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Apoio nas ruas definirá futuro do atrito de Bolsonaro com Congresso, diz cientista política

Ricardo Balthazar / FOLHA DE SP
 
CIENTISTA POLITICA ANGELINA
SÃO PAULO

O futuro do confronto entre o presidente Jair Bolsonaro e o Congresso dependerá do apoio que as manifestações convocadas para o próximo dia 15 receberão, diz a cientista política Argelina Figueiredo, professora da Universidade Estadual do Rio.

Na semana passada, Bolsonaro enviou a seguidores mensagens e vídeos que convocam a população para defendê-lo nas ruas no dia 15, data escolhida por grupos conservadores que apoiam o presidente para protestos contra o Congresso

Para Argelina, Bolsonaro ampliou o espaço dos militares em seu governo, nomeando generais para postos chave no Palácio do Planalto, com o objetivo de intimidar adversários e inibir tentativas de esvaziar o poder do Executivo.

Argelina, 72, é autora de trabalhos acadêmicos influentes sobre a crise que levou ao golpe de 1964 e as mudanças promovidas nas relações entre o Executivo e o Legislativo pela Constituição de 1988, após o fim da ditadura militar e a redemocratização do país.

 

Atualmente, ela prepara um novo volume com o cientista político Fernando Limongi, da Fundação Getúlio Vargas, e outros pesquisadores, para atualizar o estudo sobre as relações entre o Executivo e o Legislativo, que completou 20 anos no ano passado.

 

 

O presidente começou a semana incitando seguidores a participar de manifestações contra o Congresso e pareceu baixar o tom nos últimos dias. O que isso significa? Bolsonaro é um agente provocador, como mostra desde o início do governo. Subestimamos o perigo que ele representa desde as eleições de 2018, quando muitos achávamos que não venceria. Mas há um risco grande de ele se transformar num pequeno ditador.

Como presidente, ele tenta impor ao sistema político tudo que teve de engolir quando era apenas um deputado do baixo clero. Suas ideias autoritárias e reacionárias, o desprezo pelas instituições. Tudo isso visando formar uma base de apoio popular que o ajude a confrontar o Congresso.

Ao mesmo tempo, ele se cerca de generais no Palácio do Planalto e afaga suas tropas, as polícias estaduais, os escalões inferiores do Exército. Acho que ele está fazendo isso para contar com os militares como bombeiros para defendê-lo se houver alguma iniciativa para tirá-lo do poder.

Como os outros Poderes deveriam reagir? Não faltariam motivos para iniciar um processo de impeachment se a maioria do Congresso quisesse, mas ele está na corda bamba. Ele precisa responder aos desatinos de Bolsonaro, mas não interessa a ninguém uma situação de confronto aberto.

Num cenário que classifico como catastrófico, mas que parece plausível, o presidente pode incitar as pessoas e provocar o caos para que os militares intervenham para manter a ordem. Acho que muitos políticos veem isso e querem evitar que algo assim ocorra.

O que ele ganharia com isso? A atitude conflituosa atrapalha a aprovação de medidas em que o próprio governo tem interesse. Mas os líderes do Congresso sabem que uma atitude de cautela é necessária, frente à relação de Bolsonaro com os militares e sua capacidade de manipular a situação política e social. 

Por outro lado, a maioria do Legislativo é a favor da política econômica proposta pelo governo. E o mercado, que dá sustentação a essa política, que apoiou Bolsonaro na eleição e segue apoiando o governo, tem pouco apreço pela democracia, porque está mais preocupado com os resultados da política econômica.

Na semana passada, Bolsonaro reclamou que o Congresso não aprova seu projeto que beneficia motoristas infratores, mas não disse nada sobre as reformas propostas por sua equipe econômica. O Congresso tem demonstrado independência ao rejeitar medidas como essa e outras que levariam a retrocessos na área ambiental, na segurança pública e na política indígena. 

A medida provisória que desobrigava empresas de publicar balanços na imprensa, e que era uma tentativa de asfixiar jornais, também não passou. Mas Bolsonaro pouco se importou com a reforma da Previdência. Ele estava preocupado em não mexer com os militares, e conseguiu isso. 

É sustentável essa espécie de parlamentarismo branco, em que o Congresso exerce maior protagonismo sem uma coalizão que dê sustentação ao governo? Um governo minoritário como o de Bolsonaro, sem uma coalizão para governar, sempre terá uma relação conflituosa com o Legislativo. Bolsonaro é um presidente de extrema direita e não tem apoio para suas propostas mais radicais. No Congresso, partidos de centro dominam o plenário e são eles que fazem as coisas acontecerem. 

Teremos uma instabilidade constante, e seguiremos aos trancos e barrancos. A rejeição das medidas provisórias editadas pelo presidente tem sido frequente, assim como a derrubada de vetos presidenciais. Mas o cenário catastrófico que descrevi antes seria pior.

Bolsonaro submete as instituições a um estresse permanente. Elas aguentam? Ele faz isso, mas não tem alternativa. Vamos supor que as manifestações convocadas para 15 de março alcancem grau de mobilização razoável. O Congresso vai iniciar um processo de impeachment, mesmo com a população contra?

Muitas pessoas acreditam nas mentiras que ele conta. Mas as pesquisas mais recentes mostram que a reprovação ao governo é alta, e o número de pessoas que não confiam nele e não gostam do seu estilo de governar são maioria. Minha torcida é para que essa manifestação fracasse.

Por que o impeachment não lhe parece uma alternativa? A maioria do Legislativo, ao assumir o atual protagonismo, se dispôs a aprovar reformas econômicas que têm o apoio do mercado e estão incompletas. Eles não querem prejudicar esse programa. Essa talvez seja a razão pela qual não haverá impeachment.

O Congresso nunca agiu como uma instituição irresponsável, nessas três décadas desde a redemocratização e a Constituição de 1988. Há hoje uma coincidência de interesses entre a maioria do Legislativo, os grupos econômicos e as políticas do governo, e assim o Congresso vai tocando o governo para frente.

Agora, a instabilidade política causa prejuízos à economia, e a população tem sofrido com isso. São as filas no INSS, os cortes no Bolsa Família, e tantos outros problemas. Isso tende a se refletir nos índices de reprovação do presidente. 

Bolsonaro tem limite? A situação atual me parece mais perigosa. Ele sempre menosprezou as instituições, mas esta é a primeira vez que convoca uma mobilização popular contra elas. Não adianta dizer que estava falando num grupo de amigos, que não era bem assim. A mensagem foi clara.

Além disso, na crise das polícias estaduais, ele tem minado a autoridade dos governadores. E ao mesmo tempo que reforça o grupo militar ao seu redor. Se houver uma resposta popular à convocação do presidente, há um risco de os militares intervirem para garantir o poder de Bolsonaro. 

No início do governo, havia a expectativa de que os militares iriam conter os instintos autoritários do presidente. O que mudou? Minha impressão é que alguns não se importam com esse comportamento de Bolsonaro. Acham que podem controlá-lo e contribuir para o governo. Há também um lado corporativo. Eles querem benefícios para a corporação e recursos para investimentos das Forças Armadas.

Mas há também quem apoie essa política de confronto com o Congresso, como o general Augusto Heleno [chefe do Gabinete de Segurança Institucional do Planalto]. Bolsonaro foi cooptando aos poucos os militares e parece ter formado um núcleo forte ao seu redor.

Há uma disputa entre o governo e o Congresso pelo controle dos recursos disponíveis no Orçamento para investimentos, cada vez mais exíguos. Bolsonaristas tratam congressistas como chantagistas. Têm razão? Não. Mesmo minoritário, o presidente tem poderes para formar uma coalizão que coordene a ação governamental e facilite a cooperação com os partidos que controlam o Legislativo. Ele optou por não fazer isso.

No mundo inteiro, os partidos formam coalizões para obter cargos, exercer influência sobre políticas públicas e conseguir votos. No Brasil, muitas pessoas pensam que tudo é corrupção e patronagem. Desvios podem ocorrer e ocorrem, mas não é isso que faz uma coalizão funcionar.

Se não puderem se relacionar com o público, com os eleitores, como os deputados vão obter votos? E se não puderem defender políticas e alocar recursos públicos, como vão obter votos? Os principais partidos tentam construir suas reputações em torno de políticas, no mundo inteiro. 

Muitas pessoas pensam que o Congresso busca inviabilizar o governo. O Congresso aprovou várias reformas no processo orçamentário nos últimos anos, criando regras para distribuição dos recursos, tornando as decisões mais coletivas e aumentando sua transparência. O Legislativo aumentou seu poder para definir políticas públicas, e não há nada de errado nisso.

Como os recursos para investimentos são muito baixos hoje, o governo está brigando com o Congresso por esse dinheiro. É uma disputa entre os Poderes, e o governo não quer perder sua capacidade de manejar esses recursos. 

Existe muito preconceito e incompreensão do papel do Legislativo, em parte por culpa da imprensa. Se não houvesse emendas parlamentares, qual seria a alternativa para distribuir os recursos? Uma grande equipe técnica que estudaria as carências do país inteiro e ia custar mais dinheiro do que se gasta com as emendas. Para quê? Os políticos conhecem as carências.

Os escândalos de corrupção dos últimos anos contribuíram para esse preconceito? Achar que todo político é corrupto é o que os corruptos mais querem, porque assim eles deixam de ser diferentes e podem continuar agindo. Só eles ganham com isso.

Note que os desvios revelados nos últimos anos não se concentraram no Congresso. Ainda assim, até colegas meus, cientistas políticos, tratam os congressistas como se só estivessem interessados em embolsar dinheiro e patronagem.

Há alguma semelhança com a crise que levou ao golpe de 1964? Há muitas diferenças. Não há o contexto internacional da Guerra Fria, com uma divisão ideológica muito acentuada. Também não há radicalização no Parlamento hoje. Em 1964, o centro se esvaziou e não havia negociação possível entre direita e esquerda.

O presidente era mais fraco. João Goulart não tinha poderes para submeter um projeto de reforma constitucional, só o Congresso tinha a prerrogativa. Bolsonaro pode apresentar emendas à Constituição, o que dá a ele um poder grande de influir na agenda política. 

O conflito naquela época era mais ideológico. Havia grande preocupação com a desigualdade social. Hoje, o combate à desigualdade saiu da agenda do governo e há um predomínio da política econômica austera, fiscalista. Com a reforma trabalhista e o enfraquecimento dos sindicatos, ficou muito difícil qualquer ação coletiva para reinserir essa preocupação na agenda.

Você lê os jornais hoje e encontra vários articulistas criticando Bolsonaro, mas a maioria só reclama da instabilidade por causa do prejuízo que pode causar à política econômica, como se só ela importasse.

BIOGRAFIA

Argelina Cheibub Figueiredo, 72

Cientista política, é PhD pela Universidade de Chicago (EUA) e professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).

LIVROS

Democracia ou Reformas? Alternativas democráticas à crise política : 1961-1964
Paz e Terra, 1993 (212 págs.)

Executivo e Legislativo na Nova Ordem Constitucional 
Com Fernando Limongi
Editora FGV, 1999 (232 págs.)

Plano do Banco Central para ampliar concorrência provoca disputa no mercado financeiro

Eduardo Rodrigues e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2020 | 05h00 

BRASÍLIA - Uma das principais apostas do Banco Central para baixar a taxa de juros cobrada pelos bancos está provocando disputa entre as instituições financeiras pequenas e grandes, que estão de lado opostos na briga pela definição da nova política para incentivar a competição no mercado de crédito no Brasil.

O BC pretende colocar de pé, até o fim do ano, um sistema de troca de dados automático, o chamado open banking. Sua ideia é que quanto mais informações as instituições financeiras têm à sua disposição sobre potenciais clientes, mais seguras elas se sentirão para oferecer empréstimos mais baratos. Por isso, o BC quer que os bancos compartilhem entre si dados como a renda dos clientes e o histórico de crédito.

A consulta pública sobre o sistema foi encerrada pelo BC no fim de janeiro. O resultado das sugestões explicita as divergências no mercado. De acordo com o Banco Central, a regulação deve ficar pronta até o fim do primeiro semestre deste ano.

No centro da discórdia está o pagamento pelo uso das informações. Pela proposta do BC, a instituição financeira que consultar dados de cadastro de um cliente uma vez por dia e dados de transações de um cliente até quatro vezes por dia não precisará pagar nada. Acima disso, porém, será preciso ressarcir a outra instituição, que forneceu os dados.

Na consulta pública, instituições menores defenderam que a troca de informações seja gratuita para até 20 consultas.

Federação Brasileira de Bancos (Febraban) quer limites menores para a gratuidade. Em suas sugestões, defende que seja gratuita apenas uma consulta de dados por mês e uma consulta de dados de transações por dia. Mais consultas seriam pagas. Entre os principais custos para participar do open banking estão o desenvolvimento de sistemas e o de pessoal.

Rigidez

A Febraban e algumas instituições maiores defendem maior rigidez no ressarcimento justamente porque, segundo elas, a disponibilização de dados possui um custo não desprezível. Por outro lado, instituições financeiras menores alertam que, caso o BC acate a sugestão da Febraban, o open banking será sepultado antes de começar a funcionar.

Para o advogado Marcelo Padua, sócio do escritório Cascione Pulino Boulos Advogados e especialista em direito bancário, a dificuldade da regulamentação está em encontrar um equilíbrio. “É um equilíbrio sensível. De fato, as instituições terão uma série de custos para cumprir suas obrigações com o open banking.”

Segundo fontes do setor, as plataformas de crédito que surgiram nos últimos anos em um ambiente já digital têm um custo de R$ 0,000004 por requisição, bem inferior ao dos grandes bancos.

Já Carlos Netto, presidente da Matera – empresa de tecnologia que tem montado o sistema de diversos bancos médios – considera que o BC terá que fazer uma regulação equilibrada sobre a cobrança, porque os grandes bancos não conseguirão completar a transição tecnológica da noite para o dia.

“O jogo comercial é natural. Quem vende quer vender caro, quem compra quer comprar barato. Os bancos grandes terão um custo inevitável, mas a tecnologia vai baratear muito essas requisições de dados. Conseguimos realizar 15 mil buscas por segundo em um servidor em nuvem, enquanto bancos tradicionais precisam de um supercomputador com alto consumo de eletricidade para realizar um volume de operações parecido”, compara Netto.

Banco Central
Banco Central Foto: Andre Dusek/Estadão

Esquerda do NE espera ‘fatura’ de Bolsonaro

Coluna do Estadão

02 de março de 2020 | 05h00

Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Após a efetiva participação do governo Jair Bolsonaro na crise da segurança pública do Ceará, aliados de Camilo Santana temem que o presidente tente lucrar ainda mais politicamente a partir de agora com o fim do motim. Para esses interlocutores, o custo da presença federal no Ceará deverá ser uma fatura a ser paga pela esquerda na região: pode dar a Bolsonaro o discurso de “herói suprapartidário” que ajudou policiais e trouxe paz para a população cearense, governada pelo PT. Não será tão simples porque Santana teve papel fundamental.

Ata. Na transmissão online da última quinta-feira, quando não se mostrou convencido a renovar a GLO, o presidente estava especialmente contrariado com um pedido de Santana: o governador havia solicitado a operação por mais 30 dias. Bolsonaro deu sete.

Pera lá. A criação de uma comissão dos três Poderes estaduais, segundo aliados de Santana, foi a vacina encontrada para dar ao Ceará o protagonismo em uma resolução do conflito.

Na mesa. Apesar da desconfiança política, a presença dos militares no Estado, segundo aliados do governador, tem sido essencial nas negociações. Mesmo que a GLO não tenha atuado no enfrentamento, mas na retaguarda, empoderou Santana nas negociações.

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Mito e política – precisamos de uma alternativa

Sergio Fausto, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2020 | 03h00

A política não é lógica ou ciência exata, não quer demonstrar, e sim convencer. Mais do que argumentos, busca mobilizar certos valores e sentimentos, por oposição a outros. Visando à conquista de corações e mentes, vale-se de narrativas cognitivamente simples e emocionalmente poderosas para fixar, por contraste com outras, uma certa representação discursiva da realidade presente e projetar um futuro melhor (mesmo que a promessa seja de retorno a um passado idealizado). 

Compreender que a política se dá no plano da competição simbólica é especialmente importante em momentos nos quais as sociedades se sentem ameaçadas. Nesses momentos, a racionalidade ordinária e individual do eleitor, sem desaparecer, cede terreno a vastas e polarizadas emoções coletivas de medo, rancor e intolerância. Vivemos um momento assim, que, paradoxalmente, cria possibilidades de restabelecer convergência e projetar aspirações novas em torno de valores comuns. 

Em artigo recente, David Brooks, colunista do New York Times, oferece explicação convincente sobre o favoritismo de Bernie Sanders nas primárias democratas e o completo domínio de Donald Trump sobre o Partido Republicano. Foram os únicos até aqui, diz ele, que produziram narrativas de caráter mítico sobre a nação americana, formulando representações simbólicas sintéticas sobre o que são e o que devem ser os Estados Unidos da América. Que sejam representações opostas mostra que a nação não é una. Nenhuma nação.

Diante das opções que não lhe agradam, Brooks pergunta: ainda poderá surgir entre os democratas uma candidatura capaz de apresentar e encarnar um relato mítico alternativo ao “socialismo” de Sanders para se contrapor ao nacionalismo xenófobo de Trump, que ele vê como o mal maior? O colunista não arrisca uma resposta. Apenas registra que nas suas andanças pelos Estados Unidos tem notado, no nível local, que a maioria das pessoas parece disposta a cooperar para resolver problemas comuns, independentemente de raça ou preferência partidária. Ainda que a observação de Brooks esteja correta, resta o imenso desafio de dar expressão política nacional concreta ao que se verifica difusamente no nível comunitário. Doze anos atrás, Obama conseguiu. 

O Brasil está em outro ponto do ciclo eleitoral, mas a questão posta por Brooks se aplica muito bem à realidade brasileira. Por ora, apenas duas forças conseguiram produzir narrativas política e eleitoralmente poderosas sobre o que é e o que deve ser o Brasil. O relato mítico da nação devotada a Deus e por isso livre do mal da corrupção e da degeneração dos costumes leva vantagem sobre o relato mítico do País socialmente justo pela luta de um partido e de um líder do povo, com o povo e pelo povo. Isso porque o primeiro relato conta com os instrumentos do poder e com um presidente onipresente e o segundo está sem poder, sem dinheiro e com seu homem-mito eleitoralmente inabilitado, por problemas com a Justiça. 

Para criar uma alternativa a essa dualidade, as forças de “centro”, por ora uma geleia de contornos imprecisos, não podem cair no erro da “idiotice da objetividade”, ou seja, acreditar ser possível combater poderosos relatos mítico-políticos apenas com apelos à razão, muito menos se calcados em argumentos tecnocráticos sobre propaladas ou reais virtudes administrativas. Claro que boas propostas e competência gerencial são importantes, mas de pouco valem na conquista de corações e mentes se não forem incorporadas como elementos de uma narrativa abrangente baseada em valores e sentimentos diferenciadores das opções ora dominantes. 

Parte do desafio é desconstruir o relato mítico dos adversários. O bolsonarismo revela cruel falta de empatia com o sofrimento humano, intolerância com quem não se enquadra no padrão ultraconservador da moral e dos bons costumes, desprezo pelas mais elementares regras de convívio numa sociedade democrática. O petismo faz pouco do clamor por igualdade republicana perante a lei. Prefere vê-lo como produto da manipulação política, e não como resultado da democratização substantiva de uma sociedade que se cansou da impunidade dos poderosos. Rejeitando qualquer autocrítica, fecha-se sobre si mesmo e glorifica seu líder máximo. 

Para construir uma perspectiva alternativa é preciso entender e sentir que o Brasil clama por decência, por igualdade de oportunidades, proteção aos mais pobres, redução da violência, cuidado com as pessoas e com a natureza. Que começa a se cansar de um clima que azeda até mesmo as relações pessoais e tira a alegria de (con)viver. O País pede uma liderança que seja firme, mas não boçal, que respeite sinceramente a religiosidade do povo, nas suas diferentes fés, mas enfrente a manipulação política da religião como instrumento de poder e enriquecimento, que tenha crença verdadeira na democracia e nos valores da igualdade e da liberdade. 

Além de um candidato, é necessário produzir uma narrativa política em torno desses valores e sentimentos. Não há muito tempo a perder.

* SUPERINTENDENTE EXECUTIVO DA FUNDAÇÃO FHC, COLABORADOR DO LATIN AMERICAN PROGRAM DO BAKER INSTITUTE OF PUBLIC POLICY DA RICE UNIVERSITY, É MEMBRO DO GACINT-USP

Falta de saneamento prejudica economia e acentua desigualdades

Glauce Cavalcanti e Pedro Capetti / O GLOBO

IVONE BARBOSA SEM PODER SAIR DE CASA

 

 

 

 

RIO, DUQUE DE CAXIAS E SÃO JOÃO DE MERITI - O retrato atual do saneamento básico no Brasil mostra 35 milhões de brasileiros sem água tratada e cem milhões — ou quase metade da população — sem coleta de esgoto.

O filme completo a partir dessa imagem revela a amplitude de um velho problema. Estudos apontam que, na prática, a falta desses serviços se traduz em variados prejuízos sociais e econômicos para o país.

Isso amplia a ocorrência de doenças e os gastos hospitalares, reduz a produtividade dos trabalhadores, prejudica a frequência e o desempenho de crianças e jovens na escola. Os danos ambientais, mais evidentes, levam a perdas no turismo e no mercado imobiliário, reduzindo o potencial de geração de emprego e renda do país.

Estudo do Instituto Trata Brasil (ITB) mostra que o país precisaria investir R$ 395 bilhões — incluindo a despesa das famílias com as contas de água e esgoto — entre 2016 e 2036 para levar serviços de saneamento básico a toda a população.

Para chegar lá, seria preciso um investimento anual médio de R$ 20 bilhões no período. Em contrapartida, haveria um impacto positivo em saúde, educação, produtividade do trabalho, emprego, turismo, entre outras áreas, que chegaria a R$ 1,12 trilhão em duas décadas.

O país, porém, vai na direção inversa, mantendo um investimento abaixo do necessário em serviços de água e esgoto, eliminando essa oportunidade de ganho socioeconômico.

Segundo cálculos do Instituto Trata Brasil feitos a pedido do GLOBO com os dados mais recentes, no acumulado de 2017 e 2018, o Brasil investiu cerca de R$ 24 bilhões em saneamento básico, o que significa R$ 14,5 bilhões menos do que os R$ 38,5 bilhões necessários nesses dois anos iniciais para manter a meta de universalizar água e esgoto em 20 anos.

Com o aporte insuficiente, o país perdeu a chance de adicionar R$ 37,24 bilhões à economia, aponta o estudo.

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Sem a menor pista - J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2020 | 05h00

É algo que se pode ver todos os dias, em qualquer lugar. Muita gente que realmente não é de esquerda neste país, que reprova de alto a baixo o complexo Lula-PT e, sobretudo, que condena sem nenhuma hesitação as calamidades impostas ao Brasil em seus 13 anos e meio de governo, decidiu que existe na política brasileira algo tão ruim, ou ainda pior: a “direita”. Uma parte disso é direita mesmo, sem aspas - milhões de cidadãos que têm valores, crenças e desejos opostos ao que se considera o pensamento liberal. Outra parte é apenas contra Lula, o PT e os seus agentes; depois da experiência que o País teve com eles, não querem nem pensar na ideia de que possam voltar um dia. Mas também se pode juntar as duas e chamar o conjunto de “governo Jair Bolsonaro”. 

É esse, hoje, o mais intratável problema que o Brasil do “equilíbrio”, como geralmente gostam de se apresentar as pessoas descritas nas primeiras linhas, tem diante de si. Não toleram o governo e quase nada do que ele pensa, faz ou representa. Mas não sabem, na prática, o que fazer a respeito - não têm nem sequer uma pista. 

Há, naturalmente, uma dificuldade de grosso calibre para os adversários e inimigos do governo: toda a direita brasileira, em qualquer de suas modalidades visíveis, é perfeitamente constitucional. Está autorizada por lei a pensar do jeito que quiser, sem pedir licença a ninguém. Pode votar, e, se os seus escolhidos ganharem, são eles que vão para o governo. 

Também pode manifestar-se livremente, em lugares fechados ou em praça pública - e não tem nenhuma obrigação, quando se expressa, de defender apenas as causas aprovadas pela média da moral política vigente. 

Não é possível, enfim, impedir que a direita exista, promova as causas que aprova e tenha tanto direito a participar da vida pública do Brasil quanto qualquer outra fatia da sociedade. Só há um jeito, em suma, de se lidar com ela: derrotá-la em eleições livres.

É aí, justamente, que está a mãe das complicações para muitas pessoas decentes que defendem sinceramente as liberdades, a moderação e o progresso do Brasil. Em vez de se apresentarem como uma alternativa racional e mais eficaz que o governo Bolsonaro para manter o País livre de Lula e seus etcs., pretendem travar sua disputa política contra a direita ficando, vejam só, parecidas com a esquerda. 

O que é que adianta, então? Se é para concordar com o PT, muito obrigado: é melhor, então, ficar com o artigo original logo de uma vez. Alguma coisa está muito errada nisso tudo quando um banqueiro de investimentos milionário, e que se opõe ao governo, diz que se sente “de esquerda”.

Imagina-se que para ganhar eleições contra a direita é indispensável tirar votos que estão na direita - ir buscar eleitores que votaram em Bolsonaro e possam estar, ou tornar-se, desiludidos com ele. Afinal, eles são a maioria; é preciso lembrar, de vez em quando, que o outro lado perdeu. Mas, não. Ficam falando em distribuição de renda, igualdade, justiça e coisas assim. É a eterna busca pela batalha perdida. Distribuição de renda? Mas o que adianta querer ganhar voto com isso se tanto esquerda como direita juram que são a favor? É como defender a luz elétrica. 

Você já ouviu alguém dizer: “Sou a favor de que haja uns poucos ricos e um monte de pobres, e quero mais é que os pobres vão para o diabo que os carregue?” Claro que não. Não é isso, portanto, que separa direita e esquerda. A diferença, mesmo, é o que “distribuição de renda” significa na vida real para uma e para outra - e, sobretudo, o que deve ser feito para se chegar a ela.

Vai explicar isso para o banqueiro de esquerda.

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