessoa não deveria poder usar essa tecnologia". Mas, se está de acordo com as leis do país em que ela vive, não cabe a nós dizer o que devem ou não fazer", diz.
Jeff Dean, diretor de IA do Google, diz achar razoável que países adotem regras diferentes entre si. "Já estamos vendo isso acontecer."
Colaborou Bruno Fávero
Superinteligência artificial pode levar ao fim da humanidade? Entenda riscos
Ao pensar numa eventual ascensão das máquinas, uma imagem que vem à cabeça é a de um bando de robôs humanoides destruindo as pessoas. E aí é "hasta la vista, baby".
Contudo, o fim da humanidade motivado por uma expansão das capacidades de IA (inteligência artificial) não deve ser bem assim.
Pesquisadores do Instituto do Futuro da Humanidade, ligado à Universidade de Oxford, mapeiam os chamados riscos existenciais. A lista de potenciais causadores do apocalipse, além da IA, inclui desastres naturais, nanotecnologia e biotecnologia.
Segundo Nick Bostrom, professor de Oxford e diretor-fundador do instituto, parte do risco gerado pela inteligência artificial vem de sua utilização no desenvolvimento de outras coisas potencialmente danosas.
"Da mesma forma como muitas outras tecnologias poderosas são usadas de formas prejudiciais, a IA poderia também se tornar uma ferramenta para guerra e opressão", diz Bostrom. Uma das preocupações é o uso da tecnologia para a construção de armamentos.
Os pesquisadores Stephen Cave e Kanta Dihal, da Universidade de Cambridge, rastreiam a história das armas autônomas. O estudo considera até uma obra de ficção escrita na Grécia Antiga. No texto "Argonautica", datado do século 3 a.C., um gigante feito de bronze funcionava sozinho para defender a Europa de invasores.
"Recentemente, há esforços grandes para transformar esses mitos em realidade, com financiamento militar para projetos de inteligência artificial", escrevem Cave e Dihal no artigo "Hopes and fears for intelligent machines in fiction and reality" ("Esperanças e medos para máquinas inteligentes na ficção e na realidade").
A IA pode ser usada para automatizar a detecção de alvos de drones, por exemplo. Mas até que ponto um robô pode decidir, sozinho, que é a hora de puxar um gatilho? Cada país pode ter uma opinião diferente.
Brad Smith, presidente da Microsoft, escreve em seu livro "Tools and Weapons" ("Armas e Ferramentas") que líderes militares de todo o mundo concordam em uma coisa, pelo menos: "Ninguém quer acordar numa manhã e descobrir que máquinas começaram uma guerra enquanto eles dormiam."
Já a inteligência artificial que causa medo em filmes como "O Exterminador do Futuro", "Matrix" e "Eu, Robô" existe apenas na ficção. É a chamada IA geral, capaz de avaliar uma ampla série de tópicos.
Alguns especialistas dizem que nunca vai existir, outros que aparecerá nas próximas décadas. No mínimo, é algo que está longe de emergir.
"Quando se pensa em IA, as pessoas têm muitas esperanças, medos, expectativas, que não refletem o atual estado da tecnologia", afirma a pesquisadora holandesa Kanta Dihal, da Universidade de Cambridge.
A tecnologia que existe hoje é a IA estreita, capaz de operações altamente específicas. Um exemplo prático é o mecanismo capaz de detectar imagens de gatos.
A partir de bases de dados com várias fotos e desenhos, é possível fazer o sistema assimilar padrões e, com isso, avaliar se outras imagens são ou não de bichanos. Esse mesmo robô não seria capaz de identificar cães ou de jogar xadrez –precisaria ser preparado especificamente para isso.
A parte central da teoria de Bostrom para o fim da humanidade por meio de inteligência artificial gira em torno do que ele chama de superinteligência. Seria, teoricamente, a última tecnologia que a humanidade precisaria criar.
"Ela faria as atividades de invenção de forma muito mais eficiente do que humanos", diz o professor.
O mecanismo seria capaz de criar outras máquinas ou sistemas, e isso inclui fazer melhorias em si próprio. A partir de um momento, com a escalada na capacidade, a inteligência dessa máquina seria tão grande que um ser humano não conseguiria entender. Se isso saísse do controle...
O pensamento de Bostrom é criticado por alguns colegas, que dizem que esse tipo de discussão tira o foco de problemas mais palpáveis. O próprio filósofo reconhece que é difícil estabelecer um intervalo de tempo para que a tecnologia chegue a um nível tão elevado.
"Algumas pessoas estão convencidas de que a superinteligência aparecerá em 10 a 15 anos, outros estão igualmente convictos em dizer que nunca acontecerá ou que demorará centenas de anos", afirma Bostrom, que argumenta ser importante estar preparado para isso.
A PARÁBOLA DOS HUMANOS QUE VIRAM CLIPES DE PAPEL
Para ilustrar o fenômeno sobre o qual a superinteligência deveria causar preocupação, Bostrom criou a parábola do maximizador de clipes de papel.
Na história, a humanidade criou um sistema de IA cujo objetivo é produzir tantos clipes quanto conseguir. Ele precisa de mais e mais água e metal para manter a fabricação, e então ele pode entender que as pessoas são feitas de átomos -que poderiam ser usados para fazer clipes.
Até chegar um ponto em que tudo, Terra e pessoas, virem clipes de papel (feitos da forma mais eficiente possível).
Para Bostrom, a questão é que o sistema não foi concebido para fazer mal ao ser humano. "Você não precisa programar o instinto de sobrevivência ou o desejo por poder e riqueza para que a IA procure por essas coisas, pois elas já seriam meios para o objetivo final de obter mais clipes de papel", explica.
Para a catástrofe acontecer, seria necessário uma inteligência artificial muito poderosa e orientada a um objetivo específico. Por isso, argumenta Bostrom, ao se programar um sistema com esse potencial seria importante colocá-lo para fazer algo que realmente importa aos humanos, de forma mais ampla.


